domingo, 23 de setembro de 2007

Não pode, não deve

Disseram-me há uns dias que uma jornalista de Lisboa faz textos e fotos para um diário nacional por cerca de 20 euros a peça. É freelancer, portanto, e não tem escrúpulos. Nem ela, nem os patrões dela. Talvez lhes fizesse bem ler estas duas passagens do novo Código de Ética dos jornalistas brasileiros, actualizado este Verão:

"O jornalista não pode aceitar ou oferecer trabalho remunerado em desacordo com o piso salarial, a carga horária legal ou tabela fixada por sua entidade de classe, nem contribuir ativa ou passivamente para a precarização das condições de trabalho".

"O jornalista não deve acumular funções jornalísticas ou obrigar outro profissional a fazê-lo, quando isso implicar substituição ou supressão de cargos na mesma empresa. Quando, por razões justificadas, vier a exercer mais de uma função na mesma empresa, o jornalista deve receber a remuneração correspondente ao trabalho extra".

Já agora: o Sindicato dos Jornalistas portugueses já disse que quer promover para breve um novo congresso nacional. Não seria altura de voltar a discutir o Código Deontológico, adaptando-o aos novos problemas da classe?

sábado, 22 de setembro de 2007

Traduções recentes

"(...) quando ficaram sozinhos um sábado à tarde no final de Março, com fortes bátegas de chuva a cair fora das janelas e a sala de estar desarrumada da casa minúscula dos pais dele nas Chiltern Hills, ela deixou a mão poisar por breves instantes em cima, ou perto, do pénis dele. Durante menos de quinze segundos, com uma esperança e um êxtase crescentes, ele sentiu-a através de duas camadas de tecido. Mal ela retirou a mão, ele percebeu que não poderia suportar aquilo durante mais tempo. Pediu-lhe para casar com ele."
Ian McEwan
"Na Praia de Chesil"

Gradiva, Abril 2007; trad. Ana Falcão Bastos



"Estava a brincar com o pensamento. Era com o que mais brincava. Não tinha mais ninguém com quem brincar. Brincava a pensar em catástrofes, acidentes, doenças, mortes e outros danos irreparáveis. Então regozijava. Era um consolo que tudo pudesse ser pior, muito pior. Se o apartamento ardesse, por exemplo, na véspera de Natal, a árvore podia pegar fogo e tombar por cima dos presentes e eu era o único sobrevivente e era encontrado nos escombros carbonizados da mãe e de Fred e de Boletta e tinha de ficar deitado ligado a uma máquina para respirar durante pelo menos três meses, enquanto dezoito médicos lutavam pela minha vida e pelo que restava de mim, então, a música seria outra. Seria, seria. Então, a maioria das pessoas que tinham feito pouco de mim iam ficar com tantos remorsos que viriam de joelhos pedir perdão, e eu, na minha dolorosa generosidade, iria dar-lhes o perdão, e os jornais iriam estar cheiros de artigos sobre a minha sina, livros seriam escritos sobre mim, realizados filmes, quadros pintados e óperas compostas e, na verdade, essa era a única coisa com que sonhava: que tudo ia ficar diferente, diferente do que era."
Lars Saabye Christensen

"Meio-irmão"

Cavalo de Ferro, Junho 2007; trad. Sissel Bjornstad Cardona


"O meu pai está bem agasalhado do frio com luvas sem dedos, um gorro de lã e três pares de meias. Inclina-se para a frente na cadeira, lendo com os óculos grossos. Atrás dele, na prateleira do fogão de sala, está um retrato da minha mãe. Ela está a olhar por cima do ombro dele, na direcção dos campos e do horizonte. Por que razão se casou com ele, esta jovem mulher de pensativos olhos castanhos, cabelo ondulado, penteado em tranças, e sorriso misterioso? Ele era um jovem engenheiro intrépido e atraente? Seduziu-a com conversas de transmissão automática e presentes de óleo de motor?"
Marina Lewycka
"Breve História dos Tractores em Ucraniano"

Civilização Editora, Julho 2007; trad. Isabel Alves

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Notas

1 - Finalmente, começaram as guerras no Conselho Regulador da ERC. No "Expresso" do dia 15, Rui Assis Ferreira e Luís Gonçalves da Silva criticam as intervenções públicas de Azeredo Lopes e Estrela Serrano. “Considero que no exercício de cargos públicos existe um dever especial de urbanidade, contenção e ponderação que lamentavelmente nem sempre tem sido cumprido”, diz Gonçalves da Silva. O Indústrias Culturais fala sobre o tema.

