domingo, 9 de novembro de 2008

"Não usar pontuação é uma atitude inculta"

"Por exemplo, o caso do Saramago com a pontuação. É muito irritante, irritante e inculto, que não haja o cuidado da pontuação. A pontuação faz parte da escrita. É ultra-importante. (...) Não usar pontuação é uma atitude inculta. Pode ser uma atitude propositada mas é inculto, no sentido de não civilizado. Mal-educado, se quiseres. O Saramago é um escritor admirável, pela tenacidade dele e pela maneira como ele vive as histórias. (...) [Mas] eu não gosto nada dos livros dele. Acho os livros dele mal escritos. Mal escritos no sentido de serem convencidos da sua própria grandeza, da importância do que ele diz. É uma espécie de declaração ao mundo. Não uma história. (...) Isso fazem os filósofos e outras pessoas assim. Os romancistas são contadores de histórias".

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Mário Viegas: Se fosse vivo, faria 60 anos

Na "Time Out Lisboa" de 5 de Novembro; excerto:


“Nunca fui um homossexual porco. Nem chulo. Mas com os meus olhos castanhos, caracóis, 26 e 27 anos, bigode latino-americano, fui um êxito sexual”. Assim falava o actor, encenador e declamador Mário Viegas, que, se fosse vivo, faria esta semana 60 anos. Nasceu em Santarém a 10 de Novembro de 1948, às 23.30, meia hora antes do Dia de S. Martinho – escreveu o próprio na folha de sala da peça Europa Não! Portugal Nunca! (1995).


(...)Polemista até à medula, acabaria por protagonizar, em 1995, um episódio de antologia. Em Setembro desse ano, o deputado do Partido Socialista Carlos Candal publica o famoso Breve Manifesto Anti-Portas em Português Suave, onde insinua que Paulo Portas, então candidato pelo CDS às eleições legislativas, é homossexual. Mário Viegas aparece então numa conferência de imprensa da UDP, partido pelo qual se candidataria mais tarde à Presidência da República, e afirma: “Sou homossexual assumido, estou na política e a UDP nunca me colocou qualquer entrave”. Classifica como “nojento” o manifesto de Candal, porque “ofende milhões de homossexuais que sofrem perseguições”.


Em relação à vida dos outros parecia gostar de igual transparência. Além da frase “quando é que tantos actores se assumem, cobardes”, que anotou na autobiografia, deixou escapar, numa entrevista, em 1993, esta pérola: “Não acho que seja necessário ser amante dos políticos para receber subsídios. Acham que o La Féria, que recebe tantos subsídios, é amante do Santana Lopes [à época secretário de Estado da Cultura]? Que eu saiba, o Santana Lopes não é homossexual”. Bruno Horta

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Coreo-grafias

Estão aqui quase todos os portugueses da dança: os coreógrafos, os bailarinos, os teóricos, os críticos, os professores. Edição monumental, onde se explora, alegadamente pela primeira vez, a relação entre a dança e a literatura.
A "Textos e Pretextos" é uma revista da Faculdade de Letras de Lisboa. Este número foi editado por Luiz Antunes. O lançamento oficial é na segunda-feira, dia 10, na Lx Factory, às 18h30.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

"toda a cama a céu aberto como um peito"

Capa do primeiro número da revista literária "Criatura", publicada em Fevereiro (o segundo número saiu há dias). A "Criatura" é dirigida pelo Núcleo Autónomo Calíope, da Faculdade de Direito de Lisboa.
Do primeiro número, pois, um poema de Nuno Araújo, brilhante, como sempre:
à meia-luz, no sono rarefeito deste licor, escrevo-te de cigarro nos dedos, atropelando as páginas embriagadas. é cirúrgico o amor que se instala por dentro dos lençóis, toda a cama a céu aberto como um peito. adormeceste assim, insinuando-te como uma boca junto das minhas palavras mais fechadas. não sei se esta febre é rasgada dos lábios que se colam à narrativa do teu corpo ou se bebo se não com todo o medo. acendo outro cigarro porque a manhã ainda tarda neste cinzeiro antigo. Fumo muito quando dormes assim, como um incêndio carpindo as faúlhas do tempo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Figuras tristes

"O mecanismo da "cunha", ou seja, o recurso a conhecimentos que se têm com pessoas dentro da profissão, "é o modo de acesso mais frequente" à carreira de jornalista, embora em Portugal os estágios ganhem cada vez mais importância. Estas são algumas conclusões de um estudo sobre o perfil sociológico dos jornalistas portugueses, realizado desde 2005 por uma equipa coordenada por José Rebelo, do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), e amanhã debatido no Sindicato de Jornalistas, em Lisboa." No "Público", hoje

domingo, 2 de novembro de 2008

"Traços psicopáticos e um estilo manipulativo"

"Maria das Dores, condenada em Abril a 23 anos de prisão por ter mandado matar o marido, conhece segunda-feira a nova decisão dos juízes do Tribunal da Boa Hora, depois de terem sido ouvidas duas técnicas de reinserção social. (...) O relatório refere que a arguida tem um Coeficiente de Inteligência (QI) acima da média e que pensa com clareza, mas que tem traços psicopáticos e um estilo manipulativo." Notícia aqui
[actualização:
Maria das Dores, condenada a 23 anos de prisão por ter mandado matar o marido, conheceu hoje uma nova decisão dos juízes do Tribunal da Boa Hora, Lisboa, cujo teor é "rigorosamente igual" ao do acórdão anterior, conhecido em Abril. -- aqui]

sábado, 1 de novembro de 2008

"Sida poderia ter sido controlada pelos políticos"

Nan Goldin, entrevistada e fotografada pelo fotógrafo Daniel Blaufuks, no "Expresso" de hoje:

"A sida foi uma doença que poderia ter sido controlada pelos políticos. Não foi por várias razões. Em 1978, o presidente da câmara de São Francisco foi assassinado. Foi o primeiro político a assumir a sua homossexualidade. [O "Público" de sexta-feira falava sobre ele, Harvey Milk, cuja vida o realizador Gus van Sant acaba de transformar em filme: "Milk", que há-de estrear-se em Portugal no próximo ano] Os homossexuais eram um grupo economicamente poderoso. Tive amigos nos anos 60 e 70 que previam que na década seguinte os homossexuais estariam todos em campos de concentração. Em 1982, vi o primeiro amigo morrer com sida. Nessa altura nem sabíamos o que era aquilo, se um cancro ou uma doença exclusivamente homossexual. Em 1983, comecei a ir a encontros políticos, debates com médicos, e entre 1985 e 1993, a maior parte dos meus amigos morreu com esta doença."