domingo, 16 de agosto de 2009

Ler não chega

"Pelo meio surgem cafés que já não existem, tertúlias propícias ao excesso e à “noivadiagem”, iniciações à arte tipográfica em que Paulo da Costa Domingos (sobretudo nas décadas de 80 e 90) se tornou o nosso miglior fabbro e um dos mais inventivos editores europeus. A receita, simples mas ao alcance de poucos, é-nos dada de forma inequívoca: “Manter um vigilante e apertado nexo entre qualquer significado estético e os seus modos de produção e difusão — disto nunca se deve abrir mão.” Aí está uma máxima, severamente livre, que não encontraremos nos reinantes concubinatos editoriais ou em delirantes planos nacionais de leitura. Passa por aqui, num tom austero mas contundente, uma outra ética: “A leitura faz de nós melhores pessoas; [...] isso consolidou em mim o autodidacta.” Congruentemente, a figura do intelectual ou do funcionário poético é alvo de extrema corrosão. Aos “consumidores de ideias feitas” e à “escumalha da crítica e do jornalismo”, Paulo da Costa Domingos contrapõe, sem rodeios, que “ler não chega; há que ver e ouvir pela abertura do coração, comovidamente”."
[crítica de Manuel de Freitas ao livro Narrativa, de Paulo da Costa Domingos, no Expresso ("Actual"), ontem; sem ligação]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Exigência omnívora

"Nas questões de fundo que realmente podem pôr em causa a liberdade de imprensa, as pessoas passam por elas como gato sobre brasas. Por exemplo, a precariedade do emprego: seria interessante ver os níveis médios de remuneração do jornalismo português. Sei de pessoas que trabalham dez anos num jornal e recebem 1000 ou 1200 euros. Um jornalista assim terá dificuldade em ser independente. (...) A construção de uma peça exige tempo, reflexão, especialização, mas hoje o jornalismo está confrontado com uma exigência omnívora: o jornalista tem de tocar em economia, política, sociedade, fazer isto e aquilo para amanhã e adaptar o texto para vários formatos. Esses aspectos sim, põem em causa a capacidade de fazer a investigação e respeitar princípios básicos da profissão, como o contraditório, ou evitar o anonimato das fontes - que era uma excepção e agora é regra."
[Azeredo Lopes, presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), em entrevista ao jornal i, ontem, aqui]

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Uns vendem o corpo, outros vendem arte. E são todos prostitutos

"Dois são homossexuais, um é heterossexual. São prostitutos brasileiros ilegais e vivem em Lisboa." O esclarecimento é dado por John Romão no início da peça Velocidade Máxima, que passou este fim-de-semana pelo Citemor, Festival de Teatro e Cinema de Montemor-o-Velho (que decorre até sábado, dia 15).
Depois o encenador diz que "nenhum dos prostitutos está aqui para foder". O objectivo é outro: mostrar, com mais ou menos demagogia, que na vida real os trabalhadores do sexo são exactamente iguais aos artistas portugueses. Como? John Romão explica que os prostitutos se vendem o melhor que podem e inventam esquemas para sobreviver. Os artistas também: "Tomam cafés no Chiado e copos no Bairro Alto com os programadores de teatro, fazem amizade com jornalistas que lhes podem dar protagonismo e, se são velhos na área, sentam-se à sombra dos subsídios do Estado."
[no jornal i, hoje; foto: Dora Nogueira]

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O modelo e a cópia

Muitos continuam a esconder a sua homossexualidade. Por ser difícil quebrar códigos?
Penso que sim. A luta dos homossexuais e das lésbicas aparece sempre como a luta pela verdade, pela assumpção pública da sua orientação sexual. O que vejo é que copiam a maior parte dos modelos heterossexuais, o que é uma armadilha.

Acabam por procurar o padrão dito normal?
Exacto. A homossexualidade poderia ser uma plataforma para se construir novas relações entre homens e mulheres, tal como outras formas de sexualidade transgressivas podem aparecer como linhas de fuga, e não é [assim].
[José Gil, em entrevista ao Diário Económico de 10 de Agosto; sem ligação]

domingo, 9 de agosto de 2009

TVI e as notícias que favorecem o Governo

O Jornal Nacional da TVI é aquele que, [de] entre os espaços de informação dos canais generalistas que vão para o ar às 20h, apresenta uma maior incidência de notícias favoráveis [ao] Governo, sendo também a informação com um maior peso de notícias desfavoráveis sobre o PSD. As conclusões são do relatório de regulação de 2008 da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). (...) "Os membros do Governo são apresentados com tom/valência mais favorável em 32,3% na TVI, 30,3% na RTP1 e 28% na SIC", lê-se no relatório ontem publicado pela ERC e que analisou 1377 peças da RTP, 1492 da SIC e 1220 emitidas pela TVI.
[notícia do jornal i, ontem]

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Não há provas suficientes

A Associação Americana de Psicologia (AAP) adoptou esta semana uma resolução segundo a qual "os profissioanis de saúde mental devem evitar dizer aos pacientes que há terapias ou outros tratamentos para mudança da orientação sexual".
A resolução resulta de um estudo recente da AAP que concluiu "não haver provas suficientes que suportem a intervenção psicológica com vista à alteração de orientação sexual" ("There is insufficient evidence to support the use of psychological interventions to change sexual orientation.").
Ainda assim, é feita a ressalva: "Os métodos utilizados em investigações recentes não são adequados para determinar a validade das chamadas Tentativas de Mudança da Orientação Sexual [Sexual Orientation Change Efforts - SOCE] ("Recent research studies do not provide evidence of sexual orientation change as the research methods are inadequate to determine the effectiveness of these interventions").
Note-se o rigor: "Não há provas suficientes"; "os métodos não são adequados para determinar". Aqui.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Não à vida, sim à pop

Michael Jackson como homossexual. Ensaio de Hilton Als, na New York Review of Books, aqui:
And there were the songs he wrote for women—early idols like Diana Ross or his older sister, Rebbie—songs that expressed what he could never say about his own desire. "She said she wants a guy/To keep her satisfied/But that's alright for her/But it ain't enough for me," Jackson wrote in the 1982 Diana Ross hit song "Muscles." (...) In bars like the Starlite, and, later, in primarily black and Latin gay dance clubs like the Paradise Garage on Manhattan's Lower West Side, the meaning was clear: Michael Jackson was most himself when he was someone other than himself.

(...) Jackson "dated" a number of white starlets—Tatum O'Neal, Brooke Shields—but once those girls were exhibited at public events two or three times, they were never seen with him again.

(...) As his physical transformations began to overshadow his life as a musician, Jackson's now-famous mask of white skin and red lips (a mask that distanced him from blackness just as his sexuality distanced him from blacks) would come to be read as the most arresting change in the man who said no to life but yes to pop.


(...)
In black urban centers across the US, where Jesus is still God, men who cannot conform to the culture's edicts—adopting a recognizably heterosexual lifestyle, along with a specious contempt for the spoils of white folk—are ostracized, or worse; being "out" is a privilege many black gay men still cannot afford.