sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Aftermath

Five years after the September 11th attacks, the American photographer Joel Meyerowitz released a book with pictures taken from the Ground Zero (the area occupied by the Twin Towers). This is one of Meyerowitz’s photos. It was taken by the end of October 2001. He was on the Ground Zero for nine months, beginning on September 23rd 2001.

Aftermath”, the title of the book, is published by Phaidon. More than 304 pages in a scale of 38 X 27,5 cm. Meyerowitz will present it this Saturday in the Museum of The City Of New York.
BH

Pacto PS/PSD para a Justiça

O primeiro-ministro, José Sócrates, e o líder do PSD, Marques Mendes, encontraram-se ao almoço, depois de esta manhã o PS e o PSD terem assinado um pacto sobre a reforma na Justiça. "Gostaria, se for esse o seu desejo, de ver outros grupos parlamentares associados a esta reforma. Quanto maior o consenso tanto melhor para a Justiça e para Portugal", disse Sócrates.

Excerto da entrevista com o ministro da Presidência do Conselho de Ministros, Pedro Silva Pereira, no jornal Público de 17 de Julho:

"O primeiro-ministro disse no [debate sobre o] Estado da Nação que tinha um rumo e dele não sairia e o que é certo é que o Governo ainda não aceitou nenhuma das propostas de pactos de regime vindas da oposição. O Governo está convencido de que a verdade é só sua? Não é disso que se trata.

Estamos a falar de áreas como a Justiça, Educação, Segurança Social, Finanças... Certo, mas repare: isso são títulos, não são reformas. Uma coisa é dizer 'tenho aqui uma proposta de reforma do Código Penal ou do mapa judiciário ou do estatuto dos magistrados'. Isso é uma proposta, vamos discuti-la. Agora, dizer 'vamos fazer um pacto de regime sobre a Justiça', isso não é uma proposta, é um tema."

Excerto da entrevista com o primeiro-ministro, José Sócrates, no jornal Expresso de 4 de Março:

Por que razão o Governo nunca está disponível para pactos com o PSD? Há aí uma certa ideologia dos pactos que precisa de ser esclarecida. Nalgumas área, procurar consensos com oposições e corporações desvirtua o princípio da governação. O que me parece adequado é que o Governo faça o que lhe compete: governar. E que nas matérias estruturantes do Estado de Direito procure consensos para lá da mera conjuntura maioritária que existe na Assembleia da República. É o que estamos a fazer na alteração do Código do Processo Penal: estamos disponíveis para obter um compromisso, mas este exige propostas concretas. E a única proposta que existe é a nossa.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

“Os governos mentem, estão sempre a mentir”

No dia em Tony Blair anuncia que vai abandonar a chefia do governo britânico em Maio do próximo ano, entrevista com Craig Murray, antigo embaixador do Reino Unido no Uzbequistão. Publicada originalmente na revista Pública de 27 de Agosto.


Não lhe restava mais nada. Afastado do cargo há dois anos, o antigo embaixador britânico no Uzbequistão publicou agora um livro onde acusa o governo britânico de receber informações secretas obtidas através de tortura. Dissidente político ao mais alto nível, Craig Murray não tem dúvidas de que Blair e Bush são criminosos de guerra.

O nó do problema deu-se em Agosto de 2002, quando este funcionário do Serviço Diplomático do ministério dos Negócios Estrangeiros britânico (

Foreign and Commonwealth Office, FCO) foi enviado para Tashken, capital do Uzbequistão. Seria a primeira e última vez que lhe confiavam o cargo de embaixador. Num país sem eleições livres ou tribunais independentes, Craig Murray, hoje com 47 anos, manteve contacto regular com dissidentes políticos e com Organizações Não Governamentais a operar no território. Alertou o FCO para o facto de as informações sobre o perigo islâmico enviados pelo Uzbequistão para os serviços secretos americanos (CIA) e britânicos (MI6) serem obtidas através de tortura e falou em público contra o regime uzbeque. Londres não quis saber. Na altura, Islam Karimov, presidente da antiga república soviética, era (já não é) um aliado da coligação anglo-americana na chamada Guerra Contra o Terror, iniciada depois do 11 de Setembro. O embaixador ascendeu depressa a um estatuto incómodo. O álcool e a visita frequente a bares de striptease, fizeram o resto. Repreendido, ignorado e, por fim, perseguido, Murray acabaria demitido em Outubro de 2004. Quando regressa a casa, é um homem destroçado. A brilhante carreira iniciada em 1984 chegou o fim. Pede a reforma antecipada e começa a escrever um livro, onde regista o que se passou naqueles dois anos: Murder in Samarkand (Homicídio em Samarcanda). Quatrocentas páginas, publicadas a 24 de Julho, alegadamente censuradas pelo governo.

Espera que o livro seja banido no Reino Unido? A situação é pouco clara. O governo não queria que o livro fosse publicado, mas já saiu e até agora não aconteceu nada.

Porque é que submeteu o original à apreciação do FCO? Porque o FCO diz que os antigos funcionários têm de o fazer. Eles dizem, aliás, que isso está no contrato de trabalho, embora eu não encontre nada no meu.

Quando enviou o livro ao FCO já se tinha reformado? Já.

