domingo, 1 de abril de 2007

Ginjal, The other view

From Ginjal you get the best view of Lisbon. The rows of warehouses on the south bank of the Tejo have seen better days, but they have retained their morbid fascination.

The voices of the fishermen have fallen silent, as have the sounds of the workers in the dark, 300-year-old warehouses that used to reek of wine and sardines. The washer-women on the sandy shores of the Tejo have also disappeared, and the few beaches of old have given themselves up to the river. Not even the fado singers visit any more. Gone are the days when they would come here in search of easy women and other amorous encounters. But Ginjal lives on.

The strip along the riverfront extends for about a kilometre and is part of the Cacilhas district. On sunny days the place comes alive with stressed-out city people - Lisbonites and tourists - who make a pilgrimage here in search of rest and recreation and to savour the luminous view. They like to come on long summer days, days that seem to promise eyerything in life. They come to eat at one of the two fish restaurants that remain here. And they listen to the musicians who play here, sometimes seemingly by chance...

On this winter's morning, the old fisherman in a thick coat throws the bait into the river. He is in his seventies and spent more than 40 years working in one of the warehouses. Today he only comes back here with his son for a spot of fishing, usually on a weekday. He talks about the past, about life on the riverbank. Life returns to these shores again and again, with each ray of sunshine.

The librarian at the nearby maritime museum says the grey winter days are sad here. But the sunny days are all the more cheerful, with all the mums, dads and babies, all the friends who rediscover each other over beer and conversation. "It's mainly young people who come here, and they're always in a good mood" she says.

You get to Ginjal by ferry (as well as by car across the 25 de Abril bridge). The ferry service runs at short, regular intervals. Especially during the Lisbon rush hour, one boat after the other sets off from the Cais do Sodré in the middle of the capital. The Lisbonites call the ferries "cacilheiros". Some of them are more than 40 years old, which makes the crossing an uncomfortable undertaking, particularly for those who have to use the ferry every day. Tourists, on the other hand, never fail to be inspired by these ancient craft.The crossing takes all of ten minutes before the warehouses appear along the quayside. And there it is, the most beautiful view in all Lisbon!

It was in the mid-1990s that artists discovered Ginjal. One of them was the actor João Garcia Miguel, artistic director of the Teatro Olho. Between 1995 and 2002 he and his theatre troupe settled into one of the old wine warehouses which had at some stage been used as a store for bacalhau - the local dried cod. There was a stage and two rehearsal rooms."It was like being in paradise.The connection of this place to Lisbon is simply unique." The physical decay was evident for all to see, but it suited the organisers behind the Teatro Olho down to the ground. Their initiatives, including an annual theatre festival, were lent a certain mystique, people claimed. DJ Major Eléctrico, actress Mónica Calle, dancer Peter Michael Dietz and other avant-garde artists have all appeared here in Ginjal at the festival staged by the Teatro Olho. "It was a very attractive place, not just for its location but also on account of the architecture," recalls João Garcia Miguel.

A young woman has returned from shopping and in cheerful mood. She herself, her sister and their grandfather were born in Ginjal, she says.They wouldn't leave this place for anything in the world.Then she talks about the artists who used to come here but no longer do. And about those who are still here: sculptors, stencil sprayers. Suddenly they turn up, at the first light of day, repopulating Ginjal.
B.H.

na revista Mini International nº23, Março 07

sábado, 31 de março de 2007

Cesariny deu um milhão de euros à Casa Pia

Mário Cesariny deixou em testamento um milhão de euros à Casa Pia. A intenção remonta a 2004, quando rebentou o escândalo na instituição, mas só agora a provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, soube da doação proposta pelo escritor. Catalina Pestana realçou, à RTP, o efeito positivo desta doação para a "auto-estima" da instituição e lembrou que Cesariny foi "um poeta mal-amado", que quis ajudar outros"mal-amados". O dinheiro de Mário Cesariny será aplicado na construção de um centro de artes para os alunos da Casa Pia, a instalar em Xabregas, Lisboa. ("Público", hoje)


A propósito disto, é interessante recordar o que disse Cesariny sobre a Casa Pia numa entrevista ao Público, em 1 de Dezembro de 2004:

Tem acompanhado o chamado “caso Casa Pia”?
O escândalo de pedofilia é a exploração de um estado deplorável. Quando se começou
a falar disso, tive um pensamento fúnebre. Lembrei-me de que há países onde se descobrem escândalos nas universidades e outros países onde se descobrem escândalos de pedofilia. Mas, que eu saiba, não há nenhum país que junte as duas coisas, como o nosso. Temos um escândalo na Casa Pia e outro na Universidade Moderna. O podre está muito disseminado. Às vezes também penso: se tanta gente quer isso, porque é que não os deixam em paz…

sexta-feira, 30 de março de 2007

Primeira tradução portuguesa de Laxness publicada esta semana

Novidade absoluta em Portugal é o livro "Gente Independente", publicado esta semana pela Cavalo de Ferro. É a primeira vez que um romance do escritor islandês Halldór Laxness, Nobel da Literatura em 1955, é traduzido para português. A tradutora é Gudlaug Rún Margeirsdóttir e a revisão de Jorge David e de Maria João Branco. A primeira parte de "Gente Independente" foi publicada pela primeira vez em 1934.
O excerto abaixo bem poderia ser uma descrição do Alentejo nos anos 50.


