quinta-feira, 21 de junho de 2007

Notas

1 - A revista "Obscena" é publicada pela primeira vez em papel, amanhã. A edição é dedicada ao Festival Internacional de Teatro de Almada.

2 - A Federação Europeia de Jornalistas marcou para 5 de Novembro um protesto europeu contra "a pressão política sobre os media, o nivelamento por baixo da qualidade da imprensa e as más condições de trabalho" dos jornalistas.

3 - O Teatro Viriato, de Viseu, lançou esta semana uma nova revista, intitulada "Boa União". O director artístico do teatro, Paulo Ribeiro, diz que se trata de uma publicação de crítica, opinião e debate, aberta a artistas e a pessoas daquela cidade e do interior. Custa 5 euros.

domingo, 17 de junho de 2007

"É errado celebrar a vida devassa de Cesariny"

Excerto da entrevista de Alexandra Lucas Coelho com o escritor Luís Amorim de Sousa, na "Pública", hoje:


Disse que o seu tio Paco era poeta. Publicou?

Um livro de sonetos. O nome que usava era Mário Ermo. Um escandaloso, homossexual numa altura em que era impensável um homossexual manifestar-se...

Mas assumido?
Assumidissíssimo! Mas de uma forma teatral. Era um fazedor de "happenings".

Como Mário Cesariny?
Não. Uma espécie de Rainha-mãe do Mário Cesariny. Nada o mesmo género. O Mário Cesa­riny era um homem da noite, o meu tio Paço tinha um comportamento de fidalgo. Gostava imenso de soirés, e tinha um sentido do ridículo atroz.

Mas isso onde?
Nas várias casas onde morava. Estava proibido de entrar na Junqueira por causa dos escândalos. E tinha sido criado lá, mas a Junqueira era uma casa victoriana. O tio Paco era um actor prodigioso. Tinha uma belíssima voz, cantava maravilhosamente, falava todas as línguas incluindo francês, um espanhol impecável, escrevia versos em espanhol, e era um grande fazedor de acontecimentos totalmente inesperados. Saía à rua, e havia o burro do homem das hor­taliças que andava por Lisboa, ele dirigia-se ao burro, sugeria que eu lhe fizesse uma vénia pro­funda porque era nosso parente, ele era muito amigo de animais, e o homem desbarretava-se todo, e ele: "Não é consigo, é com o nosso primo, da nobre família dos equídeos." Está a ver o que isto é na Lisboa daquela época, 1940 e tal. O tio Paco alegrou imenso a minha vida, porque era um excêntrico extraordinário. Gostava imenso da gente do povo, e deve ter tido variadíssimos casos com a gente do povo. Mas o mundo do tio Paco era muitíssimo mais amplo que o de Mário Cesariny. Não quero falar muito do Mário, por­que se está a celebrar o lado errado dele, que é um poeta admirabilíssimo, a quem todos nós devemos imenso, mas o que se celebra nele é a vida devassa que terá levado.

Não acha que se celebra tudo?
Espero que sim, o extraordinaríssimo poeta que ele foi e pintor muito interessante. Tenho uma coisa dele muito bonita aí atrás de si, que ele me deu. Mas o tio Paco vivia num espaço físico mais amplo. Era um homem de sociedade, que ao mesmo tempo tinha uma noite sabe-se lá por onde, que andava nas redacções de jornais, também. E um dia, apareceu-me lá em casa com o António Botto. O António Botto começou a dizer poesia e percebi que a poesia tinha um efeito mágico encantatório. Ouvir o Antó­nio Botto a dizer versos é uma coisa que não se esquece. Eu estava vagamente a brincar e fiquei extasiado com as palavras que ele dizia e eu nem percebia muito bem. A magia abso­luta das palavras da língua portuguesa, magia indizível, sensação para mim eterna.

sábado, 16 de junho de 2007

O presidente optimista

À pergunta "como é que se vende cultura", responde assim o presidente da Fnac, Denis Olivennes, em entrevista ao "Expresso, hoje:

"Não vendemos só os «best-sellers» da literatura, da música ou dos filmes. (...) [Contratámos] uma equipa de vendedores muito bem formados (...), tratando cada cliente de forma exclusiva."

Descontando a componente de propaganda, que, como empresário, lhe cabe fazer, as palavras de Olivennes pecam por total desfasamento da realidade. Quem por estes dias entrar numa Fnac em Portugal encontra prateleiras cheias dos mais berrantes best sellers. Coisas como "Thirsty Evil", de Gore Vidal, "Capote, a Biography", de Gerald Clarke, ou "Young Man From The Provinces", de Alan Helms, não existem. Nem em inglês, nem traduzidas (calhou precisar de os ler e não encontrei).