Mesmo assim, achou que deveria fazê-lo? O FCO diz que, mesmo depois da reforma, qualquer funcionário tem de submeter as suas memórias escritas a apreciação. Enviaram-me uma coisa chamada Regulamento do Serviço Diplomático, que alegadamente contém as regras de comportamento de um diplomata, incluindo esta. Em primeiro lugar, quando assinei o contrato, e foi há muito tempo [1984], acho que esse Regulamento não existia, em segundo, é estranho que eles queiram que eu obedeça às regras deles mesmo depois da reforma. Por uma questão de educação, e sem ter em conta qualquer regra, remeti o original ao FCO.

Pediram-lhe para fazer muitas alterações? Muitas, incluindo retirar vários documentos anexos [telegramas e e-mails oficiais]. Fi-lo, porque me pediram e porque queria que o livro fosse publicado. Fiz as alterações e o FCO respondeu que, mesmo assim, não me deixava publicá-lo. Isto é completamente ridículo: primeiro pedem-me para mudar coisas, depois dizem que mesmo alterado o livro não pode sair. De que valeu então pedirem as alterações? Nessa altura, pensei que o melhor seria publicar a versão original, sem alterações, mas o editor não quis, com medo de processos judiciais. Por isso é que os documentos anexos foram parar à minha página na Internet [http://www.craigmurray.co.uk/].

É correcto dizer que o livro que está à venda foi censurado? Sim.

O governo britânico censura livros? É uma conclusão sensata.

Está a ser alvo de pressões por parte do governo? Nas últimas semanas [Julho de 2006], recebi várias cartas de procuradores do governo a chamar-me a atenção para o conteúdo do meu site, mas não disseram nada sobre o livro, desde que foi posto à venda. Há uns tempos, o governo afirmou no parlamento que se o livro fosse publicado considerava a hipótese de tomar medidas legais para o proibir.

Quem disse? Jack Straw [ministro dos Negócios Estrangeiros]. Mas foi bluff, o objectivo era o de desestabilizar o meu editor.

Porque é que escreveu agora e não esperou mais alguns anos? Penso que é altura certa para o fazer. As pessoas têm o direito de conhecer por dentro o tipo de políticas seguidas por este governo. Continuo a acreditar que a obtenção de material secreto através de tortura é ilegal e que isso deve ser denunciado.

Inspirou-se em livros de espionagem para escrever? O estilo apareceu naturalmente, não é artificioso, é a minha forma de contar histórias. Há quem destaque o humor, que é pouco comum neste género de livros e que decidi utilizar.

Tem hoje mais amigos do que antes de publicar o livro? Em geral, penso que até tenho mais amigos. Por estar contra a tortura e a guerra no Iraque, contra, se preferir, a fabricação de uma parte da verdade da Guerra Contra o Terror, criou-se em alguns círculos políticos [ministros] a ideia de que sou de esquerda. Quando as pessoas lêem o livro, descobrem que sou liberal em termos de economia, não sou como elas pensavam. Claro que criei muitos inimigos…

Ainda tem amigos na esfera política? Bastantes, até. Não me parece que tenha perdido amizades, posso, sim, ter perdido alguns conhecidos. Ainda tenho amigos no FCO. Há dias, por exemplo, ligou-me um amigo, cujo nome não vou revelar, que integra uma missão à ONU, em Nova Iorque. Ele estava perante um dilema, teria de argumentar na ONU contra o cessar-fogo no Líbano. A consciência estava a pesar-lhe, porque tinha de defender um ponto de vista com o qual, perante as fotografias dos mortos no Líbano, não está de acordo. É alguém com quem trabalhei e que me ligou só para dizer que compreendia os dilemas por que passei perante a estratégia de Blair e Bush. Dou só este exemplo para que se perceba que tenho amigos dentro da estrutura, que continuam a consultar-me.

Além disso, dão-lhe alguma espécie de apoio? Nada de extraordinário, embora eu também não peça. Recebi apoio quando o FCO estava a analisar o meu livro e quando me escreveu as cartas. Os meus contactos diziam-me o que estava a acontecer, o que viria a seguir, quem é que estava por detrás do quê. Uma espécie de informações secretas úteis. Conheço bem o staff júnior, sempre fui mais popular junto das pessoas que hierarquicamente dependiam de mim.

