domingo, 12 de novembro de 2006

Criptomnésia

A propósito do alegado plágio de Miguel Sousa Tavares, valerá a pena ler o que se segue. Foi publicado no nº 12 da revista de contos "Ficções", datada do segundo semestre de 2005. É uma nota ao conto "Lolita", de Heinz von Lichberg (1890-1951), traduzido para português por Marília Mendes. Uma vez que a directora da revista é Luísa Costa Gomes, será de supor que seja ela a autora desta nota. Ou será a tradutora?

Esta pequena curiosidade kitsch [o conto "Lolita"] teria continuado esquecida se na edição de 19 de Março de 2004 do Frankfurter Allgemeine Zeitung, não tivesse o ensaísta Michael Marr escrito que Nabokov, possivelmente de forma inconsciente, se inspirara nele para escrever o seu romance Lolita (1955). De facto, para Maar, as semelhanças são muitas: em ambos os casos um homem conta a história de um amor louco por uma jovem chamada Lolita, praticamente ainda criança. As duas são filhas dos donos da casa onde o homem está hospedado, este fica enfeitiçado logo à primeira vista e é Lolita quem seduz o homem. Mais ainda, salienta Maar num artigo posterior, há semelhanças entre o enredo de outro conto de Lichberg, Atomit, e o drama A Invenção de Waltz de Nabokov. Walzer (waltz — valsa, em inglês) é também o nome dos irmãos gémeos do conto Lolita. É possível que Nabokov conhecesse este conto? Ele viveu entre 1922 e 1937 em Berlim, na mesma parte da cidade que Lichberg. Sabia alemão e traduziu poesia de Heine e a dedicatória do Fausto de Goethe para russo. Não tinha os alemães em grande consideração, mas era admirador de Hoffmannstahl e de Kafka. Poderia também, conclui Maar, ter conhecido A Maldita Gioconda do então famoso jornalista Lichberg. O artigo de Maar gerou uma onda de polémica dentro e fora da Alemanha, e foram muitas as vozes que se ergueram contra a sua tese. Uma hipótese que Maar avança, mas que ele próprio põe em causa, é a de que Nabokov teria, ao escrever Lolita, «sofrido » de criptomnésia, ou seja, terá reprimido inconscientemente uma memória que acaba por lhe aparecer como criação original. O conceito de criptomnésia tem, obviamente, inúmeras implicações nas questões da criação e da intertextualidade. Outra possibilidade, menos rebuscada, para a eventual omissão, se de facto existiu, prender-se-ia com o facto de Lichberg ser nazi dos mais activos e Nabokov ferozmente antinazi (o irmão morreu num campo de concentração).

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Brad Pitt em calções

Capa do número de Dezembro da Vanity Fair, com Brad Pitt de tronco nu e calções. Raridade. Deve chegar a Portugal no fim deste mês.

Matreirices

Diz o DN que "há cerca de 100 mil ofertas de emprego ou acções de formação profissional que são recusadas por ano pelos desempregados inscritos nos centros de emprego". A fonte da notícia é Francisco Madelino, presidente do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).

Nem o jornal, nem a fonte explicam:
- quantos desempregados é que recusaram as 100 mil ofertas (o universo pode ser de 2 ou de 200 mil desempregados, não se sabe);
- porque é que o número de recusas é em média sempre o mesmo todos os anos;
- de que anos estamos a falar;
- quais são as ofertas recusadas (local de trabalho, remuneração, vínculo, duração);
- quais as razões invocadas pelos desempregados para recusarem as ofertas.


Não explicam, mas deviam explicar.

Outra objectividade

Chegará o dia em que a imprensa assumirá que a objectividade é um mito ou que objectividade em excesso afasta o público da imprensa?

O estudo "On Behalf of Journalism: A Manifesto for Change", da autoria de Geneva Overholser, e ao qual chegámos por via do Ponto Media, é elucidativo.

