quinta-feira, 16 de julho de 2009

Podíamos dar cabo da nossa vida

A Chiado Editora decidiu adiar sine die a publicação do romance A Última Madrugada do Islão, de André Ventura, cuja apresentação estava marcada para sábado, alegando que o conteúdo da obra (uma ficção em torno dos últimos anos de vida de Yasser Arafat) exige "prudência".

O editor Gonçalo Martins explicou que, após o livro ter sido publicitado no Facebook, a editora recebeu e-mails com "ameaças": "Escreveram que podíamos estar a dar cabo da nossa vida."

(…)

André Ventura, por seu lado, diz que as "ameaças" poderão ter origem "em pessoas relacionadas com a comunidade [islâmica] ou alguém que devote admiração a Arafat", apontando, contudo, que está "estupefacto" com a "possibilidade de o livro ficar nas prateleiras por motivos religiosos".
"Há dados sobre a homossexualidade de Arafat, assim como a sua relação com o tráfico de droga, que dão uma imagem muito diferente do líder da OLP e que a comunicação social chegou a revelar", diz o autor.

[Público, hoje]

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Falta eleger um presidente gay na América"

A Newsweek já lhe chamou “o gay mais poderoso da América”. É verdade?

Acho que dizem isso porque já cá ando há muitos anos e faço parte da História desta comunidade. Trabalho nisto há 50 anos, penso que não há ninguém nesta área há tanto tempo.

Considera-se uma pessoa poderosa?

Considero-me uma pessoa com opiniões muito fortes. Acho que nos podemos tornar reféns desses títulos, porque passamos a viver de acordo com as expectativas que eles criam. É preferível viver de acordo com os meus próprios valores, sejam eles populares ou não.

(...)

A seguir ao casamento e à adopção que caminho poderá o movimento gay seguir?

Quem tem capacidade e recursos para lutar tem a obrigação moral de ajudar os que vivem em países do Médio Oriente e algumas zonas de África. Portanto, o caminho é dar a mão aos nossos irmãos e irmãs desses países.

E na América, o que falta fazer?

Eleger um presidente gay.

Um presidente gay?

Claro, se já temos Obama, por que não nós?

Acha que ainda vai ser vivo para assistir a isso?

Talvez. Também nunca pensei estar vivo para assistir ao casamento gay. Por que não pensar em grande?

[excerto da entrevista com o activista gay norte-americana David Mixner, no Público (P2), hoje]

sábado, 11 de julho de 2009

Uma mulher

Para que conste, esta reportagem sobre o Arraial Pride 2009 (publicada na edição on-line da Time Out Lisboa a 7 de Julho e na edição impressa a 8 de Julho) tem um erro factual:

A chuvada que às três da manhã caía sobre Lisboa obrigou o Arraial Pride a meter a viola no saco. O DJ Rui Murka tentava resistir com Frankie Goes To Hollywood e a verdade é que o “Relax” até levou muita gente a despir a t-shirt e dançar à chuva. Mas não havia condições e a organização teve mesmo de decretar o fim da festa.

Nem mesmo este desfecho antecipado arruinou o Arraial Pride 2009, na noite de 27 para 28 de Junho, junto à Torre Belém. Pode dizer-se que não houve mácula na 13.ª edição da mais antiga festa LGBT portuguesa, organizada pela associação ILGA Portugal. Cada vez menos ‘guetizado’, o Arraial começa a prestar mais atenção à boa qualidade do cartaz. E, no entanto, não deixa de ser um momento tão ou mais político que a Marcha do Orgulho LGBT. Foi, por exemplo, criado um espaço de convívio para crianças, com o objectivo de tornar visível a homoparentalidade.

António Variações foi cantado por duas vezes (por Plastic Poney e pelos Les Baton Rouge). A travesti Ruth Bryden foi homenageada num espectáculo de Deborah Kristal e amigas. O auge chegou com a espanhola Terremoto de Alcorcón, um homem vestido de mulher que canta êxitos de Madonna ou Gloria Gaynor com letra apalhaçada. Gritava “maricones”, “vivan los coños”, dançava, parodiava, era a rainha da noite. Muitos casais ‘hetero’, bom ambiente, ar profissional.

E muitas mulheres. Só os discursos não se ausentaram, coisa que a ILGA anunciara. Paulo Côrte-Real e Sara Martinho, dirigentes da associação, foram ao palco dizer que é preciso lutar para que gays e lésbicas possam em breve fazer a pergunta: “Queres casar comigo?”.



La Terremoto de Alcorcón é uma mulher, de facto. Não um travesti. Há mais sobre ela na Wikipedia. A mesma reportagem foi reproduzida no blogue oficial do Arraial Pride, tendo os autores desse blogue decidido suprimir o erro factual, sem no entanto indicarem que o estavam a fazer.