O embaixador foi convidado a renunciar ao cargo em Agosto de 2003. O FCO abrira um inquérito, com alegações muito graves: em troca de sexo, Murray teria dado vistos a cidadãs uzbeques para viajarem para o Reino Unido; seria alcoólico e, com frequência, chegaria bêbado ao trabalho às cinco da tarde; estaria a fazer uma gestão danosa das finanças da embaixada. O inquérito nunca foi concluído. Nessa altura, já o embaixador se envolvera com Nadira Bekhanov, apresentada no livro como dançarina, à noite, e professora de inglês, de dia. A sua mulher estava ao corrente de tudo. Perante a cada vez mais evidente ruína profissional e pessoal, Murray entrou em colapso. De passagem por Londres para responder às acusações do FCO, acabou internado num hospital psiquiátrico. Durante dez dias, esteve sob vigilância. Os médicos temiam que se suicidasse. É nesta altura que a imprensa inglesa desperta para o caso. O FCO tenta por várias semanas impedir o regresso de Murray a Tashkent, devido ao seu estado de saúde. O embaixador escreve no livro que se tratou apenas de uma desculpa para o tentar impedir de reassumir funções. Em fins de 2003, regressou. Na primeira manhã, algo estranho aconteceu. “Sentia uma dor indescritível quando tentava endireitar as costas. Não conseguia respirar”. Enviado de urgência para Londres, concluiu-se que teria tido uma espécie de embolia pulmonar, em resultado de uma trombose. Os pulmões estavam cheios de coágulos. “Não engulo a teoria da trombose. Suspeito fortemente que, uma vez que pessoas poderosas tinham tentado tirar-me de Tashkent, eu deveria ter morrido no regresso”, escreve. Meses depois, ser-lhe-ia diagnosticada hipertensão pulmonar. Em Julho de 2004, o embaixador envia mais um telegrama incómodo aos seus superiores. “Recebemos, através dos EUA, informações secretas obtidas sob tortura pelos serviços secretos uzbeques. Devemos parar. As vítimas da tortura são obrigadas a assinar confissões”. Dirigindo-se em particular a Jack Straw, disse-lhe que a sua política atiçava o ódio dos muçulmanos e que ele, o ministro, estava a “vender a alma por cinco tostões”. Três meses depois, o Financial Times cita o telegrama. O FCO telefona a Craig Murray e diz-lhe que já não é embaixador.

Mesmo que não tivesse sido afastado, teria tido condições pessoais e de saúde para permanecer no cargo? Acho que sim. Naquela altura, estava muito doente, os médicos pensavam que não me restavam mais do que alguns meses de vida, cansava-me com muita facilidade, mas conseguia trabalhar normalmente. Mesmo com pouco tempo de vida previsto, sabia-se que a minha doença não era degenerativa, se morresse, morreria como estava. Poderia ter continuado por mais algum tempo. O que estava a tornar difícil a minha vida no Uzbequistão não era o estado de saúde, era o facto de o governo britânico ter tornado óbvio perante as autoridades locais que já não me apoiava. Durante o primeiro ano como embaixador, tinha grande influência, era forte e duro, e eles tinham de lidar comigo. Depois, quando o governo britânico me começou a atacar, tudo mudou. Mas, mesmo na parte final, fiz melhor do que o embaixador actual, que não faz nada e não tem influência nenhuma.

Sabe como é que o novo embaixador britânico em Taskhen se relaciona com Karimov? Não sei, mas, como não vejo nenhuma acção concreta, não o vejo a salvar pessoas vítimas de violência, mas apenas a fazer umas declarações contra a violação dos direitos humanos. Acho que ele vai a uns cocktails, deve ser muito cortês com aos ministros uzbeques e deve jogar bastante golfe.

Qual foi a razão apontada pelo FCO para o demitir? A desculpa que arranjaram foi a fuga de um telegrama para o Financial Times, em 2004.

Foi a única razão? A única.

O FCO diz que você que já não reunia as condições necessárias para desempenhar funções. Sabe de que condições estão a falar? Sinceramente, não sei. A explicação que me deram tinha a ver apenas com o telegrama.

Está a ser alvo de algum inquérito? Não.

Mas houve um inquérito. Disseram-me que tinha começado a fazer um inquérito relacionado com o telegrama, mas pelos vistos não começaram. Nunca fui chamado a depor. E posso garantir que não tive nada a ver com a fuga do telegrama. Teria todo o gosto em colaborar. Se houve fuga alguém tem de ser responsabilizado. Isso constitui matéria criminal. É claro que eles não querem fazer inquérito algum, nunca quiseram, porque tenho quase a certeza que foi o FCO quem fez chegar o telegrama ao Financial Times.

Quem foram os seus carrascos? Jack Straw, Tony Blair? Talvez, neste caso, a ordem tenha sido enviada por Downing Street [residência e gabinete oficiais do primeiro-ministro] ao FCO. Em Agosto de 2003, quando me pediram para resignar e me lançaram diversas acusações, tenho a certeza de que foi isso que se passou.

O MI6 e a CIA terão tido algum papel na sua demissão? Por certo, não gostavam nada de mim e terão achado ameaçadoras as minhas objecções quanto à obtenção de informações secretas através de tortura. Não me parece, no entanto, que tenham sido responsáveis directos. Não sei quem é que deu o telegrama ao jornal, não sei mesmo, mas não é nada que precisasse de ser feito pela MI6 ou pela CIA. Pode simplesmente ter sido o gabinete do primeiro-ministro ou o FCO.

Portanto, quem o quis demitir foi Tony Blair. Acredito que sim.

Foi envenenado durante uma viagem de regresso ao Uzbequistão? É difícil encontrar outra explicação, mas, em rigor, não sei o que se passou. O exame de toxicologia não encontrou nada. É uma coisa rara, coágulos múltiplos, em ambos os pulmões. Isso não aparece sem mais nem menos, de forma espontânea. E antes de aparecer, eu nunca tinha tido nada nos pulmões que o indicasse. Aconteceu numa altura em que havia muita gente a querer impedir o meu regresso a Taskhen. Regressei, e de repente estive às portas da morte por causa desta doença misteriosa e súbita.

