quinta-feira, 5 de abril de 2007

Texto inédito de Cesariny publicado pela Assírio & Alvim

Um texto e várias imagens inéditos da autoria de Mário Cesariny são a principal novidade da revista literária "A Phala". A publicação foi editada pela Assírio & Alvim durante anos, mas estava suspensa. Regressa agora. Tem novo formato. É uma revista. A cores.
O número é quase todo dedicado a Mário Cesariny. Inclui, a propósito, um texto de Herberto Helder.
A parte final de "A Phala" é sobre a tradução, com depoimentos de nomes grandes do ofício: Pedro Tamen, José Bento, João Barrento e Frederico Lourenço, entre muitos outros.
Excerto do texto inédito de Cesariny, intitulado "Passagem dos Sonhos":
(...)
Desde o alto da rua Barata Salgueiro recomeço a voar. Digo «recomeço» porque no meu sonho há lembrança nítida de incursões semelhantes, iniciadas sempre nesta rua. Quando começo a correr para «levantar», a habitual sensação de não estar certo de poder fazê-lo ainda uma vez mais. Lançado no espaço, voo a baixa altura, quase entre o trânsito das ruas. Depois ganho altura, entro no espaço abstracto, sem imagens, que será para o homem o voo puro. Os meus braços abertos são os reguladores da direcção. Desço, quase a rasar o solo, sobre a avenida da República, em direcção ao Saldanha, que oferece o seu aspecto habitual num fim de tarde de verão. Vinda da avenida Fontes Pereira de Melo e voando baixo como eu, surge uma mulher magnífica, solene, com um longo fato de renda negra cujo ondear a continua no espaço. Reunimo-nos sem trocar palavra, fitando-nos apenas, e, sem desvio na direcção comum, lado a lado traçamos lentamente dois círculos concêntricos à estátua de bronze, em baixo, afligida de grande circulação automóvel. Depois tomamos pela avenida Duque de Ávila, em direcção ao Arco do Cego, e sonho que acordo em casa do José Cardoso Pires, no Largo de Arroios. O dono da casa saúda-me jovialmente, não estranhando a minha súbita presença no seu quarto de estudante.
(...)

Não há partido de poder que se preze que não tenha a tentação de controlar os 'media'

É este o artigo do "Expresso" que levou a Entidade Reguladora para a Comunicação Social a iniciar um novo processo de averiguação sobre eventuais pressões ilegítimas do Governo junto da comunicação social:

Impulso irresistível de controlar

Quinta-feira, dia 22, logo após o noticiário das oito da manhã da Renascença, os assessores do primeiro-ministro despertaram para um frenesim de telefonemas. A rádio dava eco à notícia do jornal ‘Público’ que levantava dúvidas em torno da licenciatura de José Sócrates na Universidade Independente. O pivô rematava a peça dizendo: “Engenheiro não! Licenciado... talvez”.

“Ligaram várias vezes para mim e para a redacção a protestarem”, contou ao Expresso o director de informação da Emissora Católica, Francisco Sarsfield Cabral. A frase que tinha provocado a ira do gabinete do primeiro-ministro não voltou a ser repetida.

A ‘gestão de proximidade’ da comunicação é, aliás, imagem de marca do actual Governo. No primeiro Natal que passou como chefe do Executivo, José Sócrates foi de férias para a neve. Na SIC-Notícias, o ministro da Presidência era entrevistado por Mário Crespo. A certa altura, Pedro Silva Pereira foi interpelado sobre que sentido faziam essas férias de luxo quando o Governo pedia sacrifícios aos portugueses por causa do défice. “O primeiro-ministro ficou furibundo e telefonou-me directamente”, recordou Ricardo Costa.

Não há partido de poder que se preze que não tenha a tentação de controlar os «media» e os jornalistas. A apetência do actual Governo não é pois menor que a de executivos anteriores. José Manuel Fernandes, director do ‘Público’, reconhece no entanto que existe hoje “um nível de sofisticação” maior do que noutros tempos. “Há uma gestão muito rígida da informação e um cálculo e controlo dos «timings» mais profissional”, acrescenta o director do ‘Público’.

Ricardo Costa e Francisco Sarsfield Cabral corroboram a tese do profissionalismo. “O padrão não é novo. O que há é uma gestão mais organizada da informação e uma maior capacidade de reacção a notícias más”, acrescenta o director da SIC-Notícias.

Na véspera da publicação da notícia sobre a licenciatura de Sócrates, o gabinete do chefe do Governo desencadeou uma acção preventiva junto de algumas redacções. “Houve logo telefonemas em que se dizia que aquilo não era assunto e que se houvesse dúvidas o gabinete estaria à disposição para esclarecer tudo”, sublinhou Ricardo Costa.

