quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Sabes qual é a diferença entre um general americano e um general português?

FACTOS
No dia em que Humberto Delgado foi homenageado no Panteão Nacional, recordamo-lo. Artigo publicado na revista Pública, em 14 de Maio de 2006. Os acrescentos, em parêntesis rectos, são correcções à versão original. A foto é da Fundação Humberto Delgado.


Que homem é este, que ainda hoje inflama a voz e o olhar de quem o conheceu?
Sobre ele, como políti­co, já quase tudo está dito. Que era o ge­neral "sem medo", que estava disposto a morrer pela liberdade, que durante a campanha eleitoral de 1958 atirou fogo aos brandos costumes do país e criou nele a esperança de uma liberdade que só viria 16 anos depois.
No entanto, sobre Humberto Delga­do, o homem, pouco se sabe.

Como era no trato, quais os seus há­bitos, de que gostava de conversar, que relação tinha com a família? Tal como ajudam a concluir os testemunhos que se seguem, Delgado, o mito, talvez seja mesmo um mito. O homem corajoso, que não se rendeu a uma carreira di­plomática de excepção ou a um exílio político dourado e, na urgência do com­bate, deu de caras com a morte às portas de Olivença, tem tanto de verdade como o Delgado homem, nascido em Brogueira, Torres Novas, há precisamente cem anos, a 15 de Maio de 1906.
Basta pensar que na sua vida públi­ca é possível distinguir três grandes períodos — o de militar que chega ao cobiçado cargo de representante de Portugal na NATO, o de candidato a Presidente da República e o de exilado político. E na sua intimidade também — o de feliz pai de família que adora arranjar casamentos a toda a gente, o de homem sociável que gosta de re­ceber em casa a nata da sociedade e o de homem afastado da família, mais excessivo do que nunca, apoiado por uma secretária brasileira e traído por quase todos.
Algumas destas últimas facetas foram reveladas pela primeira vez no documentário "Meu Pai, Humberto Delgado", do realizador Francisco Manso, estreado na RTP 2 na semana passada e cuja edição em DVD está a ser ponderada pela [Fundação] Humberto Delgado [não foi publicado até agora]. O guião é do etnólogo Frede­rico Rosa, neto do general e filho de Iva Delgado, através de cujo olhar o espec­tador viaja. A investigadora, autora de dezenas de livros e escritos sobre o general, diz que "não tinha preestabe­lecido mostrar o lado mais íntimo" do seu pai e que o documentário foi feito "no fio da navalha", com o filho e o re­alizador a tomarem conta da situação. Mas adianta que esta é a melhor altura possível para apresentar um trabalho destes. "Já se passaram muitos anos, as emoções das pessoas sobre o meu pai estão mais calmas e isso permite mostrar outra dimensão da vida dele", justifica Iva Delgado.
Momento perfeitamente inédito no filme é o que mostra [fotografias tiradas] em Montreal, em 1949, com uma máquina que [tinha sido oferecida a Iva pelo pai]. Nelas estão Iva e a irmã Humberta, Delgado e a mulher, Maria Iva. Pessoas felizes, num passeio na neve, num tempo em que o general era o representante português no Con­selho da Aviação Civil Internacional, no Canadá, cargo que exerceu entre 1947 e 1950. As fotos marcam a transi­ção entre a primeira e a segunda fases da sua vida, quer pessoal, quer profissional.
O aviador, professor catedrático da Escola do Exército e o homem a quem Salazar confiara a negociação com Churchill da ce­dência da base das Lajes durante a II Guerra Mun­dial, estava cada vez mais estrangeirado. Cada vez mais longe do regime e mais próximo de ser candidato da oposição às eleições presidenciais de 1958.
Em casa, contudo, não se sabia de nada. Nem do que era a sua carreira, nem do que viria a ser a sua desgraça. "Quando entrava em casa, era apenas o pai, não falava de assuntos profissio­nais, apesar de eu ter uma vaga noção de que o que ele fazia lá fora era muito importante", recorda Iva Delgado. A teoria dele era a de que a família tem de estar reunida às refeições para con­viver o mais possível. "Dava-nos muita atenção nessas ocasiões", prossegue a filha, "e contava histórias, que ainda hoje se contam na família, onde mistu­rava a realidade com a ficção". Eram histórias que punham a ridículo a na­tureza humana, porque, diz Iva, "para ele nunca as coisas eram o que eram, ia sempre além do óbvio".
Do Canadá, a família seguiria para Washington, onde Delgado representa­ria Portugal junto da NATO (entre 1952 e 1957). É desse tempo que Iva, muito criança, melhor se lembra. Da vida em Lisboa, na rua Filipe Folque, ficou-lhe pouca coisa. O pai recebia "pessoas do meio militar, do meio diplomático, da aviação". Mas, acrescenta, "não era um grupinho que fosse lá a casa com fre­quência, eram visitas de circunstância, que ele, por diversas razões, precisava de alimentar".
Ao período português pertence, também, um traço romanesco da per­sonalidade de Delgado. Tinha-se casa­do em 1930 com um mulher oriunda da aristocracia de Leiria, que muito cedo fora viver para Lisboa e a quem, no dizer da filha Iva, cantava as canções de Charles Trenet, estrela da canção fran­cesa a partir do fim dos anos 30. É um período de uma certa ingenui­dade, ainda, de que é prova o facto de os len­çóis e algumas cortinas que levou da vida de solteiro para a de casado terem aviões bordados, tal era a paixão que nutria pela aeronáutica.
No pouco tempo que lhe sobrava da vida profissional, escrevia longos artigos para a imprensa. "Imagem de marca da minha infância é a minha mãe a dactilografar numa Hermes Baby, muito pequena, e ele a passear-se pelo escritório lá de casa e a ditar. A minha mãe dactilografava lindamente e ele achava que ela era a melhor secre­tária que poderia ter". Os escritos ocu­pavam-lhe noites inteiras. [No original de um] artigo para a revista "Defesa Nacional", fez uma vez uma nota, na qual explicava que acabara de chegar de uma recepção e continuara a escrever, com os colari­nhos ainda a apertarem-lhe o pescoço. "Ele é um compulsivo, sacrificava muito as horas de sono em favor da escrita", conta Iva Delgado.
Já em Washington, apura a veia de genuíno relações públicas e corta defi­nitivamente com o regime e os hábitos portugueses. Proíbe a família de falar de "doenças, criadas e crianças" nas recepções que organiza em casa. E avi­sa a mulher para não se vestir de preto, "porque isso é à moda das mulheres portuguesas", relembra a filha, a quem ele, certa vez, disse isto: "Sabes qual é a grande diferença entre um general americano e um general português?: o general português quando tem um furo chama o impedido [soldado raso] e pede-lhe para trocar o pneu. O general ameri­cano faz como eu, arregaça as mangas e troca ele mesmo o pneu".

