quinta-feira, 14 de junho de 2007

Silenciamento de poetas

Há arranjos entre alguns poetas e alguns críticos. Estes promovem aqueles, esquecem os restantes e assim manipulam a percepção pública. Excerto do artigo "A Diversidade da Poesia" que Joaquim Manuel Magalhães assinou na última edição do "Expresso" (suplemento "Actual", p. 50):

"As hegemonias de gostos e de grupos literários são inimigas do desenvolvimento equilibrado das épocas poéticas, pelas distorções que provocam e pela impiedade dos juízos que forçam. Não posso considerar-me um crítico profissional propriamente dito, com uma coluna permanente e uma obrigatoriedade de exercício avaliativo que tem de estar atento e referir absolutamente tudo o que vem sendo publicado. Contudo, estou atento à vontade de silenciamento de muitos e a uma certa desatenção a publicações que não envolvam alguma «protecção» peculiar. Em poetas com poucos ou apenas um volume publicado há sempre uma aventura apreciativa que não deveria perder-se, ainda que em expectação. Tento contribuir para a abertura à multiplicidade das vozes poéticas actuais, ao referir hoje três livros que diversamente me tocaram."


Os três livros são:

"Vão Cães Acesos pela Noite", de Alexandre Nave (2006)
"Diques", de Rui Pedro Gonçalves (2007)
"O Fio da Voz", de Joel Henriques (2007)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Al Berto morreu há dez anos

Al Berto morreu a 13 de Junho de 1997, em Lisboa. Poucas semanas depois, a já extinta revista "Imenso Sul" publicava o texto que segue, da autoria do realizador de cinema José Luís Jones:

"Muito se escreveu sobre o Alberto desde a sua morte. Conhecidos que não o conheceram, jornalistas que não o entrevistaram. Ele não deixará escapar mais a gargalhada viperina com que iria presentear alguns dos que sobre ele verteram lágrimas de crocodilo. A nossa ligação ao Alberto existiu muito antes do próprio início desta revista, porque algumas pessoas que aqui trabalham conheciam o Alberto desde o seu regresso da Bélgica. Publicámos uma conversa com ele na segunda edição da revista, na Primavera de 1995. Não o entrevistámos por ele ser alentejano. O Alberto detestava e recusava [terminantemente] esse rótulo, apesar de ter sido criado em Sines. Al Berto é um poeta do mundo e um dos maiores do nosso tempo. Amava a vida e vivia-a com toda a intensidade.
"Horto de Incêndio" não seria de certeza o seu último livro porque o Alberto tinha ainda muito mais para dizer. Um dia afirmou que não guardaria nenhum poema na gaveta, que não deixaria inéditos. "O Medo", uma antologia da sua obra, fica para assombrar os nossos espíritos com os fantasmas que ao longo da vida ele foi soltando. Verso após verso, até desaparecer no vento." José Luís Jones, revista "Imenso Sul", nº 11, Verão de 1997

A propósito dos dez anos que passam sobre a morte do poeta, a Casa Fernando Pessoa organiza uma exposição bibliográfica. E o blog Frenesi [Adenda em 12/11/2011: endereço alternativo para a gravação: http://vimeo.com/15709479] revela hoje um excerto de uma gravação inédita. É de 1992. Al Berto, lendo poesia ao vivo, em Coimbra, acaba vaiado por parte da assistência. "São mesmo ordinários, foda-se", reagiu.

A foto acima, de Al Berto, foi publicada em 1988 no livro "Depósito Legal nº 23571/88" (ed. Frenesi), de que são autores Al Berto, Paulo da Costa Domingos, Pedro S. Costa, Carlos Ferreiro, Helder Moura Pereira, Fala Mariam e Rui Baião. A ficha técnica informa que foram feitos apenas 400 exemplares. Está hoje esgotadíssimo, como se comprova aqui.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Regresso aos métodos da medicina dos anos 50

David Corfield, inglês, foi professor de História e Filosofia na Universidades de Cambridge e Oxford. Hoje dedica-se a escrever livros de divulgação científica. É autor do livro “Why Do People Get Ill?”, juntamente com Darien Leader.

Nesta entrevista, realizada há poucas semanas por email, David Corfield defende que o futuro da medicina ocidental passa por um regresso aos métodos dos anos 50. "Idealmente, deveríamos ter serviços de saúde integrados, capazes de oferecer tratamento médico e psicológico em simultâneo", afirma.

Why did you and Darien Leader decide to write this book?
Darian had the idea for the book over 7 years ago. I believe it was a combination of observing changes in his patients' symptoms during analysis, and his knowledge of a rich tradition of psychoanalytically-inspired approaches to medicine which had largely been forgotten.