2 - O novo romance de António Lobo Antunes chama-se "O Meu Nome é Legião" e vai ser publicado em Outubro pela D. Quixote. O romance, diz a editora, usa linguagem de relatório policial e descreve "o quotidiano de um bando de uma zona a que o autor chama simplesmente Bairro e que pode evocar as zonas periféricas das grandes cidades".

4 - O "Sol", um ano depois: "Fomos alvo de concorrência desleal por parte de alguns títulos, cujo nome eu não gostaria de citar. Tiveram uma atitude de chantagem para com os anunciantes, em que ofereciam descontos àqueles que não colocassem anúncios no Sol", diz José António Saraiva ao DN.

5 - Sally Field ganhou ontem à noite o Emmy para Melhor Actriz Principal em Série Dramática e foi censurada. A Fox, que transmitia a cerimónia, cortou as imagens quando a actriz disse: "If mothers ruled the world, there would be no god-damned wars in the first place". Vídeo:


sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Time Out Lisboa

O número zero da Time Out Lisboa foi apresentado ontem à noite no Lux, em Lisboa. "O fado é cool ?", pergunta a capa. "Sim", responde um dossier de 12 páginas.
A revista é o primeiro guia "independente e completo", como escreve em editorial o director, João Cepeda, do que se passa na capital. Nas artes e no entretenimento. Sai à quarta-feira, tem cerca de 100 páginas e custa dois euros. O primeiro número vai estar nas bancas no dia 26 de Setembro.
Foto da capa de Claus Stellfeld e Lu Cristovam

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

"A cara dela esconde um mistério"

Getty Images
José Cabrera, psiquiatra forense espanhol, no "Prós e Contras", da RTP, dia 10 de Setembro:
"Há algo estranho que eu, como psiquiatra, não entendo: o casal funciona em uníssono. Aparentemente, o pai [Gerry McCann] é quem dá ordens, mas, em minha opinião, a chave do mistério é a mãe [Kate McCann], uma mãe que já tinha problemas psicológicos, com tratamento médico, anteriores ao sequestro.
A conduta e o aspecto da cara da mãe denotam ausência de emoções. É a mesma cara que se tem quando se joga póquer: não demonstra nenhum tipo de sentimentos. Ocasionalmente, há lágrimas. Dá impressão que ela tem problemas afectivos profundos. Não é uma reacção depressiva, não é uma questão neurótica, é uma coisa mais profunda. A expressão facial dela quase não muda. Porquê? É um silêncio de culpa. Não sei se eles [o casal] sabem o que se passou [com a filha], mas é um sentimento de culpa. (...) Não estou a fazer um diagnóstico, não estou a culpar ninguém, estou a fazer um juízo de valor. Mas esta cara esconde um mistério.
(...) O marido, cirurgião, especialista, profissional, é quem a conduz em cena. São como dois actores num teatro. É ele quem dirige tudo. Ele é mais espontâneo do que ela, controla mais, é ele quem aparece nas televisões, mostra as fotos nas conferências de imprensa, dá sempre o primeiro passo. Ela está sempre atrás, quieta e calada. Há algo escondido. E é ela que esconde. O marido e ela escondem-se atrás da imagem do matrimónio perfeito, mas talvez não seja assim tão perfeito.
(...) Eles tratam o assunto como se tivesse havido um pacto entre eles, que os leva a fazerem sempre o mesmo, a dizerem o mesmo, a olharem da mesma forma as câmaras, os jornalistas e os polícias."

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Na cama com os escritores

Na revista "Pública" de 9 de Setembro. Excerto:

Posou para a Playboy porque precisava de dinheiro e queria ser uma escritora famosa. Dormiu com James Dean e Hugh Hefner e descobriu com Simone de Bouvoir que as mulheres podiam ser livres. Os loucos anos 50 da americana Alice Denhan, contados na primeira pessoa.

