segunda-feira, 7 de maio de 2007

Ele quer inovar na dança contemporânea

Perfil do bailarino e coreógrafo André Mesquita, na revista "Pública", ontem:

Foi há uma semana que viveu um dos momentos mais importantes da sua vida. A 27 de Abril, apresentou no Centro Cultural do Cartaxo, em estreia absoluta, as coreografias “Morada de Silêncio” e “Como É Bom Tocar-te”. Da primeira é co-autor, juntamente com Teresa Alves da Silva, que foi bailarina principal do extinto Ballet Gulbenkian. A segunda, foi criada exclusivamente por ele, mas em estreita colaboração com os intérpretes (Teresa Alves da Silva, César Fernandes, Filipa Peraltinha, Hugo Marmelada e Kelly Nakamura). “O trabalho em dança contemporânea só faz sentido se houver interacção entre o criador e os bailarinos”, sublinha.

Não foi a primeira vez que André Mesquita assinou coreografias. Já o tinha feito, por exemplo, na Companhia Oficina dos Sentidos, do Teatro [Municipal] de Hildesheim, no Norte da Alemanha – onde ainda está radicado. A novidade é a de que as duas peças marcaram o início da actividade da Tok’Art, uma associação de profissionais da dança contemporânea.

Aos 27 anos, sabe que o seu futuro profissional depende em grande medida do êxito da Tok’Art. A ideia partiu dele e a direcção é partilhada com Teresa Alves da Silva e Rita Judas. “Estava com vontade de voltar a coreografar e de trabalhar com algumas pessoas que admiro. Achei que fazia sentido voltar a Portugal. Tinha e tenho a convicção de que há espaço para nós”, explica o bailarino e coreógrafo, durante uma conversa nos camarins do Centro Cultural do Cartaxo.

O apelo do movimento do corpo apareceu em criança. “Dançava muito em casa”, conta. Aos 13 anos, conseguiu convencer os pais e inscreveu-se na Academia de Dança de Setúbal, cidade onde nasceu. “Nessa altura, comecei a ver espectáculos e ficava fascinado com o passos dos bailarinos. Queria ser coreógrafo, sem ter ainda noção do que isso implicava”. Aluno aplicado, pensou que o seu caminho era o ballet. Mas apercebeu-se depressa de que não tinha de estar vinculado apenas à dança clássica. Aproximou-se, então, da contemporânea e ainda hoje tem William Forsythe, conhecido bailarino vanguardista, como uma das suas referências. Apesar disso, e contra o que é habitual ouvir-se, garante que “é possível ser-se um excelente profissional de dança contemporânea sem ter tido formação clássica”. Aliás, acrescenta, “talvez o talento nem seja o mais importante; o trabalho constante e a procura do estímulo certo, às vezes, contam mais”.

Estagiou na Companhia Nacional de Bailado, passou pela CeDeCe (Setúbal) e pela Dançarte (Palmela) e acabou na Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, de Vasco Wellenkamp. Em 2002, uma fractura no pé direito, cuja recuperação demorou quase um ano, obrigou-o a parar e a tornar-se ensaiador da Companhia de Dança de Almada. A experiência durou pouco tempo, porque “era difícil sobreviver com o que ganhava”. Partiu, então, para a Alemanha, para actuar como solista na Oficina dos Sentidos, dirigida pelo português Carlos Matos. “Trabalhávamos muitíssimo, mas foi um período muito interessante”, recorda.

A estada de dois anos, que está prestes a terminar, serviu-lhe para descobrir a efervescência de um país em que quase todas as cidades têm teatros e companhias de dança e onde, na sua opinião, o público tem apetência pelo experimentalismo nesta área. Foi lá, também, que conheceu o trabalho de Marco Goecke, um dos coreógrafos residentes do Ballet de Estugarda, de quem fala com visível entusiasmo. “Acho-o genial. Há nele qualquer coisa de Pina Bausch, mas é muito mais agressivo fisicamente. Alguns colegas meus dizem que o trabalho com ele foi a experiência física mais dolorosa e interessante que tiveram”.

André Mesquita vive agora em função da Tok’Art, que define como “uma plataforma de criação” e não como uma companhia de dança – porque não há intérpretes residentes ou salários fixos. Está a negociar a apresentação das duas novas coreografias em salas de Lisboa e do Montijo e, no próximo ano, pretende concorrer ao Programa de Apoio a Projectos Pontuais, do Instituto das Artes, que subsidia trabalhos de uma grande parte dos artistas portugueses. “Se as coisas correrem bem, queremos também ocupar um espaço próprio e desenvolver trabalho pedagógico, para gerar receitas próprias”. Onde e como, é coisa que só o tempo dirá. O investimento financeiro é pessoal, por enquanto.

