sexta-feira, 3 de agosto de 2007

E a liberdade de imprensa?

Claro que Cavaco nunca vetaria o Estatuto do Jornalista (assim mesmo, no singular) se contra o Estatuto não se tivesse manifestado gente da laia dele. Claro que o veto do Presidente está mal justificado: a lei não deveria ser revista em nome da "clareza da acção política", como ele escreve, mas obviamente em nome da Liberdade de Imprensa e de Expressão (assim mesmo, em caixa alta) . E claro que "a quebra do sigilo profissional, os requisitos de capacidade para o exercício da profissão e o regime sancionatório instituído" não são as únicas coisas erradas na lei. Sobre os direitos de autor dos jornalistas, ele não acha nada.
Mas ainda bem que vetou.
Em Setembro se verá.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Não se conheceram, mas enfrentaram os mesmos monstros

Francesca Woodman; sem título, Boulder, Colorado, 1976; cortesia George and Betty Woodman



No "Público" de 24 de Julho:

Francesca Woodman viveu atormentada pela dúvida. Parecia uma adolescente normal, deslumbrada pela fotografia, mas aos 22 anos quis acabar com tudo. Atirou-se da janela do loft onde vivia, no bairro nova-iorquino de East Village. "Ela andava à procura da normalidade e da segurança das rotinas, mas só tinha a arte, a dúvida constante, a solidão, a insegurança e a obsessão próprias de quem quer superar a própria vida", escreve a amiga Betsy Berne, no livro Francesca Woodman, da autoria de um professor da Universidade de Londres, Chris Townsend, recentemente publicado pela editora Phaidon e com 130 fotografias inéditas de Woodman.
Diane Arbus viveu aprisionada pelas convenções. E pelos fantasmas interiores. "Penso sobre o que quero fazer e o entusiasmo tira-me o fôlego. Mas, de repente, a energia desaparece, deixando-me incomodada, afundada, enlouquecida e assustada pelas mesmas coisas de que julgava estar desejosa", escreveu ela, numa carta a uma amiga, em 1968. Três anos depois, aos 48, deixaria que a fragilidade a arrastasse. Em casa, em Greenwich Village, Nova Iorque, engoliu vários comprimidos para dormir, entrou vestida na banheira e cortou os pulsos. Parte da sua vida está no filme Fur - Um Retrato Imaginário de Diane Arbus, de Steven Shainberg, com Nicole Kidman como actriz principal. A estreia no cinema foi em Março e o DVD chega hoje a Portugal.
Comparadas as biografias, não foi só na tragédia que coincidiram as duas mulheres. Apesar de nunca se teram conhecido, Woodman (1958-1981) e Arbus (1923-1971) disparavam a máquina fotográfica da mesma forma - para captar a tormenta, delas e do mundo. Além disso, unem-nas várias coincidências: Woodman começou a fotografar em 1971, ano em que Arbus se suicidou. Arbus teve a primeira filha (Doom; terá uma segunda, Amy) aos 22 anos, idade com que Woodman pôs termo à vida.
Os temas que escolheram são diferentes, tal como as máquinas que usaram a maior parte do tempo: uma Yashica Reflex, no caso de Woodman, e uma Rolleiflex de lente dupla, no de Arbus. Woodman autoretratou-se. "Não tem frio nos olhos, está despida como ninguém, decidiu perturbar o sonambolismo humano", diz dela o escritor e ensaísta francês Philippe Sollers. Arbus andou na rua atrás da diferença. "Mudou a forma como os americanos se viam durante os muito repressivos anos 50, elevando anões e travestis a temas fotográficos respeitáveis", explica ao P2 Shelley Rice, professora de Estética da Fotografia na Universidade de Nova Iorque.
Ainda assim, uma e outra deixaram uma obra onde "não há complacências face ao disforme, à monstruosidade ou à doença", conclui Sollers num texto do catálogo da única exposição de Francesca Woodman em Portugal, organizada em 1999 pela Fundação Cartier no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
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quarta-feira, 25 de julho de 2007

Sem palavras

José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues anunciaram há dois dias um plano para equipar a escolas com computadores. Foi no Centro Cultural de Belém, numa sala de aula fictícia. Os alunos dessa sala também era fictícios. Tinham sido recrutados, e pagos (30 euros) para o efeito, pela produtora de televisão NBP (propriedade da Prisa, em cuja administração tem assento o ex-deputado do PS Pina Moura).
É preciso repetir, reformulando, porque parece mentira: um engenheiro fictício e sua partenaire participam numa encenação pública, em nome do Estado, com isso fomentando a exploração do trabalho infantil.
É a esta gente que dizem que não há alternativa?

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Na morte do patrão

Pelo destaque que o El País online dá à morte de Jesús de Polanco dir-se-ia que a Espanha vai embargada e nada mais importante ali se passa. A liberdade de imprensa tem destas coisas.

domingo, 22 de julho de 2007

Orgulho e preconceito

Os britânicos acham que "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen, é o melhor romance da literatura deles. Mas 18 dos principais editores e agentes literários de Inglaterra não dariam à escritora hipótese de ser publicada. Os editores em Portugal também são deste calibre? Aceitam-se respostas.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

"Gosto de jornalistas que estão lá para arder"

Vítor Silva Tavares, editor da &Etc, em entrevista a Alexandra Lucas Coelho, do "Público", hoje:

"Ainda gosto de jornalismo e de jornalistas. Obviamente, já não gosto de jornais. Não gosto da tabloidização dos jornais. Do jornal espectáculo. Fui homem de camisolas. A minha camisola em termos de jornalismo chamou-se Intransigente, em Benguela, e depois Diário de Lisboa. Não me reconheço de modo nenhum nos jornais que hoje existem. Mas sei fazer o "distinguo" dos jornalistas. Não são todos, claro, mas são alguns e esses sei reconhecê-los e gosto de jornalistas. Pessoas que ainda se queimam, porque é uma profissão para queimar. Gosto de jornalistas que têm a consciência de que estão lá para arder, num mundo que está a arder."

domingo, 15 de julho de 2007

Coisas do fim-de-semana

Teatro
Capa do programa da peça "O Avarento ou a Última Festa", de José Maria Vieira Mendes (a partir de "O Avarento", de Molière), apresentada pelo Teatro Praga no Teatro Nacional de São João, no Porto, entre 27 de Junho e 8 de Julho.
O programa tem 24 páginas e não fala apenas da peça. Celebra, também, os 12 anos de vida do Teatro Praga. Textos de Jacinto Lucas Pires (escritor), Tiago Bartolomeu Costa (crítico de dança) e Peter Sloterdijk (filósofo).
Em Janeiro de 2008, a peça vai estar em Montemor-o-Novo e em Lisboa.

Jornais
O número de Julho da edição portuguesa do "Le Monde Diplomatique" tem um artigo muito interessante sobre o "individualismo de massas" na Califórnia. É assinado por um antropólogo, Christian Ghasarian. Excerto: "Em São Francisco e em Berkeley, duas cidades da Califórnia pouco representativas do resto do país mas bem americanas, certas «transgressões» relativas à aparência física ou à «identidade» suscitam uma crescente indiferença. O anticonformismo reinante deixa de corresponder a uma contracultura e, transformado num modelo de comportamento individual, modela o modo de vida local. Este tipo de subversão satisfaz os que a protagonizam, mas já não incomoda ninguém."