sábado, 31 de março de 2007

Cesariny deu um milhão de euros à Casa Pia

Mário Cesariny deixou em testamento um milhão de euros à Casa Pia. A intenção remonta a 2004, quando rebentou o escândalo na instituição, mas só agora a provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, soube da doação proposta pelo escritor. Catalina Pestana realçou, à RTP, o efeito positivo desta doação para a "auto-estima" da instituição e lembrou que Cesariny foi "um poeta mal-amado", que quis ajudar outros"mal-amados". O dinheiro de Mário Cesariny será aplicado na construção de um centro de artes para os alunos da Casa Pia, a instalar em Xabregas, Lisboa. ("Público", hoje)


A propósito disto, é interessante recordar o que disse Cesariny sobre a Casa Pia numa entrevista ao Público, em 1 de Dezembro de 2004:

Tem acompanhado o chamado “caso Casa Pia”?
O escândalo de pedofilia é a exploração de um estado deplorável. Quando se começou
a falar disso, tive um pensamento fúnebre. Lembrei-me de que há países onde se descobrem escândalos nas universidades e outros países onde se descobrem escândalos de pedofilia. Mas, que eu saiba, não há nenhum país que junte as duas coisas, como o nosso. Temos um escândalo na Casa Pia e outro na Universidade Moderna. O podre está muito disseminado. Às vezes também penso: se tanta gente quer isso, porque é que não os deixam em paz…

sexta-feira, 30 de março de 2007

Primeira tradução portuguesa de Laxness publicada esta semana

Novidade absoluta em Portugal é o livro "Gente Independente", publicado esta semana pela Cavalo de Ferro. É a primeira vez que um romance do escritor islandês Halldór Laxness, Nobel da Literatura em 1955, é traduzido para português. A tradutora é Gudlaug Rún Margeirsdóttir e a revisão de Jorge David e de Maria João Branco. A primeira parte de "Gente Independente" foi publicada pela primeira vez em 1934.
O excerto abaixo bem poderia ser uma descrição do Alentejo nos anos 50.


Este romance de Laxness, Nobel da Literatura, tem lugar na Islândia, no início do século XX, numa sociedade de servidão e num país com uma natureza inclemente. É a saga de Bjärtur, um homem obstinado, inquebrável e inesquecível.
Bjärtur vive no limiar da auto-suficiência e conta apenas com a sua obstinação e força interior, rejeitando qualquer caridade. Vive num vale com reputação de assombrado, só confia no seu rebanho, no seu cão e no seu cavalo. Se alguém toca o seu coração é Asta, a sua filha, mas tudo muda quando ela o desilude e magoa os seus enraizados princípios de honra...
A determinação de Bjärtur e a sua luta pela independência são genuinamente heróicas, assustadoras e chegam a ser cómicas.
«Gente independente» é uma história épica, ao mesmo tempo trágica e bela. É uma imensa viagem por um mundo onde as almas são levadas até ao precipício e só os mais duros resistem. Um romance imbuído de sentido de humor, de uma crueldade que roça o violento e de uma profunda humanidade. Um romance que continua a comover gerações de leitores.
[da contra-capa do livro]


Halldór Laxness nasce em 1902 e torna-se lenda no seu próprio tempo. Em 1955 é galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Logo em 1927, um crítico escreve sobre ele: «Finalmente! Finalmente! A Islândia tem um novo grande escritor.»

A partir daí seguem-se várias obras-primas: Satka Valka, «Gente independente», «A luz do mundo», «O sino da Islândia», «A central nuclear», «Os felizes guerreiros», «Os peixes podem cantar», «Paraíso reclamado», «Sob o glaciar» e Guosgjafapula. Para além dos romances, Laxness escreveu também contos, ensaios, teatro, poesia e vários romances autobiográficos. A sua obra está traduzida em mais de 45 línguas e publicada em mais de 500 edições, com enorme sucesso em todo o mundo, nunca antes editada em Portugal.

Halldór Laxness é um verdadeiro mágico com as palavras. Ele detém uma surpreendente gama de estilos e temas: nenhum dos seus romances se assemelha. Laxness consegue sempre surpreender o leitor, é detentor de uma imaginação inesgotável e de recursos técnicos surpreendentes. É muito feliz na expressividade e na caracterização brilhante das personagens. No seu percurso, Halldór Laxness nunca se cingiu apenas a um ideal ou crença. Inicia a sua carreira enquanto católico, depois torna-se socialista, e mais tarde perde o interesse por todas as doutrinas - excepto talvez pelo Taoismo.

