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sábado, 9 de junho de 2007

Soares: "As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo"

Excertos da entrevista com Mário Soares, no "Expresso", hoje:

"Em dois anos de Governo, Sócrates acumulou demasiadas más vontades. Na classe média, no povo, no seu eleitorado tradicional. É tempo, julgo, de corrigir o rumo, pensando mais à esquerda."

"Recebo o «Diário de Notícias» de manhã, que folheio, distraidamente, num quarto de hora. Desapareceram os bons comentaristas como Medeiros Ferreira, Joana Amaral Dias, Vicente Jorge Silva, Alfredo Barroso. Já não compro o «Público». Procuro lê-lo, sem o comprar, aos fins-de-semana, por causa do Vasco Pulido Valente, do frei Bento Domingues e do António Barreto, e às vezes os artigos da Teresa de Sousa e da Constança Cunha e Sá. Os telejornais, todos iguais, são uma maçadoria ou tragédias, para alimentar o pessimismo nacional."

"Hoje, na política, há um hábito perigoso que são os lóbis. Permitidos na América, parece que vão ser autorizados em Portugal. É um estímulo ao tráfico de influências. Agora as pessoas desejam entrar na política para melhor usufruírem, depois, de lugares em empresas. Está a desaparecer o sentimento de honra - e o prestígio - do exercício de funções públicas. O que é terrível para o futuro das democracias."

"As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo, porque não soube «arranjar-se»! Em sociedades sem valores - em que o dinheiro é tudo - desapareceu a sanção moral em relação aos políticos e aos funcionários públicos corruptos e não só a eles... Na fase do capitalismo financeiro-especulativo, em que vivemos, tudo é permitido. Vamos pagar essa excessiva permissividade muito cara."

"O neoliberalismo deu às pessoas a ideia de que o mundo é uma selva e a selva é para os mais fortes, que se alimentam dos mais fracos. É o que se chama o «darwinismo social». A força, aliás, não se mede pelo músculo, mas pela carteira. Cada vez há mais pobres e maiores desigualdades e o que acontece a esses pobres? É indiferente: estão condenados a desaparecer."

"Não é agradável para ninguém, bem formado, viver em condomínios altamente protegidos, num contexto de miséria em redor e que espreita... Haverá revoltas, grandes confrontações, talvez guerras. Só vejo uma forma de evitar os conflitos e porventura as revoluções que se preparam. Fazer reformas a sério, progressivas. Não contra-reformas. Não é acabar com o Estado, deixar os ossos ao Estado e a carne aos privados. Isso não é uma reforma. É uma contra-reforma."
Entrevista de Cândida Pinto e Clara Ferreira Alves

sábado, 5 de maio de 2007

Segredos de Cunhal em livro

O "Expresso" de hoje destaca o livro "Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via", da autoria do dissidente comunista Raimundo Narciso. É publicado na próxima semana. Excerto da notícia:

O livro "Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via" desvenda alguns dos «segredos» do PCP e em particular de Cunhal: o seu gabinete, o seu salário (igual ao da mulher da limpeza), a sua proximidade e acessibilidade formais - mas também o seu poder absoluto sobre o quotidiano do partido, desde as teses ao congresso, até à vigilância exercida sobre os suspeitos de dissidência. Nele, Raimundo Narciso relata as «conspirações» do grupo dissidente (auto-intitulado «o gabinete de crise»), encorajado pelas reformas de Gorbatchov. Primeiro na sala de convívio da sede, depois num restaurante no bairro de Alvalade, até adoptarem como «quartel-general» a residência de Pina Moura, no Restelo. José Pedro Castanheira

domingo, 11 de março de 2007

"Interessa-me que o desejo possa irromper na rua"

Excerto da entrevista que Jorge Silva Melo deu a Cristina Margato; no "Expresso" deste sábado:

Tem um texto [no livro "Século Passado", a editar em breve] sobre o 25 de Novembro no qual conta um episódio de desconfiança em relação à política partidária.

Vi nascer alguns partidos. O que me interessou sempre foi a hipótese de os movimentos populares ultrapassarem os partidários. Gosto do que está a nascer, do impulso irreflectido, das primeiras peças, das primeiras ocupações de terras. Das segundas não gostei, porque já era o Partido Comunista a organizar o imenso movimento espontâneo... Interessa-me que o desejo possa irromper na rua, de uma forma comunitária e partilhada.

E ainda vota?

Voto sempre, mas não fico contente. As eleições de Lisboa ainda me fazem engulho.

Não tem partido escolhido?

Não, e a evolução do Bloco de Esquerda é algo que me entristece, embora muitas das causas me possam ser próximas. Não gosto da arrogância de dizer «a maioria dos católicos votou» ou «entrámos finalmente na Europa». Há nisto um oportunismo.

A política está livre desse oportunismo?

Não. Por isso, gosto dos movimentos pendulares.

Interessou-lhe algum movimento pendular nos últimos tempos?

A greve dos liceais em França.

E em Portugal?

