sábado, 27 de janeiro de 2007

Cavaco deixou o país de rastos, diz Joe Berado

Joe Berardo, sobre Cavaco Silva, em entrevista ao Jornal de Notícias, ontem:

"[Cavaco Silva] Não entendeu o que está em causa [no acordo celebrado entre Berardo e o Estado para a criação do Museu Berardo no Centro Cultural de Belém]. Não lhe pedi opinião, mas se tinha dúvidas devia ter-me ligado. Como é demasiado superior não teve a dignidade de me chamar. Ainda hoje estamos a sofrer, em Portugal, porque ele deixou o país de rastos quando foi primeiro-ministro."

"A pobreza começa e acaba na falta de controlo sobre a existência"

Belíssima e lúcida a crónica de Clara Ferreira Alves no Expresso de hoje, a propósito do referendo ao aborto:

OS PATRÍCIOS e os plebeus nunca se encontram com poder igual, e os patrícios e os escravos muito menos. Os pobres e os ricos também não. Era assim em Roma e é assim em Portugal. Parte da discussão sobre o Sim e o Não num país que prefere o Talvez, centra-se em questões laterais à descriminalização do aborto ou «interrupção voluntária da gravidez» e incide sobre juízos morais e sociais, uns de boa fé e outros de má fé. É muito difícil falar em pobres e ricos desde que se inventaram os excluídos e os desfavorecidos, duas fórmulas amáveis do reino do talvez. Como consegue alguém que vive num mundo confortável, protegido pelos colchões e almofadas da prosperidade, com uma casa e uma família, com as vantagens da ausência de ansiedade, conhecer a insegurança que a pobreza dá? A pobreza começa e acaba na falta de controlo sobre a existência, uma situação em que se está sempre à mercê do outro, dos outros, os que têm poder sobre as vidas alheias. A falta de controlo gera o medo, que é o estado natural de quem não consegue ordenar a sua vida segundo a sua cabeça e a sua determinação. O medo gera a fraqueza, que não ajuda a tomar decisões sensatas ou altruístas. A discussão e paixão em torno do caso do pai biológico Baltazar e da mãe Aidida e da criança adoptada pelo casal que agora enfrenta a justiça e a prisão trazem para a luz problemas vários que nos ajudariam a ver mais claro o que está em causa no referendo sobre o aborto. Na verdade, o pedido de habeas corpus e as 15 mil assinaturas que exigem que o sargento Gomes seja subtraído a uma pena de prisão que não merece juntam nomes que são a favor do Sim com nomes que são a favor do Não. A história, que não poderia ser resolvida por um Salomão contemporâneo, diz-nos que a mãe se viu grávida de uma relação ocasional e que avisou o pai biológico do facto, deparando com a indiferença. Depois de a criança nascer, a mãe, uma estrangeira pobre e sem protecção, pediu ajuda e tentou arranjar um casal que tomasse conta da filha, renunciando à maternidade. Muitas mulheres na situação de Aidida abortam, e abortam em condições miseráveis e clandestinas, sem apoio do pai biológico que agora os tribunais tanto exaltam, e sem apoio médico ou jurídico. Abortam porque são pobres, estão sozinhas, foram abandonadas e nada controlam da sua vida. Abortam porque não conseguem ter a coragem que Aidida teve (e podemos chamar-lhe cobardia, ou não?) de dar à luz e renunciar, entregar a criança a outros pais. Abortam porque têm medo, e não têm dinheiro. Abortam porque não existe nas suas vidas desconfortáveis espaço para uma maternidade responsável e consciente. Melhor seria que não se vissem nestas condições, mas o certo é que vêem e que o país está cheio de potenciais pais biológicos que são os primeiros a descartar-se da responsabilidade e do fardo e a imputarem à mulher, mesmo quando a relação não é ocasional e pode ser matrimonial, a responsabilidade e a «culpa» de não ter prevenido a gravidez indesejada. A culpa, claro.

