quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Hygiene

I understand, sure, hygiene, these days, if you're not paying attention,
with all these sicknesses, you think I'm not aware?
I'm not saying not to bathe, are you crazy?
you don't want to wash? I'm just saying to not go overboard,
because there's clean, that's fine, but not clean and shiny,
it's just that people now, bath foams, bath salts,
a bar of soap's not good enough,
no, instead, sometimes, by washing too much,
some things even get lost, the other day,
there was one lady, I didn't know her,
even if you tell me her name, she's not from here,
she's from Rimini, we had met each other by chance,
two months ago, then we met again,
but it's not like now I'm wanting, I'm just telling you
to give you an idea, it was Tuesday afternoon,
at her house, her husband was away,
she started to unzip me, she was wearing a dressing gown,
we'd been drinking, we'd danced, then we went to bed,
she climbed on top of me, sssh!
and today is Thursday
and I still smell her, do you understand?

Raffaello Baldini

(tradução do italiano para o inglês de Adria Bernardi)
via Poetry Magazine

domingo, 30 de dezembro de 2007

"Sócrates não tem princípios"

Pacheco Pereira e António Barreto analisaram o ano de 2007 e fizeram conjecturas para 2008 no "Expresso" de ontem. Muito interessante. Só é pena que sejam sempre os mesmos, nos mesmos sítios, com as mesmas opiniões. Excerto:

Pacheco Pereira:
"Sócrates é muito dominado pelo sentido de eficácia e utilidade, não tem princípios, é um homem característico dos tempos modernos."


"2008 vai ser sobretudo um ano de muita propaganda, uma actividade em que ao lado deste Governo os homens do SNI fariam figura de meninos de coro."

António Barreto:
"A lógica do Governo é dar nas vistas, comprar votos e tornar as pessoas dependentes, gratas e reverentes. Isto é detestável, isto é uma sociedade detestável."

"A comunicação social tem vindo nos últimos anos a perder o que eu chamo o trinómio brio, dignidade e independência. Esta situação resulta, em primeiro lugar, da precariedade do emprego, o recurso crescente a jovens estagiários mal formados, mal preparados. Essas pessoas não têm dignidade profissional e brio deontológico porque são dependentes."

Estes chefes não são verdadeiros democratas

Portugal anda cheio de chefes narcísicos. Querem dominar tudo e todos e não mostram qualquer empatia pelos problemas dos que os rodeiam. A principal característica destas pessoas é um sentimento grandioso da sua importância.
(...)
Rodeiam-se de gente submissa que, para os ser­vir, decretou para si mesma o silêncio e o elogio fácil ao chefe: podem ser sobrecarregados com trabalho e críticas ferozes que jamais abrirão a boca contra quem manda.
(...)
Na sua ânsia de poder, não é raro serem capazes de usurpar recursos extra e privilégios especiais, que acreditam ser inteiramente justos e só ao alcance de quem é verdadeiramente glorioso.
(...)
Estes chefes não são verdadeiros democratas: falta-Ihes o sentido do reconhecimento do outro, a partilha e a capacidade de amar que caracteriza os verdadeiros líderes: podem mandar, mas não serão amados, apenas tolerados, mais tarde ou mais cedo cairão do pedes­tal que construíram para si próprios.

Excerto de "Os Narcísicos", crónica de Daniel Sampaio; revista "Pública", 23.12.2007

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

"Se fosse explicar que era mentira, ia estar a validar"

Excerto da entrevista com Diogo Infante, feita por Catarina Homem Marques, publicada no "Sol" (revista "Tabu") de 22 de Dezembro:

Como se sentiu com o boato da relação com Sócrates?
Senti-me mesmo violentado. Ainda por cima senti uma profunda impotência, apanhado numa trama. Tinha consciência que era a personagem secundária, mas a questão é que me senti envolvido numa coisa que me era alheia, que me transcendia e perante a qual não podia fazer nada.

