quinta-feira, 13 de março de 2008

O monstro chegou

As lojas começam a vender esta sexta-feira os primeiros dicionários da nova língua portuguesa: dois dicionários da Texto Editora onde as regras são as do Acordo Ortográfico que o Governo português assinou em 1991 e que até hoje não foram adoptadas. É um triste dia.
"Óptimo" deverá passar a "ótimo"; "acção" a "ação"; "humidade" a "umidade"; e "antónimo" a "antônimo". Mais grave, ainda: "hei-de" ou "hás-de" passa a "heide" e a "hásde", respectivamente. Deve estar tudo doido.
Porque é que têm de ser os portugueses (e os cidadãos dos outros países da CPLP) a adoptar o português do Brasil e não os brasileiros o português dos outros? São interesses, ascendentes, poderios.
Uma língua são os falantes que a fazem. Não são os decretos. A confusão que o novo Acordo traz
é inadmissível. Esperemos que a maioria das pessoas ignore esta monstruosidade e que ela não chegue sequer a ser ensinada nas escolas, como pretende o Governo actual.
Para mal dos nossos pecados, até esta desgraça tem a mão desse distintíssimo português que é Pedro Santana Lopes (aqui).

- petição contra o novo Acordo aqui
- notícia sobre novos dicionários aqui

quarta-feira, 12 de março de 2008

Novo número da revista Pluk

"Pluk" é uma revista britânica de fotografia. Sai quatro vezes por ano. O número da Primavera de 2008 saiu agora. O grafismo é bom, os temas têm interesse e os textos estão bem escritos (não há gente a escrever para os amigos ou a pretender fazer tratados filosóficos). Cada artigo, não dura mais do que duas ou três páginas.
Muito interessante é o que se escreve neste número sobre o fotógrafo americano Peter Hujar (a quem o cantor Antony foi buscar uma foto para a capa do disco "I am a Bird Now", de 2005).
Site oficial aqui.

domingo, 9 de março de 2008

Livros novos

"Teatro e Sociedade (ler/ver teatro)", da professora universitária Yvette Centeno (ou Yvette K. Centeno, como também costuma assinar) é um conjunto de 13 ensaios publicado em Dezembro do ano passado pelas Edições Universitárias Lusófonas, da Universidade Lusófona.
Excerto:

"Cria-se, hoje em dia, reagindo a associações de lógica não-cartesiana, suportadas por uma estrutura menos visível, menos objectiva, mas que se pressente e cujos efeitos (como no caso dos quarks) se podem emocionalmente avaliar. Está de há muito ultrapassada a questão dos 'géneros'; mas não estará tão cedo ultrapassada a questão da 'substância' artística que os actuais não-géneros propõem ao nosso gosto, à nossa sensibilidade cultural." (a propósito da peça As Migalhas dos Dias, 1999, de Bob Wilson, p. 147)

A colecção "Biblioteca de Editores Independentes" (que reúne, em formato de bolso, títulos das editoras Relógio d'Água, Cotovia e Assírio & Alvim) reeditou agora "Manual de Prestidigitação", de Mário Cesariny. A primeira edição tem 26 anos.
É este o livro onde consta o célebre poema:
"queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma"

quarta-feira, 5 de março de 2008

A musa de Larry Clark

A nova exposição de Larry Clark chama-se "Los Angeles 2003-2006" e mostra o dia-a-dia de Jonathan Velasquez, um adolescente que Clark, de 64 anos, terá encontrado por acaso nas ruas de Los Angeles (e no qual se inspirou para fazer o filme "Wassup Rockers", de 2005).
A exposição foi inaugurada no início de Fevereiro em Londres (galeria Simon Lee) e termina no fim da próxima semana.
"Los Angeles 2003-2006" foi apresentada pela primeiríssima vez no ano passado, em Nova Iorque.
A fotografia de Larry Clark nunca passou por Portugal (a biografia, aqui, em PDF, confirma-o). Para quando?