Este romance de Laxness, Nobel da Literatura, tem lugar na Islândia, no início do século XX, numa sociedade de servidão e num país com uma natureza inclemente. É a saga de Bjärtur, um homem obstinado, inquebrável e inesquecível.
Bjärtur vive no limiar da auto-suficiência e conta apenas com a sua obstinação e força interior, rejeitando qualquer caridade. Vive num vale com reputação de assombrado, só confia no seu rebanho, no seu cão e no seu cavalo. Se alguém toca o seu coração é Asta, a sua filha, mas tudo muda quando ela o desilude e magoa os seus enraizados princípios de honra...
A determinação de Bjärtur e a sua luta pela independência são genuinamente heróicas, assustadoras e chegam a ser cómicas.
«Gente independente» é uma história épica, ao mesmo tempo trágica e bela. É uma imensa viagem por um mundo onde as almas são levadas até ao precipício e só os mais duros resistem. Um romance imbuído de sentido de humor, de uma crueldade que roça o violento e de uma profunda humanidade. Um romance que continua a comover gerações de leitores.
[da contra-capa do livro]


Halldór Laxness nasce em 1902 e torna-se lenda no seu próprio tempo. Em 1955 é galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Logo em 1927, um crítico escreve sobre ele: «Finalmente! Finalmente! A Islândia tem um novo grande escritor.»

A partir daí seguem-se várias obras-primas: Satka Valka, «Gente independente», «A luz do mundo», «O sino da Islândia», «A central nuclear», «Os felizes guerreiros», «Os peixes podem cantar», «Paraíso reclamado», «Sob o glaciar» e Guosgjafapula. Para além dos romances, Laxness escreveu também contos, ensaios, teatro, poesia e vários romances autobiográficos. A sua obra está traduzida em mais de 45 línguas e publicada em mais de 500 edições, com enorme sucesso em todo o mundo, nunca antes editada em Portugal.

Halldór Laxness é um verdadeiro mágico com as palavras. Ele detém uma surpreendente gama de estilos e temas: nenhum dos seus romances se assemelha. Laxness consegue sempre surpreender o leitor, é detentor de uma imaginação inesgotável e de recursos técnicos surpreendentes. É muito feliz na expressividade e na caracterização brilhante das personagens. No seu percurso, Halldór Laxness nunca se cingiu apenas a um ideal ou crença. Inicia a sua carreira enquanto católico, depois torna-se socialista, e mais tarde perde o interesse por todas as doutrinas - excepto talvez pelo Taoismo.

Laxness falece aos 96 anos, consagrado como um dos maiores escritores de sempre.
[da badana do livro]


No prado os rapazes já não se mexiam mais, há muito que tinham perdido toda a força dos seus braços, limitavam-se a bater com as suas foices contra a relva molhada numa espécie de imbecilidade interminável, originando apenas um pequeno jorro de água, uma talhada de terra, ou no máximo o corte de alguns talos, a esta hora Ásta Sóllilja terá certamente adormecido em frente ao fogão esquecendo-se de tratar de nós. Era uma visão espectacular quando a avistavam com a marmita nos limites do campo.
A refeição no prado era, como toda a verdadeira alegria, mais bela quando ainda existia só na expectativa. Ementa mais rígida que o peixe salgado e o pão de centeio, as papas aguadas e os enchidos azedos, não se encontrava em reino algum, para não falar da chuva que constantemente caía para dentro desses pratos enquanto comiam, pois o agricultor não era o tipo de pessoa que se enternecia perante ninguém, mesmo que tanto o merceeiro como o gerente da cooperativa tivessem ultimamente disputado a sua simpatia. O peixe salgado fedia intensamente na chuva, e esse cheiro pegava-se durante horas seguidas às narinas, às roupas, às mãos. E nunca as crianças ansiavam tanto por comida como quando terminavam a sua refeição debaixo da pilha de feno.
Fosse qual fosse o tempo, Bjartur afastava-se sempre das outras pessoas quando acabavam de comer, deitava-se em cima de um feixe de feno com a sua boina a tapar-lhe a cara e adormecia num instante. Assim que se voltava durante o sono caía de cima do feixe, às vezes para dentro de uma poça, e acordava de imediato, isso agradava-lhe imenso. Considerava que era suficiente um homem dormir quatro minutos durante o dia, e ficava de mau humor caso dormisse mais. As mulheres enfiavam-se debaixo da pilha assim que acabavam de comer, e a seguir começavam os calafrios, pois estavam sentadas na relva molhada, e logo se levantavam com as suas mãos dormentes, formigueiros nos pés, à procura das suas ferramentas. E se Bjartur as ouvisse queixarem-se da humidade, respondia-lhes, que cobardes míseros eram aqueles que se importavam com o tempo molhado ou seco. Não conseguia entender por que razão tais indivíduos tinham vindo ao mundo. Não passa de mas uma maldita excentricidade isso de querer estar seco, dizia, tente estado molhado mais de metade da minha vida, e como se vê nunca me senti mal por isso.
[fragmento do livro; página 226]

Leilão de Dona Maria II e Ramalho Ortigão

Cartas da rainha Dona Maria II e de Ramalho Ortigão vão ser leiloadas dias 3 e 4 de Abril no Palácio do Correio Velho, a par de outros documentos relativos a personalidades e acontecimentos da história portuguesa dos séculos XIX e XX.