He brought me in as a co-author as someone with a background in psychoanalysis, philosophy and science. We became friends years earlier when we coincided in Paris for a while, at a time when I was considering becoming an analyst.

I was excited to join the project as I saw that while a huge amount of physiological research detailing interactions between nervous, endocrine and immune systems was emerging, the psychological theory being employed in the emerging 'psychoneuroimmunology' was very weak. It seemed very timely to return to the psychosomatic approach of the 50s and earlier, with its emphasis on case studies rather than large statistical samples.

What kind of reactions did you receive until now from the medical community?
I don't think there have been enough reactions to say more than that we can expect a wide range of reactions. We've had some supportive private comments, including one from na old president of the Royal College of General Practitioners.


Why is so comfortable for people and doctors to separate the mind from the body. You say it's a defence mechanism. I
n what terms?
First of all, even if a doctor wanted to practice in a better integrated way, we shouldn't underestimate the difficulty for them. The social structure of the medical services acts to keep things as they are.

But as you note, we suggest in the book that there's a parallel to this institutional separation of mind and body in the defense mechanisms of some individuals. Perhaps we all employ these mechanisms to some extent, pointing to some external event as the cause of our malaise, imagining societal problems to be caused by outsiders, etc. It's very similar to blaming an illness solely on a germ or a pollutant.

We were especially interested in an extreme form of this inability to introspect, namely, alexithymia. Several theorists had suggested that the inability to process emotions may increase the chance of physical ailment.


Since medicine is today "poorly suited to respond to human illness" (page 324) should people avoid going to a doctor, mainly an annalist, if the illness is not very important? How can people know if a psychiatrist is going to apply a "strengthening" strategy or just "analysis" (page 309)?
There's a problem in knowing when an illness is important. Even if at present it's an indication more of a sychological crisis than a physiological malfunction, it may later gain physiological significance.

Ideally, one would encounter an integrated health service, which could deliver not only medical or psychological treatment, but also both, say, both a heart bypass and some form of therapy for one's depression.

As for how the psychothera
pist is to act, they have na enormous responsibility. The patient-doctor relation is rather a different one in which ideally they jointly decide which medical intervention to employ. One doesn't go into a therapeutic relationship deciding whether or not to have one's defense mechanisms strengthened.


Will we ever have a kind of "total psychoanalyst", as you suggest on the last chapter, capable of helping people to heal the soul and he body at the same time? Is that possible?
There are interesting examples of doctors who have later trained as psychotherapists, e.g., Brian Broom, Nick Read. Many psychoanalysts in the early days had a medical training. Ideally, medical provision would involve people f
rom different clinical backgrounds to provide a fully psychosomatic approach. So, a surgeon might have little knowledge of psychotherapy and yet be open to contributions from therapist colleagues.

A step in the right direction would be to expose medical students to some of the material we discuss in our book. At present, they see next to nothing of it. Patients do the rounds of the specialists before being sent to psychotherapists as a last resort.


The central idea of the book is that is very important for medicine to rethink the place were people/patients are in. Is that place rethinkable?
The problem is not only in medicine, but in western society. It's clearly rethinkable by some people,
but whether that's enough to change anything is another matter. It's unlikely that there could be wholesale change. Perhaps the best way would be to try to set up a few hospitals which adopt a self-consciously psychosomatic approach, employing practitioners sympathetic to the concept. Then we could see how they fare by comparison to orthodox hospitals.

Blog oficial do livro Why Do People Get Ill? aqui.

sábado, 9 de junho de 2007

Soares: "As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo"

Excertos da entrevista com Mário Soares, no "Expresso", hoje:

"Em dois anos de Governo, Sócrates acumulou demasiadas más vontades. Na classe média, no povo, no seu eleitorado tradicional. É tempo, julgo, de corrigir o rumo, pensando mais à esquerda."

"Recebo o «Diário de Notícias» de manhã, que folheio, distraidamente, num quarto de hora. Desapareceram os bons comentaristas como Medeiros Ferreira, Joana Amaral Dias, Vicente Jorge Silva, Alfredo Barroso. Já não compro o «Público». Procuro lê-lo, sem o comprar, aos fins-de-semana, por causa do Vasco Pulido Valente, do frei Bento Domingues e do António Barreto, e às vezes os artigos da Teresa de Sousa e da Constança Cunha e Sá. Os telejornais, todos iguais, são uma maçadoria ou tragédias, para alimentar o pessimismo nacional."

"Hoje, na política, há um hábito perigoso que são os lóbis. Permitidos na América, parece que vão ser autorizados em Portugal. É um estímulo ao tráfico de influências. Agora as pessoas desejam entrar na política para melhor usufruírem, depois, de lugares em empresas. Está a desaparecer o sentimento de honra - e o prestígio - do exercício de funções públicas. O que é terrível para o futuro das democracias."