Em Portugal, confesso que não estou interessado em mais nada. Interessei-me e achei lindíssima a última campanha de Mário Soares. Votei nele com o maior entusiasmo e não posso deixar de estar com esta pessoa que teima, insiste em ser político, tem coisas para dizer e continua a surpreender-me com a sua liberdade de pensamento. Foi o último grito do Rei Lear.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

"Guerra não é entre fumadores e não-fumadores mas entre proibidores e não-proibidores"

Crónica de Miguel Esteves Cardoso, no Expresso de 24 de Fevereiro:

A minha admiração pelos fumadores tem crescido desde que cobardemente deixei de fumar há dois anos. Haverá minoria mais acossada? Haverá perseguição mais legitimada por tudo o que é organismo? É tão violenta a propaganda que já é raro encontrar um fumador que não queira deixar de fumar e não se despreze um bocadinho por não conseguir.


Fumar em paz - até com a própria consciência - é uma actividade em vias de extinção.

Não é por deixar de praticar um desporto que uma pessoa se desinteressa dele e eu lá vou seguindo, com um mínimo de tristeza, as novidades do mundo do tabaco. Enquanto os charutos ainda são tolerados (porque, parafraseando selvaticamente Lenine, não fazem mal aos pobres), os cigarros já fazem parte de um mundo «underground», discutidos em áreas cada vez mais recônditas da Internet.

Os cigarros estão agora na situação fascinante da pré-ilegalidade, como a cocaína nos tempos entusiastas de Freud ou o LSD durante a primeira metade dos anos 60.

Mesmo em minha casa, apesar dos meus protestos (como entusiástico fumador passivo que sou), criam-se alegres células tabaqueiras de onde sou cruelmente excluído. Sempre que cá vêm as minhas filhas, por exemplo. Agrupam-se à volta de um cinzeiro com a minha mulher e puxam das bisbilhotices e das galhofas. Apenas oiço as risotas do fundo do corredor.

A exclusão tem dois sentidos. É bom lembrar isso. Os ex-fumadores, sobretudo, têm a obrigação moral de velar pelos direitos daqueles que ainda fumam. Ou virão a fumar.

Nem que seja pelo seguinte: verdadeira guerra não é entre fumadores e não-fumadores mas entre proibidores e não-proibidores. Há por aí muita coisa agradável cuja proibição facilmente se justificaria médico-socialmente. Se o tabaco for proibido, os proibidores avançarão para outras coisas. E depois de conseguirem proibir as mais óbvias (como o álcool), passarão às mais íntimas.

Pense numa coisa que gosta de fazer e que talvez possa fazer mal (ou somente não fazer bem) a si e/ou aos outros e/ou ao Planeta. Também há-de haver quem a queira proibir. Hoje é o tabaco; amanhã será isso tudo.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Sócrates não quer perder votos

Expresso: Casos fracturantes para a sociedade portuguesa, como a eutanásia, casamento entre homossexuais e adopção por homossexuais, podem ser objecto de referendo?

José Sócrates: Já cá faltava essa pergunta. Quero deixar isto claro: não temos uma agenda de casos fracturantes. Nem estamos obcecados por casos fracturantes. Esta matéria do aborto clandestino era um problema social muito sério, e a IVG constava, aliás, dos programas de vários partidos há muitos anos. Não está na nossa agenda dedicarmo-nos agora, com base neste êxito, a casos fracturantes só pela paixão da fractura. Neste capítulo, um dos pontos que também foi favorável ao «sim», foi termos explicado com clareza que não estávamos a fazer nenhum experimentalismo social. O que acho que os portugueses queriam neste referendo era virar uma página e acabar de vez com esta polémica.

Entrevista de Cândida Pinto, João Garcia e Nuno Saraiva, Expresso 17/02/2007

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

"Sim" ganha no referendo, segundo sondagem do Expresso

A projecção de resultados da sondagem em urna Expresso/Sic/Rádio Renascença/Eurosondagem aponta para a vitória do ‘sim’ no referendo de domingo por 53,1% contra 46,9%, muito embora se mantenha a dúvida sobre se a consulta será vinculativa: existem ainda 12,5% de indecisos e a abstenção situa-se em níveis muito altos, 43,3%. Expresso, hoje.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

"Os pobres são outro país"

Clara Ferreira Alves no Expresso, hoje:

"Não espero que Marcelo saiba o que é um aborto clandestino, ou o que sofrem as mulheres pobres que espetam agulhas ou praticam o aborto de vão de escada. Naquele mundo admirável e burguês onde vive uma existência doce o professor Marcelo, essas coisas simplesmente não são faladas, questão de educação. A hemorragia, o sangue, a pele furada, o útero escavado, a torpe operação clandestina, trabalho de mulheres sobre mulheres ao qual o professor é estranho e continuará, por razão fisiológica civilizacional, estranho, são coisas feias de mais. Os pobres são outro país, os ignorantes também. Quando era um político no activo, o professor saía muito à rua a cativar o voto dos pobres. Na verdade, os pobres em tempo eleitoral são como as mulheres que abortam, uma abstracção, um, digamos, «estado de alma». Eu nunca conheci uma mulher que abortasse por «estado de alma» ou «pequena depressão» ou por ter decidido «mudar de casa» (a minha razão favorita, confesso, das enunciadas por Marcelo)."

