sábado, 28 de outubro de 2006

O Fim da História ainda está longe













As manifestações, espontâneas ou não, a que assistimos nas últimas semanas, nomeadamente a da CGTP frente à Assembleia da República e as que sindicalistas e não sindicalistas têm organizado país fora sempre que o primeiro-ministro aparece, podem ter dois significados:

1) uma parte do país discorda frontalmente das decisões do governo (as que já produzem efeito e as anunciadas);
2) uma parte do país, consciente ou não disso, instrumentalizada ou não, está, tal como milhões de pessoas no Ocidente, perante uma irrefutável mudança de paradigma nas relações laborais e nos direitos sociais e quer resistir-lhe.
Num caso ou noutro, em resumo, é sabido que o mundo está a mudar para pior.


A jornalista
São José Almeida fala disso no Público de hoje:
"Perante essa nova elite superior socialmente, essa nova upper class, há uma nova classe trabalhadora em formação na Europa, que mais não é do que uma regressão em termos históricos e que consiste no regresso da generalização do trabalho precário, o novo precariado, na expressão que ouvi há dias a uma pessoas amiga. É o nascimento deste novo tipo de trabalhador, ou a resistência em aceitar esta nova condição, que pode determinar o que é a luta social na Europa actual."

Os chamados líderes de opinião (sempre os mesmos em quase todos os órgãos de comunicação social) e os mini
stros e o primeiro-ministro e outra gente com responsabilidades acha que o protesto, perante as restrições de direitos decorrentes da política socrática, é apego a privilégios antigos e injustificados.

Ora, é sabido que só as elites têm acesso aos media (aos tradicionais, que ainda são os que contam na formação de opinião). Os media são propriedade de elites. O conteúdo é da autoria de uma elite. Qualquer espécie de indigência só tem hoje lugar nos media por razões comerciais. Os indigentes não assinam colunas de opinião nos jornais, nem aparecem no telejornal para comentar a actualidade. Quem dá opinião sobre a política socrática é uma elite. A elite com consciência de classe (para usar um termo marxista) é escassa. Portanto, é escassa a resistência mediática a Sócrates.

Donde, só na rua, hoje, se afronta o sistema. E só nos media, e nos corredores do poder, é que a afronta é tida por desprezível.

O caso está grave. As grandes empresas são agora os únicos empregadores que contam. O Estado quer deixar de o ser e entregar aos novos empregadores a capacidade de regular o mercado, a bem do bom funcionamento do mercado, claro.

Se os próximos tempos, anuncia o nosso tempo, prometem clivagens cada vez mais injustas entre quem pode muito e quem pode
pouco (os jornais gratuitos, por exemplo, como parte da revolução da actual imprensa, são um sinal claro daquilo que o sistema destina aos desapossados, em contraste com os jornais pagos, com jornalismo de qualidade, destinados às elites), nenhuma ideia é mais reconfortante do que esta: se, como estabeleceu Marx, a luta de classes é o motor da História, estamos seguros de que declarar o fim dela é obviamente prematuro. Ao contrário do que escreve São José Almeida, não estamos a assistir a uma regressão histórica. Estamos, e estaremos na medida em que resistirmos aos novos paradigmas, a escrever a História.

Droga

Interessante este artigo da Slate sobre as convulsões no muito conservador Daily Telegraph.
Um excerto:

"As Max Hastings, who edited the
Daily Telegraph from 1986 to 1995, noted in his memoirs, what the Telegraph reader wants from his newspaper is a narcotic experience. "[O]ther titles are in the business of telling people each morning that the world is a quite different place from what it was yesterday," wrote Hastings. "The DT is much more in the business of reassurance, of providing confirmation each morning for our readers that their world is looking pretty safe and stable." Old England will get along just fine, and please pass the marmalade".

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Notas

Isto, podendo ser normal, é lamentável. (ver as datas que constam na resolução 55/2006)

Isto, podendo ser coisa de quem busca promoção, é, antes disso, coisa de pessoa sem medo.

Isto é pornográfico.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Recibos verdes socialistas

Num português de duvidosa qualidade, lê-se o seguinte no programa do segundo Governo de António Guterres (1999-2002):
"Há que preparar o futuro de modo a ter melhor trabalho numa economia mais moderna, através das principais medidas a adoptar neste domínio:
(...)
- adoptar legislação de protecção dos trabalhadores abrangidos pelas formas atípicas de trabalho, nomeadamente no âmbito do tele-trabalho, dos contratos a termo certo e dos recibos verdes".


