domingo, 18 de março de 2007

Portugal continua dominado por castas, diz Lídia Jorge

"Combateremos a Sombra" é o novo romance de Lídia Jorge, a publicar esta semana (lançamento na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa). O livro é sobre como Portugal vive a deriva do mundo. A "Visão" entrevistou a autora. Excerto:

São as suas revoltas que quis exorcizar [neste livro]?
Sim. Este livro é mais virulento, imprecador. Tem a ideia de que este é um país particular a viver um momento particular da deriva do mundo. Aqui, juntamos uma herança fantasmática sobre nós próprios ao clima geral. Isto é, percebemos que uma cultura onde tudo se mostra, tem por ironia que quanto mais se mostra mais se oculta. Algo que Portugal tem pela fragilidade da sua democracia, pela incapacidade de quebrar a antiga elite: o domínio de determinadas famílias e castas continua a ser o mesmo. Tem havido renovação do tecido social, nomeadamente pela ascensão das mulheres, mas é só até certo ponto. Nos níveis de poder, de decisão, continuam a ser praticamente os mesmos.

É o denominado telhado de vidro abrangente?
Exactamente. No momento em que, nas democracias ocidentais, os mais capazes são expulsos dos seus sítios, essa mesma lógica é, no nosso país, casada com outra e dá um silenciamento do grande escândalo. Um determinismo e uma impotência. José Gil reflectiu bem sobre este duplo recalcamento. Estava a escrever o livro quando li "Portugal Hoje, O Medo de Existir" e percebi que estava a fazer de forma metafórica o que ele defendeu do ponto de vista filosófico. Vivemos momentos históricos. Há estes processos [Apito Dourado?] sobre os quais nós conhecemos, bem ou mal, histórias incríveis, que é impossível serem todas falsas... As pessoas poderem ser acusadas, já é alguma coisa! Mas não quero confundir as coisas. Um livro como o meu pretende atingir a parte íntima, inculcar nos leitores o desejo de serem incomodados perante a injustiça. Vale muito menos do que a denúncia de um jornalista, de um polícia, ou de uma amante bem colocada...
entrevista de Sílvia Souto Cunha; Visão, 15 de Março 2007

Harold Pinter vai perdurar porque escreve sobre a vida real

É fácil apontar as contradições de Harold Pinter. Mas a obra dele viverá muito para além do que a crítica pensa. É isto que Paul Donovan escreve hoje no Times (um jornal de um país onde os jornais fazem crítica de rádio). Esta noite no canal três da rádio BBC, Pinter dá voz à sua peça "The Homecoming".

Excerto do artigo:
It is easy to mock Harold Pinter, who stars on Radio 3 tonight in his own play The Homecoming. He professes socialism, yet lives in the 15th most expensive street in Britain. He preaches morality, yet, when he got rich, he abandoned his wife, who had stayed with him when times were hard and money scarce, for an earl’s daughter. His voice has more plums than an orchard. And all those pauses!

Easy, but cheap. Pinter, now 76, will remain a big fish long after most journalistic plankton has been recycled. He writes stories, and stories last. His plays have been performed all over the world because within them is a hinterland of universally recognisable things — jealousy, lust, fear, resentment, laughter, maintaining a facade.

Procurador João Guerra proibiu que o fotografassem no Parlamento

Diário de Notícias, 14.03.2007:

Mão a cobrir a cara, rodeado de seguranças, chegando 25 minutos antes da hora marcada, o procurador do Ministério Público (MP) João Guerra fez tudo para não ser registada a sua ida, ontem à tarde, à comissão parlamentar de inquérito sobre o "Envelope 9". Não bastava. Minutos depois, o deputado Vera Jardim, que preside àquela comissão, saía da sala para informar os repórteres fotográficos e os
cameramen de que o procurador, alegando o seu direito à reserva de imagem, não autorizava que qualquer fotografia fosse publicada, que algum registo televisivo fosse transmitido.

Se à entrada ainda ali não estavam todos os jornalistas, a insólita situação concentraria naquele corredor da Assembleia da República cada vez mais profissionais da comunicação social.

No final do audição, o deputado socialista Vera Jardim, ladeado por Guilherme Silva (PSD) e por João Rebelo (CDS), chamava de novo jornalistas e operadores para repetir o que dissera antes, acrescentando que, entretanto, a própria comissão tinha deliberado, "por unanimidade", que "não deveriam ser tomadas imagens do senhor procurador".

Até porque, acrescentava Vera Jardim, "a reunião foi à porta fechada", João Guerra manifestara o desejo de não haver registo, "para salvaguarda da sua privacidade e até da sua própria segurança", e, "naturalmente, muito menos prestará qualquer declaração".

E quando o magistrado, óculos graduados e gravata às riscas, abandonava a sala, um repórter não resistiu, disparando a objectiva - e levaria logo uma pancada no flash com a mão do procurador do MP.