Quem é que está por detrás deste mistério? Não sei. Não sei o que aconteceu, é muito estranho, não posso especular.

Durante os 20 anos que passou no FCO esteve na Polónia, na Nigéria, na Serra Leoa, no Chipre. Porque é que nessas ocasiões nunca sentiu a mesma necessidade de falar sobre direitos humanos? Nos sítios onde estive a situação dos direitos humanos não era, nem de perto, nem de longe, tão má. No Uzbequistão a situação é extrema, é um estado totalitário. Já tinha trabalhado, a partir de Londres, na questão do apartheid na África do Sul, mas nessa altura estava do lado da razão, Londres queria mudar as coisas. Agora, estar numa situação em que há um governo como aquele e o meu papel tem de ser o de o apoiar, é muito diferente de tudo o que eu tinha feito antes.

Qual é, em seu entender, o principal papel de um embaixador? O primeiro objectivo tem de ser a defesa dos interesses do país que representa. Mas é preciso ver isso de uma forma ampla. Tudo o que seja suportar um regime ditatorial para prosseguir os objectivos do nosso país é, no mínimo, contraditório e certamente errado.

Hoje, os EUA já não apoiam o regime de Karimov. É mais ao contrário: Karimov é que não apoia os EUA. Se ele permitisse, os EUA ainda estariam a dar-lhe dinheiro de boa vontade. E isso nada tem a ver com direitos humanos. Os EUA fingem que foi o massacre de Andijan [em Maio de 2004, quando a polícia uzbeque matou centenas de manifestantes da oposição] que os fez mudar de opinião, mas a reacção americana a esse massacre foi mínima. Demoraram muito a reagir, culparam ambas as partes e ainda disseram que haveria extremistas islâmicos entre os manifestantes. Comparado com o que disseram os países europeus, isto até foi uma forma de apoio.

E qual é agora a atitude britânica? Agora que ele já não é um amigo dos americanos, a Grã-Bretanha é muito mais crítica. Há três anos, qualquer ministro britânico diria que o Uzbequistão era um grande aliado na Guerra Contra o Terror. Mudaram muito, agora estão muito contentes por criticar Karimov.

O Reino Unido e os EUA ainda recebem informações dos serviços secretos obtidas sob tortura? Se as recebem do Uzbequistão, não tenho a certeza, não sei se Karimov cortou essa ligação. A minha sensibilidade diz-me que continua tudo igual.

E de outros países? Tenho a certeza que sim. O Uzbequistão era apenas uma parte. A política de obtenção de informações secretas por via da tortura continua a funcionar com a Arábia Saudita, com a Argélia, com Marrocos, com Gâmbia e outros.

Diz no livro que o Uzbequistão e o Afeganistão exportam droga para a Europa, mas não esclarece se os americanos estão directamente envolvidos. O que os EUA faziam na altura era ignorar a forma como Karimov lidava com o comércio de droga, permitindo que ele mantivesse relações com o general Dostum [ministro da Defesa do Afeganistão]. Dostum e Karimov eram aliados dos americanos, por isso, os EUA, em vez tomarem medidas contra eles e impedirem que a heroína chegasse à Europa, fingiam que nada se passava. Ao mesmo tempo, faziam declarações contra os talibã, envolvendo-os no negócio da heroína, quando os talibã não têm nada a ver com isso. Não quero ser mal interpretado: não defendo os talibã, mas o papel deles no negócio da droga era mínimo. Ora, ter os talibã como os maus da fita permitiu a Dostum e a Karimov começar a enviar grandes quantidades de heroína para a Europa a partir do Afeganistão. Como eles eram clientes americanos, toda a gente fingia não saber de nada e nenhuma medida efectiva foi tomada contra isso.

Enquanto escrevia o livro nunca se perguntou se estaria a entrar num delírio, numa teoria da conspiração? Não me parece. Acho que tudo o que está escrito tem sustentação. Em geral, não tenho muito interesse na teoria da conspiração. Não acredito, por exemplo, que George Bush tenha estado envolvido no ataque às Torres Gémeas. Sou muito céptico. Não estou a dizer que os EUA fazem comércio de droga, estou a dizer que os EUA olharam para o lado e permitiram a Karimov continuar esse comércio. É um facto, não é uma conspiração.

Acredita que Bush e Blair serão julgados por aquilo que descreve no livro? Ambos têm baixíssimos níveis de popularidade nos seus países. Quando comecei a contar isto tudo, nem toda a gente acreditou em mim. Disse que o governo britânico estava implicado em acções de tortura, que deliberadamente difundia informações falsas para sobrevalorizar a ameaça da Al-Qaeda, mas apoiava um ditador [Karimov], em detrimento dos seus opositores, fazendo de conta que a oposição a esse ditador era a Al-Qaeda. E a seguir disse que o governo estava a querer afastar-me com base em justificações falsas. Nessa altura, ninguém me acreditava. Eu dizia que o governo estava a mentir, que os ministros estavam a mentir, e isso não é algo que as pessoas estejam dispostas a acreditar que se passa numa democracia. Entretanto, houve uma mudança na opinião pública e passaram a aceitar o que eu dizia. O facto de não terem sido encontradas Armas de Destruição Maciça no Iraque fez-nos perceber que os governos mentem, estão sempre a mentir.

