sexta-feira, 25 de julho de 2008

Cunhal e Oriana

Duas notícias da Lusa sobre dois livros inéditos:

O prefácio de Álvaro Cunhal, de 1963, a "Quando os Lobos Uivam", encontrado nos "papéis" do ex-líder do PCP, deveria destinar-se à publicação do romance num país socialista, mas é em Portugal que será editado 25 anos depois. O texto, "um longo estudo sobre a obra de Aquilino Ribeiro", como é descrito à Agência Lusa por Francisco Melo, da Editorial Avante!, será publicado em Setembro, numa reedição especial do romance, 50 anos depois da sua primeira publicação, em 1958.
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"Um chapéu cheio de cerejas" é como se chama a última obra da escritora e jornalista italiana Oriana Fallaci, que será publicada a título póstumo na próxima semana em Itália. De acordo com o jornal italiano Il Messaggero, o livro é uma saga que conjuga ficção e realidade, com episódios da família de Oriana Fallaci a decorrerem em momentos decisivos da história de Itália, entre os séculos XVIII e XIX.
Notícia completa aqui

quinta-feira, 24 de julho de 2008

"Dói-me a tua solidão que não tem cura"

VINHO DERRAMADO

Enquanto os outros encontram procurando
tu encontraste, encontrando
uma brecha no tecido do tempo, para nos escondermos
desta cidade, onde não fica bem ser-se
meteco universal, neste fim de milénio.

Mal te afastas-te e vejo-te chegando
com a migração das pedras roladas pelas nuvens,
por caminhos que também a nós aqui trouxeram
um dia ao centro desta margem.

Dói-me a tua solidão que não tem cura,
nem engolida pela minha solidão canibal;
e como ao longe ainda estás perto
és como o vinho derramado que ao cair segura
a luva de sombra da minha mão...


Dinu Flamând, 1998
(na colectânea "Haverá Vida Antes da Morte?", Quasi Edições, 2007; tradução do romeno de Teresa Leitão)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

"I miss the earth so much I miss my wife"

sábado, 19 de julho de 2008

A Bruxa Má dos Escritores

Versão completa do artigo "A Bruxa Má dos Escritores", publicado, em versão reduzida, na revista "Sábado" de 17 de Julho:

Há dois anos, a revista Time Out New York pediu a escritores e pessoas ligadas à indústria dos livros que classificassem os cinco principais críticos literários americanos. John Leonard, da Harper’s Magazine, ficou em primeiro lugar. Michiko Kakutani, do New York Times (NYT), ficou em penúltimo. A conclusão a que o painel chegou foi pouco edificante. Se houve quem a considerasse “a mais influente crítica que por aí anda”, outros disseram que tem “um estilo simples e uma opinião sempre pronta e afiada, mas sem dimensão humana”. Outros, ainda, defenestraram-na: “É reaccionária, teimosa, as suas críticas são previsíveis, más, feias, conservadoras, trocistas e vulgares”.

Michiko Kakutani, de 53 anos, vencedora de um prémio Pulitzer, é a mais temida das críticas da imprensa americana. E uma das mais odiadas. Todas as semanas, desde 1983, assina recensões bombásticas e nem os nomes mais sólidos da literatura contemporânea ficam a salvo. As editoras americanas até inventaram um novo verbo para designar os alvos da sua prosa: “Kakutanied” – em português, qualquer coisa como “ser kakutaniado”.

Uma das mais recentes polémicas, aconteceu há poucas semanas. “É a pessoa mais estúpida de Nova Iorque”, disse dela o escritor Jonathan Franzen, de cujo recente livro de memórias, The Discomfort Zone, Michiko disse cobras e lagartos. Há uns anos, foi Norman Mailer quem a atacou. Ao saber que o seu livro O Evangelho Segundo o Filho tinha sido considerado por Michiko como “tonto e presunçoso”, o velho escritor chamou-lhe “mulher kamikaze” e disse que “ela odeia escritores homens e brancos”. A famosa ensaísta Susan Sontag, que recebeu opinião negativa sobre o livro Olhando o Sofrimento dos Outros, disse que Michiko “faz críticas estúpidas, rasas e pouco objectivas”. Já Salman Rushdie referiu-se a ela como “uma mulher estranha, que parece oscilar entre a devoção a certos livros e o ódio”.