Laxness falece aos 96 anos, consagrado como um dos maiores escritores de sempre.
[da badana do livro]


No prado os rapazes já não se mexiam mais, há muito que tinham perdido toda a força dos seus braços, limitavam-se a bater com as suas foices contra a relva molhada numa espécie de imbecilidade interminável, originando apenas um pequeno jorro de água, uma talhada de terra, ou no máximo o corte de alguns talos, a esta hora Ásta Sóllilja terá certamente adormecido em frente ao fogão esquecendo-se de tratar de nós. Era uma visão espectacular quando a avistavam com a marmita nos limites do campo.
A refeição no prado era, como toda a verdadeira alegria, mais bela quando ainda existia só na expectativa. Ementa mais rígida que o peixe salgado e o pão de centeio, as papas aguadas e os enchidos azedos, não se encontrava em reino algum, para não falar da chuva que constantemente caía para dentro desses pratos enquanto comiam, pois o agricultor não era o tipo de pessoa que se enternecia perante ninguém, mesmo que tanto o merceeiro como o gerente da cooperativa tivessem ultimamente disputado a sua simpatia. O peixe salgado fedia intensamente na chuva, e esse cheiro pegava-se durante horas seguidas às narinas, às roupas, às mãos. E nunca as crianças ansiavam tanto por comida como quando terminavam a sua refeição debaixo da pilha de feno.
Fosse qual fosse o tempo, Bjartur afastava-se sempre das outras pessoas quando acabavam de comer, deitava-se em cima de um feixe de feno com a sua boina a tapar-lhe a cara e adormecia num instante. Assim que se voltava durante o sono caía de cima do feixe, às vezes para dentro de uma poça, e acordava de imediato, isso agradava-lhe imenso. Considerava que era suficiente um homem dormir quatro minutos durante o dia, e ficava de mau humor caso dormisse mais. As mulheres enfiavam-se debaixo da pilha assim que acabavam de comer, e a seguir começavam os calafrios, pois estavam sentadas na relva molhada, e logo se levantavam com as suas mãos dormentes, formigueiros nos pés, à procura das suas ferramentas. E se Bjartur as ouvisse queixarem-se da humidade, respondia-lhes, que cobardes míseros eram aqueles que se importavam com o tempo molhado ou seco. Não conseguia entender por que razão tais indivíduos tinham vindo ao mundo. Não passa de mas uma maldita excentricidade isso de querer estar seco, dizia, tente estado molhado mais de metade da minha vida, e como se vê nunca me senti mal por isso.
[fragmento do livro; página 226]

Leilão de Dona Maria II e Ramalho Ortigão

Cartas da rainha Dona Maria II e de Ramalho Ortigão vão ser leiloadas dias 3 e 4 de Abril no Palácio do Correio Velho, a par de outros documentos relativos a personalidades e acontecimentos da história portuguesa dos séculos XIX e XX.

As cartas de Dona Maria II, 26 no total, endereçadas ao Conde de Tomar, António Bernardo da Costa Cabral (1803-1899), evidenciam, na descrição da leiloeira, a "grande afinidade electiva" que unia as duas figuras.

Além destas missivas e centenas de outras assinadas por personalidades importantes da época o espólio de Costa Cabral a leiloar inclui ainda documentos referentes ao Convento de Cristo, ao Museu de História Natural de Évora e à revolta de Torres Novas.

Este conjunto documental tem como base de licitação 6000/12.000 euros. (Lusa)

terça-feira, 27 de março de 2007

"Sou fiel à rua"

Teresa Ricou foi entrevistada por Tomás Cabral para o número 7 da revista Cenas, agora publicado. A revista é propriedade do Centro de Actividades Pedagógicas Alda Guerreiro, em Santo André.

Excertos:

Não me parece que seja alguém que passe muito tempo a olhar para trás…
… Não. Para trás mija a burra.