O director do ‘Público’, que mantém há vários anos uma relação conflituosa com o actual primeiro-ministro, revelou ao Expresso ter “indicações provenientes de uma conversa que mantive com alguém do gabinete do primeiro-ministro que me levam a pensar que, pelo menos com uma rádio, pode ter havido um pedido para que a história da licenciatura não fosse reproduzida”. O facto é que nesse dia e nos que se seguiram, apenas a Rádio Renascença falou do assunto. Um facto que terá resultado dos inúmeros contactos estabelecidos pelos colaboradores do primeiro-ministro em que se procurava demonstrar que a investigação do ‘Público’ teria resultado do facto de Belmiro de Azevedo, o dono do jornal, ter perdido a OPA que lançou sobre a Portugal Telecom.

José Sócrates é, porventura, o primeiro-ministro que mais vezes liga directamente para jornalistas. Cavaco Silva nunca o fez. António Guterres e Durão Barroso só muito pontualmente o fizeram. Uma prática pouco habitual e que, muitas vezes, é entendida como forma de pressão sobre os «media». Ao longo da semana que durou a investigação do ‘Público’, o Expresso apurou que José Sócrates ligou, pelo menos, seis vezes ao jornalista que investigou a história.

Uma prática que Ricardo Costa não considera negativa: “José Sócrates ligar não é um problema. Os jornalistas têm que saber defender as notícias que têm”.

O director da SIC-Notícias sublinha que aqui existe também “uma questão geracional” uma vez que a geração de jornalistas que hoje fazem política nas redacções acompanhou de perto a ascensão de José Sócrates. “Este é o primeiro chefe de Governo que trato por tu”, garante Ricardo Costa.

A prática seguida por este primeiro-ministro e seus colaboradores tem sido muitas vezes apontada pelos partidos da oposição, sobretudo pelo PSD, como uma ameaça à liberdade de imprensa. Ricardo Costa rejeita liminarmente esta tese: “É patético dizer que a liberdade de imprensa está ameaçada. É patético pensar que o Governo consegue controlar a comunicação social privada”.

José Manuel Fernandes, do ‘Público’, recusa também falar de ameaças à liberdade de imprensa por causa destas atitudes, apesar de dizer que não gosta “de ouvir comentários do primeiro-ministro nos aviões sobre a forma como certos órgãos acompanham determinado assunto”. Afirmações que são encaradas como tentativas para condicionar a informação.

Aliás, o actual Governo é frequentemente acusado de ter uma poderosa e eficaz máquina de propaganda. Francisco Sarsfield Cabral considera que “a ‘central de comunicação’ não é o problema. Cabe-nos a nós defendermo-nos dela. Só se formos anjinhos é que eles nos derrotam”.

Perante estas acusações, uma fonte do gabinete do primeiro-ministro recordou ao Expresso que este foi o primeiro Governo a manter as administrações e direcções de informação dos órgãos de comunicação social do Estado, que tinham sido nomeadas pelo Governo anterior. “Há uma cultura de respeito pelo cumprimento dos mandatos”, sublinha a mesma fonte.

Por outro lado, recorda-se que não foi este Governo nem o PS que afastaram Marcelo Rebelo de Sousa de um canal de televisão privado por causa das suas críticas ao Executivo anterior. Ao contrário, Marcelo mantém o seu programa na RTP, onde diz o que quer com “total liberdade”.

Sobre a existência de uma poderosa máquina de propaganda, a mesma fonte é peremptória: “O que existe é uma agenda política e de políticas bem organizada”.

Há, no entanto, quem prefira não se comprometer com comentários às alegadas ameaças à liberdade de imprensa. “Esse é um assunto sobre o qual não tive, não tenho e não terei nunca opinião”, afirmou ao Expresso José Fragoso, director da rádio TSF.

Mas se a ameaça existe e não vem do Governo, vem de onde? O consenso é mais ou menos generalizado: “A forma como a ERC actua e entende os seus poderes é que representa um perigo para a liberdade de imprensa”, acentua José Manuel Fernandes, apontando o dedo a PS e PSD por serem os pais da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

Nuno Saraiva

Expresso, 31 de Março de 2007

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Concurso do Instituto das Artes com falhas

No "Público", hoje:

