"Minha visão de prazer é parecia com a letra de uma canção que fiz para Dulce Quental: Inocência e Prazer. Acho que você só consegue ter prazer quando você é completamente puro, ingénuo, inocente. Se você arma de um lado e de outro, o prazer foge. Ou então, quando consegue a coisa, está exausto. Prefiro ficar desarmado frente às pessoas e factos. Então chega o prazer".
[Cazuza - Só As Mães São Felizes, de Lucinha Araújo e Regina Echeverria; ed. Palavra, 2007]
Agora que anda muita gente interessada em falar do casamento entre pessoas do mesmo sexo (alguma tão interessada que até acha que esse casamento é um direito fundamental e indiscutível, logo, um dogma) vale a pena ler isto: a opinião, conservadora só na aparência, da psicanalista e maçona Maria Belo, publicado há mais de 10 anos ―no número de Maio de 1998 da já extinta revista Vida Mundial (ligada ao Bloco de Esquerda).
Sexo, loucura, doença e morte, relações difíceis entre pais e filhos. É disto que fala o primeiro livro de contos do escritor luso-americano Richard Zimler, Confundir a Cidade com o Mar.
Escritos entre 1992 e 1997, são 16 contos anteriormente publicados em revistas literárias anglo-saxónicas (London Magazine, Yellow Silk ou Tikkun) e agora reunidos pela primeira vez. (...)
As relações entre iguais têm protagonismo e decorrem quase sempre na América, durante a década de 80, quando a sida apareceu e era tida como uma doença dos homossexuais. Ainda assim, o autor, homossexual assumido, recusa empurrar o livro para a secção gay ou queer. “Prefiro evitar rótulos”, esclarece Zimler, em resposta a perguntas da Time Out, via email.
No conto “Aprender a Amar”, por exemplo, aparece em cena um escritor octogenário, Giovanni, às portas da morte. O narrador despede-se dele, enquanto confessa: “É o único homem com quem dormi alguma vez. Não faço ideia se sou bissexual ou se tive simplesmente sorte em tê-lo conhecido. As minhas fantasias são quase sempre com mulheres, mas consegui ter sexo fantástico com ele”.
Em “Ladrões de Memórias”, o desaparecimento de um quadro do pintor Fernand Léger dá origem a uma discussão familiar. As suspeitas recaem sobre um irmão, que é gay e teria vendido o quadro para pagar tratamentos hospitalares para a sida.
Em “Pontos de Viragem”, um homem hetero tenta ajudar o jovem Denny a aceitar-se como gay e acaba por descobrir que o próprio pai teria uma sexualidade dúbia.
Segundo explica o escritor, a sua vida pessoal está plasmada nestes textos. A morte de um irmão, em 1989, vítima de complicações relacionadas com a sida, determinou o tom fúnebre que adopta e as constantes referências à loucura. “Descobri, através das minhas próprias dificuldades, que a loucura está muito perto de nós. Basta uma experiência traumática e podemos cair num mundo em que os contornos normais estão ausentes”, diz Zimler. Quanto ao sexo, aparece aqui por ter sido uma descoberta muito importante para o autor. “O sexo salvou-me a vida”, afirma. “Era um adolescente e jovem adulto tímido, reprimido e desajeitado. Quando consegui manter uma boa relação sexual com outra pessoa pela primeira vez, aos 22 anos, a minha vida melhorou muito. Foi como se pudesse respirar livremente pela primeira vez”.
Zimler nasceu Roslyn Heights, perto de Nova Iorque, em 1956. Vive em Portugal desde 1990 e ensina jornalismo na Universidade do Porto. Naturalizou-se português há seis anos. Publicou vários romances, o mais conhecido dos quais é O Último Cabalista de Lisboa (1996).
Confundir a Cidade com o Mar é editado pela Oceanos (grupo Leya) e custa cerca de 15 euros.
Esta segunda-feira a rede informal activista Panteras Rosa manifesta-se em Lisboa por causa disto:
"Para controlar as identidades de género não-normativas e normalizar corpos e comportamentos, as instituições governamentais dispõem de mecanismos como a instituição médico-psiquiátrica. Influenciada por interesses religiosos, económicos e políticos, esta intervém nos corpos das pessoas trans e intersexuais reproduzindo o binarismo que pressupõe corpo e comportamento específico segundo a catalogação homem/mulher. Para legitimar este binarismo é necessário inviabilizar e patologizar todas as outras situações." blog oficial aqui
corpos visíveis, nobilíssimos, inseparável luz que move as coisas, ter um inferno à mão seja qual for a língua, toda a água é inocente e escoa-se entre as unhas, à porta do forno crematório alguém lhe toca, vai lá, vai que te acolham, brilha, brilha muito, brilha tanto quanto não possas, brilha acima, faz brilhar a mão que melhor redemoinha, a mão mais inundada, e ele entra sem esperança nenhuma, só na última linha quando o coração rebenta, reconhece quem o olha
Herberto Helder "A Faca Não Corta o Fogo (súmula & inédita)", 2008
estamos encostados a uma roulotte bebemos sangria conversamos enquanto queimamos a noite junto ao mar o vento fresco surpreende-nos com as mãos nervosas em redor dos copos embaciados a ternura dum olhar não chega para iludir a embriaguez dos amores imperfeitos
sei que possuis ainda alguma juventude nesse sorriso eu já só embebedo os lábios viciados pelas palavras pouco tenho a dizer-te toco-te no ombro faço promessas e tu ris enquanto descobrimos no silêncio cúmplice do vinho que os dedos enlear-se-ão uns nos outros e sobre a pele treme uma teia de luminoso sal onde a noite cai sobreviveremos ao desgaste do amor
bebemos mais para que haja só desejos e não amor entre nós e o rapaz que tem a mania de espetar uma faca loura no ombro do mar La vie est une gare, je vais bientôt partir, je ne dirai pas où. calei-me sabendo que me conduzirias até casa pelo caminho da praia cambaleantes e enquanto eu não conseguir abrir de novo os olhos não partirás tenho a certeza com a tua jaula cheia de luas mansas apaziguadas
Fernando Tordo em entrevista à "Visão" de 2 de Outubro (por Miguel Carvalho):
PERGUNTA: Numa entrevista, o Ary [dos Santos] distinguiu o maricas do homossexual pelo carácter. O Fernando já se referiu, num livro seu, ao poder do lóbi gay. Isto anda tudo ligado? RESPOSTA: O Ary era homossexual e foi, talvez, a primeira figura pública a assumi-lo antes do 25 de Abril. Hoje, existe um potentíssimo lóbi gay, no nosso país. Em muitos países da Europa, há ministros, presidentes de Câmara, outras figuras públicas, que se assumem. Mas, em Portugal, o lóbi gay tem uma componente de ocultação terrível.
P: Hoje, o Ary faria parte desse lóbi? R: O Ary não gostava da bichice nem da mariquice. A ocultação desagradava-lhe profundamente. E este lóbi gay jamais se denunciará. Compreendo que não queiram fazê-lo tão abertamente como o Ary, mas também não é aceitável que ocultem essa condição em nome de um jogo de grande influência que prejudica muita gente.