A Teresa Ricou saiu de casa aos 16 anos, foi secretária, ardina, fez anúncios. Enfim, levou tempo a descobrir a vocação artística que a levaria dos espectáculos de rua nos passeios de Paris ao reconhecimento da Teté em Portugal. Este seu início de percurso, que me atrevo a descrever como errático ou diletante, aproxima-a dos jovens que o Chapitô acolhe?
Absolutamente. Eu sou uma autodidacta, comecei na rua e fui construindo a minha figura. Claro que, com o meu espectáculo, fui entrando na Barraca, na Cornucópia ou na Comuna, mas sou fiel à rua. Por isso percebo de imediato estes jovens. Eles não me levam à certa. Sei para onde queremos ir e sei para o que os estou a convidar. Sei que tanto se faz uma grande pateada quando a coisa corre mal, como se aplaude quando corre bem. Sei isso melhor que ninguém, melhor que qualquer sociólogo.

Na Escola Profissional Artes e Ofícios do Espectáculo convivem jovens que simplesmente não se revêem nos currículos escolares clássicos e jovens que, devido ao meio sócio-económico em que cresceram ou às escolhas que foram fazendo, estavam à margem do sistema escolar…
… A nossa proposta é exactamente essa: integrá-los. O nosso ensino tem qualidade e é suficientemente aliciante para que eles se entreguem e invistam eles próprios na sua escola. Lembro aliás que esta é uma escola presencial, entre o ensino formal e o ensino informal. Mas ensino informal não quer dizer "freakalhada", é feito com muito rigor. Os jovens saem daqui sabendo para onde vão, a falar e a escrever correctamente, com um projecto de vida. Aqui, ensinamos os jovens a serem livres. Viver a liberdade é algo que tem que se aprender.

O que é hoje o circo?
Eu não sei o que é o circo. Eu venho do circo tradicional, ao qual me mantenho fiel. Porém, aprecio muito alguns espectáculos mais contemporâneos, mais…

… o chamado Novo Circo?
É um outro circo, que está a surgir. É aquilo que lhe quisermos chamar porque é um espectáculo quase tão aberto e tão vasto quanto a ópera, um espectáculo onde tudo é possível. Tem é que ser bem encenado, ter boa
música, bons artistas e bons actores, já.

"O amor nos tempos de cólera" é o melhor romance dos últimos 25 anos

"O amor nos tempos de cólera", de Gabriel García Márquez, e "A festa do chibo", de Mario Vargas Llosa, encabeçam uma lista "dos 100 melhores romances de língua castelhana dos últimos 25 anos" escolhidos por académicos, críticos e escritores.
A pedido da revista colombiana "Semana", escritores, editores e críticos literários da América e de Espanha escolheram os 100 melhores romances escritos a partir de 1982.

Além das obras citadas, aparecem na lista dois romances do falecido escritor chileno Roberto Bolaño - "Los detectives salvajes" e "2666" - "Noticias del imperio", do mexicano Fernando del Paso, e "Coração tão branco", do espanhol Javier Marías. Em sétimo lugar ficou "Bartleby e companhia", do também espanhol Enrique Vila-Matas e na posição seguinte "Santa Evita", do argentino Tomás Eloy Martínez.

Da lista constam ainda títulos como "Soldados de Salamina", de Javier Cercas, "Paisagem depois da batalha", de Juan Goytisolo, e "A cidade dos prodígios", de Eduardo Mendoza. Os três autores são espanhóis.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Serviço público

A RTP suspendeu a emissão online de "Os Grandes Portugueses" a poucos minutos do fim do programa e da divulgação da votação final. Começou a emitir um programa sobre viagens. Valeu a emissão da RTP Internacional, através deste site.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Documentário sobre fado sem portugueses

Se se disser que o fado de Amália é "a música portuguesa que está a conquistar o mundo" não é certamente dos dias de hoje que estamos a falar. E, no entanto:

Nas primeiras imagens de promoção internacional do documentário "Fados" assinado pelo espanhol Carlos Saura - onde destaca o género musical que se tornou uma referência de património cultural dos portugueses no Mundo -, não aparece a cantar nenhum fadista português. No registo de quase dois minutos, que já está disponível no "You Tube" (site na Internet que permite que os seus usuários carreguem, assistam e compartilhem vídeos em formato digital), aparecem a interpretar o fado apenas Toni Garrido, líder da banda brasileira de reggae Cidade Negra, a mexicana Lila Downs, e Caetano Veloso, a cantar num registo agudo e ao violão o fado "Estranha forma de vida", famoso na voz de Amália Rodrigues.
(Jornal de Notícias, hoje)