Centenas de artistas portugueses estão desde a manhã de ontem impedidos de apresentar candidaturas ao Programa de Apoio a Projectos Pontuais 2007 do Instituto das Artes (IA), devido a falhas no sistema informático. O prazo termina oficialmente hoje.
Este programa é a única forma que a maioria dos artistas portugueses não ligados a instituições tem de financiar a criação de espectáculos ou outras obras, em áreas como a dança, teatro ou design.
É a segunda vez, em menos de três dias, que há problemas no sistema de Gestão Electrónica de Apoios - designação da plataforma informática a que só se acede através do site do IA e que é, pela primeira vez, o único método de candidaturas. Na sexta-feira passada, um excesso de utilizadores provocou o bloqueio do sistema, determinando a prorrogação do prazo para hoje. Nessa altura, segundo informação oficial, o IA tinha recebido 103 candidaturas, mas havia mais de 400 registadas, por completar.
O sistema voltou a funcionar na segunda-feira, mas não terá resistido a novo afluxo de utilizadores. O subdirector do IA, Orlando Farinha, reconhece que "está a funcionar pessimamente", mas não tem conhecimento de novos problemas. "Pode haver momentos em que o acesso não seja possível, mas não tenho informações sobre um bloqueio igual ao da semana passada".
Vários artistas tentaram sem êxito ao longo do dia de ontem completar as candidaturas. O PÚBLICO experimentou o acesso ao sistema. Foi possível entrar na plataforma, mas os dados introduzidos não puderam ser guardados.
O IA adjudicou a montagem do sistema à empresa Acceo. Orlando Farinha assegura que o IA fará uma auditoria e apurar responsabilidades. B.H.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Sócrates telefona a jornalista para evitar publicação de notícia

José Sócrates telefonou "seis ou sete vezes" ao jornalista do "Público" Ricardo Dias Felner, autor da notícia sobre as falhas no dossier de licenciatura do primeiro-ministro, revelou José Manuel Fernandes, director do jornal, hoje à noite na SIC Notícias. Nesses telefonemas, Sócrates tentou convencer o jornalista a desistir da investigação, alegando, segundo relata José Manuel Fernandes, que o caso não tinha conteúdo noticioso.
O Vídeo:


Sobre o facto de Sócrates ter mentido sobre as suas qualificações profissionais (apresentava-se como engenheiro civil, mas esse título nunca lhe foi atribuído pela Ordem dos Engenheiros, a a entidade competente para tal) houve mais notícias no fim-de-semana:

- no sábado, o Expresso revelou que o diploma de licenciatura do primeiro-ministro foi emitido a 8 de Setembro de 1996, um domingo. "Frederico Oliveira Pinto, que diz ter sido o primeiro presidente do conselho científico da Independente e, na altura, professor de todas as cadeiras de Cálculo das licenciaturas de Engenharia garantiu ao Expresso nunca ter visto José Sócrates naquela escola, 'a não ser muitos anos mais tarde, durante uma oração de sapiência em que estava na assistência'.

'Foi tudo feito com o meu total desconhecimento', acrescenta, referindo-se ao processo de licenciatura, garantindo ainda que o plano de equivalências e de estudos de Sócrates não foi submetido a apreciação de qualquer órgão académico. 'O conselho científico só foi criado em meados de 97', já o actual primeiro-ministro tinha terminado o curso."

- no domingo, o Diário de Notícias escrevia: "José Sócrates tem sido aconselhado a gerir com a maior transparência esta questão, que "pode tornar-se um problema sério", como esta semana sublinhou um dirigente socialista ao DN. "Por menos que isto já alguns políticos foram cozinhados em lume brando", advertiu o mesmo dirigente."

Outras coisas sobre este assunto aqui, aqui e aqui.

“Como me parecem gastos os usos deste mundo”

Um homem com uns 40 anos pede cigarros no cimo da escadaria que conduz ao Museu. E mete conversa. “Isto parece uma coisa bonita, deve estar muita gente da televisão”. Os carros passam na rua e abrandam na esperança de perceber as razões de um entra e sai invulgar ou deitar olho a uma celebridade qualquer que tenha acorrido. Num café de esquina, durante a tarde, uma mulher de meia-idade comenta: “Parece que só se entra por convite. Mesmo que tivesse, não ia”.

Quando se fala com quem há anos organiza a ModaLisboa (MLx) e nela trabalha (é da última edição, que decorreu entre 8 e 11 de Março, no Museu de História Natural, que falamos), encontram-se dois discursos sobre a tangibilidade do mais importante acontecimento de moda em Portugal. Que está aberta a todos e que a prova são as centenas de pessoas que assistem aos desfiles; que não é um sítio democrático, até porque quanto mais elitista a moda for mais se valoriza o sonho que vende.

É destas insanáveis contradições que a MLx, financiada pela Câmara Municipal e por fundos da União Europeia, não se consegue livrar: ser de facto elitista e abrir portas só à imprensa e aos empresários, dizer-se elitista e abrir-se aos socialites mais depauperados, não ser elitista e encontrar modo de acolher quem quiser ir, ter toda a gente por lá e deixar de ser chique, querer manter-se chique e ser vista como um evento de tias e gente estranha.

