quinta-feira, 7 de setembro de 2006
Refer Desmente-se
O ‘site’ da Refer explica que a Teixeira Duarte se pronunciou sobre a intenção de rescisão anunciada há uma semana (29 de Agosto). Perante as explicações, a Refer decidiu “suspender durante 30 dias a decisão do processo anunciado”.
A Refer, empresa pública, desmente-se.
A Teixeira Duarte não acabou as obras no prazo combinado (28 de Agosto) e pediu um adiamento até 2011. No dia seguinte a Refer anunciou a intenção de rescisão, “em nome do interesse público”, como se lê no comunicado oficial.
A gestora da rede ferroviária portuguesa dizia que a obra levada a cabo pelo consórcio liderado pela Teixeira Duarte tinha um “lamentável conjunto de incorrecções e incumprimentos”. Falava de “repetido desrespeito” do consórcio pelas ordens que lhe eram dadas e dizia que a “recorrente tentativa [do consórcio] de responsabilizar a Refer por alegada desconformidade do projecto” era “incompatível com a confiança requerida entre as partes” e “objectivamente abusivo e injustificado”.
Há uma semana havia incorrecção, incumprimento, falta de confiança e abuso. Ou não havia? E já não há? BH
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segunda-feira, 4 de setembro de 2006
Toda uma premonição

É ela, sim: B.B.
Dedica-lhe a revista Yo Dona (suplemento do espanhol El Mundo) duas páginas na edição de 26 de Agosto. A cronista María Vela Zanetti, que habitualmente escreve sobre moda, avisa-nos de que o filme E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim, faz agora 50 anos. Cinquenta! Estreou-se em França a 28 de Novembro de 1956. (Já agora, B.B. faz anos a 28 de Setembro: 72 anos).
"Es una mujerona sin operar", dispara a cronista. E depois mete-nos a olhar para uma foto recente. E diz assim: "Fue la primera actriz a la que le sentaron bien los pantalones vaqueros: toda una premonición".
domingo, 3 de setembro de 2006
Empresa vende programa para espiar SMS
Já se sabia que é possível enviar vírus para telemóveis, à distância, através do sistema bluetooth. O que não se sabia, mas vem hoje revelado no britânico The Observer, é que, também à distância, já se pode ler as mensagens (SMS) do telemóvel de outra pessoa. A empresa Vervata está a vender um programa espião, o FlexiSpy. Tem de ser instalado no telefone móvel a vigiar, o que, defende a empresa, faz com que a vítima se aperceba da intrusão, não configurando, por isso, uma ilegalidade. O problema, adianta o jornal, é que o FlexiSpy também pode ir parar aos telemóveis se for enviado, sob a forma de vírus, por infravermelhos ou por bluetooth.Excertos e link da notícia:
Mobile phone users warned of dangers in 'spy' software
A company is urging consumers to buy 'secret' mobile phone software so they can read their partner's text messages. FlexiSpy is billed as the 'world's most powerful spy software for mobile phones', which enables a buyer to 'secretly record every SMS [text] message, view their call history, and more!'
The potential for mobile phone monitoring was highlighted last week by Symantec, the information security company. It warned mobile phones are potentially vulnerable to spyware, software that covertly gathers a user's information without their knowledge. These could enable snoopers to remotely activate a mobile phone's microphone, take pictures with its camera or record conversations without the user's knowledge.
But Vervata, the company behind FlexiSpy, denied it was doing anything illegal. The software has to be installed manually on the 'spied upon' handset, making it difficult to do without the owner's knowledge. 'It's true you could wrap up something like this and transmit it virally, but that's not the business we're in,' admitted Atir Raihan, Vervata's managing director. 'There are other companies doing this, but we're not.'
