sábado, 28 de janeiro de 2012

Tornei-me curador e vou contar como é

Eis o resumo da minha experiência na curadoria de notícias através da Internet. De entre muitas hipóteses, escolhi e experimentei os sites Dipity, Storify, Scoop.it e Delicious.

Espero que isto seja útil aos jornalistas que, como eu, gostam de utilizar a Internet para arquivar notícias. Quando a pressa de escrever exige confirmação rápida de dados e contextualização imediata, convém ter arquivos minimamente organizados.

Antes do mais, uma explicação sobre o termo "curadoria" de notícias.

Note-se que há diferenças importantes entre sites "agregadores", sites "curadores" e sites "indexadores". Este texto é capaz de esclarecer quais. Mas posso já resumir o que aprendi em artigos de autodidactas:
Sites como o Huffington Post são agregadores: têm muito pouca produção própria e limitam-se a copiar (agregar) notícias de sites jornalísticos.
O Google News é um site (em rigor: uma função) de indexação: nós escolhemos temas e palavras e a máquina vai à procura de notícias que encaixem nessa escolha.
Já os quatro sites de aqui falo servem para curadoria (de notícias e não só). O utilizador  escolhe os temas, as fontes, a hierarquia e o aspecto gráfico.

Delicious:  
  • tem duas vertentes: (1) arquivo de notícias através de ligações e palavras-chave (tags) e (2) arquivo temático através de pastas (stacks);
  • esta última vertente, criada há poucos meses, é que é a função de curadoria;
  • nunca falha, tem um design limpo e entendível e é bastante rápido;
  • pequeno problema: conseguimos escolher tags nossas e a partir delas construir stacks, mas só manualmente, o que é impraticável quando as nossas tags são às centenas. 



Scoop.it:
  • cria áreas temáticas (topics) onde colocamos ligações para notícias;
  • é ao mesmo tempo um mini-motor de busca: escolhemos as fontes e as palavras-chave e ele pesquisa por notícias que possam ser utilizáveis no nosso topic;
  • o grafismo é perceptível e bonito
  • pequeno problema: só quem pagar 13 dólares consegue ter acesso a funções extra que são muito úteis (como escrever pequenos textos de enquadramento na nossa área temática).


Storify: 
  • é quase um bloco de notas;
  • as ligações que lá publicarmos podem ser entremeadas com comentários nossos;
  • é como se contássemos uma história ora na terceira pessoa (ligação para a notícia, para o tweet, para o post), ora na primeira pessoa (o nosso comentário);
  • é o site, de entre estes quatro, que mais se aproxima das "narrativas não-lineares" (fazer notícias com recursos multimédia);
  • pequeno problema: grafismo muito pouco apelativo.



    Dipity:
    • não se limita a organizar por ordem cronológica as notícias que lá pomos;
    • cria mesmo uma cronologia, que se desloca no sentido esquerda-direita e não cima-baixo, como na maior parte do sites;
    • dá-nos uma visão clara sobre o fluxo noticioso relativo ao nosso tema;
    • é preciso pagar para ter mais do que três cronologias (timelines);
    • pequeno problema: quando a nossa cronologia tem muitos dados, torna-se quase ilegível, porque o grafismo não é expedito.


      Falhas comuns a todos: são muito fechados sobre si mesmos, com poucas opções para interagir com outros utilizadores do mesmo site. Em contrapartida, têm botões para partilha de conteúdos nas mais conhecidas redes sociais. Não têm versão em português ou espanhol.

      Conclusão: os meus preferidos são o Delicious (junta funções de arquivo simples  com curadoria de notícias) e o Scoop.it (mais atraente de todos e muito intuitivo).

      quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

      Metro de Lisboa não gosta de ver homens juntos


      Quem é o defensor da moral pública e da higiene visual na cidade? O Metropolitano de Lisboa, evidentemente. Para o Metro, é indecente publicitar redes sociais da internet que promovam encontros entre homens. Vai daí, a transportadora pública acaba de proibir a afixação, em várias estações, de cartazes do Manhunt, rede social norte-americana onde são publicados convites para sexo e fotografias eróticas – e que tem, de acordo com dados próprios, cerca de 60 mil utilizadores registados em Portugal.

      O representante do Manhunt em Portugal, Iuri Vilar, acusa o Metro de “homofobia”. Diz que apresentou duas versões de um mesmo cartaz publicitário e ambas foram rejeitadas por alegado “teor sexual”. A transportadora justifica-se: “É opção do Metro de Lisboa não aceitar a divulgação de uma campanha publicitária sempre que se coloque a dúvida de que a mensagem possa de algum modo ferir susceptibilidades.”