Mas, afinal, como foi a audição, pedida pelo BE sob a alegação de que a versão de João Guerra contrariava a do ex-procurador-geral da República, Souto Moura? "Muito útil", sintetizavam os parlamentares.

A questão era tentar perceber se as cinco disquetes com a facturação detalhada da PT foram entregues à Secção de Tratamento e Análise de Informação da PJ, como parecia deduzir-se de declarações de João Guerra constantes do texto do inquérito da própria Procuradoria, ou nunca foram sequer abertas, como sustentara Souto Moura.

"Ficámos todos esclarecidos", declarava o social-democrata Guilherme Silva". "Foi apresentada uma tese explicativa", adiantava o bloquista Fernando Rosas. Mais nada. Afinal, os deputados também tinham decidido não fazer comentários aos jornalistas.
Fernando Madaíl

sábado, 17 de março de 2007

O amor é mais frio que a morte

A Cinemateca Portuguesa exibe, a partir de 18 de Abril, uma retrospectiva integral da obra do realizador alemão Rainer Fassbinder, num ciclo que se prolongará até Novembro. Segundo a Cinemateca, o ciclo, intitulado "O amor é mais frio que a morte", abrirá com três clássicos de Fassbinder, entrando depois na apresentação cronológica da obra integral.
No dia 18 de Abril, com a presença da presidente da Fundação Fassbinder, Julianne Lorenz, será exibido "A saudade de Veronika Voss", de 1981, inspirado na vida da actriz Sybille Schmitz. Nos dois dias seguintes serão exibidos "A segunda dimensão" (1977), um dos primeiros filmes de Fassbinder falados em inglês e adaptado de um romance de Nabokov, e "Martha" (1973). (RTP/Lusa)

"Os demónios dispersaram uma vez mais"

Há 20 anos, em Abril de 1987, mais precisamente, saía a versão portuguesa de "A Noite da Iguana e Outras Histórias", de Tennessee Williams. Nove contos, com prefácio de Gore Vidal. Vale a pena, a propósito, ler este artigo da Wikipedia.
Excerto de "A Maldição":


Quando um homenzinho chega a uma cidade desconhecida e procura um lugar para ficar, sente-se bruscamente desprotegido, privado de saber, à mercê de todas as investidas. Os espíritos demoníacos que habitam o mundo primitivo, regressam à luz, abandonam o exílio. Dissimulados e triunfantes, voltam a rastejar pelas secretas cavidades das rochas e pelos sulcos dos bosques donde a razão os expulsara. O forasteiro solitário, assustado com a sua própria sombra e com o som dos seus passos, caminha entre filas de vigilantes divindades inferiores, de obscuras intenções. Não é bem ele que olha para as casas, são as casas que olham para ele. As ruas estão atentas, espreitam. Tabuletas, janelas, portas, estão repletas de olhos e bocas que o observam e murmuram. A tensão nervosa cresce e estrangula-o, cada vez mais. Se alguém lhe dirige um sorriso de boas-vindas, é o suficiente para provocar uma espécie de explosão. A sua pele, tão arrepiada como uma luva nova de pelica, parece que vai rebentar pelas costuras, libertando o espírito; então poderá abraçar os muros de pedra e dançar sobre todos os telhados, aqui ou além. Os demónios dispersaram uma vez mais, regressando ao seu limbo; tranquilo está o mundo, tranquilo e ameno e reduzido de novo à sua inércia — é como um boi embrutecido, andando à volta, sulcando o tempo como convém ao homem.

sexta-feira, 16 de março de 2007

25 de Abril pode desaparecer, avisa Otelo

O estratego do 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho, alertou hoje que a memória da Revolução dos Cravos arrisca-se a desaparecer nos próximos 20 anos se não for explicada aos jovens nas escolas.
Otelo Saraiva de Carvalho disse que a revolta militar, que permitiu o derrube da ditadura de Salazar e Marcello Caetano no 25 de Abril de 1974, é explicada nas escolas públicas "muito pela rama". (RTP/Lusa)

terça-feira, 13 de março de 2007

Desgoverno

A demissão do director do Teatro Nacional de São Carlos, Paolo Pinamonti, hoje, é o corolário daquilo a que, sem exagero, se pode designar por semana negra para a cultura portuguesa:

- o Instituto das Artes abriu com atraso o concurso para Apoios Pontuais sem que o sistema informático, a única via para concorrer, estivesse a funcionar;
- os museus, especialmente o de Arte Antiga e o do Azulejo, não têm funcionários suficientes para que todas as salas estejam abertas ao público;
-
ardeu no sábado o cine-teatro Rosa Damasceno, em Santarém, devoluto há vários anos;
- o Ballet Contemporâneo do Norte fechou as portas, alegando dificuldades fincanceiras.