Quanto ao alegado "tratamento exclusivo" dado aos clientes (coisa que ele acha que os clientes querem), Olivennes não se deve referir, por certo, ao tempo interminável que estes têm de esperar para serem atendidos pelos desgraçados dos empregados. Tempo interminável, esse, que só fica atrás do tempo que os serviços de Relações Públicas da Fnac demoram a responder a mails de jornalistas.

Olivennes é, comprovadamente, um optimista.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Sondagem: Helena Roseta com 9,1%

Sondagem que a Intercampus realizou para o Público, a TVI e o Rádio Clube Português, realizada entre 8 e 13 de Junho:

António Costa lidera as intenções de voto, com 31,1 por cento. (...) Helena Roseta surge em quinto lugar, com 9,1 por cento, ao lado de Rúben de Carvalho candidato do PCP (9,1 por cento).
Roseta vai buscar a maior fatia dos seus votos ao Bloco de Esquerda, 14,5 por cento, 8,4 por cento ao PS, 6,8 por cento ao PCP (CDU) e 5 por cento ao PSD.
Por sua vez, 7,1 por cento dos inquiridos que declararam votar em Roseta disseram não se sentir próximos de nenhum partido. São José Almeida, Público online

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Silenciamento de poetas

Há arranjos entre alguns poetas e alguns críticos. Estes promovem aqueles, esquecem os restantes e assim manipulam a percepção pública. Excerto do artigo "A Diversidade da Poesia" que Joaquim Manuel Magalhães assinou na última edição do "Expresso" (suplemento "Actual", p. 50):

"As hegemonias de gostos e de grupos literários são inimigas do desenvolvimento equilibrado das épocas poéticas, pelas distorções que provocam e pela impiedade dos juízos que forçam. Não posso considerar-me um crítico profissional propriamente dito, com uma coluna permanente e uma obrigatoriedade de exercício avaliativo que tem de estar atento e referir absolutamente tudo o que vem sendo publicado. Contudo, estou atento à vontade de silenciamento de muitos e a uma certa desatenção a publicações que não envolvam alguma «protecção» peculiar. Em poetas com poucos ou apenas um volume publicado há sempre uma aventura apreciativa que não deveria perder-se, ainda que em expectação. Tento contribuir para a abertura à multiplicidade das vozes poéticas actuais, ao referir hoje três livros que diversamente me tocaram."


Os três livros são:

"Vão Cães Acesos pela Noite", de Alexandre Nave (2006)
"Diques", de Rui Pedro Gonçalves (2007)
"O Fio da Voz", de Joel Henriques (2007)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Al Berto morreu há dez anos

Al Berto morreu a 13 de Junho de 1997, em Lisboa. Poucas semanas depois, a já extinta revista "Imenso Sul" publicava o texto que segue, da autoria do realizador de cinema José Luís Jones:

"Muito se escreveu sobre o Alberto desde a sua morte. Conhecidos que não o conheceram, jornalistas que não o entrevistaram. Ele não deixará escapar mais a gargalhada viperina com que iria presentear alguns dos que sobre ele verteram lágrimas de crocodilo. A nossa ligação ao Alberto existiu muito antes do próprio início desta revista, porque algumas pessoas que aqui trabalham conheciam o Alberto desde o seu regresso da Bélgica. Publicámos uma conversa com ele na segunda edição da revista, na Primavera de 1995. Não o entrevistámos por ele ser alentejano. O Alberto detestava e recusava [terminantemente] esse rótulo, apesar de ter sido criado em Sines. Al Berto é um poeta do mundo e um dos maiores do nosso tempo. Amava a vida e vivia-a com toda a intensidade.
"Horto de Incêndio" não seria de certeza o seu último livro porque o Alberto tinha ainda muito mais para dizer. Um dia afirmou que não guardaria nenhum poema na gaveta, que não deixaria inéditos. "O Medo", uma antologia da sua obra, fica para assombrar os nossos espíritos com os fantasmas que ao longo da vida ele foi soltando. Verso após verso, até desaparecer no vento." José Luís Jones, revista "Imenso Sul", nº 11, Verão de 1997

A propósito dos dez anos que passam sobre a morte do poeta, a Casa Fernando Pessoa organiza uma exposição bibliográfica. E o blog Frenesi [Adenda em 12/11/2011: endereço alternativo para a gravação: http://vimeo.com/15709479] revela hoje um excerto de uma gravação inédita. É de 1992. Al Berto, lendo poesia ao vivo, em Coimbra, acaba vaiado por parte da assistência. "São mesmo ordinários, foda-se", reagiu.