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Advogado suspeito de ceder despacho de Morgado a site desportivo

Escreve Rui Gustavo no Expresso online:
Sete Inspectores da Polícia Judiciária, um magistrado do Ministério Público, um juiz de instrução e um representante da Ordem dos Advogados estiveram hoje durante todo o dia no escritório do advogado António Pragal Colaço, em Lisboa. O antigo representante do árbitro Jacinto Paixão no processo Apito Dourado (deixou a defesa há uma semana) foi constituído arguido pelo crime de violação de segredo de justiça.
“É suspeito de ter cedido ao jornal desportivo online Sportugal o despacho da procuradora Maria José Morgado que reabre o processo que envolve o jogo FC Porto-Estrela da Amadora”, precisa uma fonte próxima do processo.

sábado, 27 de janeiro de 2007

"A pobreza começa e acaba na falta de controlo sobre a existência"

Belíssima e lúcida a crónica de Clara Ferreira Alves no Expresso de hoje, a propósito do referendo ao aborto:

OS PATRÍCIOS e os plebeus nunca se encontram com poder igual, e os patrícios e os escravos muito menos. Os pobres e os ricos também não. Era assim em Roma e é assim em Portugal. Parte da discussão sobre o Sim e o Não num país que prefere o Talvez, centra-se em questões laterais à descriminalização do aborto ou «interrupção voluntária da gravidez» e incide sobre juízos morais e sociais, uns de boa fé e outros de má fé. É muito difícil falar em pobres e ricos desde que se inventaram os excluídos e os desfavorecidos, duas fórmulas amáveis do reino do talvez. Como consegue alguém que vive num mundo confortável, protegido pelos colchões e almofadas da prosperidade, com uma casa e uma família, com as vantagens da ausência de ansiedade, conhecer a insegurança que a pobreza dá? A pobreza começa e acaba na falta de controlo sobre a existência, uma situação em que se está sempre à mercê do outro, dos outros, os que têm poder sobre as vidas alheias. A falta de controlo gera o medo, que é o estado natural de quem não consegue ordenar a sua vida segundo a sua cabeça e a sua determinação. O medo gera a fraqueza, que não ajuda a tomar decisões sensatas ou altruístas. A discussão e paixão em torno do caso do pai biológico Baltazar e da mãe Aidida e da criança adoptada pelo casal que agora enfrenta a justiça e a prisão trazem para a luz problemas vários que nos ajudariam a ver mais claro o que está em causa no referendo sobre o aborto. Na verdade, o pedido de habeas corpus e as 15 mil assinaturas que exigem que o sargento Gomes seja subtraído a uma pena de prisão que não merece juntam nomes que são a favor do Sim com nomes que são a favor do Não. A história, que não poderia ser resolvida por um Salomão contemporâneo, diz-nos que a mãe se viu grávida de uma relação ocasional e que avisou o pai biológico do facto, deparando com a indiferença. Depois de a criança nascer, a mãe, uma estrangeira pobre e sem protecção, pediu ajuda e tentou arranjar um casal que tomasse conta da filha, renunciando à maternidade. Muitas mulheres na situação de Aidida abortam, e abortam em condições miseráveis e clandestinas, sem apoio do pai biológico que agora os tribunais tanto exaltam, e sem apoio médico ou jurídico. Abortam porque são pobres, estão sozinhas, foram abandonadas e nada controlam da sua vida. Abortam porque não conseguem ter a coragem que Aidida teve (e podemos chamar-lhe cobardia, ou não?) de dar à luz e renunciar, entregar a criança a outros pais. Abortam porque têm medo, e não têm dinheiro. Abortam porque não existe nas suas vidas desconfortáveis espaço para uma maternidade responsável e consciente. Melhor seria que não se vissem nestas condições, mas o certo é que vêem e que o país está cheio de potenciais pais biológicos que são os primeiros a descartar-se da responsabilidade e do fardo e a imputarem à mulher, mesmo quando a relação não é ocasional e pode ser matrimonial, a responsabilidade e a «culpa» de não ter prevenido a gravidez indesejada. A culpa, claro.