Chega a Nova Iorque com 18 anos e um namorado de ocasião. Em 1951. Entra com desembaraço nos cocktails e na cama de escritores em ascensão. Deseja o mesmo que eles: muito sexo, nenhum compromisso e o nome na história da literatura. Um nome ainda mais brilhante que o dos três grandes: Hemingway, prestes a receber o Nobel; Fitzgerald, já morto, portanto um mito; e Faulkner, rival declarado do primeiro, Nobel em 1949. É alta, bonita e magra. Tem longos cabelos ruivos, olhos muito verdes, busto 38.

Nesta época, os romancistas rivalizam com os actores de Hollywood em riqueza e glória. Escrever é o sonho de qualquer homem e o que a faz correr a ela. É por isso que foge de casa dos pais e se refugia na grande cidade. Quer tornar-se cosmopolita. Espera que a tirania da América provinciana, onde nasceu, a deixe finalmente em paz. Esquece-se, no entanto, de que é apenas uma mulher. E as mulheres deste tempo só nascem para casar e ter filhos.

Meio século depois, Alice Denham [na foto], de 75 anos, decidiu revelar o que lhe custou querer o que queria. Escreveu Sleeping With Bad Boys (Na Cama Com Os Malandros, em tradução livre), um livro de memórias, alegadamente isento de ficção, publicado há poucos meses e sem tradução portuguesa prevista. Trezentas páginas, 34 capítulos – o mote para uma conversa telefónica com a autora.

O suplemento literário do New York Times resumiu a obra desta forma: “É sobre um tempo em que, na prática, a mulher tinha duas hipóteses: ser bem-comportada ou malcomportada. As bem-comportadas ficavam com a aliança, os filhos e a casa. As malcomportadas ficavam com o resto”. Denham seguiu, obviamente, a segunda hipótese. “Quando cheguei a Nova Iorque, com uma licenciatura, pensei que seria fácil arranjar emprego, mas nem para trabalhos de secretária me marcavam entrevistas, porque eu não sabia escrever depressa”, recorda. “As mulheres eram completamente descriminadas”. Num cerrado sotaque do Sul dos EUA, acrescenta: “Todos os escritores famosos daquela época, alguns muito bons, eram homens. Eles eram deuses e as mulheres deveriam estar ali apenas para os aplaudir. Eu queria ser escritora e uma mulher independente, porque sempre foi essa a minha maneira de ser”.

Nascida numa família falida de origem aristocrata, em Jacksonville, na Florida, impôs-se através da beleza física – contra a vontade da mãe, descrita como uma mulher muito severa. O pai seria sempre mais brando. Tornou-se modelo (pin-up). Fez anúncios de electrodomésticos. Foi rainha de um circo. Posou para revistas masculinas. A Playboy foi o auge, como se verá. Ao que diz, queria apenas ganhar visibilidade e dinheiro para um dia se dedicar inteiramente à escrita. Mas pouco conseguiu. Passava a vida nas festas que o escritor Norman Mailer e a mulher, Adele, organizavam e que acabavam, invariavelmente, em bebedeira e discussão. Dançava em casa para manter a forma física. Entretinha-se a rascunhar contos e romances e a tentar, sem êxito, vendê-los aos editores. “Nos anos 50 e 60, Nova Iorque era o centro das artes, tinha uma vida cultural muito forte, tal como Paris tinha tido nos anos 20”, refere. Bruno Horta

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

"Um Teatro Sem Teatro"

Imagens da exposição "Um Teatro Sem Teatro" ("Un Teatre Sense Teatre"). A exposição, sobre a relação entre o teatro e as artes visuais no século XX, termina esta terça-feira, dia 11, no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (começou a 25 de Maio) e abre em Lisboa a 16 de Novembro, no Museu Berardo.

Instalação "Monsieur Teste", 1974-75, de Marcel Broodthaers:


Cartaz do "3ème Festival de La Libre Expression", de 1966, organizado por
Jean- Jacques Lebel:
Instalação "Reifentänze Installation Reifenvorhänge und zwei Reifenfiguren [Danças de Aros]", 1927-1961-1994, de Oskar Schlemmer:
Lista não exaustiva das obras desta exposição aqui.