sábado, 2 de setembro de 2006
Conta, Peso e Media
O homem que acaba de despedir Tom Cruise é o dono de um império mediático. É dele a CBS, a MTV, a Paramount Pictures e uma das maiores fortunas do mundo: 7,7 mil milhões de dólares. Sumner Redstone, 83 anos, falou com a NS'
Tom Cruise, estrela de filmes como ‘Top Gun’, ‘Nascido a 4 de Julho', 'Magnolia', 'De Olhos Bem Fechados' ou da saga 'Missão Impossível', desviou-se do papel que Sumner Redstone lhe traçara em 1992, quando a pequena companhia do actor norte-americano – Cruise/Wagner Productions – se ligou à Paramount. "Por muito que gostemos dele, consideramos errado renovar o seu contrato. O seu comportamento recente não é aceitável para a Paramount", afirmou o dono da Viacom ao 'Wall Street Journal'. "Ele é um actor magnífico. Pensamos simplesmente que uma pessoa que comete um suicídio criativo e que custa milhões de dólares e receitas não deve ter mais lugar nos nossos estúdios." Mesmo aos olhos de um "liberal" Redstone, o actor norte-americano, sinónimo de milhões e milhões, converteu-se numa personagem extravagante e "descontrolada". Nos últimos tempos era frequente ver Tom Cruise a discursar em defesa da Igreja da Cientologia, em demonstrações de amor pela actriz Katie Holmes (consideradas exibicionistas), a prometer comer o cordão umbilical dias antes do nascimento da filha e, mais recentemente, a impor "regras de conduta" para as visitas à sua descendente. No mundo dos negócios isso tem urn preço. Redstone responsabiliza o actor pela perda de 77 a 110 milhões de euros nas receitas de bilheteira previstas para o terceiro capítulo de 'Missão Impossível'.
Mas a vida continua e o negócio também. O actor Nicolas Cage e o realizador Oliver Stone estão de regresso às salas portuguesas a 21 de Setembro, data de estreia de 'World Trade Center'. Daqui alguns meses o actor Jamie Foxx vai juntar-se a Beyoncé e Eddie Murphy, num musical de pipocas intitulado 'Dreamgirls'. Tudo produções da Paramount, se bem que este último filme tenha o carimbo da Dreamworks (adquirida recentemente pela Paramount). Os responsáveis destes estúdios norte-americanos esperam fazer um brilharete e livrar-se de uma decadência feita de êxitos de bilheteira cada vez mais discretos.
Mas nenhum destes filmes conseguirá ser mais interessante do que aquele que não tem elenco nem realizador, apenas argumento e protagonista: o filme da vida de Sumner Murray Redstone, o homem por detrás desta e doutras fitas.
Dono, entre várias outras coisas, de dois gigantescos conglomerados mediáticos, a CBS (rádio, televisão, produtoras, canais temáticos, lojas Blockbuster) e a Viacom (Paramount Pictures, MTV, VH1 e Nickelodeon), Redstone é casado com uma norte-americana de origem italiana, Paula Fortunato (40 anos mais nova), tem dois filhos do primeiro casamento e costuma ser identificado como 'self made man'. Numa curta conversa telefónica com a NS', repete o que costuma dizer em todas as entrevistas: que nasceu pobre e foi a pulso que chegou onde chegou. E que a fortuna que se lhe atribui não é bem dele, porque é constituída por acções e não por dinheiro vivo (que também o tem).
Um olhar atento ao seu percurso é suficiente para desmontar a fachada romântica. Nada, a não ser o normal para todos os mortais, foi muito difícil para ele. Nasceu entre a burguesia, frequentou as melhores escolas, arranjou um bom emprego e herdou do pai um negócio de gestão de salas de cinema, o mesmo que lhe abriu as portas do paraíso onde parece viver hoje. Aliado do partido Democrata americano, fez boas amizades ao mais alto nível. E aí está, cheio de viço, riquíssimo, falsamente modesto, mas homem esforçado – disso não se duvide.
Com 83 anos, caberá na categoria que a revista ‘The Economist' designa por gerontocapitalistas — empresários da velha guarda, que se mantêm no activo até muito depois da idade normal de reforma. Em 2006, está entre os 70 homens mais ricos do mundo, com uma fortuna de 7,7 mil milhões de dólares (cerca de seis mil milhões de euros), segundo avaliação da revista 'Forbes', especialista neste tipo de classificações. No ano passado, tinha 8,8 mil milhões (perto de sete mil milhões de euros). Ocupa a 63ª posição na lista dos homens mais ricos do mundo.
