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terça-feira, 20 de março de 2007

21 de Março, dia mundial da poesia

O Deserto
O deserto sem nexo, inesperado, tal como surge metaforicamente sentido no imponderável percurso de além-tréguas. Sobrecadência de algum meio-dia já percorrido, já esgotado (em corridas, em percursos múltiplos), e aí se anuncia um excedente percurso a acometer e nesse percurso se revela o deserto. É a experiência pura da terra abrasada, desassombrada, enigmática de neutra. Estranha
-ao caminhante. Envolve a luz, a distância e a mortalidade consumada do caminhante. A finitude, e os vários amarelos dessas horas solares. Meio-dia, ou mais uma, duas, até sete meias-horas após o meio-dia: as horas magnas da insolação desértica. Em qualquer estrada anexa a um lugar povoado, ao sul. Espírito dos lugares circunvalantes, nas 7 meias-horas do meio do dia, ao sul. Experiência que pode ser instantânea, intervalar. Basta que surja sobre, a mais que, a cadência adquirida de uma manhã esgotada. É nesse além-tréguas, nessa sobre intimidade que o deserto consiste. Ir de rastos, a-té-ao-fim-do-es-pa-ço.
Álvaro Lapa


Image Problem
A strayed reveler or two, nothing unusual
for this time of year, zinnia season, yet one notices
the knocking in the walls at more frequent intervals.
One's present enemies stir in the evening wind
and atypically avoid the family room. After the big names
have grazed the steppe and moved on, a public silence
returns. Let it be the last chapter of volume one.

Some experts believe we return twice to what intrigued or
scared us, that to stay longer is to invite the egg
of deceit back to the nest. Still others aver
we are in it for what we get out of it, that it is wrong
not to play even when the stakes are spectacularly boring,
as they surely are today. The solution may therefore be
to narrow the zone of reaction to a pinprick
and ignore what went on before, even when we called it life,
knowing we could never coimt on it for comfort
or even a reference, the idea being to cut one's losses
on the brink of winning. Sure, their market research told
them otherwise, and we got factored into whatever
profit taking may be encumbering the horizon now,
as afternoon looms. We could ignore the warning signs,
but should we? Should we all? Perhaps we should.
John Ashbery

Mistério gratuito da poesia

"Em tempos como estes, de comércio e de usura, há de facto algo de inquietante e escandaloso no mistério gratuito da poesia" - Manuel António Pina, hoje, Lusa

quinta-feira, 1 de março de 2007

Simone e Vítor de Sousa dizem poesia ao vivo no dia 21

Simone de Oliveira e Vítor de Sousa vão declamar poesia no próximo dia 21, uma quarta-feira, no bar Meeting Point, em Lisboa. Ainda não se sabe que poemas e autores serão ouvidos. Dia 21 de Março é o dia Mundial da Poesia. O Meeting Point fica na rua do Século, nº 166.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Poetas

(...)
amanhã não falaremos disto
depois acordei-te
beijei-te com os lábios a tremerem de abelhas
tu continuaste a dormir indiferente ao mel
levantei-me e deambulei pelo quarto
rente às paredes sem saber por onde fugir-me
(...)

Al Berto
"Apresentação da Noite", 2006

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

"Mais belo um adágio popular do que uma frase de literato"

Foi há quase 80 anos que José Régio escreveu o texto que se segue — brilhante dissertação sobre o que são a originalidade e a sinceridade na literatura. A grafia é a original.

Literatura Viva

Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos mais, (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjectivo
original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjectivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro... Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence a literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas — mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre outras qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afectadas, semelhantes qualidades não passarão dum truc literário.

Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizaram grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe êsse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade. A falta de originalidade da nossa literatura contemporânea está documentada pêlos nomes que mais aceitação pública gosam. É triste — mas é verdade. Em Portugal, raro uma obra é um documento humano, superiormente pessoal ao ponto de ser colectivo. O exagerado gôsto da retórica (e diga-se: da mais sediça) morde os próprios temperamentos vivos; e se a obra dum moço traz probabilidades de prolongamento evolutivo, raro esses germens de literatura viva se desenvolvem. O pedantismo de fazer literatura corrompe as nascentes. Substitue-se a personalidade pelo estilo. Mas criar um estilo ,já é ter uma personalidade. E quem não tem personalidade só pode ter um estilo feito, burocrata, erudito, amassado de reminiscências literárias, de auto-plágios, e de pobres farrapos sobreviventes ao naufrágio. Assim se substitue a arte viva pela literatura profissional. E é curioso: Só então os críticos portugueses começam a reparar em tal e tal obra: Quando ela exibe a sua velhice precoce e paramentada. Regra geral, os nossos críticos são amadores de antiguidades. Em vez de lhes alargar o gosto, a erudição amarelenta-lhes a alma... Mas esta é outra questão, bem digna de ser tratada menos acidentalmente. Volto ao meu assunto, e suponho agora um exemplo talvez mais consolador: O escritor português tem e mantém uma personalidade. Pergunto: É essa personalidade suficientemente rica para que produza uma obra rica de conteúdo e de continente, de substância e de forma? É regra geral — presto homenagem às excepções— os nossos artistas terem uma mentalidade insuficiente; uma sensibilidade por vezes intensa, mas reduzida; e uma visão unilateral da vida. Esgotados em dois ou três livres, rapetem-se confrangedoramente. E o seu progresso é puramente linguístico, superficial e negativo, porque breve a língua deixa de ser um meio vivo de expressão artística. É um instrumento quási inútil, que se aperfeiçôa (?) segundo êste ou aquele preconceito.

Da pouca originalidade da literatura portuguesa, naturalmente resulta em grande parte a sua pouca sinceridade. Ter uma maneira, é para o nosso escritor achar um certo número de contrafacções que se lhe afiguram mais dentro da sua indecisão de personalidade. O escritor passa então a produzir literatura mais ou menos mecânica. É-me desagradável falar dêstes pobres exemplares da nossa mediocridade; mas assim é preciso: tanto mais que o problema da sinceridade é hoje complicado, como, de resto, todos os problemas contemporâneos. A expressão directa, simples, orgânicamente ingénua, tenta sem dúvida o artista moderno; mas não parece ser característica dele. Os artistas de hoje mais directos, mais simples, mais ingénuos — são-no conscientemente. Salvo raríssimas excepções. Ora ser conscientemente ingénuo, simples, directo, já é complicar-se. A complicação que julgo ver na Arte moderna pode, pois, tomar aparências de pouca sinceridade: O lirismo e a ironia, o abandôno e a atitude, o subconsciente e a razão — emaranham-se na arte de vários mestres contemporâneos. Daí resulta uma novidade de processos e meios de expressão que surpreende, irrita, perturba, ou provoca o desdém dos não iniciados. Mas os verdadeiros não iniciados são os que não teem probabilidades de iniciação. E dêsses, nada a esperar. O verdadeiro papel do crítico é pois discernir e separar os simuladores, mais ou menos hábeis que êles sejam, dos criadores autênticos. Os primeiros existiram em todos os tempos, e são os responsáveis de toda a literatura morta de qualquer tempo. Os segundos também existiram em qualquer tempo, e é através deles que a arte literária chegou até nós viva, portanto susceptível de evolução. Os processos e as formas que êles descobriram eram os mais aptos a revelar a sua sensibilidade; e por certo foram inovação no seu tempo. É natural que a sensibilidade contemporânea já não caiba nessas fórmulas, consagradas por e para sensibilidades diferentes. Natural é, portanto, que os grandes artistas de hoje sigam o exemplo dos grandes artistas de ontem. O fundo eterno, imutável, contínuo, da humanidade e da arte manter-se-há [sic] poderosamente na obra de todos os grandes. E direi que é sobretudo nos inovadores que êsse fundo aparecerá mais virgem.