      O caso foi gerido pela Multimedia Outdoors Portugal (MOP), empresa privada responsável pelos múpis (Mobiliário Urbano Para Informação) existentes nas estações de Metro. “Tive uma primeira reunião com os responsáveis pela MOP há cerca de um ano e mostraram-se muito entusiasmados, não revelaram qualquer preconceito, pelo contrário, até acharam importante a divulgação desta marca”, relata Iuri Vilar. “Passaram-se vários meses, sem que eu tivesse avançado, e em Outubro finalmente comecei a tratar de tudo para colocar publicidade nas estações de metro”.

      Segundo este responsável, os cartazes deveriam estar em seis estações: Cais do Sodré, Restauradores, Marquês de Pombal, Rato, Picoas e Saldanha. Um total de 15 múpis expostos durante um mês, entre Dezembro de 2011 e Janeiro. “Quando lhes enviei por mail as artes-finais [versão definitiva do cartaz], onde aparecem dois homens de tronco nu quase a beijar-se, responderam que não aceitavam.”

      A Time Out viu os emails trocados entre a MOP e Iuri Vilar. “Infelizmente o Metro não aprova esta imagem, pelo que não a podemos afixar”, escreveu a MOP, a 16 de Dezembro.

      O representante da rede social remeteu um novo cartaz, poucos dias depois: apareciam dois homens também, mas desta vez vestidos. “Os temas de teor sexual não estão autorizados nas redes [de múpis]. O Metro de Lisboa não autoriza a afixação”, respondeu-lhe a MOP, por mail, a 19 de Janeiro. 

      “É incrível”, comenta Iuri Vilar. “Trata-se obviamente um caso de discriminação e homofobia. Acho escandaloso que tenham dois pesos e duas medidas: a publicidade da Armani, com jogadores de futebol quase nus, ou da Triumph, com mulheres em lingerie, é considerada normal. Qual é a diferença entre isso e dois homens de tronco nu?”, questiona. Iuri Vilar vai “estudar o caso com os advogados” do Manhunt e pondera “apresentar queixa”.

      Através da agência de comunicação Unimagem, o Metro disse à Time Out que  “a orientação vigente é a de rejeitar publicidade que não se coaduna com a imagem de um  serviço público que se dirige a uma multiplicidade de clientes com sensibilidades várias”. A Time Out quis saber quais as cláusulas do acordo entre a MOP e o Metro, mas ficou sem resposta.

      No “Código de Ética e de Conduta”, publicado no site oficial, o Metro diz ter como “princípios estruturantes da sua actividade”, entre outros, a “erradicação de todas as práticas discriminatórias” e a “lealdade, justiça e equidade”.

      A MOP não respondeu a diversas tentativas de contacto.

      [notícia publicada na revista "Time Out Lisboa", de 25 de Janeiro de 2012, pág. 10]

      quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

      O casamento gay e a PMA são como os telemóveis

      O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda preparam-se para apresentar projectos de lei que permitem às mulheres lésbicas aceder, entre outros aspectos, à fertilização artificial, e aos homossexuais recorrer a barrigas de aluguer. Projectos que visam alterar a actual lei da Procriação Medicamente Assistida (PMA), aprovada em 2006.  A discussão decorre esta quinta-feira na Assembleia da República. As hipóteses de tais alterações serem aprovadas são quase nulas (juntei aqui as notícias e opiniões mais importantes sobre este tema).

      Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, 2011 foi o ano em que nasceram menos crianças em Portugal desde que há registos (anos 60). E foi um ano com muito menos casamentos do que é costume (e, curiosamente, por causa da crise, também muito menos divórcios).

      Vivemos no Ocidente a era da "igualdade no acesso ao casamento civil" (formulação ideológica, e hipócrita, para casamento gay). E mais dia menos dia veremos removidas barreiras legais à procriação e à parentalidade universais. Concordo com a segunda, milito contra a primeira (por razões não religiosas, que exponho aqui).

      Os regimes permitem hoje alargar aqueles domínios às minorias, porque aqueles domínios estão decadentes e perderam a simbólica. 

      As mudanças a que vamos assistindo são espúrias e anacrónicas. Por isso é que acontecem.

      A conquista de direitos civis, sexuais e reprodutivos, por parte das minorias, não é, em rigor, uma conquista. É uma dádiva, por desprezo. Quando o resto da sociedade, de uma maneira geral, os descanoniza ou menospreza é que as minorias os podem alcançar.

      É como com os telemóveis: disseminam-se e democratizam-se nas versões mais básicas, quando versões mais sofisticadas estão disponíveis para outras classes sociais que as podem comprar. Aparecem para todos quando já não fazem falta às elites.

