domingo, 7 de outubro de 2007

Nureiev fugiu da Rússia por causa de um amor secreto

No "Público", ontem. Excerto:

Foi um jovem alemão quem convenceu o mais influente bailarino do século XX a desertar para o Ocidente. A revelação consta de uma nova biografia, publicada em Inglaterra - "Nureyev: The Life". Demorou dez anos a escrever e já inspirou um documentário da BBC


Que terá ele pensado naquela manhã de 17 de Junho de 1961? Fugiu porque já não aguentava a opressão soviética? Temia que o KGB andasse a investigar as suas relações homossexuais? Sabia que a sua conduta libertina durante a estada francesa seria suficiente para que lhe arruinassem a carreira no regresso à ex-URSS? As teorias para a deserção de Rudolf Nureiev (1938-1993) são quase tantas quanto o número de livros que sobre ele se escrevem - a cada ano, sai pelo menos um. Mas a todas faltava uma peça fundamental. Julie Kavanagh, antiga crítica de dança da revista Spectator, encontrou-a. Ao fim de dez anos de pesquisa sobre a vida do bailarino e coreógrafo, descobriu que as questões políticas pesaram pouco na sua decisão. Nureiev fugiu porque Teja Kremke, bailarino alemão por quem estava apaixonado, o convenceu a isso.
Esta é a principal novidade do livro Nureyev: The Life, publicado há semanas em Inglaterra e com edição americana prevista para este mês. "É a biografia definitiva de Nureyev", sentenciou no Guardian o professor universitário Peter Conrad. Antes de sair, o livro inspirou o documentário Nureyev: The Russian Years, de John Bridcut, co-produzido pela BBC. Estreou-se em Agosto na televisão pública dos EUA, a PBS, e passou recentemente na BBC 2, sob o título Nureyev: From Russia With Love. 

Na foto, Teja Kremke (créditos: Alla Bor / Lubov Filatova)

Coisas que se dizem

"All highly respected art people that you'd think wouldn't do coke, do coke. Everywhere we go, the first thing people ask is 'do you need some coke? do you need some help organizing it?'. It's crazy. It's like a second economy within the art world."
Javier Peres, art dealer, revista Butt, nº20, Verão 2007

"You could go into a swanky party in New York and do a line and nobody would notice. Pull out a cigarette and people would think you’d pulled out a gun.”
Tom Sykes, jornalista, New York Times, 10 de Junho 2007

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Há 50 anos

"Aguardou-se com ansiedade o dia 5 de Setembro, em que se cumpriam cem anos sobre o nascimento de TsioIkowsky, mas nada aconteceu. Reuniu-se então o VIll Congresso Internacional de Astronáutica, em Barcelona. No dia 2 de Outubro, os delegados russos afirmaram aos jornalistas que 'seria de mau gosto dar notícias antes de tempo. É nosso costume não fornecer detalhes antes de obtermos resultados experimentais'. No dia 4 de Outubro de 1957 o primeiro satélite artificial começava a girar em torno da Terra. O seu peso era nove vezes maior que o do tão falado Vanguard. Antes que passasse um mês — em 3 de Novembro de 1957 — o segundo Sputnik, com uma carga útil de mais de meia tonelada, incluindo um animal — a cadela Laika — entrava em órbita. Os Estados Unidos apressaram a construção dos veículos Vanguard, mas a precipitação com que foram realizados os lançamentos, e a extrema delicadeza dos engenhos, conduziram a uma série de insucessos por demais conhecida, e que abrigou à chamada de Von Braun e ao reaparecimento do velho «Projecto Orbiter». No dia 1 de Fevereiro de 1958, o primeiro satélite artificial norte-americano — o Explorer 1 começava finalmente a girar no espaço.
(...)
Nos primeiros três anos da Era do Espaço, o Homem aprendeu mais acerca do Universo que durante os três séculos anteriores, a partir da descoberta do telescópio. Sabemos hoje que a atmosfera terrestre se prolonga para além do próprio Céu, até às cinturas de Van Allen, até à Atmosfera solar, até aos confins da Galáxia. Até ao Infinito! Sabemos que a Terra, longe de ser o centro do Mundo, é como um navio perdido num oceano imenso. Se a consciência desse facto for suficiente para aproximar os Homens uns dos outros, como marinheiros a bordo da mesma embarcação, como navegantes em busca de novos mundos para o Mundo, então, e só por isso, estarão justificados os sacrifícios daqueles que fizeram do sonho da Astronáutica a realidade dos nossos dias e a esperança dos dias futuros."
Eurico da Fonseca (1921-2000)
"História Breve da Astronáutica", ed. Verbo, 1960