Para além de um julgamento na praça pública, admite que Bush e Blair sejam levados a tribunal? A opinião pública e a História julgá-los-ão negativamente, sem dúvida. Mas lamento muito dizer isto: não me parece que eles vão a tribunal. Deveriam ir, porque são criminosos de guerra, estão envolvidos em várias guerras e agressões ilegais com o único objectivo de explorar recursos nos outros países e permitir a algumas grandes empresas ganhar muito dinheiro. Mas não vai haver nenhuma revolução nas estruturas sociais, pelo menos, não no meu tempo de vida, que me permita acreditar que eles serão levados a tribunal. BH

Perfil [actualizado]

Desempregdo, Craig Murray diz ter intenção de voltar a África para se dedicar a “projectos de desenvolvimento” – saudades do tempo em que trabalhou no processo de paz na Serra Leoa e na Libéria. Nascido em 1958 em Runton, condado de Norfolk, sudeste de Inglaterra, licenciou-se em História Moderna, em 1982, e, dois anos depois, entrou para o Foreign and Commonwealth Office.

Quando da primeira Guerra do Golfo, foi responsável pela análise de informações dos serviços secretos. Entre 1994 e 1997 esteve em Varsóvia como Primeiro Secretário da embaixada britânica. Divorciado, tem dois filhos menores, vive em Londres com Nadira Bekhanov. “Tenho terríveis problemas financeiros”, confessa. Nas legislativas de 2005, foi candidato independente por Blackburn, contra o ministro dos Negócios Estrangeiros Jack Straw. Teve pouco mais de dois mil votos.

Durante o mês de Setembro, vai participar em diversas conferências e eventos a favor da demissão de Tony Blair, incluindo a manifestação pública Time to Go, em Manchester, no dia 23.

O seu livro, Murder In Samarkand, vai ser adaptado ao cinema pelo realizador Michael Winterbottom (24 Hour Party People; 9 Canções). A rodagem começa no próximo ano e ainda não há elenco definido.

Devidamente autorizado

O Foreign and Commonwealth Office (FCO) diz que não se opõe à publicação de livros de memórias por parte de antigos diplomatas, desde que sejam observadas duas regras: as “confidências” neles contidas têm de ser salvaguardadas “por um intervalo de tempo razoável” e os textos “têm de ser devidamente autorizados”.

Questionado sobre o livro de Craig Muray, o ministério britânico respondeu que “certos elementos” de Murder in Samarkand são “incorrectos” e “susceptíveis de induzir em erro”, mas não identifica quais. Sustenta também que “a crítica dirigida a antigos colegas é uma atitude desleal e inaceitável”. O FCO diz “cooperar” com diversos países “a fim de assegurar que os direitos humanos sejam cada vez mais respeitados em todo o mundo”.

Refer Desmente-se

A Rede Ferroviária Nacional (Refer) voltou atrás e já não vai rescindir o contrato com o consórcio liderado pela construtora Teixeira Duarte, a quem adjudicou a reparação do túnel do Rossio, em Lisboa. A edição on-line do Diário Económico diz que a Refer vai suspender por um mês o processo de rescisão. A Teixeira Duarte diz-se satisfeita.

O ‘site’ da Refer explica que a Teixeira Duarte se pronunciou sobre a intenção de rescisão anunciada há uma semana (29 de Agosto). Perante as explicações, a Refer decidiu “suspender durante 30 dias a decisão do processo anunciado”.

A Refer, empresa pública, desmente-se.

A Teixeira Duarte não acabou as obras no prazo combinado (28 de Agosto) e pediu um adiamento até 2011. No dia seguinte a Refer anunciou a intenção de rescisão, “em nome do interesse público”, como se lê no comunicado oficial.

A gestora da rede ferroviária portuguesa dizia que a obra levada a cabo pelo consórcio liderado pela Teixeira Duarte tinha um “lamentável conjunto de incorrecções e incumprimentos”. Falava de “repetido desrespeito” do consórcio pelas ordens que lhe eram dadas e dizia que a “recorrente tentativa [do consórcio] de responsabilizar a Refer por alegada desconformidade do projecto” era “incompatível com a confiança requerida entre as partes” e “objectivamente abusivo e injustificado”.

Há uma semana havia incorrecção, incumprimento, falta de confiança e abuso. Ou não havia? E já não há? BH

LINKS
> Refer
> Teixeira Duarte

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Toda uma premonição


É ela, sim: B.B.

Dedica-lhe a revista Yo Dona (suplemento do espanhol El Mundo) duas páginas na edição de 26 de Agosto. A cronista María Vela Zanetti, que habitualmente escreve sobre moda, avisa-nos de que o filme
E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim, faz agora 50 anos. Cinquenta! Estreou-se em França a 28 de Novembro de 1956. (Já agora, B.B. faz anos a 28 de Setembro: 72 anos).

