quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O 'timing' inglês

Ontem, João Miguel Tavares escrevia no DN que o 'timing' não é para aqui chamado:
"Estou-me bem nas tintas para o timing das notícias. Comove-me muito pouco que estejamos em ano de eleições. O que eu quero mesmo saber é se as notícias são verdadeiras ou se são falsas. O que eu quero é saber se o primeiro-ministro deste país esteve envolvido em trafulhices imperdoáveis."
Hoje, Baptista-Bastos diz na mesma tribuna que o 'timing' é assassino:
"Não gosto daquilo que o eng.º José Sócrates representa, dos caminhos ínvios para os quais conduziu a pátria e nos compeliu. (...) Porém, este caso do Freeport fez-me reflectir sobre a natureza da indignidade e os fundamentos da sordidez. Nos últimos três anos, o homem foi acusado de forjar uma licenciatura, de ser homossexual (uma acusação abjecta, com remetente conhecido) e, agora, de estar envolvido numa tecelagem de corrupção. A história escora-se numa trama obscura, mas o estilo caracteriza a procedência. Não pertenço à matilha. As desprezíveis fugas de informação parecem obedecer a um calendário político. Seria Sócrates muito tolo, e não o é, acaso se se deixasse enredar numa teia tão rudimentar e insensata quanto os noticiários no-lo revelam."
E eis que ao fim do dia aparece isto:

"As autoridades inglesas consideram o primeiro-ministro José Sócrates suspeito no caso Freeport, de acordo com a próxima edição da revista "Visão" que sairá para as bancas amanhã. Por seu lado, a revista "Sábado" afirma que "os investigadores ingleses querem ver as contas bancárias do primeiro-ministro" (Público online).

sábado, 24 de janeiro de 2009

Quando Hollywood era uma fábrica de sonhos gay

Uma velha fotografia dos actores Cary Grant e Randolph Scott pode ser prova definitiva de que eles tiveram um caso amoroso, diz um novo livro publicado nos EUA. Nele se defende também que ser homossexual em Hollywood nem sempre deu direito a proscrição

A história é conhecida, mas não cansa recordá-la. Dois homens cheios de charme, em início de carreira, pretendidos por todas as mulheres e acabados de chegar à terra de todos os sonhos. Hollywood, 1932. Cary Grant tem 28 anos e Randolph Scott 34. Dá-se a coincidência de começarem a trabalhar quase ao mesmo tempo para a Paramount Pictures, já então um gigante da indústria do cinema. E por coincidência também travam conhecimento nas filmagens de Hot Saturday, de William A. Seiter - segundo filme a sério em que Grant participa, depois de uma estreia prometedora em A Vénus Loira, de Josef von Sternberg. Ficam amigos. Tão amigos que se tornam mais do que amigos e decidem ir viver juntos. "A imprensa descreve essa vida em comum através de frases como 'a dupla de Hollywood' ou 'o casal feliz' e os boatos que circulam atraem os fãs e dão a entender que os dois actores partilham mais do que o apartamento", escreve Brett L. Abrams no livro Hollywood Bohemians, agora editado nos EUA.

O livro, de que foram publicados excertos este mês na revista gay americana Advocate, não traz novidades sobre a alegada relação entre Cary Grant, considerado um dos melhores actores da história do cinema americano, e Randolph Scott, que ficou conhecido por protagonizar westerns realizados por Budd Boetticher no fim dos anos 50. Mas traz nova interpretação sobre o assunto, recorrendo para isso a fotografias da época, onde os dois actores aparecem unidos pela extremosa intimidade que em público sempre negaram.

Brett L. Abrams, que trabalha como arquivista na National Archives and Records Administration, defende uma tese controversa: entre 1917 e 1941, os estúdios de Hollywood e os media que faziam a cobertura do que por lá se passava veicularam propositadamente imagens daquilo a que o autor chama "boémios". A saber: "homossexuais, adúlteros, homens efeminados e mulheres másculas, ora reais, ora de ficção". Com que objectivo? "Atrair o público e forjar a mística de Hollywood enquanto fábrica de sonhos e o sítio mais vigoroso, libertino e extravagante de todo o país".
(...)
No meio das fotos, Brett L. Abrams encontrou uma que lhe chamou a atenção e que, no seu entender, faz prova da ligação romântica entre Grant e Scott. Ao fim da tarde, no pátio da casa de praia, com o oceano Pacífico em fundo, Scott acende com a ponta do seu cigarro o cigarro que está preso aos lábios de Grant. Uma foto em contraluz, como a de dois apaixonados num momento de grande intimidade. "A imagem de dois homens a fumar juntos era, à época, muito frequente, mas apenas em bares, saloons ou outros áreas 'masculinas', nunca num espaço considerado romântico e com a interacção desses dois homens isolada do que está à volta", diz o autor. "Um homem raramente acendia o cigarro a outro e de certeza que não tomaria a iniciativa de o fazer se o cigarro estivesse a pender da boca do outro". Isso, conclui Brett L. Abrams, era normal nos anos 20 na publicidade aos cigarros, mas apenas entre homem e mulher e na tentativa de criar um ambiente romântico entre os dois.
[no "Público", hoje; versão completa aqui]

Frase do ano (até agora)

"A mim ninguém me contactou para vender ou comprar. E para comprar tem que 'cantar' muito dinheirinho".
Joe Berardo em entrevista ao "Público"

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Lançar o debate

José Sócrates quer lançar o debate sobre o casamento gay (aqui). Quer lançar o debate, não disse que quer mudar o Código Civil. O que não quer (não disse, mas mandou dizer) é a adopção de crianças por casais do mesmo sexo (aqui), o que só faz sentido se a lei da adopção for entretanto alterada.