Michiko nasceu nos EUA (em New Haven, no Connecticut) e é de origem japonesa. O pai era um conhecido matemático, Shizuo Kakutani (a mãe não se sabe o que fazia). Licenciou-se em Inglês na Universidade de Yale, em 1976. No ano seguinte começou a trabalhar no Washington Post como repórter. Depois, foi para a revista Time. Em 1979, já só escrevia sobre temas culturais para o NYT. Desde 1983, é crítica literária.

Solteira, vive em Manhattan, nunca dá entrevistas e recusa a vida social, de beberetes e festas. Muitos editores americanos nunca a viram sequer. Fotografias delas, só as muito antigas. Consta que é fã da equipa de basebol New York Yankees e é amiga da colunista do NYT Maureen Dowd – igualmente uma polemista inveterada.

O facto de continuar a ser respeitada, apesar das suas opiniões, deve-se, em parte, ao Pulitzer, o mais importante prémio jornalístico dos EUA, que recebeu em 1998. Cinco mil dólares “pela sua escrita apaixonada e inteligente”, justificou o júri.

Uma das mais equilibradas análises ao trabalho de Michiko apareceu na revista Slate.com, há dois anos. Ben Yagoda, professor de jornalismo em Yale, disse que ela tem uma “inteligência respeitável”, que passa horas a digerir cada palavra alguma vez publicada pelo escritor que tem de analisar e que “leva os livros a sério, o que é coisa rara”. Depois, sentenciou: “Como crítica, é profundamente desinteressante. Dizer mal tem sido a única estratégia da sua carreira”. Bruno Horta

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dias algarvios 6

Acabaram-se hoje, finalmente, os dias algarvios. Mas ainda há coisas para contar.

Por exemplo, Irina, a mulher que trabalha numa gasolineira próxima de São Brás de Alportel e que nos faz voltar atrás no tempo. Na gasolineira dela ainda se enche o depósito ao cliente. O self service não existe e ainda bem.

Irina é "de leste". Tal como uma outra mulher, de que não fixámos o nome, que serve num restaurante
em Perches no Pechão, onde o licor de medronho que se oferece aos clientes no fim da refeição é um veneno puro.

Elas são "de leste" tal como a outra mulher que ajuda na cozinha num restaurante nos Machados, perto de São Brás de Alportel, mas que, ao contrário das outras duas, ainda não sabe falar português e parece ter medo das pessoas.

Estas mulheres expatriadas comovem tanto quanto aquela placa que diz Escola Primária e está perdida numa estrada de terra batida no sítio do Malhão (Tavira). Numas e noutra, a mesma vontade.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Dias algarvios 5

Ao contrário do que o "post" anterior sugere, o Algarve não está cheio nesta primeira quinzena de Julho, nem de perto, nem de longe. Os comerciantes (donos de bares, discotecas, restaurantes) dizem que este é um dos piores inícios de Verão dos últimos anos. É normal que se queixem. Em bom português, quem não chora, não mama. De qualquer forma, nota-se que há aqui uma falha qualquer: restaurantes vazios à sexta e sábado à noite, bares com meia dúzia de gatos pingados depois da hora de jantar e praias, como a de Armação de Pêra, que costumam estar cheias, ainda a meio-gás.

domingo, 13 de julho de 2008

Dias algarvios 4

"Ouvi dizer que há uns pescadores que fazem petiscos para os turistas". Assim metemos conversa com uma mulher vistosa e sociável que encontrámos na ilha da Culatra (Olhão). "Os pescadores, fazerem petiscos? Deve ser, deve. Nem para eles cozinham, quanto mais para os turistas. Se não forem as mulheres deles a fazer comida, vão para o café", disse ela. Esclarecidos.
O barco que liga Olhão à Culatra (e à ilha do Farol) faz lembrar os velhos barcos que faziam Terreiro do Paço-Barreiro, há uns anos. Mas é ainda mais lento. Ontem à tarde, ia cheio de gente, claro: era sábado e o tempo estava bom.
À noite, fomos ao Le Club, em Santa Eulália (Albufeira), um restaurante, que é bar e discoteca e esplanada. A noite apresentava-se fria e ventosa e deve ter sido por isso que a casa estava a meio-gás.
Quanto mais próximos vamos ficando da "movida" algarvia, mais desinteressante se torna o panorama, porque quer ser lisboeta no gosto e no tom, mas não é, nem pode ser.