Eis como tudo isto se reduz a pouco: Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo êsse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que êle produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço. E é apenas por isto que os autos de Gil Vicente são espantosamente vivos, e as comédias de Sá de .Miranda irremediàvelmente mortas; que todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Bôtto; que os Sonetos de Camões são maravilhosos, e os de António Ferreira massadores; que um pequeno prefácio de Fernando Pessoa diz mais que um grande artigo de Fidelino de Figueiredo; que há mais fôrça íntima em catorze versos de Antero que num poemeto de Junqueiro; e que é mais belo um adágio popular do que uma frase de literato.
José Régio
(revista "Presença", nº 1, 10 de Março de 1927)

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Poetas

CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO

Provisoriamente não cantaremos o amor,

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

não cantaremos o ódio porque este não existe,

existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,

o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,

o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,

cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte

depois morreremos de medo

e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Poetas

NOVAS BABILÓNIAS

Neste tempo de sucessos

de quedas e ascensões
para o topo dos topos
para o gelo dos copos
para a vala das gerações
novos Bogarts em velhas gabardines
novas Madonnas em velhas Marilyns
crestam lendas nos magazines
ao ritmo das ilusões

Novas Babilónias erguem-se do pó

E lê-se tudo em diagonal
e tudo chega a horas a Portugal
o comboio está agarrado
por fim o tempo está mesmo ao lado
já chegou o Desejado
e o sonho está normalizado
na suave proporção
de um x elevado a um cifrão

Novas Babilónias erguem-se do pó

Tudo é novo e velho num vaivém de espuma
tudo se refunde no brilho da bruma
e vós combatentes de guerras idas
contentes lambendo as mãos do rei Midas
Joanas, Joões de arcas perdidas
saltadores de fogueiras já ardidas
cinzas de cinzas de cinzas
bem-vindos ao Império das coisas parecidas

Novas Babilónias erguem-se do pó

Carlos Tê

sábado, 23 de dezembro de 2006

Poetas

ECO

Semeiam
lembranças de um fogo antigo,
as coisas,
e agarram-se a nós
com desmedida violência,
ou nós a elas, tanto faz.

As coisas voltam-se para nós
e participam encantadamente
dos nossos gestos,
os que determinam
a nossa vida
por exclusão
dos que, em suspenso,
ficaram na nossa vontade.

Entregues ao que nos consome,
desenham-se e alongam-se
as coisas sobre a terra.

Luís Quintais

domingo, 3 de dezembro de 2006

Poetas

[aqueronte, na segunda morte da pele]

1.

só com palavras posso penetrar-te
subir-te os flancos
demorar-te os gestos na fonte

só com palavras te despir os ombros
arder-te a morte nos lábios
e abrir-te um sulco de mar

só com palavras te comprar por gestos
entrar-te pelos olhos da infância
como uma adulta lenda de morto

só com palavras posso prolongar-te
rasgar entrada no corpo do poema
só com palavras impedir-te instante
de deus fugaz o porto perecível

com palavras só
só com palavras

(...)


Pedro Sena-Lino (n.1977)

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Poetas

PAIXÃO

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase
podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.


Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.

Luís Miguel Nava (1957-1995)

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Poetas

AO CANTO DO LUME

Novembro. Só! Meu Deus, que insuportável Mundo!
Ninguém, vivalma... O que farão os mais?
Senhor! a Vida não é um rápido segundo:
Que longas estas horas! Que profundo
Spleen o destas noites imortais!

Faz tanto frio. (Só de a ver, me gela a cama...)
Que frio! Olá, Joseph! Deita mais carvão!
E quando todo se extinguir na áurea chama,
Eu deitarei (para que serve? já não ama)
Às cinzas brancas, o meu pobre coração!

Lá fora o Vento como um gato bufa e mia...
Ó pescadores, vai tão bravo o Mar!
Cautela... Orçai! Largai a escota! Ave, Maria!
Cheia de Graça... Horror! Mortos! E a água tão fria!...
Que triste ver os Mortos a nadar!
(...)

António Nobre (1867-1900)