quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O nosso querer falar

Uma nota à edição de "Poemas de Mário Cesariny ditos por Mário Cesariny", livro e disco publicado hoje pela Assírio & Alvim, esclarece que a transcrição apresentada é fiel à versão dita pelo autor na gravação, não à versão anteriormente publicada dos poemas. Uma das discrepâncias mais interessantes está no poema "you are welcome to elsinore". Em vez de "e entre nós e as palavras, o nosso dever falar", Cesariny diz "o nosso querer falar". E a seguir acrescenta: "Aqui está 'dever', mas é 'querer' ".
O que já não é interessante é haver erros como este: logo no primeiro poema, Cesariny diz "E quando um deles ala o corpo" e aparece escrito "E quando um deles ala e o corpo".
De resto, o som é bom e a voz do poeta, apesar de rouca e desgastada, tem muita expressividade.
Mau, muito mau, é o preço (28 euros) e o facto de a Assírio & Alvim não ter tido o cuidado de escrever algures as datas de nascimento e de morte do autor tanto mais que o livro/disco resulta de uma gravação de três dias, feita poucos meses antes de ele morrer (26 de Novembro de 2006).

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Marginais e resistentes

Na "Pública" de 5 de Agosto. Excerto:


Em Portugal há línguas que só alguns dominam. E das quais não há dicionários ou gramáticas. Agora que decorre em Shangai o 18º Congresso Mundial da Federação Internacional de Tradutores, de 4 a 7 de Agosto, fomos à procura dos tradutores literários que resistem à tirania do inglês.


Um escritor estrangeiro ganha o Prémio Nobel da Literatura em 1955 e passados 42 anos é publicado, pela primeira vez, em Portugal. Dito assim, parece impossível. No entanto, é verdade. “Gente Independente”, do islandês Halldór Laxness (1902-1998), está disponível em português desde Março último. A badana do livro, dado à estampa pela editora Cavalo de Ferro, informa que o autor já tinha sido vertido para mais de 45 idiomas. No Brasil, há muito que o conhecem traduzido. Por cá, só agora.

A islandesa Gudlaug Rún Margeirsdóttir, autora da tradução de “Gente Independente” (revista por Jorge David e Maria João Branco) explica o atraso com três argumentos. O islandês é uma língua muito difícil. A Islândia, país com cerca de 290 mil habitantes, continua a ser pouco conhecido da maior parte dos portugueses. E Laxness era um “rebelde da literatura”: a ficção deste antigo monge beneditino, convertido ao socialismo soviético, com o qual haveria de se desiludir, fala da pobreza dos camponeses e outras desgraças das classes baixas, pelo que “nunca poderia ter sido traduzido em Portugal durante o Estado Novo”, justifica.

Gudlaug Rún Margeirsdóttir é a única tradutora literária de islandês em Portugal. Há mais quem se dedique a verter a língua de Laxness para a de Camões, mas apenas ao nível técnico (relatórios, manuais de produtos, leis). Não a literatura. Acontece o mesmo com o árabe, o húngaro e o dinamarquês. Bruno Horta | foto de Sérgio Azenha

Notas

1 - A ler, a entrevista de António Calvário à Ana Sofia Fonseca, na Sábado (2 de Agosto). Ele há muita maneira de se falar: "Não fui casado oficialmente, mas não imagina o número de casamentos que fui tendo... E continuo a casar de vez em quando, é mais interessante. Além disso, casei com o público".

2 - O último Jornal de Letras (1 de Agosto) é quase todo dedicado ao centenário do nascimento de Miguel Torga e inclui cartas inéditas que Eugénio de Andrade, Vitorino Nemésio e Eduardo Lourenço lhe enviaram. "Estou cada vez mais convencido de que a verdadeira sorte de um escritor é sofrer", diz Nemésio a Torga, a propósito da apreensão de "A Montanha", em 1941.

3 - Em Espanha, indo além do que Santos Silva queria fazer (30 dias para as empresas usarem e abusarem dos artigos dos jornalistas), o PSOE e o PP propõem que o direito de autor seja transferido dos jornalistas para os editores.

4 - "
Cândida faleceu no anonimato suburbano. O apartamento de Massamá onde finalmente atingiu a paz fica numa praceta, os rés-do-chão cobertos de grafittis, os edifícios de seis andares na monotonia do branco e castanho." Grande reportagem de Nuno Ferreira sobre a morte de Cândida Branca Flor. Recuperada aqui.

5 - O Sérgio B. Gomes, jornalista, teve a gentileza de falar no seu
blog, Arte Photographica, do artigo que escrevi para o Público sobre as fotógrafas Diane Arbus e Francesca Woodman.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Al Berto é alentejano?