"As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo, porque não soube «arranjar-se»! Em sociedades sem valores - em que o dinheiro é tudo - desapareceu a sanção moral em relação aos políticos e aos funcionários públicos corruptos e não só a eles... Na fase do capitalismo financeiro-especulativo, em que vivemos, tudo é permitido. Vamos pagar essa excessiva permissividade muito cara."

"O neoliberalismo deu às pessoas a ideia de que o mundo é uma selva e a selva é para os mais fortes, que se alimentam dos mais fracos. É o que se chama o «darwinismo social». A força, aliás, não se mede pelo músculo, mas pela carteira. Cada vez há mais pobres e maiores desigualdades e o que acontece a esses pobres? É indiferente: estão condenados a desaparecer."

"Não é agradável para ninguém, bem formado, viver em condomínios altamente protegidos, num contexto de miséria em redor e que espreita... Haverá revoltas, grandes confrontações, talvez guerras. Só vejo uma forma de evitar os conflitos e porventura as revoluções que se preparam. Fazer reformas a sério, progressivas. Não contra-reformas. Não é acabar com o Estado, deixar os ossos ao Estado e a carne aos privados. Isso não é uma reforma. É uma contra-reforma."
Entrevista de Cândida Pinto e Clara Ferreira Alves

sexta-feira, 8 de junho de 2007

A culpa é da vontade

Lena d'Água está de volta, com o disco "Sempre", gravado ao vivo no Hot Clube, em Lisboa. Saiu na semana passada, tem sido muito bem promovido na imprensa e ainda bem. Prova-o o que se ouve e vê aqui. A versão de "A Culpa é da Vontade", de António Variações, é brilhante (há três anos, Lena d'Água tinha apresentado esta canção no Teatro Maria Matos, num espectáculo de homenagem a Variações).
O blog oficial está
aqui.
Foto: Cristina Gomes

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Revistas

O mais recente número do boletim informativo da Junta de Freguesia de Benfica tem sido distribuído nas últimas semanas (nº6, ano 2, datado de Abril de 2007). Em 15 páginas, a cores, apresentam-se as actividades promovidas pela Junta. Nesta que é, como relembrava a última edição do Expresso, uma das freguesias de Lisboa com maior número de eleitores, especialmente da terceira idade, é curioso verificar que a maior parte das actividades destacadas no boletim se relacionam com crianças e jovens. No editorial, assinado por Domingos Alves Pires, presidente da Junta (eleito pelo PSD), diz-se que "o mais rapidamente possível" vai estar em funcionamento a Comissão Social da Freguesia, que deverá "responder de forma integrada às necessidades de cariz social de toda a população de Benfica, especialmente dos jovens e pessoas idosas".

Interessante a edição de Primavera da revista "Pontes & Vírgulas", editada pela Câmara Municipal de Aveiro (nº5, ano 2). É uma publicação dedicada às artes e cultura, dirigida pelo vereador da Cultura da Câmara, Miguel Capão Filipe. Apesar de uma ou outra "publientrevista", as 35 páginas da Pontes & Vírgulas" tratam assuntos de interesse geral, como a poesia de Nuno Júdice ou a história do conceito de escrita criativa.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

A praia e a casa de Amália

















Qualquer coisa não bate certo, nisto. O diário gratuito Oje publicou esta quinta-feira um artigo sobre turismo rural na Casa da Seiceira, na herdade do Brejão (São Teotónio, costa alentejana). Assinado por Paula Oliveira Silva, o artigo tem por título "Ecos de Amália" e dá a entender que essa Casa da Seiceira
é a mesma que serviu de casa de férias a Amália Rodrigues.

"No tempo dos avós do actual proprietário, eram 70 e poucos hectares, mas 40 foram para a tia Francisca e cerca de 11 para Amália", lê-se. Seguem-se várias linhas sobre as estadas de Amália naquela zona. "A passagem da cantora por este local valeu-lhe o nome de uma praia, vizinha da do Carvalhal e do Porto de Pesca da Azenha do Mar."

Se se comparar o conteúdo do artigo do "Oje" com a notícia "Dói ver o estado em que está a casa de Amália, no Brejão", que Carlos Dias assinou no "Público" a 30 de Julho do ano passado, descobrem-se duas contradições.

Primeira: a casa de férias que pertenceu a Amália está ao abandono e é propriedade da Fundação Amália Rodrigues. Logo, não pode estar a servir para fazer turismo rural. Segunda: é à praia do Carvalhal que se costuma chamar "praia da Amália", não existindo, portanto, uma outra praia ao lado dessa a que tenha sido dado o nome da fadista.


Aceitam-se outras explicações.