"Es una mujerona sin operar", dispara a cronista. E depois mete-nos a olhar para uma foto recente. E diz assim: "Fue la primera actriz a la que le sentaron bien los pantalones vaqueros: toda una premonición".

domingo, 3 de setembro de 2006

Empresa vende programa para espiar SMS

AFP, Yahoo Já se sabia que é possível enviar vírus para telemóveis, à distância, através do sistema bluetooth. O que não se sabia, mas vem hoje revelado no britânico The Observer, é que, também à distância, já se pode ler as mensagens (SMS) do telemóvel de outra pessoa. A empresa Vervata está a vender um programa espião, o FlexiSpy. Tem de ser instalado no telefone móvel a vigiar, o que, defende a empresa, faz com que a vítima se aperceba da intrusão, não configurando, por isso, uma ilegalidade. O problema, adianta o jornal, é que o FlexiSpy também pode ir parar aos telemóveis se for enviado, sob a forma de vírus, por infravermelhos ou por bluetooth.


Excertos e link da notícia:

Mobile phone users warned of dangers in 'spy' software

A company is urging consumers to buy 'secret' mobile phone software so they can read their partner's text messages. FlexiSpy is billed as the 'world's most powerful spy software for mobile phones', which enables a buyer to 'secretly record every SMS [text] message, view their call history, and more!'
The potential for mobile phone monitoring was highlighted last week by Symantec, the information security company. It warned mobile phones are potentially vulnerable to spyware, software that covertly gathers a user's information without their knowledge. These could enable snoopers to remotely activate a mobile phone's microphone, take pictures with its camera or record conversations without the user's knowledge.
But Vervata, the company behind FlexiSpy, denied it was doing anything illegal. The software has to be installed manually on the 'spied upon' handset, making it difficult to do without the owner's knowledge. 'It's true you could wrap up something like this and transmit it virally, but that's not the business we're in,' admitted Atir Raihan, Vervata's managing director. 'There are other companies doing this, but we're not.'

sábado, 2 de setembro de 2006

Conta, Peso e Media

Perfil de Sumner Redstone. Na revista Notícias Sábado (NS') de hoje.

O homem que acaba de despedir Tom Cruise é o dono de um império mediático. É dele a CBS, a MTV, a Paramount Pictures e uma das maiores fortunas do mundo: 7,7 mil milhões de dólares. Sumner Redstone, 83 anos, falou com a NS'

Tom Cruise, estrela de filmes como ‘Top Gun’, ‘Nascido a 4 de Julho', 'Magnolia', 'De Olhos Bem Fecha­dos' ou da saga 'Missão Impossível', desviou-se do papel que Sumner Redstone lhe traçara em 1992, quando a pe­quena companhia do actor norte-americano – Cruise/Wagner Productions – se ligou à Paramount. "Por muito que gostemos dele, consideramos errado renovar o seu contrato. O seu comportamento recente não é aceitável para a Paramount", afirmou o dono da Viacom ao 'Wall Street Journal'. "Ele é um actor magnífico. Pen­samos simplesmente que uma pessoa que comete um suicídio criativo e que custa milhões de dólares e receitas não deve ter mais lugar nos nossos estúdios." Mesmo aos olhos de um "liberal" Redstone, o actor norte-americano, sinónimo de milhões e milhões, converteu-se numa personagem extravagante e "descon­trolada". Nos últimos tempos era frequente ver Tom Cruise a discursar em defesa da Igreja da Cientologia, em demonstrações de amor pela actriz Katie Holmes (consideradas exibicionistas), a prometer comer o cordão umbilical dias antes do nascimento da filha e, mais recentemente, a impor "regras de conduta" para as visitas à sua descendente. No mundo dos negócios isso tem urn preço. Redstone responsabiliza o actor pela perda de 77 a 110 milhões de euros nas receitas de bilheteira previstas para o terceiro capítulo de 'Missão Impossível'.

Mas a vida continua e o negócio também. O actor Nicolas Cage e o realizador Oliver Stone estão de regresso às salas portuguesas a 21 de Setembro, data de estreia de 'World Trade Center'. Daqui alguns meses o actor Jamie Foxx vai juntar-se a Beyoncé e Eddie Murphy, num musical de pipocas intitulado 'Dreamgirls'. Tudo produções da Paramount, se bem que este último filme tenha o carimbo da Dreamworks (adquirida recentemente pela Paramount). Os responsáveis destes estúdios norte-americanos esperam fazer um brilharete e livrar-se de uma deca­dência feita de êxitos de bilheteira cada vez mais discretos.
Mas nenhum destes filmes conseguirá ser mais interessante do que aquele que não tem elen­co nem realizador, apenas argumento e protagonis­ta: o filme da vida de Sumner Murray Redstone, o homem por detrás desta e doutras fitas.
Dono, entre várias outras coisas, de dois gigantescos conglomerados mediáticos, a CBS (rádio, televisão, produtoras, canais temáticos, lojas Blockbuster) e a Viacom (Paramount Pictures, MTV, VH1 e Nickelodeon), Redstone é casado com uma norte-americana de origem italiana, Paula Fortunato (40 anos mais nova), tem dois filhos do primeiro casamento e costu­ma ser identificado como 'self made man'. Numa curta conversa telefónica com a NS', repete o que costuma dizer em todas as entrevistas: que nasceu po­bre e foi a pulso que chegou onde chegou. E que a for­tuna que se lhe atribui não é bem dele, porque é cons­tituída por acções e não por dinheiro vivo (que tam­bém o tem).
Um olhar atento ao seu percurso é suficiente para des­montar a fachada romântica. Nada, a não ser o nor­mal para todos os mortais, foi muito difícil para ele. Nasceu entre a burguesia, frequentou as melhores es­colas, arranjou um bom emprego e herdou do pai um negócio de gestão de salas de cinema, o mesmo que lhe abriu as portas do paraíso onde parece viver hoje. Aliado do partido Democrata americano, fez boas ami­zades ao mais alto nível. E aí está, cheio de viço, riquís­simo, falsamente modesto, mas homem esforçado – disso não se duvide.