Os dias, passa-os a trabalhar. "24 horas por dia, sete dias por semana", diz, com as viagens de negócios no topo das preocupações e a Turquia, a China, o Dubai e o Koweit no topo dos destinos. "Tenho reuniões com os representantes políticos desses países e acredito que a Viacom tem todas as condições para continuar a exportar os seus produtos", explica Redstone, adiantando em seguida que, no caso da China, "os conteúdos são adaptados ao gosto do público". Ao gosto do público ou às imposições políticas, num país sem liberdades? "Falo com frequência com todos os ministros chineses, tenho uma relação sólida com eles, e até agora não fiz quaisquer concessões", argumenta.
Vive em Beverly Park, em Los Angeles, a zona onde a nata da indústria do entretenimento americano se resguarda, na tentativa, nem sempre bem sucedida, de fugir às centenas de 'paparazzi', que, segundo escrevia o ‘The New York Times', os perseguem como "cães danados". A área onde fica a sua mansão tem, no mínimo, 20 mil metros quadrados. Uma bela casa, mas, como gosta de dizer, a única coisa com grande valor material que comprou na vida. Ao contrário de alguns vizinhos, como Eddie Murphy ou Rod Stewart, o velho Redstone gosta de passar despercebido. Não é de dar entrevistas ou de se armar em comentador. Escolhe bem os momentos para o fazer e, então, é à grande. Uma das últimas aparições foi há alguns meses, na revista 'Newsweek'. Deixou-se fotografar na casa de Beverly Park, entre abundante vegetação, como adoram fazer alguns milionários americanos, e, depois dos elogios às suas empresas, aproveitou para deixar um recado ao adversário George W. Bush.
As autoridades que regulam a comunicação social têm vindo a aplicar à CBS várias multas, num total de quatro milhões de dólares (pouco mais de três milhões de euros), por alegada "indecência" dos programas. O mamilo que Janet Jackson revelou durante o espectáculo de encerramento do campeonato de futebol americano, há dois anos, e a volúpia de algumas séries de culto são as principais razões invocadas. Redstone, claro, considera "péssima" a regulação de conteúdos. "O governo não deve de maneira nenhuma determinar aquilo que os americanos ouvem ou vêem. O governo deve manter-se fora deste negócio", protestou. Em conversa com a NS’, reafirmou que "só o consumidor é que deve fazer escolhas" e que "o mercado deve ser regulado pelo mercado".
Pensa assim, mas não é homem de direita. É um dos poucos capitalistas dos 'media' americanos que não gostam do partido Republicano. Está mais próximo dos democratas, o que não equivale a dizer que é de esquerda. Atribui-se-lhe, de resto, a seguinte frase: "Voto a pensar na minha carteira." Um pragmático.
Esta faceta política tem uma importância transcendente na sua biografia. Através dela percebe-se a sua fulgurante ascensão. Sabe-se que os presidentes Jimmy Carter (1977-81) e Bill Clinton (1993-2001), ambos do Partido Democrata, são dois dos seus melhores amigos. Em 1984, quando já tinha deixado o poder, Carter convidou-o para conselheiro da Biblioteca da Fundação Kennedy. E na década de 90, ao tempo de Bill e Hillary Clinton, frequentava com à vontade a Casa Branca. Aliás, assume-o Redstone abertamente, nos idos de 60 financiou as campanhas presidenciais de J. F. Kennedy, por quem tinha grande admiração, e, quando comprou a Paramount, em 1993, recebeu por telefone as felicitações imediatas do vice-presidente democrata Al Gore. Mais: Clinton fez aprovar em 1996 uma lei que abriu as portas à concentração dos 'media'. Nem de propósito, em 2001, a Viacom compra a CBS, empresa que na década de 70 estivera na origem da compradora, e torna-se um potentado.
Da família deste empresário afável o que se sabe é ambíguo. O pai, judeu americano de origem alemã, começou como vendedor de madeira, passou a dono de restaurantes e bares e depressa começou a gerir espaços de cinema 'drive-in'. Redstone passou a infância e juventude em Boston, onde nasceu a 27 de Maio de 1923. Nome de baptismo: Sumner Murray Rothstein.