Esta é a realidade, e neste ponto da realidade só quem está dentro dela sabe o que se passa. O caso da Aidida é a excepção. Não apenas porque as grávidas naquela situação não conseguem ter lucidez no meio do pânico, mas também porque não existem por aí tantos casais dispostos a receber uma criança. E todos sabemos o tempo e as dificuldades burocráticas da adopção em Portugal. A Segurança Social portuguesa não resolve casos urgentes. Se a excepção acaba com a sentença de prisão do pai adoptivo, e não coloco aspas na palavra, e com a entrega de uma criança de cinco anos a um pai que nunca viu e que não quis saber dela em tempo útil, ou seja, quando a mãe ficou grávida e o avisou, um pai que exige uma «indemnização» dos pais adoptivos, estamos num pântano moral pior que o pântano jurídico. Uma mulher que siga esta história e veja os seus trágicos desenvolvimentos, não hesitará em abortar. Não estamos a referendar a desvantagem moral de abortar, ou a vantagem moral de ser mãe. Estamos a referendar isto: uma mulher numa situação de descontrolo da sua vida e do seu corpo, deve ou não ser mandada para a prisão? Deve ou não ser ajudada a tomar a melhor decisão, num meio clínico competente, que a apoie e aconselhe dentro dos prazos legais? Ou devemos deixar a vantagem das clínicas e conselhos de luxo aos que têm dinheiro e educação e competência para os pagar e solicitar? Como é possível que não se entenda que o aborto clandestino é um problema de classes sociais e de falta de poder e não um reduto moral? A moral pertence a quem comete os actos e aos juízos de valor que esses actos justificarem, não pode nem deve ser uma moral por decreto e tipificada pela religião ou o Código Penal. O desvelo que a lei agora colocou na protecção deste pai biológico, devia ser exercido quando a mãe ficou grávida? Sim? Não? Talvez? Nesse momento, o MP ainda não pode obrigar um pai a perfilhar um filho por nascer, ou fazer testes de DNA. O que quer dizer que a lei só pode substituir-se aos cidadãos e aplicar-se quando falharam os indicadores morais, as resoluções íntimas. A lei vem quando falha o resto, quando falha a protecção, quando falha a decisão. No caso do aborto criminalizado, a lei pretende substituir a protecção e a decisão pela condenação e a punição, a lei pretende impor uma sanção num território físico e moral que não lhe pertence e onde só deve entrar em situações terminais. A lei não está antes dos cidadãos, está acima deles. As mulheres têm de deixar de ter medo.

Clara Ferreira Alves
Expresso, 27/01/2007

Notas

1 - O parlamento vai votar o Estatuto do Jornalista na próxima quinta-feira.

2 - A eurodeputada socialista Ana Gomes disse hoje, em Lisboa, ter entregue ao procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, “indícios relevantes” de conivência do Estado português com “ilegalidades e graves violações dos direitos humanos” no transporte ilegal de prisioneiros.

3 - O juiz Alfredo Costa, do 5º Juízo do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa, assinou um mandado de detenção contra José Maria Martins, advogado de Carlos Silvino no processo Casa Pia. O mandado é de 5 de Janeiro e a PSP tem 45 dias para o cumprir. De acordo com uma fonte próxima do processo, José Maria Martins é acusado pelo dono de uma empresa de estafetas instalada num prédio da Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, de violação de domicílio, coacção e ameaça. O insólito episódio foi filmado pela TVI e é um dos vídeos portugueses mais vistos no site ‘YouTube’ - o advogado é posto fora da empresa a empurrão, incita o repórter a filmar e rebola pelo chão antes de apanhar várias moedas do solo. (Expresso de hoje)

4 -
O compositor Emmanuel Nunes recebeu de Mário Vieira de Carvalho a «garantia» de que a sua ópera Das Märchen, encomendada pelo São Carlos, irá realizar-se nos moldes que deseja - isto é, com audições para a escolha do elenco. O próprio Nunes afirmou, em declarações ao Expresso, que a conversa com o secretário de Estado da Cultura só pode significar «que a política vai mudar em breve», o que tem como leitura imediata a substituição do director do Teatro. Mário Vieira de Carvalho não assume a intenção de substituir Paolo Pinamonti, mas fez saber, pelo seu gabinete, que garantiu a Nunes «a realização da ópera», frisando que isso não representa um acto de «ingerência» na programação do São Carlos, mas sim «um caso de prioridade política». (Expresso de hoje)

domingo, 7 de janeiro de 2007

Títulos de jornal dão dinheiro à PT

Notícia do Expresso:

De cada vez que as acções da PT começam a cair em direcção ao valor oferecido pela Sonaecom na oferta pública de aquisição (OPA) lançada a 6 de Fevereiro, surgem rumores e notícias na imprensa cujo efeito é, regra geral, positivo para a cotação. Esta evidência tem levado a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) a acompanhar de perto as transacções registadas na Bolsa desde que a OPA foi lançada. Desde então já passaram de mãos 1,088 mil milhões de acções, ou seja, 96,4% do capital da PT.

A conclusão sobre a existência, ou não, de manipulação das cotações só será tomada após terminar a OPA. Aliás, a CMVM já pediu inclusivamente o apoio da congénere norte-americana, a Securities and Exchange Commission (SEC).

A entidade de supervisão não tem dúvidas de que muitas dessas notícias têm como objectivo sustentar a cotação. O mesmo entendimento tem a Sonaecom. O presidente da CMVM, Carlos Tavares, referiu há cerca de uma semana que as notícias que têm surgido na imprensa podem configurar uma situação de manipulação do mercado. “Tem havido ciclicamente uma tentativa de sustentar os preços através de notícias”, afirmou num encontro com os jornalistas. Carlos Tavares lembrou o facto de muitos investidores institucionais terem comprado quantidades significativas de acções, o que justifica a elevada rotação de capital, além de se ter verificado a dada altura que cresceu a convicção de que a OPA vai para a frente mas por um preço mais elevado do que os 9,5 euros que a Sonaecom oferece.

