quinta-feira, 28 de junho de 2007

Dispensado por email

Vicente Jorge Silva, no "Sol" de 23 de Junho, sobre o "Diário de Notícias":

Fui expeditamente dispensado – através de e-mail e na véspera da publicação de um último artigo – de escrever num jornal onde colaborava há alguns anos. Isso aconteceu depois de ter assinado dois textos ‘heterodoxos’ sobre o actual primeiro-ministro e, nomeadamente, acerca da sua licenciatura polémica na Universidade Independente.
Por coincidência, o novo director desse jornal – que antes se distinguira, noutro órgão de informação que dirigia, por posições hostis ao PS e uma campanha difamatória contra Ferro Rodrigues – assumiu logo o estatuto de defensor oficioso de José Sócrates na controvérsia sobre o currículo académico do chefe do Governo. Também por coincidência, a linha editorial do dito jornal passou desde então a reflectir um zelo propagandístico dos actos governamentais em estilo marcadamente ‘pravdiano’ (ou, se quiserem, ‘pavloviano’). E igualmente, decerto, por coincidência, o grupo empresarial de que esse jornal faz parte aparece como forte concorrente na disputa pelas novas concessões que o Governo atribuirá para expansão do espaço televisivo.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Dizem que eu te esqueci

Abû Bkr Ibn Al-Milh, poeta árabe de Silves, século XI, traduzido directamente do árabe por Adalberto Alves. Na antologia "O Meu Coração É Árabe" (3ª ed., 1999):

dizem que eu te esqueci!
sabes bem, não é verdade!
és a minha Lua eterna
és a minha Lua Cheia.
alguma vez, por acaso,
foste a minha meia-lua?

domingo, 24 de junho de 2007

Textos raros de Al Berto em livro

"Dispersos", publicado este mês pela Assírio & Alvim, reúne 18 textos raros de Al Berto. É uma recolha não exaustiva, explicam em nota introdutória os organizadores, Luís Manuel Gaspar e Manuel de Freitas. O textos foram originalmente publicados em jornais, revistas literárias e catálogos de exposições, entre 1988 e 1997. Há dois em francês. É pena que ninguém se tenha dado ao trabalho de os traduzir para português. 100 páginas; 1500 exemplares.

Excerto de "O Trabalho do Pintor", publicado pela primeira vez no folheto de uma exposição de António Correia, no Centro Cultural Emmerico Nunes, de Sines , em Abril de 1988:

"Fecho com mais força as pálpebras. E da noite da memória crescem, então, estas criaturas. Mostram-me os misteriosos rostos ainda sulcados de sono. Esboçam sorrisos ao canto dos lábios. Erguem-se, movem-se depois, com leveza etérea. Vão pela noite. Enleiam os corpos na trepidação da música, nos intermitentes brilhos das pistas de dança. Embriagam-se. Alucinam. Desgastam hoje o que a noite de ontem deixou que lhes sobejasse do corpo. Vibram, entre desejos de outro corpo e as súbitas derrotas do nocturno amor. Entre esperas quase desérticas e a sedução de um gesto inesperado. São criaturas nem tristes nem alegres. Vivas, apenas vivas e deambulam." Al Berto

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Notas

1 - A revista "Obscena" é publicada pela primeira vez em papel, amanhã. A edição é dedicada ao Festival Internacional de Teatro de Almada.

2 - A Federação Europeia de Jornalistas marcou para 5 de Novembro um protesto europeu contra "a pressão política sobre os media, o nivelamento por baixo da qualidade da imprensa e as más condições de trabalho" dos jornalistas.

3 - O Teatro Viriato, de Viseu, lançou esta semana uma nova revista, intitulada "Boa União". O director artístico do teatro, Paulo Ribeiro, diz que se trata de uma publicação de crítica, opinião e debate, aberta a artistas e a pessoas daquela cidade e do interior. Custa 5 euros.

domingo, 17 de junho de 2007

"É errado celebrar a vida devassa de Cesariny"

Excerto da entrevista de Alexandra Lucas Coelho com o escritor Luís Amorim de Sousa, na "Pública", hoje:


Disse que o seu tio Paco era poeta. Publicou?

Um livro de sonetos. O nome que usava era Mário Ermo. Um escandaloso, homossexual numa altura em que era impensável um homossexual manifestar-se...

Mas assumido?
Assumidissíssimo! Mas de uma forma teatral. Era um fazedor de "happenings".