A foto acima, de Al Berto, foi publicada em 1988 no livro "Depósito Legal nº 23571/88" (ed. Frenesi), de que são autores Al Berto, Paulo da Costa Domingos, Pedro S. Costa, Carlos Ferreiro, Helder Moura Pereira, Fala Mariam e Rui Baião. A ficha técnica informa que foram feitos apenas 400 exemplares. Está hoje esgotadíssimo, como se comprova aqui.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Regresso aos métodos da medicina dos anos 50

David Corfield, inglês, foi professor de História e Filosofia na Universidades de Cambridge e Oxford. Hoje dedica-se a escrever livros de divulgação científica. É autor do livro “Why Do People Get Ill?”, juntamente com Darien Leader.

Nesta entrevista, realizada há poucas semanas por email, David Corfield defende que o futuro da medicina ocidental passa por um regresso aos métodos dos anos 50. "Idealmente, deveríamos ter serviços de saúde integrados, capazes de oferecer tratamento médico e psicológico em simultâneo", afirma.

Why did you and Darien Leader decide to write this book?
Darian had the idea for the book over 7 years ago. I believe it was a combination of observing changes in his patients' symptoms during analysis, and his knowledge of a rich tradition of psychoanalytically-inspired approaches to medicine which had largely been forgotten.

He brought me in as a co-author as someone with a background in psychoanalysis, philosophy and science. We became friends years earlier when we coincided in Paris for a while, at a time when I was considering becoming an analyst.

I was excited to join the project as I saw that while a huge amount of physiological research detailing interactions between nervous, endocrine and immune systems was emerging, the psychological theory being employed in the emerging 'psychoneuroimmunology' was very weak. It seemed very timely to return to the psychosomatic approach of the 50s and earlier, with its emphasis on case studies rather than large statistical samples.

What kind of reactions did you receive until now from the medical community?
I don't think there have been enough reactions to say more than that we can expect a wide range of reactions. We've had some supportive private comments, including one from na old president of the Royal College of General Practitioners.


Why is so comfortable for people and doctors to separate the mind from the body. You say it's a defence mechanism. I
n what terms?
First of all, even if a doctor wanted to practice in a better integrated way, we shouldn't underestimate the difficulty for them. The social structure of the medical services acts to keep things as they are.

But as you note, we suggest in the book that there's a parallel to this institutional separation of mind and body in the defense mechanisms of some individuals. Perhaps we all employ these mechanisms to some extent, pointing to some external event as the cause of our malaise, imagining societal problems to be caused by outsiders, etc. It's very similar to blaming an illness solely on a germ or a pollutant.

We were especially interested in an extreme form of this inability to introspect, namely, alexithymia. Several theorists had suggested that the inability to process emotions may increase the chance of physical ailment.


Since medicine is today "poorly suited to respond to human illness" (page 324) should people avoid going to a doctor, mainly an annalist, if the illness is not very important? How can people know if a psychiatrist is going to apply a "strengthening" strategy or just "analysis" (page 309)?
There's a problem in knowing when an illness is important. Even if at present it's an indication more of a sychological crisis than a physiological malfunction, it may later gain physiological significance.

Ideally, one would encounter an integrated health service, which could deliver not only medical or psychological treatment, but also both, say, both a heart bypass and some form of therapy for one's depression.

As for how the psychothera
pist is to act, they have na enormous responsibility. The patient-doctor relation is rather a different one in which ideally they jointly decide which medical intervention to employ. One doesn't go into a therapeutic relationship deciding whether or not to have one's defense mechanisms strengthened.


Will we ever have a kind of "total psychoanalyst", as you suggest on the last chapter, capable of helping people to heal the soul and he body at the same time? Is that possible?
There are interesting examples of doctors who have later trained as psychotherapists, e.g., Brian Broom, Nick Read. Many psychoanalysts in the early days had a medical training. Ideally, medical provision would involve people f
rom different clinical backgrounds to provide a fully psychosomatic approach. So, a surgeon might have little knowledge of psychotherapy and yet be open to contributions from therapist colleagues.

A step in the right direction would be to expose medical students to some of the material we discuss in our book. At present, they see next to nothing of it. Patients do the rounds of the specialists before being sent to psychotherapists as a last resort.


The central idea of the book is that is very important for medicine to rethink the place were people/patients are in. Is that place rethinkable?
The problem is not only in medicine, but in western society. It's clearly rethinkable by some people,
but whether that's enough to change anything is another matter. It's unlikely that there could be wholesale change. Perhaps the best way would be to try to set up a few hospitals which adopt a self-consciously psychosomatic approach, employing practitioners sympathetic to the concept. Then we could see how they fare by comparison to orthodox hospitals.

Blog oficial do livro Why Do People Get Ill? aqui.