segunda-feira, 2 de outubro de 2006
Media acríticos
sexta-feira, 29 de setembro de 2006
A carta de Otelo
"Bateram casualmente os meus olhos na primeira página do Público de dia 23, e apressei-me a folheá-lo para, lendo a reportagem produzida por Teresa de Sousa sobre o "Reencontro histórico" protagonizado por Soares e Carlucci, confirmar algumas das suspeitas que mantenho sobre o chamado "Verão quente de 75" e o papel por ambos desempenhado durante aquele "ano de brasa" do período revolucionário ("o sempre saudoso PREC", como sempre dizia o nosso querido Zeca Afonso) que os portugueses viveram após o 25 de Abril 74.
Para lá de algumas confirmações obtidas, uma claras, outras, lidas nas entrelinhas, a reforçarem a tese que publicamente tenho expendido sobre quem, o porquê e o como do fim da "revolução socialista" acontecido em 25 de Novembro 75, conduziu-me a leitura da reportagem à necessidade de remeter esta carta com vista à reposição da verdade, já que, parafraseando Soares, que aprecia os americanos porque eles "gostam que lhes digam a verdade", tenho a impressão muito nítida de que os portugueses também disso gostam, motivo que me leva a apreciá-los muito e a não desejar, também por isso, que eles sejam enganados com falsas declarações.
Assim, contrariando as fantasiosas reminiscências dos dois gerontes produzidas perante a jornalista, afirmo categoricamente:
1 - Nunca conheci pessoalmente Frank Carlucci.
2 - Portanto, nunca almocei com Frank Carlucci.
3 - Nunca pedi a Frank Carlucci a sua morada em Lisboa e nunca mandei "alguns soldados " para fazer a sua segurança a seu pedido.
4 - A única vez em que falei com Frank Carlucci foi em 11 de Março de 75, quando fez uma chamada telefónica para o Copcon, que eu comandava, no rescaldo dos acontecimentos, para me perguntar se era verdade eu ter afirmado a uma estação de rádio de Lisboa ser minha convicção que o novo embaixador americano em Portugal era um homem da CIA e que alguma coisa teria que ver com a tentativa de golpe militar que tinha acabado de se verificar e que fora rapidamente jugulado por forças militares sob o comando do Copcon. Afirmações que não só ratifiquei como ainda acrescentei que, pessoalmente, o considerava persona non grata em Portugal e que, se fosse primeiro-ministro, lhe daria um prazo de 24 horas para ele abandonar o meu país. Considerações que me pareceram, então, francamente agastá-lo e que a mim me deram a satisfação do desabafo.
Otelo Saraiva de Carvalho
Lisboa
quarta-feira, 27 de setembro de 2006
3 de Outubro, dia mundial dos direitos digitais
Quem as quiser, por exemplo, copiar para um CD para ouvir no carro ou emprestar ou fazer cópia de segurança não pode. Porque as músicas do iTunes têm acoplado o sistema DRM, que bloqueia qualquer possibilidade de reprodução.
Assim de repente, vem à memória o caso de um álbum dos Da Weasel. Há uns dois anos. O sistema anti-cópia intalado era de tal forma robusto que o CD nem tocava nos leitores de computador. Simplesmente, não tocava.
A indústria da música está em crise. A pirataria está a desorientar as editoras, que durante muitos anos, muitos mesmo, tiveram lucros brutais com a venda de fonogramas. Essa era, é bom que se habituem, acabou. E não parece de todo razoável as editoras recorrerem a expedientes mais ou menos ilegais para tentarem ter lucro duas ou três vezes com o mesmo utilizador e a mesma canção.
Porque o que se é passa é simples: se não posso copiar para um CD certo tema que comprei na net e que só toca no computador, ou não o faço, e é o meu direito de propriedade sobre o objecto (imaterial) que está em causa, ou tenho de fazer um segundo ou um terceiro download, pagando novamente.
terça-feira, 26 de setembro de 2006
Governo proíbe acesso a praia da Almagreira
Velho conhecido da polícia

segunda-feira, 25 de setembro de 2006
Desemprego
Vídeo:
domingo, 24 de setembro de 2006
Novos dados sobre Humberto Delgado
Salazar 'salvou' Delgado
José António Saraiva, SOL, 23.09-2006
A revelação é feita pelo embaixador Duarte de Jesus, num livro a publicar em breve. Segundo o diplomata, em Outubro de 1961, quando era um jovem terceiro secretário a trabalhar na embaixada portuguesa em Marrocos, foi procurado por um agente dos serviços secretos da Legião Portuguesa, que lhe comunicou ter-se ali deslocado para matar Humberto Delgado. E acrescentou que o atentado deveria ter tido lugar em Lisboa, logo a seguir às eleições presidenciais de 1958, quando Delgado deixava a embaixada do Brasil, onde se tinha refugiado, para se dirigir ao aeroporto.
Porém, nessa altura, segundo o agente da Legião, Oliveira Salazar opusera-se ao crime. A revelação assume alguma importância histórica, pois nunca foi cabalmente esclarecido o papel de Salazar no assassínio de Delgado pela polícia política salazarista, que teria lugar em 1965, quatro anos depois do episódio que aqui se narra. Embora da oposição manifestada pelo chefe do Estado Novo em 1958 não possam tirar-se conclusões sobre a sua posição em 1965.