Por estes dias, numa entrevista ao Diário de Notícias, Eduarda Abbondanza, a todo-poderosa responsável pela MLx, assumia que se trata de um evento social, embora destacasse mais a sua dimensão comercial. A opinião de quem está por fora é diversa: o social, ou cor-de-rosa, bem instigado por revistas, ganha aos pontos.

Há ali moda, roupa para ser fotografada e apresentada nas páginas da imprensa especializada, investidores à espreita e muito trabalho de modelos, agências, estilistas, produtores de moda, maquilhadores, cabeleireiros, fotógrafos. Mas quem frequenta o sítio continua a jactar-se e a socorrer-se de um limitadíssimo glamour à portuguesa e é isso que a cidade e o País vêem.

No último dia desta MLx (que, pela primeira vez, se associou ao Portugal Fashion, do Porto, para formar a Semana da Moda portuguesa), coube ao estilista Nuno Baltazar assumir a teatralidade da coisa. Pegou em “Hamlet”, pela voz do actor João Reis e numa encenação de Ricardo Pais (de há seis anos), e passou-o em off, durante o desfile. A famosa mulher do actor, Catarina Furtado, também desfilou, de peruca ruiva e olhos muito pintados. “Como me parecem velhos, inúteis e gastos os usos deste mundo”, ouviu-se. Fora do contexto original, foi como se a frase de Shakespeare quisesse falar para aquela sala de desfiles, pintada de preto e de branco. Um desabafo sentido, lá do século XVII para os de agora. B.H.

Os desfiles da Moda Lx podem ser acompanhados na Fashion TV até 03 de Abril (sinal codificado) e na RTP 1 até 07 de Abril (sinal aberto).

Artigo publicado na revista "Obscena", Abril 2007.
Foto:
José Luís Neves.

domingo, 1 de abril de 2007

Apoios Pontuais adiados novamente

No "Público", hoje:

O Instituto das Artes (IA) adiou por tempo indeterminado o prazo final para entrega de candidaturas ao Programa de Apoio a Projectos Pontuais 2007. O sistema informático, a que só se acede através da Internet e que é, pela primeira vez, o único método de apresentação de candidaturas, está bloqueado desde a tarde de quinta-feira. O prazo terminaria anteontem, dia 30. O subdirector do IA, Orlando Farinha, não sabe quando a situação estará resolvida, mas garante que "nenhum artista será prejudicado". Amanhã será apresentado um novo prazo, "nunca inferior a 24 horas", sublinhou.

Inland Empire, de David Lynch, chega a Portugal na quinta-feira

O novo filme de David Lynch, "Inland Empire", chega a Portugal na próxima quinta-feira, dia 5. No Santiago Alquimista, em Lisboa, vai haver uma festa de lançamento, com projecção deste e de outros filmes do realizador e música ao vivo. Informações aqui.

Actores principais: Laura Dern, Jeremy Irons e Justin Theroux.

O "Expresso" publicou ontem a transcrição de uma conversa entre os vários críticos do jornal. Fica um excerto do que disse Vasco Baptista Marques:

"A questão de saber se este filme se percebe parece-me uma falsa questão. O filme suscitará tantas interpretações quantos espectadores tiver, e essa é a sua grande força, como é a grande força da obra do Lynch, que está numa zona de cruzamento entre o cinema e as artes plásticas. Aliás, mesmo no final deste filme, há uma referência à pintura do Bacon, um rosto que se desfigura e fica ensanguentado. Mas o filme percebe-se tão bem como um sonho do qual se acorda. É claro que é possível tentar desmontar o filme à luz de uma narrativa coerente. Parece-me possível, mas não interessante. O que aqui tem graça é a forma como o Lynch nos propõe uma viagem e o que essa viagem nos dá. Pessoalmente, acho que este não é o seu melhor filme, porque abre pistas que não aproveita por completo. Durante a primeira hora, por exemplo, até ao momento em que a Nikki entra na casa do estúdio e se vê a si própria, passando aí para o outro lado do espelho, pareceu-me que o filme se iria encaminhar para um trabalho mais claro sobre a representação, sobre a forma como a representação e o cinema como representação está sempre assente numa possibilidade de mentira. Ele retoma isso no fim, mas parece-me que o bloco central do filme é demasiado longo e dispersivo para aquilo que se quer dizer.
(...) É um filme musical. Há motivos que aparecem e, depois, há variações que são feitas sobre eles. Aliás, Lynch fala da génese de um filme como uma ideia em torno da qual se agregam outras, que é a estrutura-base de uma variação musical. Há uma possibilidade de narração linear que implode. Como? Através da manipulação do espaço e do tempo. Ele traz para dentro do filme as estruturas da memória e da imaginação, e é isso que lhe dá aquele ar descosido."