Para verificar estas tentativas de manipulação “basta olhar para as cotações e relacionar as notícias”, disse Carlos Tavares. Foi o que o Expresso fez. De um total de 30 notícias relativas a movimentações para o lançamento de ofertas concorrentes ou a hipótese de revisão em alta do preço (das quais as mais importantes são referidas no gráfico acima), verifica-se que 75% tiveram um impacto positivo nas cotações. Em média, o valor da empresa subiu 0,5%, tendo em conta o dia em que a notícia saiu e o fecho do dia anterior. Antes da distribuição do dividendo, que aconteceu no final de Abril, essas notícias incidiram sobretudo no período em que as acções estavam abaixo dos 9,885 euros (correspondentes aos 9,5 euros da oferta mais o dividendo previsto de 0,385 euros). Após a distribuição do dividendo, parte das notícias sobre uma eventual oferta concorrente apareceram quando a cotação estava abaixo dos 9,5 euros.

Carlos Tavares já pediu, entretanto, à comunicação social para filtrar o que são de facto notícias e o que são meros rumores, de forma a evitar que os próprios jornalistas se deixem instrumentalizar.

Desde que a OPA foi lançada, já houve muitos potenciais candidatos identificados como estando a analisar a hipótese de uma OPA concorrente. Poucos dias após a OPA surgiram notícias de que os empresários Miguel Pais do Amaral e João Pereira Coutinho mantinham contactos com investidores financeiros com o objectivo de estudar o lançamento de ofertas concorrentes. Os dois acabaram por confirmar esses contactos através de comunicados enviados ao mercado por determinação da CMVM, a meio de Março.

Mas, de acordo com a imprensa, a lista de potenciais interessados incluiu, além dos maiores fundos de capital de risco do mundo, empresas como a sul-africana Telkom South Africa, a Etilasat, operadora de telecomunicações dos Emirados Árabes Unidos, Américo Amorim, Joaquim Oliveira ou mesmo Joe Berardo, além de o BES ser recorrentemente referido como o banco que financiaria essa operação.

As notícias mais recentes com impacto positivo na cotação surgiram a 21 de Dezembro, quando o ‘Diário Económico’ deu conta da hipótese de a Sonaecom aumentar o preço da OPA, o que levou as acções a subirem 1,02%, atingindo os 9,9 euros. Também no início de Dezembro o facto de Joe Berardo ter referido que foi contactado para se juntar a uma eventual oferta concorrente levou a cotação a subir, no espaço de dois dias, 1,34%.

Nesta OPA é possível também verificar uma fraca correlação entre as acções da Sonaecom e as da PT. Normalmente em operações desta natureza as empresas que tentam comprar têm tendência a descer - devido ao esforço financeiro que terão de fazer - enquanto as empresas alvo da oferta têm tendência para subir. Mas o que se tem verificado neste caso é que a Sonaecom também tem estado a subir significativamente - este ano acumulou ganhos de cerca de 40%, um desempenho que tem sido considerado surpreendente pela própria empresa e que poderá mostrar que há investidores que estão a jogar nos dois tabuleiros. Um deles é Joe Berardo, que poucos dias depois da OPA anunciou que estava a comprar acções da Sonaecom e que mais tarde, em Julho, começou a investir na própria PT.

Pedro Lima
Expresso, 1 de Janeiro de 2007

sábado, 30 de dezembro de 2006

"Irei manter a ambiguidade até ao fim da vida", diz Herman José

Atrevo-me a dizer que vai ficar na História a entrevista com Herman José que o "Expresso" publica hoje. Feita por Ana Soromenho e Isabel Lopes, com fotos de José Ventura.
Fica em qual História? Na do jornalismo (porque nunca outros jornalistas tinham conseguido confissões destas), na do entretenimento (nunca um actor/apresentador/humorista português se confessou publicamente desta forma) e, enfim, na da intimidade exposta em Portugal (como as falsas estrelas não contam, acho que se pode dizer que nunca alguém que conta falou sobre a sua intimidade desta forma).
E que diz Herman? Talvez esta parte, sobre a orientação sexual dele, seja a mais interessante:

No novo programa vai ter um «gay». É uma atitude provocatória?

Não! Provocar foi na altura própria, quando estava acusado. Nunca o meu «Nelo» foi tão disparatado. Fiz questão de mostrar que não ia fazer o mínimo esforço para que pensassem que a partir daquele momento iria fazer papel do santinho. Usei bem o facto de ter a bola vermelha no canto do «Herman SIC». Ter agora um «gay» neste programa é o mesmo que ter uma chique ou uma prostituta…


São «cromos» que funcionam sempre?

A bichice dá muita vontade de rir. E o «Nelo» mexia numa coisa que é fatal: casar para ter uma fachada, e subir na carreira... Conheço demasiados casos destes.


No meio artístico há muitos casos de ambiguidade quanto à orientação sexual. O Herman é um deles.