Consciente de que a extinção do Ballet Gulbenkian, há dois anos, “deixou um espaço em branco na dança contemporânea”, está disposto a dar o seu contributo para o preencher. “Houve alguns intérpretes a sair do país, mas muitos ficaram e estão disponíveis. Vamos trabalhar com eles, com os portugueses, e, se possível, trazer criadores estrangeiros”. O primeiro da lista é, precisamente, Marco Goecke. “Estou em contacto com a agente dele, já percebi que tem uma agenda muito preenchida. Gostava de criar em conjunto ou trazer alguma peça dele ao nosso país”. Bruno Horta

domingo, 6 de maio de 2007

"Será sempre um voto de protesto"

No "Público" de sábado:

O ambiente das pessoas em Clichy-sous-Bois é quase festivo. Mas o cenário é sombrio, sob a mancha cinzenta de prédios degradados, repletos de famílias numerosas, pobres, vindas de longe, há muito tempo, com filhos que não conhecem nenhum país de origem senão a França.

A morte dos dois adolescentes, Zyad Beena, de 17 anos, e Bouna Traoré, de 15 anos, electrocutados num transformador de alta tensão quando se escondiam da polícia, numa tarde do fim de Outubro de 2005, ainda pesa. Nessa noite, não houve qualquer explicação da polícia, do Governo, de qualquer instituição.
A mágoa tomou a forma de "revolta social" que incendiou primeiro Clichy-sous-Bois, no Leste de Paris, depois as cidades em volta e, por fim, se alastrou aos subúrbios de várias grandes cidades da França em Novembro de 2005.
(...)
Desde o Outono quente da "revolta social" de 2005, as coisas "estão muito mais calmas", ouve-se dizer em vários cantos da cidade. Mas nada ou quase nada melhorou. O candidato Nicolas Sarkozy não entra aqui.
"Ele é muito mal visto", diz Samir Mihi, um dos fundadores da ACLEFEU (Association, Collectif, Liberté, Égalité, Fraternité, Ensemble, Unis) criada logo a seguir aos acontecimentos, para que Zyad e Bouna "não tenham morrido para nada". Até hoje, as suas mortes não foram esclarecidas.
(...)
Quando chegar domingo, o dia da segunda volta, o voto dos jovens "não será a favor de Ségolène Royal mas contra Sarkozy", diz Samir Mihi. Na primeira volta, 82 por cento dos eleitores de Clichy-sous-
-Bois votaram. Quase metade votou Ségolène. "Será sempre um voto de protesto", insiste. As políticas de integração falharam, tanto em governos de direita como de esquerda. Ana Dias Cordeiro, em Paris

sábado, 5 de maio de 2007

Segredos de Cunhal em livro

O "Expresso" de hoje destaca o livro "Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via", da autoria do dissidente comunista Raimundo Narciso. É publicado na próxima semana. Excerto da notícia:

O livro "Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via" desvenda alguns dos «segredos» do PCP e em particular de Cunhal: o seu gabinete, o seu salário (igual ao da mulher da limpeza), a sua proximidade e acessibilidade formais - mas também o seu poder absoluto sobre o quotidiano do partido, desde as teses ao congresso, até à vigilância exercida sobre os suspeitos de dissidência. Nele, Raimundo Narciso relata as «conspirações» do grupo dissidente (auto-intitulado «o gabinete de crise»), encorajado pelas reformas de Gorbatchov. Primeiro na sala de convívio da sede, depois num restaurante no bairro de Alvalade, até adoptarem como «quartel-general» a residência de Pina Moura, no Restelo. José Pedro Castanheira

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Quantos há?

Afinal, quantos exemplares há do famoso "Telefone-Lagosta" de Salvador Dalí? As três imagens estão publicadas, respectivamente (da esq. para a dir.):

- no livro da Taschen "Salvador Dalí" (por Gilles Néret),
- na Wikipedia,
- no catálogo "Fernando Lemos e o Surrealismo" (colecção Berardo; edição do Centro de Artes Casa das Mudas).

A Wikipedia garante que o original foi concebido por Dalí em 1936 e que há quatro cópias. Cinco peças ao todo, portanto.

Mas põem-se três problemas e duas perguntas: as medidas do original, segundo a Wikipedia, são de 15 × 30 × 17 cm. As quatro cópias estão na Tate Modern, em Londres, no Museu Alemão dos Telefones, em Frankfurt, na Fundação Edward James e na National Gallery, da Austrália. E as medidas do exemplar da colecção Berardo, diz o catálogo citado, são de 20 × 30 × 15 cm.
E
stará errada a informação da Wikipedia sobre as medidas do original e o local onde se encontram as cópias? Que exemplar é o de Berardo? Quem poderá responder?