No livro Casablanca, edição da Gradiva, Duarte de Jesus descreve assim o caso:
«É me difícil recordar o dia, na segunda quinzena de Outubro de 61, em que recebi uma inesperada e insólita visita na Embaixada. Havia já alguns dias que o nosso Cônsul em Casablanca, Calado Crespo, nos vinha a informar telefonicamente da existência de um português, naquela cidade, incumbido duma missão secreta, mas que não se conhecia bem o objectivo (ou não fosse ela secreta!). Constava que havia contactado alguns membros da comunidade portuguesa.
Recebi o homem. Baixo, de cabelo grisalho e ar sério, o homem entregou-me o seu cartão, com o seu nome (ASO), seguido dum título da marinha.
Sentámo-nos nos velhos maples do meu gabinete e, para meu espanto, começa por me dizer que era dos serviços secretos da Legião Portuguesa, de que eu na altura desconhecia a existência, que estava em Marrocos encarregue duma missão secreta -- matar o General Delgado.
Pedia a nossa colaboração, no sentido de lhe fornecermos a morada do General, que certamente conhecíamos, e de lhe facultarmos a possibilidade de utilizar o nosso telefone, para contactar, em cifra -- facto que me deixou perplexo, pois o nosso telefone não tinha qualquer dispositivo de distorção de som.
Depois de lhe dizer que eu deveria, antes de mais, falar com o meu Embaixador sobre o assunto, embora ele, naquele momento estivesse ocupado, ele imediatamente acrescentou que nós, pela nossa parte, não deveríamos contactar o Ministério dos Negócios Estrangeiros, sublinhando, nem o Ministro, nem a Presidência do Conselho. Ele tinha o seu contacto na Presidência do Conselho, mas mais ninguém estava ao corrente do assunto.
Procurei fazer-lhe perguntas, ao mesmo tempo que lhe referia que a Embaixada o que sabia do General Delgado era o que vinha nos jornais marroquinos, mas não acompanhava o assunto a outro nível.
Disse-me várias coisas de que hoje já me não recordo, pois só fixei aquela que mais me impressionou. Referiu que esta acção que agora ia levar a cabo, em território marroquino, já a tentara, na altura em que o General Delgado abandonava, de carro, a Embaixada do Brasil, em Lisboa, ainda na R. António Maria Cardoso, onde se exilara, a caminho do Aeroporto. Tinha sido a ocasião ideal, no meio da multidão que estava na rua e ninguém nunca mais saberia de onde viera o tiro. 'Só não o fiz por teimosia do Presidente do Conselho, que desaconselhou. Achou certamente perigoso, mas em meu entender, erradamente', acrescentou'.
José Pedro Castanheira, EXPRESSO, 23-09.2006
O ex-presidente da Assembleia da República escreve sobre a descolonização - tarefa em que teve especiais responsabilidades na sua qualidade de ministro da Coordenação Interterritorial dos primeiros quatro governos saídos do 25 de Abril. Recorda a surpresa causada pelo general quando, em data não especificada - mas já depois das eleições de 1958, e com Delgado exilado e perseguido pelo regime de Salazar -, lhe apareceu, às tantas da noite, à porta de sua casa na capital de Moçambique. Escreve:
“De espessa barba e farta cabeleira, anunciou-se:
- Embora não pareça, sou o general Humberto Delgado.
Não podia ter sido maior a minha surpresa. Refeito dela, fiquei a saber que o general tinha entrado com falsa identidade e falso passaporte pela fronteira da Suazilândia, disposto a lançar um movimento revolucionário com vista à queda do regime, a partir de Moçambique. Contava, para isso, com sólido apoio militar de forças locais, e procurava-nos para obter também o apoio civil dos Democratas de Moçambique. Respondi afirmativamente de imediato (...). Entretanto, fui inquirindo qual seria em concreto o nosso papel. Compreensivelmente reticente, o general foi adiantando:
- Receberão, na altura própria, instruções precisas. Mas a minha ideia é que o vosso grupo tome conta do edifício e dos microfones do Rádio Clube de Moçambique e da máquina do ‘Notícias’, e incendeie a opinião pública.
- Com que armas?, perguntei.
- Talvez com armas, talvez com apoio militar. Depois se vê. Mas sobretudo com discursos e proclamações.
Fazia sentido. Tomar o poder em Moçambique e bombardear com emissões de rádio a adormecida opinião pública metropolitana, despertar as reservas cívicas de Angola (...).Três dias depois, o general apareceu desolado:
- O projecto falhou. Estes gajos não têm tomates (sic). Prometem muito, mas não são capazes de nada. Uns capados! (sic).
- E agora? - perguntei, decepcionado.
- Agora é pôr-me daqui a mexer o mais depressa possível, antes que algum traidor me denuncie.
E saiu de novo, pela mesma fronteira por onde havia entrado. Nunca o tinha visto antes, não voltei a vê-lo depois. Ficou-me dele a imagem de uma coragem e de um voluntarismo levados a extremos de temeridade’’.