Esta é a realidade, e neste ponto da realidade só quem está dentro dela sabe o que se passa. O caso da Aidida é a excepção. Não apenas porque as grávidas naquela situação não conseguem ter lucidez no meio do pânico, mas também porque não existem por aí tantos casais dispostos a receber uma criança. E todos sabemos o tempo e as dificuldades burocráticas da adopção em Portugal. A Segurança Social portuguesa não resolve casos urgentes. Se a excepção acaba com a sentença de prisão do pai adoptivo, e não coloco aspas na palavra, e com a entrega de uma criança de cinco anos a um pai que nunca viu e que não quis saber dela em tempo útil, ou seja, quando a mãe ficou grávida e o avisou, um pai que exige uma «indemnização» dos pais adoptivos, estamos num pântano moral pior que o pântano jurídico. Uma mulher que siga esta história e veja os seus trágicos desenvolvimentos, não hesitará em abortar. Não estamos a referendar a desvantagem moral de abortar, ou a vantagem moral de ser mãe. Estamos a referendar isto: uma mulher numa situação de descontrolo da sua vida e do seu corpo, deve ou não ser mandada para a prisão? Deve ou não ser ajudada a tomar a melhor decisão, num meio clínico competente, que a apoie e aconselhe dentro dos prazos legais? Ou devemos deixar a vantagem das clínicas e conselhos de luxo aos que têm dinheiro e educação e competência para os pagar e solicitar? Como é possível que não se entenda que o aborto clandestino é um problema de classes sociais e de falta de poder e não um reduto moral? A moral pertence a quem comete os actos e aos juízos de valor que esses actos justificarem, não pode nem deve ser uma moral por decreto e tipificada pela religião ou o Código Penal. O desvelo que a lei agora colocou na protecção deste pai biológico, devia ser exercido quando a mãe ficou grávida? Sim? Não? Talvez? Nesse momento, o MP ainda não pode obrigar um pai a perfilhar um filho por nascer, ou fazer testes de DNA. O que quer dizer que a lei só pode substituir-se aos cidadãos e aplicar-se quando falharam os indicadores morais, as resoluções íntimas. A lei vem quando falha o resto, quando falha a protecção, quando falha a decisão. No caso do aborto criminalizado, a lei pretende substituir a protecção e a decisão pela condenação e a punição, a lei pretende impor uma sanção num território físico e moral que não lhe pertence e onde só deve entrar em situações terminais. A lei não está antes dos cidadãos, está acima deles. As mulheres têm de deixar de ter medo.

Clara Ferreira Alves
Expresso, 27/01/2007

Notas

1 - O parlamento vai votar o Estatuto do Jornalista na próxima quinta-feira.

2 - A eurodeputada socialista Ana Gomes disse hoje, em Lisboa, ter entregue ao procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, “indícios relevantes” de conivência do Estado português com “ilegalidades e graves violações dos direitos humanos” no transporte ilegal de prisioneiros.

3 - O juiz Alfredo Costa, do 5º Juízo do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa, assinou um mandado de detenção contra José Maria Martins, advogado de Carlos Silvino no processo Casa Pia. O mandado é de 5 de Janeiro e a PSP tem 45 dias para o cumprir. De acordo com uma fonte próxima do processo, José Maria Martins é acusado pelo dono de uma empresa de estafetas instalada num prédio da Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, de violação de domicílio, coacção e ameaça. O insólito episódio foi filmado pela TVI e é um dos vídeos portugueses mais vistos no site ‘YouTube’ - o advogado é posto fora da empresa a empurrão, incita o repórter a filmar e rebola pelo chão antes de apanhar várias moedas do solo. (Expresso de hoje)

4 -
O compositor Emmanuel Nunes recebeu de Mário Vieira de Carvalho a «garantia» de que a sua ópera Das Märchen, encomendada pelo São Carlos, irá realizar-se nos moldes que deseja - isto é, com audições para a escolha do elenco. O próprio Nunes afirmou, em declarações ao Expresso, que a conversa com o secretário de Estado da Cultura só pode significar «que a política vai mudar em breve», o que tem como leitura imediata a substituição do director do Teatro. Mário Vieira de Carvalho não assume a intenção de substituir Paolo Pinamonti, mas fez saber, pelo seu gabinete, que garantiu a Nunes «a realização da ópera», frisando que isso não representa um acto de «ingerência» na programação do São Carlos, mas sim «um caso de prioridade política». (Expresso de hoje)

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

PGR não diz nada

A Procuradoria-Geral da República (PGR) remeteu-se ao silêncio, quanto a uma eventual investigação relacionada com os meandros que ditaram a abertura do Casino de Lisboa, que estará pendente no Departamento Central de Investigação e de Acção Penal, ontem anunciada pelo Diário de Notícias.
Um responsável da PGR, ontem contactada pelo PÚBLICO, recusou-se a prestar qualquer esclarecimento sobre aquele assunto, cujo conhecimento resultou de escutas a Abel Pinheiro, responsável pelas finanças do CDS-PP e um dos principais arguidos do processo Portucale. (no Público, hoje; texto de António Arnaldo Mesquita)

"Mais belo um adágio popular do que uma frase de literato"

Foi há quase 80 anos que José Régio escreveu o texto que se segue — brilhante dissertação sobre o que são a originalidade e a sinceridade na literatura. A grafia é a original.

Literatura Viva

Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos mais, (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjectivo
original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjectivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro... Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence a literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas — mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre outras qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afectadas, semelhantes qualidades não passarão dum truc literário.

Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizaram grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe êsse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade. A falta de originalidade da nossa literatura contemporânea está documentada pêlos nomes que mais aceitação pública gosam. É triste — mas é verdade. Em Portugal, raro uma obra é um documento humano, superiormente pessoal ao ponto de ser colectivo. O exagerado gôsto da retórica (e diga-se: da mais sediça) morde os próprios temperamentos vivos; e se a obra dum moço traz probabilidades de prolongamento evolutivo, raro esses germens de literatura viva se desenvolvem. O pedantismo de fazer literatura corrompe as nascentes. Substitue-se a personalidade pelo estilo. Mas criar um estilo ,já é ter uma personalidade. E quem não tem personalidade só pode ter um estilo feito, burocrata, erudito, amassado de reminiscências literárias, de auto-plágios, e de pobres farrapos sobreviventes ao naufrágio. Assim se substitue a arte viva pela literatura profissional. E é curioso: Só então os críticos portugueses começam a reparar em tal e tal obra: Quando ela exibe a sua velhice precoce e paramentada. Regra geral, os nossos críticos são amadores de antiguidades. Em vez de lhes alargar o gosto, a erudição amarelenta-lhes a alma... Mas esta é outra questão, bem digna de ser tratada menos acidentalmente. Volto ao meu assunto, e suponho agora um exemplo talvez mais consolador: O escritor português tem e mantém uma personalidade. Pergunto: É essa personalidade suficientemente rica para que produza uma obra rica de conteúdo e de continente, de substância e de forma? É regra geral — presto homenagem às excepções— os nossos artistas terem uma mentalidade insuficiente; uma sensibilidade por vezes intensa, mas reduzida; e uma visão unilateral da vida. Esgotados em dois ou três livres, rapetem-se confrangedoramente. E o seu progresso é puramente linguístico, superficial e negativo, porque breve a língua deixa de ser um meio vivo de expressão artística. É um instrumento quási inútil, que se aperfeiçôa (?) segundo êste ou aquele preconceito.

Da pouca originalidade da literatura portuguesa, naturalmente resulta em grande parte a sua pouca sinceridade. Ter uma maneira, é para o nosso escritor achar um certo número de contrafacções que se lhe afiguram mais dentro da sua indecisão de personalidade. O escritor passa então a produzir literatura mais ou menos mecânica. É-me desagradável falar dêstes pobres exemplares da nossa mediocridade; mas assim é preciso: tanto mais que o problema da sinceridade é hoje complicado, como, de resto, todos os problemas contemporâneos. A expressão directa, simples, orgânicamente ingénua, tenta sem dúvida o artista moderno; mas não parece ser característica dele. Os artistas de hoje mais directos, mais simples, mais ingénuos — são-no conscientemente. Salvo raríssimas excepções. Ora ser conscientemente ingénuo, simples, directo, já é complicar-se. A complicação que julgo ver na Arte moderna pode, pois, tomar aparências de pouca sinceridade: O lirismo e a ironia, o abandôno e a atitude, o subconsciente e a razão — emaranham-se na arte de vários mestres contemporâneos. Daí resulta uma novidade de processos e meios de expressão que surpreende, irrita, perturba, ou provoca o desdém dos não iniciados. Mas os verdadeiros não iniciados são os que não teem probabilidades de iniciação. E dêsses, nada a esperar. O verdadeiro papel do crítico é pois discernir e separar os simuladores, mais ou menos hábeis que êles sejam, dos criadores autênticos. Os primeiros existiram em todos os tempos, e são os responsáveis de toda a literatura morta de qualquer tempo. Os segundos também existiram em qualquer tempo, e é através deles que a arte literária chegou até nós viva, portanto susceptível de evolução. Os processos e as formas que êles descobriram eram os mais aptos a revelar a sua sensibilidade; e por certo foram inovação no seu tempo. É natural que a sensibilidade contemporânea já não caiba nessas fórmulas, consagradas por e para sensibilidades diferentes. Natural é, portanto, que os grandes artistas de hoje sigam o exemplo dos grandes artistas de ontem. O fundo eterno, imutável, contínuo, da humanidade e da arte manter-se-há [sic] poderosamente na obra de todos os grandes. E direi que é sobretudo nos inovadores que êsse fundo aparecerá mais virgem.

Eis como tudo isto se reduz a pouco: Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo êsse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que êle produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço. E é apenas por isto que os autos de Gil Vicente são espantosamente vivos, e as comédias de Sá de .Miranda irremediàvelmente mortas; que todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Bôtto; que os Sonetos de Camões são maravilhosos, e os de António Ferreira massadores; que um pequeno prefácio de Fernando Pessoa diz mais que um grande artigo de Fidelino de Figueiredo; que há mais fôrça íntima em catorze versos de Antero que num poemeto de Junqueiro; e que é mais belo um adágio popular do que uma frase de literato.
José Régio
(revista "Presença", nº 1, 10 de Março de 1927)

Alteração à lei do jogo pode ter resultado de pressões

O processo que levou à construção de um novo casino em Lisboa e uma alteração à Lei do Jogo, feita em Dezembro de 2004 já após a dissolução do Parlamento, são dois casos que constam do chamado processo Portucale, cujo objecto central passa por suspeitas de tráfico de influências na aprovação de um empreendimento do Grupo Espírito Santo na Herdade da Vargem Fresca, em Benavente. (no Diário de Notícias, ontem; texto de Carlos Rodrigues Lima)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Tranferências mais rápidas

Já não vai ser preciso esperar tantos dias pelas transferências bancárias. "Os depósitos em numerário efectuados em terminais automáticos implicam a disponibilização do saldo no dia útil seguinte", diz a lei publicada hoje no Diário da República. Entra em vigor a 15 de Março.