É difícil lutar contra isso?
Nem tentei lutar. Quando o boato começou até me ri, achei graça. Não era a primeira vez que ouvia um boato sobre mim. Achei que era apenas mais um disparate. Depois, quando aquilo ganhou a dimensão que ganhou, quando se tornou um assunto nacional, quando as pessoas na rua começaram a ser desagradáveis, senti uma profunda angústia. E raiva, mesmo. Comecei a ficar um bocado violento e prestes a explodir, sem saber bem contra quem. Porque o problema de um boato é que nunca sabemos onde está a fonte. Ao mesmo tempo, percebi que não queria entrar em diálogo.

Porquê?
A imprensa toda me fazia perguntas. Pensei que se fosse dizer que não, se fosse explicar que era mentira, ia estar a validar. Eu não queria entrar no jogo. Hoje falo no assunto porque creio que ele já morreu. As pessoas acabaram por perceber que aquilo era claramente uma estratégia para denegrir aquele que veio a ser o nosso primeiro-ministro. Era uma jogada política.

Nem sequer eram amigos?
Eu nunca o conheci nem conheço. Depois percebi que, na altura, a namorada dele morava perto da minha casa, na minha rua. Pode ter surgido daí. Mas parece-me que há sempre aqui uma intenção maldosa. No limite, estes boatos só subsistem por existir um preconceito de base.

(…)
O alvo ser José Sócrates tem um objectivo evidente. Mas nunca se questionou qual o porquê de o outro alvo ser o Diogo Infante?
Porque tenho conseguido ser suficientemente discreto sobre a minha vida pessoal para ela, por um lado, ser misteriosa e, por outro, ser apetecível. Se a minha vida pessoal fosse pública era facilmente contestável. Assim, eu tinha a matéria certa para servir a especulação.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

As celebridades valem tanto quanto o homem da rua

No "Público", hoje; excerto:

Filho do fotógrafo oficial dos Beatles, Dean Freeman dedica-se, tal como o pai, a fazer retratos de artistas e celebridades. Mas go
sta de ir mais além. Há muitos desconhecidos nas suas fotos - pessoas que encontra nas ruas das grandes cidades e em sítios recônditos de África ou da Ásia. O seu quarto livro, Funkytown, agora publicado, é uma antologia de 27 anos de trabalho e põe lado a lado famosos e gente comum.

Faz de conta que Fukytown é o nome de uma cidade. Onde personagens extravagantes fazem transacções proibidas, rapazes viçosos conversam em grupo e ouvem as músicas do tempo deles, actores célebres e jogadores de futebol perdem a pose, velhos milagreiros saem da toca para ver a luz do dia e raparigas cândidas passeiam como se fossem donas do mundo. Onde há palhaços, drogados, bruxas, cantores, donas de casa, subúrbios pavorosos, avenidas deslumbrantes. Eis a Funkytown, cidade imaginária, feita de Londres, Hong Kong, Los Angeles, Milão, Rio de Janeiro, Nova Deli, Cotonu (Benim). A cidade onde o britânico Dean Freeman, de 44 anos, vive e se passeia há 27 - desde que se tornou fotógrafo. Tantos disparos depois, já era tempo de ir ao arquivo e rever o passado. Funkytown, livro de 200 páginas, publicado em Novembro pela editora italiana Damiani, serve para isso mesmo. Freeman classifica-o como uma autobiografia visual.
(...) "Quis fazer um livro cheio de vida, jogar com diferentes géneros de pessoas e paisagens, não me interessava ter apenas as celebridades que fui fotografando ao longo dos anos", explica. "Seria a ideia mais fácil, mas não passaria de um portfólio, não preciso disso". Para ele, aliás, a diferença entre gente famosa e gente de rua não existe. "Gosto tanto de fotografar crianças no Brasil e velhos em África quanto uma celebridade. Têm ambos a mesma importância", afirma.(...) O interesse de Freeman por fotografia e retratos parece ter uma fonte óbvia: o facto de o pai, Richard Freeman, ser fotógrafo. Mas parece que não é bem assim. "Cresci a ver livros e fotografias em casa, mas não aprendi directamente com o meu pai." A história é, talvez, mais prosaica. Era mau aluno, deixou a escola cedo e, para fazer alguma coisa da vida, tornou-se aprendiz em lojas de fotografia. "Depois, a coisa evoluiu naturalmente, eu tinha jeito para isto." Quanto à sua ligação aos Beatles - uma vez que o pai foi o fotógrafo oficial do grupo, entre 1963 e 66, e fez as fotos e a composição gráfica dos primeiros cinco álbums -, não há muito para contar. "Era ainda um bebé quando o meu pai fez as fotos dos Beatles, a única coisa que lhes posso ter dito foi "gu-gu dá-dá"", ironiza, quando lhe perguntamos se chegou a conhecer a banda. Bruno Horta