Hoje é dia mundial da liberdade de imprensa

O Sindicato dos Jornalistas escreveu uma mensagem a propósito deste dia. A passagem seguinte é extremamente importante. Embora não se refira apenas à realidade portuguesa, ganha maior dimensão no quadro da "claustrofobia democrática" em que vivemos.

"Mantêm-se e agravam-se os fenómenos de precariedade – sob várias formas, como os contratos a termo, os falsos recibos verdes ou a nomeação para funções de chefia em comissão de serviço – que atingem inúmeros jornalistas, condicionando a sua consciência e limitando a sua liberdade. Em muitas redacções, os jornalistas vivem sob o medo permanente de um despedimento arbitrário, sob o eufemismo de “convite para a rescisão amigável” do contrato de trabalho; sob a ameaça de serem os dispensados na “reestruturação” seguinte; sob o pânico de desagradarem à hierarquia, de serem destituídos de funções de chefia ou de verem congelados os seus salários. Nalgumas redacções, há quem tenha medo de ser eleito membro do Conselho de Redacção ou delegado sindical, e há até quem tenha medo de ser sindicalizado, temendo desagradar aos patrões e às hierarquias. Tal precariedade e tal condicionamento das consciências e da vontade comprometem a liberdade de imprensa sem que os cidadãos tomem verdadeira consciência desse facto e sem que os poderes democráticos intervenham".

Na íntegra, aqui.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Mário Vieira de Carvalho contra “concorrência meramente mercantil”

Excerto do artigo "Diversidade Cultural: protecção ou proteccionismo?", publicado no número quatro a revista Obscena, disponível em formato PDF:


Apesar de Portugal ter ratificado a Convenção [sobre a Diversidade Cultural, da UNESCO] a 17 de Março, a imprensa nacional não perdeu tempo a discutir o assunto. Contudo, para Mário Vieira de Carvalho [secretário de Estado da Cultura], o documento “vem ao encontro das prioridades da política cultural” do Governo. Porque estabelece a “legitimidade e necessidade de políticas públicas” na área cultural e protege a criatividade e as expressões culturais de uma “concorrência meramente mercantil”. O secretário de Estado entende que a língua e cultura portuguesas vão ser as principais beneficiárias deste instrumento. Apesar de lhe ter sido pedido que indicasse exemplos práticos, o governante preferiu não entrar em pormenores.

(...) É muito nebuloso, ainda, o alcance das medidas previstas. As definições da UNESCO são vagas. Entende-se que a diversidade cultural é a “multiplicidade de formas em que se expressam as culturas dos grupos e sociedades” e que as expressões culturais são as que “resultam da criatividade das pessoas, grupos e sociedades e que possuam conteúdo cultural”.

Mesmo quando se tenta perceber o que é que vai mudar, junto de quem representa músicos e escritores, nada de muito concreto se encontra. Eric Baptiste, director-geral da Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores (CISAC) – organização não-governamental, com sede em Paris, que representa 2,5 milhões de autores e editores de 114 países – defende que as políticas a adoptar em função do documento “vão garantir a liberdade criativa e o direito dos criadores a receber compensações adequadas pelo uso dos seus trabalhos”. Mas não concretiza. No entender do mesmo responsável, a Convenção “reconhece o papel indispensável dos criadores enquanto motores do diálogo intercultural e de uma economia criativa”. Se a globalização está a permitir que os criadores se apresentem a um número cada vez maior de pessoas, é necessário, ao mesmo tempo, sublinha Eric Baptiste, que “os bens culturais sejam legalmente protegidos”, coisa que, no seu entender, a Convenção permite, juntamente com os direitos de copyright que já existem.
B.H.

sábado, 28 de abril de 2007

"Salazar não usou o fado, foi obrigado a usá-lo"

O Guardian falou com Mariza, Rúben de Carvalho, Mário Soares, Björk e um historiador e publica hoje um belíssimo artigo sobre a evolução da percepção social do fado. Título magnífico: "Tainted Love" (alusão ao famoso tema que os Soft Cell tornaram conhecido em 1981).
O historiador, apresentado como especialista em fado, diz que Salazar não usou o fado voluntariamente para fins de propaganda, mas que foi obrigado a fazê-lo:

"The regime did not use the fado as a tool for propaganda," says fado historian Michael Colvin, assistant professor of Hispanic studies at Marymount Manhattan College in New York. "Rather, the fado's popularity had become such that the government had no choice but to make the song a part of the consecrated national repertoire. Through censorship, Salazar insured that it did not blatantly contradict the regime's notion of progress; and by promoting the 'poor but happy' - pobrete mas alegrete - image of Lisbon's fadistas and degraded popular neighbourhoods, the government kept the potentially subversive song at bay."