Mais um livro com Al Berto. "Degredo No Sul", colectânea organizada pelo jornalista Paulo Barriga, publicada agora pela Assírio & Alvim, apesar de a edição vir datada de Maio.
Al Berto não gostava que o ser alentejano fosse um seu predicado. Paulo Barriga sabe disso. Tanto que se desculpou na introdução: talvez não faça sentido retalhar "pelo despotismo da geografia um corpo poético eminentemente universal", escreve. Se calhar, não valia a pena, então, fazer o livro. Até porque a justificação dada para contrariar o "despotismo" não é muito convincente: homenagear o poeta e recentrar no Alentejo alguns dos seus textos.
Parece que Al Berto se deixou domesticar depois dos tempos doidos. Mas o que escreveu não foi sempre sobre pessoas e desejos, mais do que sobre sítios, mesmo quando os sítios são cenário dessas pessoas e desses desejos? Não é claro que ele ficasse feliz com este livro.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

E a liberdade de imprensa?

Claro que Cavaco nunca vetaria o Estatuto do Jornalista (assim mesmo, no singular) se contra o Estatuto não se tivesse manifestado gente da laia dele. Claro que o veto do Presidente está mal justificado: a lei não deveria ser revista em nome da "clareza da acção política", como ele escreve, mas obviamente em nome da Liberdade de Imprensa e de Expressão (assim mesmo, em caixa alta) . E claro que "a quebra do sigilo profissional, os requisitos de capacidade para o exercício da profissão e o regime sancionatório instituído" não são as únicas coisas erradas na lei. Sobre os direitos de autor dos jornalistas, ele não acha nada.
Mas ainda bem que vetou.
Em Setembro se verá.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Não se conheceram, mas enfrentaram os mesmos monstros

Francesca Woodman; sem título, Boulder, Colorado, 1976; cortesia George and Betty Woodman



No "Público" de 24 de Julho:

Francesca Woodman viveu atormentada pela dúvida. Parecia uma adolescente normal, deslumbrada pela fotografia, mas aos 22 anos quis acabar com tudo. Atirou-se da janela do loft onde vivia, no bairro nova-iorquino de East Village. "Ela andava à procura da normalidade e da segurança das rotinas, mas só tinha a arte, a dúvida constante, a solidão, a insegurança e a obsessão próprias de quem quer superar a própria vida", escreve a amiga Betsy Berne, no livro Francesca Woodman, da autoria de um professor da Universidade de Londres, Chris Townsend, recentemente publicado pela editora Phaidon e com 130 fotografias inéditas de Woodman.
Diane Arbus viveu aprisionada pelas convenções. E pelos fantasmas interiores. "Penso sobre o que quero fazer e o entusiasmo tira-me o fôlego. Mas, de repente, a energia desaparece, deixando-me incomodada, afundada, enlouquecida e assustada pelas mesmas coisas de que julgava estar desejosa", escreveu ela, numa carta a uma amiga, em 1968. Três anos depois, aos 48, deixaria que a fragilidade a arrastasse. Em casa, em Greenwich Village, Nova Iorque, engoliu vários comprimidos para dormir, entrou vestida na banheira e cortou os pulsos. Parte da sua vida está no filme Fur - Um Retrato Imaginário de Diane Arbus, de Steven Shainberg, com Nicole Kidman como actriz principal. A estreia no cinema foi em Março e o DVD chega hoje a Portugal.
Comparadas as biografias, não foi só na tragédia que coincidiram as duas mulheres. Apesar de nunca se teram conhecido, Woodman (1958-1981) e Arbus (1923-1971) disparavam a máquina fotográfica da mesma forma - para captar a tormenta, delas e do mundo. Além disso, unem-nas várias coincidências: Woodman começou a fotografar em 1971, ano em que Arbus se suicidou. Arbus teve a primeira filha (Doom; terá uma segunda, Amy) aos 22 anos, idade com que Woodman pôs termo à vida.
Os temas que escolheram são diferentes, tal como as máquinas que usaram a maior parte do tempo: uma Yashica Reflex, no caso de Woodman, e uma Rolleiflex de lente dupla, no de Arbus. Woodman autoretratou-se. "Não tem frio nos olhos, está despida como ninguém, decidiu perturbar o sonambolismo humano", diz dela o escritor e ensaísta francês Philippe Sollers. Arbus andou na rua atrás da diferença. "Mudou a forma como os americanos se viam durante os muito repressivos anos 50, elevando anões e travestis a temas fotográficos respeitáveis", explica ao P2 Shelley Rice, professora de Estética da Fotografia na Universidade de Nova Iorque.
Ainda assim, uma e outra deixaram uma obra onde "não há complacências face ao disforme, à monstruosidade ou à doença", conclui Sollers num texto do catálogo da única exposição de Francesca Woodman em Portugal, organizada em 1999 pela Fundação Cartier no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
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quarta-feira, 25 de julho de 2007

Sem palavras

José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues anunciaram há dois dias um plano para equipar a escolas com computadores. Foi no Centro Cultural de Belém, numa sala de aula fictícia. Os alunos dessa sala também era fictícios. Tinham sido recrutados, e pagos (30 euros) para o efeito, pela produtora de televisão NBP (propriedade da Prisa, em cuja administração tem assento o ex-deputado do PS Pina Moura).
É preciso repetir, reformulando, porque parece mentira: um engenheiro fictício e sua partenaire participam numa encenação pública, em nome do Estado, com isso fomentando a exploração do trabalho infantil.
É a esta gente que dizem que não há alternativa?