Como Mário Cesariny?
Não. Uma espécie de Rainha-mãe do Mário Cesariny. Nada o mesmo género. O Mário Cesa­riny era um homem da noite, o meu tio Paço tinha um comportamento de fidalgo. Gostava imenso de soirés, e tinha um sentido do ridículo atroz.

Mas isso onde?
Nas várias casas onde morava. Estava proibido de entrar na Junqueira por causa dos escândalos. E tinha sido criado lá, mas a Junqueira era uma casa victoriana. O tio Paco era um actor prodigioso. Tinha uma belíssima voz, cantava maravilhosamente, falava todas as línguas incluindo francês, um espanhol impecável, escrevia versos em espanhol, e era um grande fazedor de acontecimentos totalmente inesperados. Saía à rua, e havia o burro do homem das hor­taliças que andava por Lisboa, ele dirigia-se ao burro, sugeria que eu lhe fizesse uma vénia pro­funda porque era nosso parente, ele era muito amigo de animais, e o homem desbarretava-se todo, e ele: "Não é consigo, é com o nosso primo, da nobre família dos equídeos." Está a ver o que isto é na Lisboa daquela época, 1940 e tal. O tio Paco alegrou imenso a minha vida, porque era um excêntrico extraordinário. Gostava imenso da gente do povo, e deve ter tido variadíssimos casos com a gente do povo. Mas o mundo do tio Paco era muitíssimo mais amplo que o de Mário Cesariny. Não quero falar muito do Mário, por­que se está a celebrar o lado errado dele, que é um poeta admirabilíssimo, a quem todos nós devemos imenso, mas o que se celebra nele é a vida devassa que terá levado.

Não acha que se celebra tudo?
Espero que sim, o extraordinaríssimo poeta que ele foi e pintor muito interessante. Tenho uma coisa dele muito bonita aí atrás de si, que ele me deu. Mas o tio Paco vivia num espaço físico mais amplo. Era um homem de sociedade, que ao mesmo tempo tinha uma noite sabe-se lá por onde, que andava nas redacções de jornais, também. E um dia, apareceu-me lá em casa com o António Botto. O António Botto começou a dizer poesia e percebi que a poesia tinha um efeito mágico encantatório. Ouvir o Antó­nio Botto a dizer versos é uma coisa que não se esquece. Eu estava vagamente a brincar e fiquei extasiado com as palavras que ele dizia e eu nem percebia muito bem. A magia abso­luta das palavras da língua portuguesa, magia indizível, sensação para mim eterna.

sábado, 16 de junho de 2007

O presidente optimista

À pergunta "como é que se vende cultura", responde assim o presidente da Fnac, Denis Olivennes, em entrevista ao "Expresso, hoje:

"Não vendemos só os «best-sellers» da literatura, da música ou dos filmes. (...) [Contratámos] uma equipa de vendedores muito bem formados (...), tratando cada cliente de forma exclusiva."

Descontando a componente de propaganda, que, como empresário, lhe cabe fazer, as palavras de Olivennes pecam por total desfasamento da realidade. Quem por estes dias entrar numa Fnac em Portugal encontra prateleiras cheias dos mais berrantes best sellers. Coisas como "Thirsty Evil", de Gore Vidal, "Capote, a Biography", de Gerald Clarke, ou "Young Man From The Provinces", de Alan Helms, não existem. Nem em inglês, nem traduzidas (calhou precisar de os ler e não encontrei).

Quanto ao alegado "tratamento exclusivo" dado aos clientes (coisa que ele acha que os clientes querem), Olivennes não se deve referir, por certo, ao tempo interminável que estes têm de esperar para serem atendidos pelos desgraçados dos empregados. Tempo interminável, esse, que só fica atrás do tempo que os serviços de Relações Públicas da Fnac demoram a responder a mails de jornalistas.

Olivennes é, comprovadamente, um optimista.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Sondagem: Helena Roseta com 9,1%

Sondagem que a Intercampus realizou para o Público, a TVI e o Rádio Clube Português, realizada entre 8 e 13 de Junho:

António Costa lidera as intenções de voto, com 31,1 por cento. (...) Helena Roseta surge em quinto lugar, com 9,1 por cento, ao lado de Rúben de Carvalho candidato do PCP (9,1 por cento).
Roseta vai buscar a maior fatia dos seus votos ao Bloco de Esquerda, 14,5 por cento, 8,4 por cento ao PS, 6,8 por cento ao PCP (CDU) e 5 por cento ao PSD.
Por sua vez, 7,1 por cento dos inquiridos que declararam votar em Roseta disseram não se sentir próximos de nenhum partido. São José Almeida, Público online