B.H.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Media acríticos

OPINIÃO
Os partidários da conspiração já falaram sobre isto. Há na net documentários duvidosos sobre isto. Mas leia-se este artigo, de um académico. Pode valer a pena.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

A carta de Otelo

OPINIÃO
Otelo Saraiva de Carvalho escreveu uma carta ao director do Público, rebantendo alguns factos citados numa reportagem sobre o reencontro em Lisboa de Mário Soares com Frank Carlucci. Publicada hoje.

"Bateram casualmente os meus olhos na primeira página do Público de dia 23, e apressei-me a folheá-lo para, lendo a re­portagem produzida por Teresa de Sousa sobre o "Reencontro histórico" protago­nizado por Soares e Carlucci, confirmar algumas das suspeitas que mantenho sobre o chamado "Verão quente de 75" e o papel por ambos desempenhado durante aquele "ano de brasa" do período revo­lucionário ("o sempre saudoso PREC", como sempre dizia o nosso querido Zeca Afonso) que os portugueses viveram após o 25 de Abril 74.

Para lá de algumas confirmações obti­das, uma claras, outras, lidas nas entreli­nhas, a reforçarem a tese que publicamen­te tenho expendido sobre quem, o porquê e o como do fim da "revolução socialista" acontecido em 25 de Novembro 75, condu­ziu-me a leitura da reportagem à necessi­dade de remeter esta carta com vista à re­posição da verdade, já que, parafraseando Soares, que aprecia os americanos porque eles "gostam que lhes digam a verdade", tenho a impressão muito nítida de que os portugueses também disso gostam, motivo que me leva a apreciá-los muito e a não desejar, também por isso, que eles sejam enganados com falsas declarações.