segunda-feira, 3 de março de 2008

O terror somos nós

As declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa ao "Sol" de 1 de Março são preconceituosas e incompreensíveis. Disse D. José Policarpo:
"As pessoas começam por esbarrar com as dificuldades e habituam-se à ideia de um só filho. Desde que se quebre o coeficiente de equilíbrio, a sociedade fica aberta a ser ocupada por gente vinda do terror e vinda do Ocidente e do Oriente, como diz o Evangelho. O que faz com que seja previsível que, dentro de alguns anos, as sociedades europeias percam a sua fisionomia do ponto de vista religioso, do ponto de vista comportamental, cultural. Como se sabe, já há sociedades europeias a braços com a multiculturalidade e com a dificuldade de harmonia entre as diversas procedências da população, de que por um lado precisamos."
O Cardeal estava certamente a referir-se aos árabes. Mas esqueceu-se (muita gente, desde o 11 de Setembro, se tem esquecido) de que a cultura portuguesa descende da árabe. Não há portugueses de um lado e árabes do outro. Metade de Portugal (o Sul) é arábica. D. Manuel I tentou, sem êxito, expulsar os mouros em 1496. Eles já por cá andavam desde 711. Afonso Henriques só apareceu ao cimo da terra 400 anos depois.

O fundamentalismo de que acusam os muçulmanos não será assim tão diferente disso que os portugueses bem conhecem e prezam, às vezes além do aceitável: orgulho e dignidade.
"O árabe é altivamente orgulhoso, individualista e generoso, pronto a defender pela força os seus direitos e a sua dignidade pessoal, se necessário com absoluto desprezo pela própria vida", escreve o arabista Adalberto Alves no livro "O Meu Coração é Árabe" (3ª ed., 1999).

São estas características, medulares e não de agora, que explicam o extremismo islâmico e o terror a que se refere o chefe da igreja católica portuguesa. Mas são também
aquelas características, herdadas pelos portugueses, que determinam em grande medida a portugalidade a que se refere Miguel Real no ensaio "A Morte de Portugal" (1ª ed., 2007): lentidão, generosidade sem limites, espírito emotivo anti-racionalista. Podemos não gostar de ser idênticos aos terroristas, mas somos.

domingo, 2 de março de 2008

Brett Anderson - "Love is Dead" (2007)

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Assim se entra em casa do ditador

Mircea Eliade (1907-1986) foi adido cultural e de imprensa da embaixada da Roménia em Portugal entre 1941 e 45. A casa onde então viveu, perto da Avenida de Berna, em Lisboa, tem hoje uma lápide onde se assinala a estância. Além de político, Mircea Eliade foi escritor e historiador das religiões.
A editora Guerra e Paz publicou agora a primeira tradução portuguesa do diário que Eliade escreveu enquanto viveu em Lisboa. É uma tradução directa do romeno, de Corneliu Popa, e inclui índice onomástico e geográfico. Salazar é um dos nomes que maior número de referências tem.
Esta passagem, onde Eliade descreve um encontro com Salazar, é um primor:
"Cheguei ao Palácio de São Bento a correr e com a boca seca de emoção; não porque me iria encontrar com Salazar, mas porque estava com receio de chegar atrasado. Subo as escadas à pressa. O porteiro pergunta-me onde ia: «Ao Senhor Presidente». Mostra-me a escada do fundo: «Segundo andar, direito». Assim se entra em casa do ditador de Portugal. Encontro no segundo andar alguns empregados, que me encaminham para o gabinete de Salazar. Aguardo dois minutos na antecâmara e peço um copo de água para poder falar. Salazar ainda não acabou o encontro com uma comissão de administradores coloniais. Depois entro e recebe-me ele próprio à porta, pronunciando muito correctamente o meu nome.
Um gabinete modesto, com uma secretária de madeira, sem papéis em cima, e à sua esquerda uma mesinha onde esta o telefone. Falando comigo, Salazar muda de quando em quando a posição do telefone. São os únicos gestos." (7 de Julho de 1942; p. 63)