segunda-feira, 17 de março de 2008

Hercules and Love Affair - "Blind" (com Antony) - 2008

sábado, 15 de março de 2008

De um panegirista espera-se muito mais

O professor Malaca Casteleiro escreve hoje no "Diário de Notícias" em favor do novo Acordo Ortográfico. A argumentação é contraditória e frágil. Muito frágil. Diz ele:
"Uma ortografia unificada [Portugal, Brasil, PALOP] torna-se absolutamente necessária às organizações internacionais onde o português é língua de trabalho, aos estabelecimentos de ensino estrangeiros onde se cultiva o nosso idioma, à difusão e promoção do livro em português nos domínios inter-lusófonos e internacional".
A ser assim, o novo Acordo Ortográfico serve tudo menos os falantes da língua. Serve interesses corporativos, ideológicos e comerciais, segundo Malaca Casteleiro. É pouco. É escandalosamente pouco.
O conceituado linguista admite que o Acordo de 1945, em que Portugal quis impôr ao Brasil a introdução de consoantes mudas ("óptimo", "actual", etc.) falhou porque "constituía uma violência, que o Brasil não aceitou". Mas agora já acha bem que uma violência do mesmo género, mas em sentido contrário, seja aplicada aos portugueses. Um pouco mais de coerência não seria nada mau.
O que Malaca Casteleiro não explica, porque não pode ou não sabe, é que é a coisa importante: os povos de língua portuguesa, que falam e escrevem a língua todos os dias, ganham alguma coisa com a homogeneização que agora se quer impor?

quinta-feira, 13 de março de 2008

O monstro chegou

As lojas começam a vender esta sexta-feira os primeiros dicionários da nova língua portuguesa: dois dicionários da Texto Editora onde as regras são as do Acordo Ortográfico que o Governo português assinou em 1991 e que até hoje não foram adoptadas. É um triste dia.
"Óptimo" deverá passar a "ótimo"; "acção" a "ação"; "humidade" a "umidade"; e "antónimo" a "antônimo". Mais grave, ainda: "hei-de" ou "hás-de" passa a "heide" e a "hásde", respectivamente. Deve estar tudo doido.
Porque é que têm de ser os portugueses (e os cidadãos dos outros países da CPLP) a adoptar o português do Brasil e não os brasileiros o português dos outros? São interesses, ascendentes, poderios.
Uma língua são os falantes que a fazem. Não são os decretos. A confusão que o novo Acordo traz
é inadmissível. Esperemos que a maioria das pessoas ignore esta monstruosidade e que ela não chegue sequer a ser ensinada nas escolas, como pretende o Governo actual.
Para mal dos nossos pecados, até esta desgraça tem a mão desse distintíssimo português que é Pedro Santana Lopes (aqui).

- petição contra o novo Acordo aqui
- notícia sobre novos dicionários aqui

quarta-feira, 12 de março de 2008

Novo número da revista Pluk

"Pluk" é uma revista britânica de fotografia. Sai quatro vezes por ano. O número da Primavera de 2008 saiu agora. O grafismo é bom, os temas têm interesse e os textos estão bem escritos (não há gente a escrever para os amigos ou a pretender fazer tratados filosóficos). Cada artigo, não dura mais do que duas ou três páginas.
Muito interessante é o que se escreve neste número sobre o fotógrafo americano Peter Hujar (a quem o cantor Antony foi buscar uma foto para a capa do disco "I am a Bird Now", de 2005).
Site oficial aqui.

domingo, 9 de março de 2008

Livros novos

"Teatro e Sociedade (ler/ver teatro)", da professora universitária Yvette Centeno (ou Yvette K. Centeno, como também costuma assinar) é um conjunto de 13 ensaios publicado em Dezembro do ano passado pelas Edições Universitárias Lusófonas, da Universidade Lusófona.
Excerto:

"Cria-se, hoje em dia, reagindo a associações de lógica não-cartesiana, suportadas por uma estrutura menos visível, menos objectiva, mas que se pressente e cujos efeitos (como no caso dos quarks) se podem emocionalmente avaliar. Está de há muito ultrapassada a questão dos 'géneros'; mas não estará tão cedo ultrapassada a questão da 'substância' artística que os actuais não-géneros propõem ao nosso gosto, à nossa sensibilidade cultural." (a propósito da peça As Migalhas dos Dias, 1999, de Bob Wilson, p. 147)

A colecção "Biblioteca de Editores Independentes" (que reúne, em formato de bolso, títulos das editoras Relógio d'Água, Cotovia e Assírio & Alvim) reeditou agora "Manual de Prestidigitação", de Mário Cesariny. A primeira edição tem 26 anos.
É este o livro onde consta o célebre poema:
"queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma"

quarta-feira, 5 de março de 2008

A musa de Larry Clark

A nova exposição de Larry Clark chama-se "Los Angeles 2003-2006" e mostra o dia-a-dia de Jonathan Velasquez, um adolescente que Clark, de 64 anos, terá encontrado por acaso nas ruas de Los Angeles (e no qual se inspirou para fazer o filme "Wassup Rockers", de 2005).
A exposição foi inaugurada no início de Fevereiro em Londres (galeria Simon Lee) e termina no fim da próxima semana.
"Los Angeles 2003-2006" foi apresentada pela primeiríssima vez no ano passado, em Nova Iorque.
A fotografia de Larry Clark nunca passou por Portugal (a biografia, aqui, em PDF, confirma-o). Para quando?

segunda-feira, 3 de março de 2008

O terror somos nós

As declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa ao "Sol" de 1 de Março são preconceituosas e incompreensíveis. Disse D. José Policarpo:
"As pessoas começam por esbarrar com as dificuldades e habituam-se à ideia de um só filho. Desde que se quebre o coeficiente de equilíbrio, a sociedade fica aberta a ser ocupada por gente vinda do terror e vinda do Ocidente e do Oriente, como diz o Evangelho. O que faz com que seja previsível que, dentro de alguns anos, as sociedades europeias percam a sua fisionomia do ponto de vista religioso, do ponto de vista comportamental, cultural. Como se sabe, já há sociedades europeias a braços com a multiculturalidade e com a dificuldade de harmonia entre as diversas procedências da população, de que por um lado precisamos."
O Cardeal estava certamente a referir-se aos árabes. Mas esqueceu-se (muita gente, desde o 11 de Setembro, se tem esquecido) de que a cultura portuguesa descende da árabe. Não há portugueses de um lado e árabes do outro. Metade de Portugal (o Sul) é arábica. D. Manuel I tentou, sem êxito, expulsar os mouros em 1496. Eles já por cá andavam desde 711. Afonso Henriques só apareceu ao cimo da terra 400 anos depois.

O fundamentalismo de que acusam os muçulmanos não será assim tão diferente disso que os portugueses bem conhecem e prezam, às vezes além do aceitável: orgulho e dignidade.
"O árabe é altivamente orgulhoso, individualista e generoso, pronto a defender pela força os seus direitos e a sua dignidade pessoal, se necessário com absoluto desprezo pela própria vida", escreve o arabista Adalberto Alves no livro "O Meu Coração é Árabe" (3ª ed., 1999).

São estas características, medulares e não de agora, que explicam o extremismo islâmico e o terror a que se refere o chefe da igreja católica portuguesa. Mas são também
aquelas características, herdadas pelos portugueses, que determinam em grande medida a portugalidade a que se refere Miguel Real no ensaio "A Morte de Portugal" (1ª ed., 2007): lentidão, generosidade sem limites, espírito emotivo anti-racionalista. Podemos não gostar de ser idênticos aos terroristas, mas somos.