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Ela pode, ele não

O português (e o espanhol, se pensarmos no já célebre psiquiatra forense que foi ao "Prós e Contras") não pode achar estranho que aquela mãe não mostre sentimentos em público. Se a mãe, a quem, para efeitos oficiais, raptaram a filha, não chora, não se irrita, não se comove, não faz as coisas que a gente supõe que as mães a quem roubam filhos fazem, é porque é inglesa e tem outra forma, que o português não tem, de lidar com as emoções. É mais fria, mais contida, diz-se. Querer que ela, que usou a televisão para fazer propaganda com uma mestria inatacável, mostre emoções em público é aplicar-lhe leis de reality show. É a ditadura da vida real sobre a mulher.
Agora, que o homem que investiga o desaparecimento da filha dela beba o seu jarro de vinho ao almoço, e tenha para isso uma ou duas horas, já mexe tanto com os contidos princípios partilhados pela desditosa mãe que se torna inaceitável. Este post não poderia ser mais certeiro. Ele (o investigador) não terá aguentado a pressão mediática. Já ela (a mãe) aguenta-se e bem, sabe deus a que expensas.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Qual é o mal?

Título modesto, "Poesia em Verso", o do livro de Rui Caeiro, Afonso Cautela e Vítor Silva Tavares, com desenhos (muito bons) de Luís Manuel Gaspar. Edição da livraria Letra Livre, 2007. Tem 65 páginas.
O prefácio, a que o seu autor, Rui Caeiro, chama "Prefácio, talvez", diz que os três poetas têm "sérios problemas com as coordenadas".
Um exemplo:


O Cadáver Esquisito


O mal não é haver mar e flores,

chuva, templos chineses, e esperança,
nos olhos desesperados de chorar.

O mal não é haver mal e quem sinta
sede e fome, o bicho das madeiras,
e nada nem ninguém que os dome.

O mal não é haver sono em vez de morte,
medo em vez de espadas, jogos de azar
e misericórdia apenas na Casa da Sorte.

O mal não é haver verbos intransitivos,
que teimam em ser, estar, permanecer...
O mal é haver vida e estarmos vivos.

Afonso Cautela

sábado, 29 de setembro de 2007

Marília Gabriela no "Expresso" de hoje:

"Aliás, adoro estar contra tudo e todos, o tempo inteiro, nas minhas escolhas. Não tenho o perfil de cordeiro. Para onde vão todas as pessoas, eu escolho precisamente a direcção oposta. Quero sempre tentar o outro lado porque deve ter uma coisa nova e interessante. É assim que tenho conduzido a minha vida e não me arrependo. Até aqui só tem sido mais enriquecedor. Porque imagino que todos tenhamos uma função enquanto vivemos. Vou-me testando nos meus limites. Corro riscos. Gosto de correr riscos! Foi o que escolhi para a minha vida e vou continuar até morrer."

"O meu dever como figura pública é fazer o meu trabalho, que é o que é publicado, da melhor forma possível. O resultado desse trabalho, enquanto jornalista e actriz, é o que tenho por obrigação oferecer a quem me consome. Agora, a minha vida particular só interessa a mim e às pessoas que eu mais quero. Não tenho um dever público nem um preço a pagar. Esse raciocínio é medíocre. (…) É culpa da globalização e do comércio, que, de repente, descobriu que esse filão rende muito ao mercado editorial. E há também uma vocação do ser humano nesse sentido. O ser humano não é flor que se cheire. É cruel."

Aí está ela:

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A todos os jornalistas precários

«Não sei se é costume dedicar-se este prémio a alguém. Mas vou dedicá-lo. A todos os jornalistas precários. Passado um ano da publicação destas reportagens [que foram distinguidas com o prémio], após quase três anos de trabalho como jornalista, continuo a não ter qualquer contrato. Não tenho rendimento fixo, nem direito a férias, nem protecção na doença, nem quaisquer direitos caso venha a ter filhos. Se a minha situação fosse uma excepção, não seria grave. Mas como é generalizada – no jornalismo e em quase todas as áreas profissionais – o que está em causa é a democracia. E no caso específico do jornalismo está em risco a liberdade de imprensa.".
João Pacheco, jornalista freelancer, durante a cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta 2006, na terça-feira, 25 (onde estiveram presentes, entre outros, Cavaco Silva e Augusto Santos Silva).