Na era da imprevisibilidade, a autora do estudo foi tentar saber o que deve a imprensa fazer para parar de se afundar. Conclui ela, entre outras coisas, que:

"A change in the nature of journalism’s commitment to objectivity is probably coming whether journalists embrace it or not. For one thing, the tone of journalism is very different online, with inevitable impact on traditional media. For another, the public here again feels differently from journalists. The Annenberg 2005 survey showed that the American public disapproves only narrowly of partisan journalism while journalists disapprove heartily: 16 percent of the 673 journalists polled and 43 percent of the 1,500 members of the public said it was “a good thing if some news organizations have a decidedly political point of view in their coverage of the news.” Eighty percent of journalists and 53 percent of the public said it was “a bad thing.”

O excesso de objectividade e distanciamento podem até ser contraproducentes:

"Coverage driven by grief and hope is exactly not what objectivity has been. The commitment to being dispassionate often felt to consumers like a lack of concern. Disinterest came across as uninterested – and uninteresting. More and more, Americans are trusting the information they get from sources with a “voice,” including comedy programs like The Daily Show, documentaries like An Inconvenient Truth or theater like Stuff Happens, and Fox News’s remarkable growth stems in significant part from its clear point of view."

Histórias contadas com paixão e pouca distância, mas muito bem sustentadas por fontes e citações, podem fazer muito pelo jornalismo, sugere o estudo. Mas sem responsabilidade não se vai lá:

"For all the change afoot, journalists can considerably strengthen their own position by doing a better job of holding themselves accountable and making their work transparent. This movement toward greater accountability is gathering strength, as shown by the record of organizations at media-accountability.org, assembled by the world master on accountability, Claude-Jean Bertrand, a professor emeritus at the Institut Francais de Presse. These systems take many forms, from ombudsmen to journalism reviews to reader advisory councils. They are established to reassure readers who have long wondered who is watching the watchdog – and, not incidentally, to ward off government regulation."

sábado, 4 de novembro de 2006

Expiação

Os neoconservadores americanos que sustentaram e aconselharam a administração Bush arrependem-se da invasão do Iraque. Num artigo publicado ontem na edição online da Vanity Fair, Richard Perle, conselheiro da departamento de Defesa, e Kenneth Adelman, assessor de Donald Rumsfeld, entre outros, acusam a administração Bush de incompetência na gestão desse problema. Se fosse hoje, dizem, teriam procurado outras soluções para depor Saddam Hussein.
Este artigo, intitulado "Neo Culpa", é chamariz para um outro, mais extenso, a publicar no número de Janeiro da VF (que deverá estar à venda, lê-se no texto, no início de Dezembro).
A foto que reproduzimos é da autoria de Annie Leibovitz. Foi originalmente publicada na VF em Fevereiro de 2002.

"Dou-lhe asilo político na Madeira"

Na RTP 1, quinta-feira à noite:

Judite Sousa: sô ‘tor agradecia que respondesse às minhas perguntas...
Alberto João Jardim: Não, e eu agradecia que me deixasse perante os portugueses hoje, já que eu andei censurado estes anos todos, que dissesse perante os portugueses a verdade sobre o que têm andado a ser enganados.
J.S.: Claro, dou-lhe condições para isso.
J.: Muito obrigado, e não esperava outra coisa de si senão isso.

(…)

J.S.: Porque é que o sô ‘tor não aceita que os Açores é uma região mais carenciada do que a Madeira e precisa de mais transferências financeiras…
A.J.J.: Espere, ainda não acabei de lhe explicar… Ó minha senhora eu acabei de dizer… Eu aposto consigo como vou dizer os números todos hoje, mesmo que não me deixe.
J.S.: Não vamos ter tempo para isso.
A.J.J.: Ah, não são muitos.

(…)

J.S.: O seu colega dos Açores diz uma coisa completamente diferente.
A.J.J.: A gente não vai falar de quem não está aqui.
J.S.: O seu colega dos Açores diz que, se tivesse os recursos que o doutor Alberto João Jardim tem tido, a Madeira hoje era mais rica do que é. Como é que o senhor responde a esta crítica do seu colega dos Açores?
A.J.J.: Olhe, o senhor Carlos do Vale César profissionalmente era funcionário do partido Socialista, de maneira que isso é uma conversa de funcionário do PS… Essa coisa de dizer que a minha tia se não tivesse morrido ainda era viva isso é uma tontice, eu não respondo a tontices.

(…)

J.S.: Ó sô ‘tor, mas diga-me o seguinte: esta é uma pergunta que muitos portugueses farão, sô ‘tor: como é que o sô ‘tor Alberto João explica…
A.J.J.: Mas eu não posso responder aos portugueses, porque a senhora interrompe-me.
J.S.: Mas eu estou a fazer perguntas, sô’ tor, uma entrevista pressupõe perguntas e respostas.
A.J.J.: Compreendo, está a ser muito profissional, eu sei que estou com uma profissional muito difícil, está-me a dar luta e parabéns.
J.S.: Como é que o sô ‘tor explica que ao longo dos anos…
A.J.J.: Eu não explico nada.

(...)

J.S.: O sô ‘tor não respondeu à minha pergunta…
A.J.J.: Nem vou responder, se calhar. Vou responder daqui a pouco.
J.S.: Mas é importante, sô ‘tor.

(…)

J.S.: Já que o sô ‘tor considera que esta lei é inconstitucional…
A.J.J.: É que eu tenho aqui muita coisa para lhe contar, que os portugueses andavam enganados…
J.S.: Vamos ver se vamos ter tempo para isso.
A.J.J.: Não é ‘vamos ter tempo’, os portugueses têm o direito de ser informados.

(…)

A.J.J.: Está a defender um governo que mente descaradamente.
J.S.: Não, não, estou a perguntar-lhe… Sô ‘tor, estou a perguntar-lhe. Doutor Alberto João Jardim, eu agradecia que respondesse às minhas perguntas.
A.J.J.: Eu não lhe respondo.

(…)

A.J.J.: Paralelamente, [o governo] perdoa a alguns regimes cleptocratas africanos as dívidas deste regime e a Madeira leva mais uma pancada.
(…)
J.S.: Está a falar da barragem de Cahora-Bassa?
A.J.J.: Estou a falar de tudo, porque os portugueses estão fartos de pagar os africanos.

(…)

A.J.J.: Agora devolvo-lhe a questão: estava a dizer que a Madeira cresceu, a Madeira Cresceu…
J.S.: Mas eu não sou a entrevistada, sô ‘tor.
A.J.J.: Não, não, mas agora entrevisto-a eu, que já tive o prazer de ser jornalista.

(…)

A.J.J.: Agora é que o secretário-geral do partido Socialista teve um resultado iraquiano lá dentro do partido Socialista. Mas... Tem piado, quando eu, na altura...
J.S.: Temos que acabar, sô ‘tor.
A.J.J.: Pois temos, porque eu estava a falar no secretário-geral do partido Socialista.
J.S.: Não, não, não é por isso, já ultrapassei em cinco minutos o nosso tempo.

(…)

J.S.: Obrigada por ter vindo esta noite à "Grande Entrevista"...
A.J.J.: Peço desculpa se falei muito impetuosamente, e...
J.S.: Mas é o seu estilo...
A.J.J.: E vou-lhe fazer um desafio, o desafio final: se sofrer consequências pelo facto de me ter convidado, dou-lhe asilo político na Madeira.
J.S.: (gargalhada). Muito obrigado, doutor Alberto João Jardim por ter estado aqui esta noite.

RTP nega alegada pressão de assessor do governo

A notícia que faz manchete no Expresso deste sábado é mais um contributo para o debate sobre as alegadas pressões do governo Sócrates sobre a comunicação social:

Agostinho Branquinho, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, garante que as pressões do Governo sobre a informação da RTP estão a ganhar contornos ‘‘completamente despudorados’’. O deputado ilustra a denúncia de um episódio que, diz, se passou ‘‘no último meio ano’’: um assessor de José Sócrates exigiu falar com o pivô da RTP 1 durante a emissão, para mudar uma notícia.