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

A cidade está fria e desumana e morta

"Goodbye To Berlin", de Christopher Isherwood (1904-1986), foi originalmente publicado em 1939 pela Hogarth Press. A capa e o excerto abaixo pertencem à edição de 1998, da Vintage (grupo Random House).

Em Portugal, segundo informação do 'site' da Biblioteca Nacional, "Goodbye To Berlin" conheceu uma tradução, assinada por Maria Filomena Duarte, publicada em duas edições diferentes: "Adeus a Berlim", de 1986 (Círculo de Leitores), e "Cabaré: Adeus Berlim", de 1996 (ed. Notícias).

O livro está divido em seis capítulos e ao explica o autor em nota introdutória é uma obra incompleta: essas seis partes deveriam ter dado origem a um grande romance, a que chamaria "The Lost", sobre a Berlim imediatamente anterior à ascensão de Hitler ao poder.

Em 1946, segundo se lê aqui, o livro foi junto a "The Last of Mr. Norris" (1935) sob o título comum "The Berlin Stories".


"But the real heart of Berlin is a small damp black wood - the Tiergarten. At this time of the year, the cold begins to drive the peasant boys out of their tiny unprotected villages into the city, to look for food, and work. But the city, which glowed so brightly and invitingly in the night sky above the plains, is cold and cruel and dead. Its warmth is an illusion, a mirage of the winter desert. It will not receive these boys. It has nothing to give. The cold drives them out of its streets, into the wood which is its cruel heart. And there they cower on benches, to starve and freeze, and dream of their far-away cottage stoves." (p. 231)

Abusar da morte II

Sai esta semana, segundo notícia da Lusa, uma nova colectânea de Amália Rodrigues. Mas não é o disco que se esperava. Em Julho deste ano, as editoras Som Livre e Valentim de Carvalho anunciaram que publicariam até ao fim deste ano um álbum de inéditos. Era de inéditos, pois, que estávamos à espera. E não de mais um conjunto de fados que toda a gente já conhece e que, de forma mais ou menos fácil, está disponível em qualquer discoteca decente.

É chocante o que a indústriazinha portuguesa de música tem feito com Amália. Reedita antiguidades e liberta novidades conforme lhe apetece. Não se vislumbra um critiério que seja. E quando promete, não cumpre. Custa assim tanto a esta gentinha que só vê dinheiro perceber que todas as canções de uma artista como Amália devem ser do domínio público?

Se a ideia das editoras não fosse a de fazer render a galinha dos ovos de ouro durante anos a fio (que é isso precisamente o que estão a fazer com Amália) como explicar esta falsidade, dita por José Serrão, director da Som Livre (em Junho, à Lusa)?:
"Amália gostava de gravar e gravou muito, por isso ainda há muitas coisas suas desconhecidas e que estão agora a ser encontradas".

Agora a ser encontradas? Já na biografia que Vítor Pavão dos Santos escreveu, em colaboração com a fadista, em 1986, ela se queixava de que a sua editora tinha gravações inéditas e não as publicava. Até hoje, só saiu um álbum desses: "Segredo", em 1997. Os restantes inéditos são conhecidos da editora e estão devidamente catalogados. O mais, são lérias de comerciantes sem escrúpulos.