Assim, contrariando as fantasiosas reminiscências dos dois gerontes produ­zidas perante a jornalista, afirmo catego­ricamente:

1 - Nunca conheci pessoalmente Frank Carlucci.

2 - Portanto, nunca almocei com Frank Carlucci.

3 - Nunca pedi a Frank Carlucci a sua morada em Lisboa e nunca mandei "al­guns soldados " para fazer a sua segurança a seu pedido.

4 - A única vez em que falei com Frank Carlucci foi em 11 de Março de 75, quando fez uma chamada telefónica para o Copcon, que eu comandava, no rescaldo dos aconte­cimentos, para me perguntar se era verda­de eu ter afirmado a uma estação de rádio de Lisboa ser minha convicção que o novo embaixador americano em Portugal era um homem da CIA e que alguma coisa te­ria que ver com a tentativa de golpe militar que tinha acabado de se verificar e que fora rapidamente jugulado por forças militares sob o comando do Copcon. Afirmações que não só ratifiquei como ainda acrescentei que, pessoalmente, o considerava persona non grata em Portugal e que, se fosse primeiro-ministro, lhe daria um prazo de 24 horas para ele abandonar o meu país. Considerações que me pareceram, então, francamente agastá-lo e que a mim me deram a satisfação do desabafo.

Fui acompanhando, depois do 25 de Novembro de 1975, a continuidade do seu sucesso como embaixador dos EUA, o seu regresso à pátria para assumir, em promoção pelo trabalho realizado em Portugal, as funções elevadas de number two da CIA, o retorno a Lisboa para instalação e presidência da EuroAmer e o "reencontro" com as amizades geradas nas angústias do PREC. "Enfin, lês beaux esprits se rencontrent" (...). "
Otelo Saraiva de Carvalho
Lisboa

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

3 de Outubro, dia mundial dos direitos digitais

OPINIÃO
Um artigo no Open Democracy chama a atenção para o movimento DefectiveByDesign, que está a organizar um protesto global para a próxima terça-feira, dia 3 de Outubro, frente às lojas da Apple. Os seguidores do movimento estão, e bem, contra o sistema DRM que a Apple instala nas músicas sacadas através do iTunes. Músicas pagas, portanto, pelo utilizador.
Quem as quiser, por exemplo, copiar para um CD para ouvir no carro ou emprestar ou fazer cópia de segurança não pode. Porque as músicas do iTunes têm acoplado o sistema DRM, que bloqueia qualquer possibilidade de reprodução.

Assim de repente, vem à memória o caso de um álbum dos Da Weasel. Há uns dois anos. O sistema anti-cópia intalado era de tal forma robusto que o CD nem tocava nos leitores de computador. Simplesmente, não tocava.

A indústria da música está em crise.
A pirataria está a desorientar as editoras, que durante muitos anos, muitos mesmo, tiveram lucros brutais com a venda de fonogramas. Essa era, é bom que se habituem, acabou. E não parece de todo razoável as editoras recorrerem a expedientes mais ou menos ilegais para tentarem ter lucro duas ou três vezes com o mesmo utilizador e a mesma canção.
Porque o que se é passa é simples: se não posso copiar
para um CD certo tema que comprei na net e que só toca no computador, ou não o faço, e é o meu direito de propriedade sobre o objecto (imaterial) que está em causa, ou tenho de fazer um segundo ou um terceiro download, pagando novamente.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Governo proíbe acesso a praia da Almagreira

FACTOS
O acesso à praia da Almagreira, em Peniche, vai ser proibido a partir de amanhã, por decisão dos ministérios do Ambiente e da Defesa. A portaria foi publicada hoje no Diário da República. A interdição, diz o Governo, justifica-se pela instabilidade das arribas da praia.

Velho conhecido da polícia

FACTOS
Pelo Público de hoje ficamos a saber que o homem que roubou duas pistolas à polícia Municipal do Porto é "um velho conhecido da polícia". Há uns tempos (não se sabe bem quando) roubou a carteira a uma juíza durante um interrogatório no Tribunal da Maia. "O furto só foi detectado já a juíza o tinha mandado em liberdade".

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Desemprego

FACTOS
O jornalista João Paulo Diniz está desempregado, contou ontem o Jornal da Noite da SIC. Aos 57 anos, decidiu publicar um anúncio no jornal Sol a pedir trabalho.

Vídeo: