terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Viva a cópia

Eles gostam de misturar tudo, que é para terem sempre razão. Só que é preciso não misturar tudo e reconhecer-lhes apenas razão parcial.

A notícia do Diário de Notícias de hoje diz que "este ano foram apreendidos em Portugal cerca de 40 mil livros pirateados", o que "representa, para as editoras, um prejuízo superior a 50 milhões de euros por ano, só na área do ensaio ou do chamado livro técnico ou científico".

Tal como no negócio do disco e do vídeo, o problema nunca é posto assim: os escritores, músicos ou realizadores (e tradutores e revisores e produtores e actores e designers e etc.) perdem dinheiro com a cópia ilegal. O problema é posto assim: as editoras, coitadinhas, perdem muito dinheiro por causa de uma horda de piratas.

Se esta segunda forma de por as coisas revela que as editoras pouco se importam com os criadores (ainda alegam, de vez em quando, que, se morrerem, os criadores morrem com elas, mas toda a gente sabe que isso não é verdade: há uma coisa chamada Internet, que dispensa intermediários na publicação do que quer que seja, e aí é que bate o ponto), revela, também, que as editoras gostam de se esquecer dos preços vergonhosos que as pessoas têm de pagar.

Por princípio, eu compraria um livro de que gostasse, mesmo que fosse caro, mas, evidentemente, fotocopiaria um livro que fosse obrigado a ler (na universidade, por exemplo), se o original fosse caro.


A única coisa condenável é haver gente a copiar obras originais para as revender, no mercado negro. O resto é conversa.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Poetas

NOVAS BABILÓNIAS

Neste tempo de sucessos

de quedas e ascensões
para o topo dos topos
para o gelo dos copos
para a vala das gerações
novos Bogarts em velhas gabardines
novas Madonnas em velhas Marilyns
crestam lendas nos magazines
ao ritmo das ilusões

Novas Babilónias erguem-se do pó

E lê-se tudo em diagonal
e tudo chega a horas a Portugal
o comboio está agarrado
por fim o tempo está mesmo ao lado
já chegou o Desejado
e o sonho está normalizado
na suave proporção
de um x elevado a um cifrão

Novas Babilónias erguem-se do pó

Tudo é novo e velho num vaivém de espuma
tudo se refunde no brilho da bruma
e vós combatentes de guerras idas
contentes lambendo as mãos do rei Midas
Joanas, Joões de arcas perdidas
saltadores de fogueiras já ardidas
cinzas de cinzas de cinzas
bem-vindos ao Império das coisas parecidas

Novas Babilónias erguem-se do pó

Carlos Tê

sábado, 23 de dezembro de 2006

Poetas

ECO

Semeiam
lembranças de um fogo antigo,
as coisas,
e agarram-se a nós
com desmedida violência,
ou nós a elas, tanto faz.

As coisas voltam-se para nós
e participam encantadamente
dos nossos gestos,
os que determinam
a nossa vida
por exclusão
dos que, em suspenso,
ficaram na nossa vontade.

Entregues ao que nos consome,
desenham-se e alongam-se
as coisas sobre a terra.

Luís Quintais

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Malgosia

A mulher chama-se Malgosia e é de origem polaca, tal como o autor da fotografia, Remi Pyrdol. Vivem os dois em Brooklyn. São vizinhos. Conheci-o a ele, há umas semanas. É um fotógrafo muito dedicado, capaz de perder horas à conta de uma imagem. Muito bom.

Notas

1) A CIA disse a Bush, no Outono de 2002, que o Iraque não tinha armas de destruição maciça, revelou esta noite ao "60 Minutes", da CBS, o antigo director da CIA na Europa.

2
) Na Time, o método de trabalho de David Lynch no seu último filme, Inland Empire (que só se estreou em algumas salas americanas e que será editado em DVD no próximo ano):
"I'd get an idea for a scene, write the scene, gather people together and shoot that scene," says Lynch. "I didn't know if the second scene would relate to the first or the third." This is where Lynch's decades-long commitment to transcendental meditation--which he documents in a new book, Catching the Big Fish: Meditation, Consciousness, and Creativity--came in handy. "Since I believe in the unified field, which unites everything, I figured some day I would understand that they do relate," he says.

3) A cocaína nunca largou a pop e agora entrou em força no rap, diz a New Yorker:
"Cocaine is again a fashionable vice. (...) Hip-hop has always been driven by an imperative to employ the most vibrant words possible; cocaine rap takes this command to an inventive extreme".

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Conversa da treta

A colecção de arte de Joe Berardo está avaliada, segundo a Christie's, em 316 milhões de euros, anunciou hoje a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, numa cerimónia pública no Centro Cultural de Belém. O valor é suficiente para construir três Casas da Música ou dois Centros Culturais de Belém, disse a ministra. Para ela, albergar a colecção no CCB constituía um "dever patriótico".

A avaliação foi feita peça a peça. Só um dos quadros de Picasso vale 18 milhões de euros, outro, de Bacon, vale 15 milhões, disse há minutos Isabel Pires de Lima no Jornal das 9, na SIC Notícias.

A abertura do Museu só acontece no segundo semestre de 2007, o que contradiz os prazos inicialmente avançados (fim de 2006). Em Julho, haverá um espectáculo "nunca visto" de apresentação da colecção, disse Berardo na cerimónia de hoje.

O Estado vai dar a Berardo 500 mil euros por ano para a compra de novas obras. E o funcionamento do museu custará ao Estado 1,5 milhões de euros em 2007, anunciou a ministra na SIC Notícias.

O fim da Festa da Música do CCB, diz Pires de Lima, não se fica a dever à abertura do museu Berardo.

Governo diz que Luís Amado não mentiu

Um porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros diz que "não houve mentira ou omissão deliberada" e que "o governo vai continuar a fazer o levantamento de todos os casos detectados".

A revista "Visão" revela na edição de amanhã que as informações que o governo português prestou ao parlamento europeu sobre os voos da CIA terão omitido dados quanto ao sobrevoo do território nacional. O ex-ministro da Defesa Luís Amado prestou informações consideradas erradas.

A revista "Visão" teve acesso à lista de 94 voos da CIA de e para a base de Guantanamo, que já foi entregue em Bruxelas pela eurodeputada Ana Gomes. Essa lista contradiz as informações prestadas por Luís Amado em Junho ao parlamento europeu. Sobrevoaram o território português 77 aviões, 17 dos quais fizeram escala nas Lages e em Santa Maria.

(notícia de abertura do Jornal das 9, da SIC Notícias)