Será bom, a propósito, recordar compromissos que ficam por cumprir: o programa do actual Governo dizia que “é preciso um amplo debate nacional sobre igualdade e orientação sexual” (aqui).


Reacções à proposta do PS:

- associação ILGA - aqui (Lusa/Expresso)

- associação Panteras Rosa - aqui (Lusa)

- associação Opus Gay - aqui (Sol/Lusa)

- Juventude Socialista - aqui (Público)

- Igreja Católica - aqui (Correio da Manhã)

- Partido da Nova Democracia - aqui (IOL)

- Grupo Rumos Novos - aqui (Lusa/Expresso)


domingo, 18 de janeiro de 2009

Ary dos Santos morreu há 25 anos

Não é hoje o símbolo gay que a sua personalidade teria permitido que fosse, mas pertence-lhe a coragem de ter sido um dos poucos homossexuais portugueses que se assumiram publicamente antes do 25 de Abril. José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador compulsivo, homem da noite de Lisboa, desregrado e escandaloso, morreu a 18 de Janeiro de 1984 – faz [hoje] 25 anos.
Viveu na contradição de todos saberem da sua orientação sexual, mas de ele próprio não se aceitar. (...)
Em parte, terá sido a militância no Partido Comunista Português (PCP), ao qual aderiu em 1969, a condicioná-lo. A homossexualidade “provocava indisfarçável embaraço no aparelho partidário”, lê-se na nota biográfica sobre Ary incluída no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, de Ilídio Rocha (1999). Uma visão desmentida por Ruben de Carvalho, dirigente do PCP e amigo do poeta. “Isso é um dislate, ele é das pessoas que mais afectos sempre despertaram junto dos militantes comunistas”, assegura à Time Out. “A única coisa que se pode dizer é que ele não tinha em relação à sua homossexualidade um exibicionismo que outros, no seu pleno direito, poderão ter”, conclui.
[na Time Ou Lisboa de 14 de Janeiro; artigo completo aqui]

A propósito: no "Jornal de Negócios", Baptista- Bastos recordava esta semana Ary dos Santos; aqui.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Explícito ou implícito?

"O documento [moção ao congresso do PS, a 27 de Fevereiro] entregue ontem ao fim da tarde, foi preparado por uma equipa coordenada por António Costa e composta por Pedro Silva Pereira, Edite Estrela, Helena André, Alberto Martins, Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, Jorge Lacão, Osvaldo Castro, Vera Jardim e Pedro Adão e Silva.

A versão entregue não era, porém, um texto fechado. Havia casos e situações em que foram preparadas várias formulações escritas que davam a Sócrates a decisão final. Neste caso estava, por exemplo, o que a moção de estratégia dirá sobre o casamento entre homossexuais. Ainda que a expressão casamento civil não apareça na versão final, a ideia é que fique bem explícito o reconhecimento do princípio, mas a decisão sobre como fazê-lo foi deixada ao veredicto do secretário-geral."

"Público", hoje, aqui


"A moção global que José Sócrates apresentará no próximo congresso do PS deverá conter um compromisso claro do partido no sentido de legalizar os direitos conjugais iguais entre hetero e homossexuais. A proposta estará amanhã em cima da mesa, na última reunião do grupo redactor da moção, presidido por António Costa. Caberá a José Sócrates a palavra final. Membros deste grupo admitiram ao DN que dificilmente haverá margem para o líder recusar um discurso clarificador na matéria."

"Diário de Notícias" de 14 de Janeiro, aqui

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Sarilhos

“Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam."
D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, ontem, aqui

"É um conselho de imprescindível realismo que seguramente qualquer um de nós de cultura ocidental e de religião cristã, ou então de cultura árabe e de religião muçulmana, daria para bem de ambas as partes e das respectivas famílias"
Padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, hoje, aqui

"No Islão, não há casamentos mistos, o que implica sempre a adopção ou a aceitação da religião, com todas as consequências que traz um casamento islâmico. (...) É um facto que em muitos países da Europa, como Espanha, França, Alemanha, há muitos casos de mulheres iludidas por homens islâmicos, que não lhes revelam toda a verdade. (...) Na actualidade não há outra religião como a islâmica, que mantenha leis de prepotência dos homens sobre as mulheres, à excepção de pequenos grupos religiosos."
Moisés Espírito Santo, sociólogo das religiões, hoje, aqui

"Conheço relações mistas, exemplos de sucesso e amor, que demonstram que a felicidade é possível."
Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural, hoje, aqui

"
Nunca tive problemas nenhuns com a família dele. Nunca nada me foi imposto nem fui pressionada a fazer nada. Aceito perfeitamente os usos e costumes dele e ele aceita os meus."
Portuguesa casada com um muçulmano marroquino, hoje, aqui

"Ficámos de alguma forma magoados com a escolha das palavras do senhor patriarca de Lisboa relativamente à nossa comunidade e ao diálogo que temos procurado com todas as confissões religiosas e, em particular, com as religiões cristãs."
Abdool Vakil,
Comunidade Islâmica de Lisboa, hoje, aqui