Com 83 anos, caberá na categoria que a revista ‘The Economist' designa por gerontocapitalistas — empre­sários da velha guarda, que se mantêm no activo até muito depois da idade normal de reforma. Em 2006, está entre os 70 homens mais ricos do mundo, com uma fortuna de 7,7 mil milhões de dólares (cerca de seis mil milhões de euros), segundo avaliação da revis­ta 'Forbes', especialista neste tipo de classificações. No ano passado, tinha 8,8 mil milhões (perto de sete mil milhões de euros). Ocupa a 63ª posição na lista dos homens mais ricos do mundo.
Os dias, passa-os a trabalhar. "24 horas por dia, sete dias por semana", diz, com as viagens de negócios no topo das preocupações e a Turquia, a China, o Dubai e o Koweit no topo dos destinos. "Tenho reuniões com os representantes políticos desses países e acre­dito que a Viacom tem todas as condições para con­tinuar a exportar os seus produtos", explica Redsto­ne, adiantando em seguida que, no caso da China, "os conteúdos são adaptados ao gosto do público". Ao gosto do público ou às imposições políticas, num país sem liberdades? "Falo com frequência com to­dos os ministros chineses, tenho uma relação sólida com eles, e até agora não fiz quaisquer concessões", argumenta.
Vive em Beverly Park, em Los Angeles, a zona onde a nata da indústria do entretenimento americano se resguarda, na tentativa, nem sempre bem sucedida, de fugir às centenas de 'paparazzi', que, segundo escrevia o ‘The New York Times', os perseguem como "cães danados". A área onde fica a sua mansão tem, no mínimo, 20 mil metros quadrados. Uma bela casa, mas, como gosta de dizer, a única coisa com grande valor material que comprou na vida. Ao contrário de alguns vizinhos, como Eddie Murphy ou Rod Stewart, o velho Redstone gosta de passar des­percebido. Não é de dar entrevistas ou de se armar em comentador. Escolhe bem os momentos para o fazer e, então, é à grande. Uma das últimas aparições foi há alguns meses, na revista 'Newsweek'. Deixou-se foto­grafar na casa de Beverly Park, entre abundante vege­tação, como adoram fazer alguns milionários america­nos, e, depois dos elogios às suas empresas, aproveitou para deixar um recado ao adversário George W. Bush.

As autoridades que regulam a comunicação so­cial têm vindo a aplicar à CBS várias multas, num to­tal de quatro milhões de dólares (pouco mais de três milhões de euros), por alegada "indecência" dos programas. O mamilo que Janet Jackson revelou du­rante o espectáculo de encerramento do campeonato de futebol americano, há dois anos, e a volúpia de algumas séries de culto são as principais razões invocadas. Redstone, claro, considera "péssima" a re­gulação de conteúdos. "O governo não deve de manei­ra nenhuma determinar aquilo que os americanos ou­vem ou vêem. O governo deve manter-se fora deste negócio", protestou. Em conversa com a NS’, reafirmou que "só o consumidor é que deve fazer escolhas" e que "o mercado deve ser regulado pelo mercado".
Pensa assim, mas não é homem de direita. É um dos poucos capitalistas dos 'media' americanos que não gostam do partido Republicano. Está mais próximo dos democratas, o que não equivale a dizer que é de esquerda. Atribui-se-lhe, de resto, a seguinte frase: "Voto a pensar na minha carteira." Um pragmático.
Esta faceta política tem uma importância transcenden­te na sua biografia. Através dela percebe-se a sua fulgu­rante ascensão. Sabe-se que os presidentes Jimmy Car­ter (1977-81) e Bill Clinton (1993-2001), ambos do Par­tido Democrata, são dois dos seus melhores amigos. Em 1984, quando já tinha deixado o poder, Carter con­vidou-o para conselheiro da Biblioteca da Fundação Kennedy. E na década de 90, ao tempo de Bill e Hillary Clinton, frequentava com à vontade a Casa Branca. Aliás, assume-o Redstone abertamente, nos idos de 60 financiou as campanhas presidenciais de J. F. Kennedy, por quem tinha grande admiração, e, quando com­prou a Paramount, em 1993, recebeu por telefone as felicitações imediatas do vice-presidente democrata Al Gore. Mais: Clinton fez aprovar em 1996 uma lei que abriu as portas à concentração dos 'media'. Nem de propósito, em 2001, a Viacom compra a CBS, empresa que na década de 70 estivera na origem da compradora, e torna-se um potentado.