Hoje, cerca de sete anos depois de aquele programa ter sido apresentado, com José Sócrates, o ministro do Ambiente de Guterres, no cargo de primeiro-ministro, lê-se isto no Correio da Manhã:
"Mais descontos nos recibos verdes

O regime de Segurança Social dos trabalhadores independentes vai ser o próximo alvo da reforma do sistema. A matéria ficou de fora do recente Acordo para a Reforma da Segurança Social, mas deverá começar a ser discutida pelos parceiros sociais e pelo Governo no início do ano".

Sócrates e a manipulação

Dirigentes do Partido Socialista, não identificados, ligaram este domingo a vários jornalistas para os impelir à cobertura de uma conferência de imprensa de militantes socialistas da CGTP. A notícia consta num artigo de opinião do jornalista Luciano Alvarez, hoje, no Público. Reproduz-se na íntegra, porque os artigos da edição online do jornal deixam de estar disponíveis para acesso livre dias depois da publicação.

Jornalistas de vários órgãos de comunicação social receberam ontem, por volta da hora de almoço, telefonemas de agitados dirigentes socialistas para anunciar um "assunto urgente" (assim foi "vendido" ao PÚBLICO). Nada mais, nada menos que uma conferência de imprensa "da corrente socialista da CGTP".
Ou seja, a meia-dúzia de militantes socialistas inscritos na CGTP manifestava-se não contra a luta da central pelas medidas governativas, mas pela forma como o PCP estará, dentro da CGTP, a manobrar a referida luta. Uma ninharia, mas suficiente para agitar o PS de Sócrates, que viu na coisa uma espécie de cisão grave na CGTP.
O ênfase do PS em promover esta iniciativa revela, porém, que os socialistas parecem ter entrado num estranho estado de desnorte, como o provam os dias horribilis do primeiro-ministro e do executivo - que tem vindo a cometer gaffes, erros, avanços e recuos uns atrás dos outros. Só no fim-de-semana somam-se mais dois: o suposto engano no aumento de 112,4 por cento no ordenado do ministro Pedro Silva Pereira (Presidência), que até ontem ninguém sabia explicar, e o anúncio feito por Correia de Campos (Saúde) de que os doentes que sofrem de patologias graves vão poder tomar os medicamentos nas farmácias e não apenas nos hospitais, o que deixou a Ordem dos Médicos à beira de um ataque de nervos.
Não é com fragilidades, desnorte, erros, avanços e recuos que se credibiliza um discurso reformista e que, tal como afirmou José Sócrates na noite de sábado, se convence os portugueses que o país "tem um rumo e uma orientação". Até porque começa a ficar a ideia que o primeiro-ministro não tem uma equipa suficientemente forte no Governo para levar por diante tais reformas.
Pior: a sequência de episódios dos últimos dias começa a ter algumas semelhanças com as trapalhadas de Santana Lopes.
Luciano Alvarez, "Público", 23 de Outubro de 2006

domingo, 22 de outubro de 2006

Sócrates e a censura

Que o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres, do Público, se dedica desde há vários meses a denunciar as manobras de propaganda e de censura do actual governo junto dos órgãos de comunicação social, não é novidade.
Começou com a crónica sobre os critérios da RTP na cobertura dos incêndios deste Verão, questão que está a ser analisada pela Entidade Reguladora da Comunicação Social e a deixar desorientado o director de informação da RTP.

Hoje, Cintra Torres volta a falar do assunto. Da propaganda de Sócrates junto dos media. A concordar-se com o que diz o critico, não se se trata já de propaganda. Trata-se de censura.
A propósito, convém perguntar: o ministro António Costa processou, desmentiu ou contradisse o presidente da Associação Nacional de Municípios, Fernando Ruas, por este ter afirmado no programa "Prós e Contras", da RTP, na passada segunda-feira, em debate com o ministro, que sabe e tem testemunhas de que o governo envenena as redacções com notícias falsas?
A resposta, por óbvia, permite trágicas conclusões.

Fundamentalismos

O antigo chanceler alemão Gerhard Schröder confessa sentir-se incomodado com o fundamentalismo religioso de Bush. No seu livro de memórias, a editar esta quinta-feira e do qual a Der Spiegel publicou ontem alguns excertos, Schröder diz que a veneração de Bush a Deus é "suspeita" e esteve sempre presente nas reuniões entre ambos.