Sempre achei divertidíssimo. Tenho uma querida amiga, uma louraça explosiva, com quem apareço em muitos sítios e quando chegamos fica tudo muito incomodado. É quase uma comoção! Mas se chegar com o rapaz mais bonito do mundo, aí já é tudo normal (gargalhadas). Já inverti os papéis, o que é fantástico.


Gosta dessa ambiguidade?

É uma forma de sacanear as pessoas que me diverte imenso. Quando vou com ela para Nova Iorque, se houver portugueses no hotel e virem que estamos no mesmo quarto, ficam em estado de choque: «No mesmo quarto?! A fazer o quê?!»


Não teme que o público o rejeite?

O público mais simples está-se a borrifar. Essa preocupação é sempre ao nível de uma comezinha classe média-alta que vive da pequena coscuvilhice e que saliva a pensar nessas coisas. Eles próprios muitas vezes não estão bem resolvidos e diverte-me fazer-lhes cócegas. É uma ambiguidade que irei manter até ao fim da vida. Jamais mexerei uma palha para provar seja o que for.


Diz-se que a sua ambiguidade seria esclarecida após a sua mãe partir…

É mentira. A minha mãe faz parte da minha intimidade. Ela vai comigo para Ibiza. Acham que fica fechada no armário?


Põem-no à prova?

Sobretudo as mulheres adoram pôr-me à experiência. E geralmente saem sempre felizes e satisfeitas (gargalhadas).


E os homens?

Tenho muito pouca saída com homens, não me perguntem porquê. Devo inspirar muito um tipo de carinho maternal.


Já contou como perdeu a virgindade com uma senhora mais velha.

Em Marbella, uma senhora maravilhosa chamada Joelle. Sinto-me muito confortável com as mulheres. A qualidade da amizade e do toque feminino não é comparável ao masculino. A capacidade masculina de gostar tem seis aromas e a das mulheres tem pelo menos 15 mil.


Quais são os seis aromas masculinos?

Pila, pila, pila, pila, pila e depois mais qualquer coisinha... (Gargalhadas)


Chegou a viver com duas mulheres.

Uma durante muito tempo, outra foi a primeira paixão avassaladora. Depois percebi que jamais poderia viver com alguém. Tenho um tipo de vida invejável: se me apetecer, no final desta entrevista, meto-me num táxi e vou para o aeroporto. É um privilégio que não tem dimensão. E como não tenho filhos...


Confessou que nunca teve filhos porque lhe iriam trazer vulnerabilidade.

É verdade. Somos completamente destrutíveis a partir dos filhos. A minha única porta de entrada é a minha mãe.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Notas

1) O número nove da revista literária "Textos e Pretextos" (da Universidade de Lisboa), quase todo dedicado a António Ramos Rosa, é uma preciosidade, das raras. Saiu há poucas semanas. Além de uma entrevista com o poeta, assinada por Ricardo Paulouro, o que mais me impressiona é a reprodução de manuscritos de Ramos Rosa e de cartas que lhe enviaram Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, René Char, Yves Bonnefoy, Claude Roi e Sophia de Mello Breyner. Não é todos os dias que temos acesso a estas intimidades.
Reproduzimos uma carta enviada por Eugénio de Andrade em Novembro de 1969:2) Uma conversa entre Adelino Gomes e Fernando Nobre faz capa na revista "C" (do centro comercial Colombo), publicada esta semana. Vale a pena registar uma coisa dita pelo presidente da AMI: "Estamos numa era de eufemismos. Já não se fala de ladroagem, corrupção... Fala-se de boa e má governação".
Já agora: calculo que a revista de um centro comercial não sirva para muito mais do publicitar as lojas e os produtos que há lá dentro e, por isso, e é o caso, possa ser oferecida (deve estar mais do que paga); mesmo assim, pergunto: qual título da imprensa escrita, hoje, em Portugal, teria o arrojo de fazer capa com dois homens, intelectuais, de meia-idade, relativamente pouco conhecidos do grande público?

3) O escritor Joaquim Manuel Magalhães sobre a actual ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, em artigo de opinião no último "Expresso": "é uma pobre senhora que não vale a pena, com uma voz desgastada, empurrada a destruir a quase final hipótese de haver qualidade no ensino secundário português".

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Controlo da qualidade

A notícia vem no "Expresso" de hoje:

"A Presidência da República enviou à administração da RTP um “enérgico protesto” pela “falta de qualidade técnica” da transmissão televisiva da mensagem do Chefe de Estado do passado dia 29 que fixou a data do referendo ao aborto. (...) De facto, na noite da transmissão multiplicaram-se os incidentes e os telespectadores do canal público foram mesmo impedidos de ouvir as primeiras frases de Cavaco Silva, dado que nessa altura estava no ar o jornalista destacado para o local. Mais tarde, seriam audíveis ruídos de passos e excertos de conversas entre técnicos e jornalistas, interrupções que perturbaram a leitura da mensagem."

Não percebo. Parece que há dois artigos na Constituição sobre os poderes presidenciais (133º e 134º). Fui lê-los. Há também um artigo (47º) na Lei da Televisão sobre o que deve ser o serviço público. Também li. E continuo sem perceber.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Entrevista literária?

O "Expresso" publicou na última edição uma entrevista com Mário Cesariny. A entrevistadora, Maria Bochicchio (não sei quem é), diz que a entrevista foi feita em Junho deste ano e que na altura estava longe de saber que esta seria "a última entrevista literária concedida por Cesariny".
Não sei o que é uma entrevista literária. Nunca encontrei tal termo em nenhum manual de jornalismo e nunca ouvi alguém do meio usar essa designação. Salvo opinião mais esclarecida, isso não existe.

Encontro numa página da universidade Nova de Lisboa a seguinte explicação: "entrevista literária pode colocar ênfase nos processos de produção artística do entrevistado, em aspectos biográficos, em histórias particulares de interesse cultural, em ideias formadas pelo autor que se quer conhecer melhor". Quem o diz é Carlos Ceia, professor de literatura inglesa naquela universidade.

Pergunto:
- porquê "literária" se não é, segundo a definição de Ceia, termo aplicável a entrevistas exclusivamente com escritores?
- porquê "literária" se a definição não diz que tal entrevista tem necessariamente de sair sob a forma de livro?
- porquê "literária" se o que a definição diz que ela compreende é exactamente o mesmo que compreende uma entrevista feita por um jornalista a um artista?
- porquê "literária" se a definição não estabelece que tal entrevista tem sempre que ser feita por académicos ou literatos, nem diz que não pode ser feita por jornalistas?

Não estaremos perante um termo desnecessário, que, em última análise, desvaloriza a entrevista jornalística?

Entrevista é entrevista. Ou é de emprego ou é entrevista. Longa, curta, bem feita ou mal feita, feita por jornalistas ou não jornalistas. A artistas ou não. Para ser publicada sob qualquer forma.

aqui se disse que a última entrevista concedida por Cesariny foi publicada no "El País" uma semana antes de ele morrer. Nada o desmente. Esta do "Expresso" não foi a última concedida, foi, o que em nada a desmerece, claro, a última publicada . Até ver.

Excertos:

"A poesia é um segredo dos deuses. Não é trabalho, embora às vezes se possa morrer de trabalho. Creio que sou um poeta inspirado, no sentido romântico de «daimon» - génio. Até ao momento em que o poeta se fecha e parte, voa. E depois fica igual aos outros".

"A poesia nasce do contacto com o mundo na solidão em que nos encontramos. E às vezes confrontados com uma ditadura em cima, como a que recusámos violentamente".

"Eu sempre desejei ir além [do 'real quotidiano'], ir para dentro. O que presta é o amor, a liberdade e a poesia. A poesia é esse real absoluto que quanto mais poético mais verdadeiro. Era Novalis quem o dizia. A poesia vale como uma liberdade mágica".

"A poesia não se dirige a um leitor, dirige-se a mim próprio".

domingo, 24 de setembro de 2006

Novos dados sobre Humberto Delgado

FACTOS
O "general sem medo" é protagonista nas edições do Sol e do Expresso. No semanário de José António Saraiva revela-se que Salazar evitou que a Legião Portuguesa matasse Humberto Delgado a seguir às eleições presidenciais de 1958. Por achar o acto "perigoso". O jornal de Balsemão revela que Delgado quis iniciar a partir de Moçambique, em data incerta, um golpe contra Salazar.
Ficam as duas notícias, originadas pela edição de dois novos livros: um do embaixador Duarte de Jesus, outro de Almeida Santos.