Da família deste empresário afável o que se sabe é ambíguo. O pai, judeu americano de origem ale­mã, começou como vendedor de madeira, passou a dono de restaurantes e bares e depressa começou a gerir espaços de cinema 'drive-in'. Redstone pas­sou a infância e juventude em Boston, onde nasceu a 27 de Maio de 1923. Nome de baptismo: Sumner Murray Rothstein.
A mudança de apelido, ainda hoje malvista por secto­res hebraicos americanos, deu-se em 1940. Decisão do pai, que nessa altura também deixou de ser Max e passou a ser Michael. Não é de crer que quisesse renegar as origens, mas apenas proteger-se dos mes­mos problemas que naqueles dias os judeus enfrenta­vam na Alemanha nazi. A mãe, de origem russa, chamava-se Bella. O irmão, Edward.
A sua biografia oficial, 'A Passion To Win', publicada há cinco anos através da editora Simon & Schuster, perten­cente à Viacom, dá a entender que viviam com dificulda­des. Nem casa de banho havia. Mas também se lê, paradoxalmente, que Redstone tinha aulas de piano em casa. Em todo o caso, o empresário norte-americano parece ter uma certa propensão para criar mistérios em seu re­dor, o que só capitaliza a curiosidade.
Atesta-o bem um episódio passado em 1979, de que gosta de falar e ao qual dedica as primeiras páginas da biografia. Viu-se cer­cado por um incêndio num quarto do hotel Boston Copley Plaza. "Cometi o clássico erro de abrir a porta do quarto. O calor e as chamas que bramiam lá fora envol­veram-me e queimaram-me as roupas e a pele. Saí por uma janela e fiquei agarrado no parapeito, com a mão e o braço a arderem". Salvou-se. A descrição da convales­cença serve apenas para o impregnar de virtude. "A re­cuperação ficou a dever-se em grande medida à minha vontade de vencer e à minha tenacidade. A vida come­ça quando nós queremos", escreve Redstone, deixando, mais uma vez, mistério no ar: que força interior é a dele, que o salva da morte certa e o resgata ao caminho da gló­ria? Numa recensão ao livro, a revista 'Variety' não se conteve e lamentou que ele não tivesse dedicado algu­mas linhas às namoradas de ocasião que as páginas cor-de-rosa de jornais de referência garantem que tem.
Ora, essa glória só veio a seguir à Segunda Guerra. Depois de ter servido no Exército, num grupo especial de espionagem que decifrava as mensagens das forças japonesas, Redstone licenciou-se em Jurisprudência. O curso estava mal acabado, mas o governo achou por bem distinguir assim o esforço de um patriota durante a guerra. Casou-se e tornou-se professor universitário em São Francisco e secretário-geral, em Washington, do Court of Appeals, o tribunal de instância superior em cada estado. No início dos anos 50 foi trabalhar para um escritório de advogados, mas não se manteve aí por muito tempo. Preferiu voltar para debaixo das asas do pai e ajudá-lo nos negócios. Foi em 1954. Tinha 31 anos. "Ser advogado é um negócio. Não é uma cruzada pelo bem da humanidade. Quando cheguei a essa conclusão, decidi dedicar-me aos meus próprios negócios", lê-se no livro.

A National Amusements, nome da empresa de ecrãs 'drive-in' que o pai fundou, tem hoje por sua conta 1300 salas nos Estados Unidos e faz parte da Via­com. Redstone transformou-a numa empresa de salas de cinema cobertas quando o 'drive-in' começava a es­morecer nos anos 60, e foi ele, também, quem forjou os padrões do que deve ser um complexo de cinema comercial, com boas cadeiras, pipocas e vários ecrãs. Multiplex, chamou-lhe.
O negócio expandiu-se brutalmente, mesmo com a concorrência dos grandes estúdios. Em pouco tempo, a National Amusements estava cotada na Bolsa. Mas o protagonista, que tem tanto de esperto como de visio­nário, achou que vender conteúdos teria mais futuro do que exibi-los. "Content is king" ("o mais importan­te são os conteúdos"), costuma dizer. Livrou-se de par­te das acções da National Amusements e começou a montar o império que se conhece. Em 1987, compra a Viacom, na sequência de uma OPA hostil – e por via disso passa a mandar na MTV. "Foi o primeiro grande negócio da minha vida", dirá mais tarde. Em 1993, é a vez de comprar a Paramount, que integra na Viacom. Sete anos depois concretiza a fusão da Viacom com a CBS, a sua companhia original. O ano passado decidiu dividir a Viacom (Viacom de um lado, CBS do outro) e declarou que a era dos grandes conglomerados chegou ao fim. Pode pensar-se que o lucro é a luz que o guia. Não é ver­dade. "Pensei a vida toda em ser um vencedor, mas nunca pensei em dinheiro", diz.
A quem lhe chama magnata, responde que é uma pessoa perfeitamente normal, apenas preocupada com os negócios – o que não o impediu de escrever na badana da sua biografia que é "um titã dos media".
Sumner Redstone prepara-se para se retirar este ano da administração da Viacom, a que preside. A filha, Shari, de 52 anos, irá suceder-lhe. O filho, Brent, fica de fora. Brent processou o pai, acusando-o de o desprezar nas principais decisões. Bruno Horta