A mudança de apelido, ainda hoje malvista por sectores hebraicos americanos, deu-se em 1940. Decisão do pai, que nessa altura também deixou de ser Max e passou a ser Michael. Não é de crer que quisesse renegar as origens, mas apenas proteger-se dos mesmos problemas que naqueles dias os judeus enfrentavam na Alemanha nazi. A mãe, de origem russa, chamava-se Bella. O irmão, Edward.
A sua biografia oficial, 'A Passion To Win', publicada há cinco anos através da editora Simon & Schuster, pertencente à Viacom, dá a entender que viviam com dificuldades. Nem casa de banho havia. Mas também se lê, paradoxalmente, que Redstone tinha aulas de piano em casa. Em todo o caso, o empresário norte-americano parece ter uma certa propensão para criar mistérios em seu redor, o que só capitaliza a curiosidade.
Atesta-o bem um episódio passado em 1979, de que gosta de falar e ao qual dedica as primeiras páginas da biografia. Viu-se cercado por um incêndio num quarto do hotel Boston Copley Plaza. "Cometi o clássico erro de abrir a porta do quarto. O calor e as chamas que bramiam lá fora envolveram-me e queimaram-me as roupas e a pele. Saí por uma janela e fiquei agarrado no parapeito, com a mão e o braço a arderem". Salvou-se. A descrição da convalescença serve apenas para o impregnar de virtude. "A recuperação ficou a dever-se em grande medida à minha vontade de vencer e à minha tenacidade. A vida começa quando nós queremos", escreve Redstone, deixando, mais uma vez, mistério no ar: que força interior é a dele, que o salva da morte certa e o resgata ao caminho da glória? Numa recensão ao livro, a revista 'Variety' não se conteve e lamentou que ele não tivesse dedicado algumas linhas às namoradas de ocasião que as páginas cor-de-rosa de jornais de referência garantem que tem.
Ora, essa glória só veio a seguir à Segunda Guerra. Depois de ter servido no Exército, num grupo especial de espionagem que decifrava as mensagens das forças japonesas, Redstone licenciou-se em Jurisprudência. O curso estava mal acabado, mas o governo achou por bem distinguir assim o esforço de um patriota durante a guerra. Casou-se e tornou-se professor universitário em São Francisco e secretário-geral, em Washington, do Court of Appeals, o tribunal de instância superior em cada estado. No início dos anos 50 foi trabalhar para um escritório de advogados, mas não se manteve aí por muito tempo. Preferiu voltar para debaixo das asas do pai e ajudá-lo nos negócios. Foi em 1954. Tinha 31 anos. "Ser advogado é um negócio. Não é uma cruzada pelo bem da humanidade. Quando cheguei a essa conclusão, decidi dedicar-me aos meus próprios negócios", lê-se no livro.
A National Amusements, nome da empresa de ecrãs 'drive-in' que o pai fundou, tem hoje por sua conta 1300 salas nos Estados Unidos e faz parte da Viacom. Redstone transformou-a numa empresa de salas de cinema cobertas quando o 'drive-in' começava a esmorecer nos anos 60, e foi ele, também, quem forjou os padrões do que deve ser um complexo de cinema comercial, com boas cadeiras, pipocas e vários ecrãs. Multiplex, chamou-lhe.
O negócio expandiu-se brutalmente, mesmo com a concorrência dos grandes estúdios. Em pouco tempo, a National Amusements estava cotada na Bolsa. Mas o protagonista, que tem tanto de esperto como de visionário, achou que vender conteúdos teria mais futuro do que exibi-los. "Content is king" ("o mais importante são os conteúdos"), costuma dizer. Livrou-se de parte das acções da National Amusements e começou a montar o império que se conhece. Em 1987, compra a Viacom, na sequência de uma OPA hostil – e por via disso passa a mandar na MTV. "Foi o primeiro grande negócio da minha vida", dirá mais tarde. Em 1993, é a vez de comprar a Paramount, que integra na Viacom. Sete anos depois concretiza a fusão da Viacom com a CBS, a sua companhia original. O ano passado decidiu dividir a Viacom (Viacom de um lado, CBS do outro) e declarou que a era dos grandes conglomerados chegou ao fim. Pode pensar-se que o lucro é a luz que o guia. Não é verdade. "Pensei a vida toda em ser um vencedor, mas nunca pensei em dinheiro", diz.