As cartas de Dona Maria II, 26 no total, endereçadas ao Conde de Tomar, António Bernardo da Costa Cabral (1803-1899), evidenciam, na descrição da leiloeira, a "grande afinidade electiva" que unia as duas figuras.

Além destas missivas e centenas de outras assinadas por personalidades importantes da época o espólio de Costa Cabral a leiloar inclui ainda documentos referentes ao Convento de Cristo, ao Museu de História Natural de Évora e à revolta de Torres Novas.

Este conjunto documental tem como base de licitação 6000/12.000 euros. (Lusa)

terça-feira, 27 de março de 2007

"Sou fiel à rua"

Teresa Ricou foi entrevistada por Tomás Cabral para o número 7 da revista Cenas, agora publicado. A revista é propriedade do Centro de Actividades Pedagógicas Alda Guerreiro, em Santo André.

Excertos:

Não me parece que seja alguém que passe muito tempo a olhar para trás…
… Não. Para trás mija a burra.

A Teresa Ricou saiu de casa aos 16 anos, foi secretária, ardina, fez anúncios. Enfim, levou tempo a descobrir a vocação artística que a levaria dos espectáculos de rua nos passeios de Paris ao reconhecimento da Teté em Portugal. Este seu início de percurso, que me atrevo a descrever como errático ou diletante, aproxima-a dos jovens que o Chapitô acolhe?
Absolutamente. Eu sou uma autodidacta, comecei na rua e fui construindo a minha figura. Claro que, com o meu espectáculo, fui entrando na Barraca, na Cornucópia ou na Comuna, mas sou fiel à rua. Por isso percebo de imediato estes jovens. Eles não me levam à certa. Sei para onde queremos ir e sei para o que os estou a convidar. Sei que tanto se faz uma grande pateada quando a coisa corre mal, como se aplaude quando corre bem. Sei isso melhor que ninguém, melhor que qualquer sociólogo.

Na Escola Profissional Artes e Ofícios do Espectáculo convivem jovens que simplesmente não se revêem nos currículos escolares clássicos e jovens que, devido ao meio sócio-económico em que cresceram ou às escolhas que foram fazendo, estavam à margem do sistema escolar…
… A nossa proposta é exactamente essa: integrá-los. O nosso ensino tem qualidade e é suficientemente aliciante para que eles se entreguem e invistam eles próprios na sua escola. Lembro aliás que esta é uma escola presencial, entre o ensino formal e o ensino informal. Mas ensino informal não quer dizer "freakalhada", é feito com muito rigor. Os jovens saem daqui sabendo para onde vão, a falar e a escrever correctamente, com um projecto de vida. Aqui, ensinamos os jovens a serem livres. Viver a liberdade é algo que tem que se aprender.

O que é hoje o circo?
Eu não sei o que é o circo. Eu venho do circo tradicional, ao qual me mantenho fiel. Porém, aprecio muito alguns espectáculos mais contemporâneos, mais…

… o chamado Novo Circo?
É um outro circo, que está a surgir. É aquilo que lhe quisermos chamar porque é um espectáculo quase tão aberto e tão vasto quanto a ópera, um espectáculo onde tudo é possível. Tem é que ser bem encenado, ter boa
música, bons artistas e bons actores, já.

"O amor nos tempos de cólera" é o melhor romance dos últimos 25 anos

"O amor nos tempos de cólera", de Gabriel García Márquez, e "A festa do chibo", de Mario Vargas Llosa, encabeçam uma lista "dos 100 melhores romances de língua castelhana dos últimos 25 anos" escolhidos por académicos, críticos e escritores.
A pedido da revista colombiana "Semana", escritores, editores e críticos literários da América e de Espanha escolheram os 100 melhores romances escritos a partir de 1982.

Além das obras citadas, aparecem na lista dois romances do falecido escritor chileno Roberto Bolaño - "Los detectives salvajes" e "2666" - "Noticias del imperio", do mexicano Fernando del Paso, e "Coração tão branco", do espanhol Javier Marías. Em sétimo lugar ficou "Bartleby e companhia", do também espanhol Enrique Vila-Matas e na posição seguinte "Santa Evita", do argentino Tomás Eloy Martínez.

Da lista constam ainda títulos como "Soldados de Salamina", de Javier Cercas, "Paisagem depois da batalha", de Juan Goytisolo, e "A cidade dos prodígios", de Eduardo Mendoza. Os três autores são espanhóis.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Serviço público

A RTP suspendeu a emissão online de "Os Grandes Portugueses" a poucos minutos do fim do programa e da divulgação da votação final. Começou a emitir um programa sobre viagens. Valeu a emissão da RTP Internacional, através deste site.