‘‘Temos conhecimento desta situação em concreto: um assessor do primeiro-ministro que quis falar com o pivô durante a apresentação de um dos jornais nacionais’’, afirmou ao Expresso o social-democrata. De acordo com o responsável do PSD, que acompanha no Parlamento as questões ligadas à comunicação social, ‘‘estava em causa uma notícia que era desagradável para o Governo’’, e que o referido assessor de Sócrates tentou condicionar, falando ‘‘com o editor e com o pivô’’. Ainda segundo Branquinho, o colaborador de Sócrates conseguiu falar com o apresentador, enquanto o noticiário decorria, mas, ‘‘apesar das pressões’’, não foi mudada a notícia nem o alinhamento.

Mesmo depois da insistência do Expresso, o presidente da distrital do Porto do PSD recusou-se a identificar os protagonistas do caso, bem como o noticiário em que tudo se passou e o assunto que motivou a alegada tentativa de intervenção. ‘‘Só poderei revelar mais informação se a pessoa em causa me autorizar. De outra forma, comprometeria alguém que teve hombridade e dimensão profissional’’, diz.

O deputado garante que tem “conhecimento directo’’ dos acontecimentos, mas lembra que ‘‘também um crítico de televisão se referiu ao caso’’. Segundo Branquinho, tratou-se de uma ‘‘tentativa de intervenção despudorada’’ que ‘‘deu nas vistas’’. “Há mais pessoas que sabem’’, assegura.

Os três pivôs do Jornal da Tarde, produzido no Porto, negam peremptoriamente ter sido contactados por algum membro do Governo com o intuito de interferir no seu trabalho. Carlos Daniel, Hélder Silva e João Fernando Ramos dizem que o caso não se passou com eles, e garantem que nunca ouviram sequer falar do assunto. “Nem como pivô, nem enquanto director de informação, fui contactado por qualquer governante”, disse ao Expresso Carlos Daniel. Hélder Silva diz que não é ele o protagonista dessa história e confessa a sua estranheza: “Não era a um pivô que eles ligariam, se quisessem influenciar a informação”. Fernando Ramos reitera essa ideia: “É o editor quem tem responsabilidade editorial. Não faria sentido ligar a um pivô’’.

‘‘Não aconteceu comigo, nem tenho conhecimento de um caso desses’’, diz, por seu lado, José Alberto Carvalho, pivô do Telejornal e director-adjunto de Informação. O Expresso tentou ouvir ainda Judite de Sousa e José Rodrigues dos Santos, também pivôs do Telejornal, mas estes não responderam até ao fecho da edição.

‘‘É uma insinuação que não merece comentários’’, afirmou ao Expresso o gabinete de imprensa de Sócrates. ‘‘Isso é completamente fantasioso’’, responde, por seu lado, Luís Marinho, director de informação de RTP. ‘‘Nunca ouvi falar nisso. É tão bizarro que, a ter acontecido, eu saberia. Muito estranharia se tivesse acontecido e não me tivessem informado’’, disse o responsável pela informação da televisão pública. Embora reconheça não ser impossível que um telefonema do exterior chegue a um pivô durante o noticiário, Marinho diz, com ‘‘90% de certeza’’, que é ‘‘quase impossível’’ que se tivesse passado o que o dirigente do PSD conta.

Para Marinho, as alegações do deputado fazem parte da ‘‘campanha’’ que este vem fazendo contra a RTP. ‘‘O que o dr. Branquinho está a fazer é aquilo de que acusa o Governo: pressão descarada. Há alguém que faça mais pressão sobre a RTP do que o dr. Branquinho?’’, questiona o director de informação.

Esta semana, Branquinho lançou no Parlamento mais acusações de governamentalização. Em declarações ao Expresso, acrescentou outro caso: o facto de Miguel Sousa Tavares ter assumido na ‘Visão’ o convite de Sócrates para director da RTP. ‘‘O primeiro-ministro convidar directamente o director da RTP é a prova provada da governamentalização’’, diz o deputado, lembrando que ao Governo compete escolher a administração da empresa, mas não os directores.

Filipe Santos Costa, com Ricardo Jorge Pinto, "Expresso", 03/10/2006