Salazar 'salvou' Delgado
José António Saraiva, SOL, 23.09-2006
Salazar evitou, em 1958, uma tentativa de assassínio do general Humberto Delgado.
A revelação é feita pelo embaixador Duarte de Jesus, num livro a publicar em breve. Segundo o diplomata, em Outubro de 1961, quando era um jovem terceiro secretário a trabalhar na embaixada portuguesa em Marrocos, foi procurado por um agente dos serviços secretos da Legião Portuguesa, que lhe comunicou ter-se ali deslocado para matar Humberto Delgado. E acrescentou que o atentado deveria ter tido lugar em Lisboa, logo a seguir às eleições presidenciais de 1958, quando Delgado deixava a embaixada do Brasil, onde se tinha refugiado, para se dirigir ao aeroporto.
Porém, nessa altura, segundo o agente da Legião, Oliveira Salazar opusera-se ao crime. A revelação assume alguma importância histórica, pois nunca foi cabalmente esclarecido o papel de Salazar no assassínio de Delgado pela polícia política salazarista, que teria lugar em 1965, quatro anos depois do episódio que aqui se narra. Embora da oposição manifestada pelo chefe do Estado Novo em 1958 não possam tirar-se conclusões sobre a sua posição em 1965.
No livro Casablanca, edição da Gradiva, Duarte de Jesus descreve assim o caso:
«É me difícil recordar o dia, na segunda quinzena de Outubro de 61, em que recebi uma inesperada e insólita visita na Embaixada. Havia já alguns dias que o nosso Cônsul em Casablanca, Calado Crespo, nos vinha a informar telefonicamente da existência de um português, naquela cidade, incumbido duma missão secreta, mas que não se conhecia bem o objectivo (ou não fosse ela secreta!). Constava que havia contactado alguns membros da comunidade portuguesa.
Recebi o homem. Baixo, de cabelo grisalho e ar sério, o homem entregou-me o seu cartão, com o seu nome (ASO), seguido dum título da marinha.
Sentámo-nos nos velhos maples do meu gabinete e, para meu espanto, começa por me dizer que era dos serviços secretos da Legião Portuguesa, de que eu na altura desconhecia a existência, que estava em Marrocos encarregue duma missão secreta -- matar o General Delgado.
Pedia a nossa colaboração, no sentido de lhe fornecermos a morada do General, que certamente conhecíamos, e de lhe facultarmos a possibilidade de utilizar o nosso telefone, para contactar, em cifra -- facto que me deixou perplexo, pois o nosso telefone não tinha qualquer dispositivo de distorção de som.
Depois de lhe dizer que eu deveria, antes de mais, falar com o meu Embaixador sobre o assunto, embora ele, naquele momento estivesse ocupado, ele imediatamente acrescentou que nós, pela nossa parte, não deveríamos contactar o Ministério dos Negócios Estrangeiros, sublinhando, nem o Ministro, nem a Presidência do Conselho. Ele tinha o seu contacto na Presidência do Conselho, mas mais ninguém estava ao corrente do assunto.
Procurei fazer-lhe perguntas, ao mesmo tempo que lhe referia que a Embaixada o que sabia do General Delgado era o que vinha nos jornais marroquinos, mas não acompanhava o assunto a outro nível.
Disse-me várias coisas de que hoje já me não recordo, pois só fixei aquela que mais me impressionou. Referiu que esta acção que agora ia levar a cabo, em território marroquino, já a tentara, na altura em que o General Delgado abandonava, de carro, a Embaixada do Brasil, em Lisboa, ainda na R. António Maria Cardoso, onde se exilara, a caminho do Aeroporto. Tinha sido a ocasião ideal, no meio da multidão que estava na rua e ninguém nunca mais saberia de onde viera o tiro. 'Só não o fiz por teimosia do Presidente do Conselho, que desaconselhou. Achou certamente perigoso, mas em meu entender, erradamente', acrescentou'.
Delgado quis derrubar Salazar a partir de Moçambique
José Pedro Castanheira, EXPRESSO, 23-09.2006
A figura de Humberto Delgado (cujo centenário é assinalado no dia 4) é evocada por Almeida Santos, no primeiro volume das suas ‘Quase Memórias’, que vai para as livrarias no dia 25.
O ex-presidente da Assembleia da República escreve sobre a descolonização - tarefa em que teve especiais responsabilidades na sua qualidade de ministro da Coordenação Interterritorial dos primeiros quatro governos saídos do 25 de Abril. Recorda a surpresa causada pelo general quando, em data não especificada - mas já depois das eleições de 1958, e com Delgado exilado e perseguido pelo regime de Salazar -, lhe apareceu, às tantas da noite, à porta de sua casa na capital de Moçambique. Escreve:
“De espessa barba e farta cabeleira, anunciou-se:
- Embora não pareça, sou o general Humberto Delgado.
Não podia ter sido maior a minha surpresa. Refeito dela, fiquei a saber que o general tinha entrado com falsa identidade e falso passaporte pela fronteira da Suazilândia, disposto a lançar um movimento revolucionário com vista à queda do regime, a partir de Moçambique. Contava, para isso, com sólido apoio militar de forças locais, e procurava-nos para obter também o apoio civil dos Democratas de Moçambique. Respondi afirmativamente de imediato (...). Entretanto, fui inquirindo qual seria em concreto o nosso papel. Compreensivelmente reticente, o general foi adiantando:
- Receberão, na altura própria, instruções precisas. Mas a minha ideia é que o vosso grupo tome conta do edifício e dos microfones do Rádio Clube de Moçambique e da máquina do ‘Notícias’, e incendeie a opinião pública.
- Com que armas?, perguntei.
- Talvez com armas, talvez com apoio militar. Depois se vê. Mas sobretudo com discursos e proclamações.
Fazia sentido. Tomar o poder em Moçambique e bombardear com emissões de rádio a adormecida opinião pública metropolitana, despertar as reservas cívicas de Angola (...).Três dias depois, o general apareceu desolado:
- O projecto falhou. Estes gajos não têm tomates (sic). Prometem muito, mas não são capazes de nada. Uns capados! (sic).
- E agora? - perguntei, decepcionado.
- Agora é pôr-me daqui a mexer o mais depressa possível, antes que algum traidor me denuncie.
E saiu de novo, pela mesma fronteira por onde havia entrado. Nunca o tinha visto antes, não voltei a vê-lo depois. Ficou-me dele a imagem de uma coragem e de um voluntarismo levados a extremos de temeridade’’.