A quem lhe chama magnata, responde que é uma pessoa perfeitamente normal, apenas preocupada com os negócios – o que não o impediu de escrever na badana da sua biografia que é "um titã dos media".
Sumner Redstone prepara-se para se retirar este ano da administração da Viacom, a que preside. A filha, Shari, de 52 anos, irá suceder-lhe. O filho, Brent, fica de fora. Brent processou o pai, acusando-o de o desprezar nas principais decisões. Bruno Horta
"A felicidade é uma língua rara, quase morta"
Nas páginas interiores, destaca-se a análise do jornalista Leonardo Ralha aos últimos 18 anos da imprensa portuguesa. "Quase nada resta dos desalinhados", conclui, referindo-se ao fim de O Independente e ao facto de a maior parte dos órgãos de comunicação social portugueses estar nas mãos de grandes grupos económicos.
MAL
Para o Paulo
Com que então são estas as últimas palavras que vou escrever no meu jornal. Que miseráveis são. E que mal que ficam. Mal. Mas têm de contar o que podem, porque nada pode ficar para a semana. Ou para outra semana. Porque esta é a última semana que sai "O Independente".
Sim. Está mal. Mal.
A felicidade é um raio de uma sementeira que, uma vez plantada, nunca mais pára de dar fruto. E pena o fruto ser um veneno tão grande, sem antídoto, sem fim. É pena o fruto ser a saudade, o abatimento, e o desespero na versão mais comezinha e mais fatal, de já não haver esperança, de já não valer a pena esperar, por maior que a pena possa ser e por muitos (e bons, e pacientes) que haja, dispostos a suportá-la.
Mas a felicidade é nisto que dá, mais tarde ou mais cedo, mas sempre cedo de mais. Mesmo quando é muito tarde, dá em tristeza e saudade, e noutras coisas não tão bonitas de se dizer, mas que por isso mesmo, por essa fealdade humana, custam mais a sentir e são mais solitárias e difíceis de partilhar.
Em cada um que trabalhou aqui fica um luto particular, só dele, só dela, diferente do luto grande que a todos magoa - um luto não menos grande, tão feito de tudo o que fez, como de tudo o que não pôde fazer, tão incapaz de distinguir cada uma das pequenas lutas, ganhas ou perdidas, da grande que hoje perdemos de vez.
Fui, fomos muito felizes aqui n'O Independente, dia após letra após riso após vida após dia. E, nos momentos mais felizes de todos, não foi atrás das páginas que essas felicidades se escondiam. Não se escondiam. Exibiam-se em cima delas: estavam lá escritas. Viam-se.
Liam-se. Não havia esconderijos. Estava tudo à mostra. Era lindo.
A felicidade é uma língua rara, quase morta. Mas, bem conversada e paginada, volta à vida e até se deixa escrever, quando a deontologia está de costas e a ontologia, oportunista, manda-a foder. E deixa-se fotografar. E ilustrar. E nós escrevemo-la e fotografámo-la e ilustrámo-la aqui, de vez em quando, quando tivemos sorte, quando tudo sorria e era só cerejinhas.
Hoje a cerejeira vem abaixo e toda essa doçura amarga e apodrece na alma. Há muito para amargar. Há muito para apodrecer. Se a alegria não tivesse sido tão grande, talvez se pudesse esquecer; talvez se pudesse destilar; talvez se pudesse engarrafar e depois beber. Talvez pudéssemos embebedarmo-nos todos juntos mais uma vez. Mas foi. Foi uma alegria muito grande. E agora é preciso pagar em dor e saudade; sofrer sem saber ler nem escrever - e sem ao menos ter o jornal nas mãos, todas as sextas-feiras, para consolar. Não é bom.
É escusado fingir que há um lado bom. Não há um lado bom. Não eram ginjas. Não eram ambíguas ou agridoces: eram cerejinhas. Eram luzidias. Não dão para fazer ginjinha. De nada servem as aguardentes.