      Neste caso, cabe perguntar: que novos direitos ou privilégios têm as maiorias que as fazem dar aos outros, por via legal, o casamento e a reprodução?

      segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

      Quando a identidade começa a desaparecer

      «People with blue eyes do not have an identity because nobody reacts negatively to them. People with a black skin, which is simply another color of another part of your anatomy, do have an identity because there has been a history of negative reaction to them. [...] For gay people, this negative reaction has sprung from a number of sources, whether it was from those who said we were immoral and sinners, those who said we were illegal and criminal, or those who said we were sick and perverted. [...] When the negative reaction begins to cease [...] you find that the identity itself begins to fade. I see that eventually happening with gays, but it has a long way to go — particularly if the fundamentalists keep pounding away. It’s a bit too soon to know exactly where this marriage issue will go.»
      Frank Kameny (1925-2011), activista gay americano, numa entrevista de 2003 publicada pela primeira vez há poucos dias, aqui.

      Conjugar com:
      «A vida gay contemporânea tornou-se pouco estimulante como tema literário. Sei que as coisas não são perfeitas, mas hoje há cada vez mais homossexuais assumidos, logo, ser gay tornou-se quase irrelevante, porque pouco distintivo. Havia mais material quando se tratava de uma questão problemática, quando havia conflito e ocultação. [...] Um movimento de libertação que,  em última análise, ambiciona deixar de existir... É como a literatura gay, que tem esse propósito e acaba por o ver extinguir-se. Não posso falar por uma imensidão de pessoas. Sei que os gays continuam a achar graça à provocação, o que não aconteceria se tivesse havido uma integração avassaladora.»
      Allan Hollinghusrst, aqui

      domingo, 15 de janeiro de 2012

      Outra maneira de contar notícias

      Depois de experimentar o Storify e o Dipity, cheguei ao Scoop.it, que me parece o melhor site, de entre os três, para agregar notícias. Escolhi como tema a Procriação Medicamente Assistida. Podem ver o resultado através do link abaixo. É uma experiência. Vou continuar a actualizar.

      domingo, 8 de janeiro de 2012

      O jornalismo deles e o nosso

      2011 foi o ano da "Primavera Árabe", movida a Twitter, YouTube e Al Jazeera. O ano de mais revelações da Wikileaks. O ano do escândalo News of The World. Um ano de mudança no jornalismo.

      As redes sociais na internet e os cidadãos anónimos tornaram-se fonte primária de notícias. Projectos à margem dos grandes grupos mediáticos marcaram a agenda e ao contrário do que sucedeu em 2010, a Wikileaks já não quis, ou não pôde, atrelar-se aos jornais de referência para credibilizar as "fugas". A credibilidade do jornalismo ficou ainda mais abalada com a denúncia da promiscuidade entre jornalismo e interesses privados e a utilização de métodos desumanos e ilegais para obtenção de notícias (curiosamente, foi um jornal, The Guardian, a fazer a denúncia).
      Em Portugal não foi assim. A corrente geral não é a nossa. 2011 foi o ano em que o Acordo Ortográfico chegou acriticamente à maior parte dos títulos da imprensa, sem reacção dos jornalistas, cada vez mais calados e indolentes. Neste particular, Portugal está em delírio: quando o problema é financeiro e económico, a preocupação da imprensa não deveria ser com o substrato, isto é, a linguagem.

      2011 foi também ano em que o jornalismo português, cada vez mais afónico e indistinto das mensagens publicitárias, parece ter despertado para a necessidade de se adaptar aos novos suportes digitais, o que não quer dizer que esteja a saber fazê-lo bem. Em rigor, ninguém sabe, em lado nenhum do mundo.

      domingo, 1 de janeiro de 2012

      Feliz ano novo

      "Aquilo a que assistimos hoje, e que se tornou transparente como nunca com a reacção dos Estados à primeira crise do capitalismo global surgida nos fins de 2008, é uma confiscação da política pela 'economia', por uma ordem económica imperial e imperativa, absolutamente determinativa, que nessa sua absoluta determinação ou imperatividade se pretende pré-política ou supra-política, não política portanto.

      [...] Chamam-lhe a 'nova economia', a 'economia do conhecimento', uma economia do capital como 'capital humano', que seria em si mesma pós-classista, neutra, apolítica, mas trata-se de facto de uma neo-economia de sobre-exploração de uma mão-de-obra, mesmo intelectual, precária, forçada à flexibilidade, à auto-flexibilização por formação profissional contínua. 

      [...] Bizarro destino o da nova esquerda, convertida em consciência crítica do sistema político-económico reinante e nada mais querendo que o 'aprofundamento democrático' deste [...] e por isso temendo as rupturas [...]. Uma esquerda e até uma extrema-esquerda que se concentra nas questões ditas 'fracturantes', nas novas 'causas' sociais, numa política de promoção de novos 'direitos'. Trata-se pois já só de 'modernizar' o sistema, não de o combater [...].

      O esquerdismo moderno, pós-revolucionário ou pós-comunista, como parte ainda do sistema político-económico de dominação porquanto componente necessária em termos objectivos da imagem de democraticidade desse sistema."
      Sousa Dias
      "Grandeza de Marx: Por uma Política do Impossível"
      Assírio & Alvim, 2011
      (pp. 71-78)