Os jornais são feitos para o dia em que saem. Não duram. Não ficam.
Ainda não estão acabados. É por isso que voltam todas as semanas, todos os dias. O Independente" já não vai voltar. "O Independente" já não é um jornal.
Não se diga que não faz mal. Faz mal.
Faz sim.
Miguel Esteves Cardoso, O Independente, 1 de Setembro de 2006
sexta-feira, 1 de setembro de 2006
Morreu O Independente
O semanário fundado por Paulo Portas, Manuel Falcão e Miguel Esteves Cardoso estava mergulhado numa profunda crise financeira desde há vários anos. Vendia actualmente pouco mais de nove mil exemplares. Falharam consecutivamente as tentativas de venda do título, detido, entre outros, por Vítor Cunha e pela directora, Inês Serra Lopes.
A última edição chega esta sexta-feira às bancas e, adiantava o Diário de Notícias de 31 de Agosto, tem um "mega-editorial da directora" e um artigo sobre "a situação da comuniação social ao longo dos últimos 18 anos".
quinta-feira, 31 de agosto de 2006
Alforrecas
O livro de João Pedro George também tem errosO crítico e professor universitário João Pedro George tornou-se vítima daquilo que criticou. O seu polémico livro Couves & Alforrecas, severa crítica contra os erros e gralhas dos romances de Margarida Rebelo Pinto, contém, pelo menos, cinco erros de pontuação ou sintaxe. O mais visível de todos aparece nas páginas 47 e 48. Defendendo que o êxito comercial dos escritores tem uma “conotação pejorativa” no meio literário, escreve: “a esmagadora maioria das pessoas que escreve livros tem uma primeira profissão e, depois, nos tempos livres, é escritor”.
De acordo com o filólogo Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, em texto publicado no ‘site’ Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, é “errado” escrever “a maioria são ou estão em vez de é ou está, singular pedido por a maioria”. Ora, se a concordância se dá no número, também tem de se dar no género. Na frase de João Pedro George, o correcto seria, pois, “a esmagadora maioria das pessoas é escritora”.
A pontuação também apresenta falhas. Exemplo na página 17: “o leitor, a dada altura, entra em transe tal a sucessão de frases”. É flagrante a falta de uma vírgula depois de transe. Como está, a frase significa que “o leitor entra num tal transe” e não que “o leitor entra em transe, tal a sucessão de frases”, que é o sentido que o autor evidentemente pretendia.
Apesar de contactado, por e-mail, para comentar a existência de erros no livro, João Pedro George não respondeu.
Couves & Alforrecas foi publicado pela editora Objecto Cardíaco em Abril deste ano, sob contestação de Margarida Rebelo Pinto. Os romances da chamada “escritora light” sofrem, na tese de João Pedro George, de deslizes de ortografia, erros gramaticais e repetições. E a autora, lê-se na contracapa de Couves & Alforrecas, além de se repetir “imoderadamente”, “copia frases de uns para outros livros”,
Semanas antes de o livro chegar às lojas, Margarida Rebelo Pinto e a sua editora, Oficina do Livro, requereram em tribunal uma providência cautelar para impedir a distribuição e venda do livro, por, alegadamente, violar o "bom nome, personalidade e honra” da escritora". A 8ª Vara Cível de Lisboa determinaria, a 18 de Maio, que a autora de “Sei Lá” não tinha razão.
B.H.
AS CINCO ALFORRECAS DE JOÃO PEDRO GEORGE
· “O leitor, a dada altura, entra em transe tal a sucessão de frases" (p. 17);
· "particularmente insistentes são também as referências às almas gémeas e à essência do amor: 'estava ali a certeza...', 'procurando nos homens…' ou 'há muito tempo que me ando a questionar…'" (p.23);
· "a reduzida densidade humana desta literatura, ou melhor, desta sub-literatura" (p. 39);
· "na revista Grande Reportagem, a autora insurgia-se contra a tirania cultural, dos provincianos com ideias feitas" (p. 49);
· "a esmagadora maioria das pessoas que escreve livros tem uma primeira profissão e, depois, nos tempos livres, é escritor" (p. 48).