sábado, 17 de março de 2012

Querença

Chegou-me esta semana a edição de Março do Le Monde Diplomatique português. Novo grafismo. Passou a ser impresso em papel-jornal. Abandonou o anterior papel branco com muita gramagem. Mais prático, não muito criativo.

Na última página, um artigo do escritor Mário de Carvalho, intitulado «A semântica das atitudes». Excerto:
«Os interesses reinantes têm beneficiado do colapso dos instrumentos críticos. Da miniaturização da linguagem. Da ablação da memória. Da unicidade de critérios. Da tirania das escolhas. Do condicionamento das atitudes. Do emparedamento do gosto. [...] As opiniões correntes nos jornais são cada vez mais as opiniões dos proprietários e administradores dos jornais. Instruções dadas por telefone? Encontros misteriosos? Nem tanto. Antes o instinto de captação do comprimento de onda. Afinação dos registos. Querença.»

domingo, 11 de março de 2012

A ficção ajuda a contar os subúrbios de Liverpool

Soljas

Graham Johnson

Ed. Guerra & Paz, 2012

O jornalismo vive de histórias e anda sempre à procura de heróis. Quando precisa de noticiar um número, um relatório ou uma realidade abstracta, vai desencantar uma pessoa que sirva para o “era uma vez” mediático. Chama-se a isto, do ponto de vista dos jornalistas, “arranjar um caso”. Quer dizer: encontrar uma pessoa que dê a cara pelo facto abstracto.
 
Quando não há casos, os jornalistas inventam-nos. Por isso é que as redes sociais na Internet andam cheias de pedidos bizarros de jornalistas. Querem pessoas pobres que tenham comprado um telemóvel na Austrália, pessoas feias que só comam hambúrgueres à sexta-feira, pessoas divorciadas que só saem de casa ao domingo. Tudo verosímil e edificante, como se quer.

O jornalista Graham Johnson poderia ter feito exactamente o mesmo. Se queria escrever um livro sobre gangues juvenis em Inglaterra, metia-se na Internet à pergunta de rapazes com menos de 15 anos que se dedicam a arruinar a vida da classe média-baixa a que pertencem. Era fácil para ele, poupava dinheiro ao patrão, fazia vender jornais e deixava os leitores, que têm o espírito crítico de uma parede, todos contentes.

Mas não. Graham Johnson, de 43 anos, jornalista de investigação do Sunday Mirror, terá acompanhado o tema durante três anos, com olhos de ver. No fim, em vez de publicar reportagens mais ou menos poéticas sobre a vida dos subúrbios britânicos, escreveu Soljas, romance saído em 2010 em Inglaterra e agora editado em Portugal.
Utilizar a ficção como substituto da realidade é muitas vezes útil, sobretudo do ponto de vista de um jornalista. Se não é possível, por contingências várias, contar tudo o que se viu, ou ver tudo o que se queria, o melhor é pegar no pouco que se tem e fazer um romance baseado em factos. Em vez de uma reportagem fraca, ganha-se um livro forte, com a ética da rua e a estética da literatura.

“Danielle: fronha enrugada, bronzeado falso, cabelo curto e louro, mamas grandes […]. Vai ser montada pela casa toda, daqui a pouco. Amanhã, os rapazes hão-de ir todos ao bar local, o Canada Dock, de telefone em punho e mandar por bluetooth o novo vídeo da Danielle. A malta vai adorar” (pag. 23). “Nogger está a pensar nos seus próprios pais, carochos de dentes podres. Monster Munch ao pequeno-almoço, para ele e para as irmãs, gelados meio descongelados para o lanche. A abanar para longe os fumos do crack enquanto vêem CBeebies [canal infantil de TV]” (pag. 112).

O ritmo da narrativa é alucinante, como se estivéssemos na cabeça perdida dos putos suburbanos. A linguagem, rente ao vivido. E a tradução, que tenta replicar a linguagem de rua, é por vezes desadequada, como quando opta por “tás a zber” em lugar de “estás a perceber”. E o mesmo se diga do próprio título, Soljas, que vai buscar o calão britânico de rua para soldiers (soldados), que é como os membros dos gangues juvenis se chamam a si mesmos.

Evidentemente, o significado da  palavra soljas não é entendível pelos portugueses (eu, pelo menos, tive de pesquisar na Internet até perceber do que se tratava).

O substrato real para esta história está nos subúrbios de Liverpool. O gangue Nogzy, liderado por Nogger e Dylan, rivaliza com o gangue Crocky (o Guardian contava em 2007 uma história real sobre os dois gangues).

São pré-adolescentes de quem os pais e a polícia têm medo. Não estudam, não trabalham, passam o dia a ver pornografia, a fumar haxixe, a traficar cocaína, a comprar armas, a assaltar casas e, se for preciso, a matar pessoas. São incapazes de perceber a diferença entre a vida e um videojogo, entre pessoas reais e reality shows de celebridades, entre namoradas e estrelas da pornografia. Não é só preocupante, é grotesco.

Parece que  em Portugal tem vindo a diminuir  o número de crimes praticados por jovens: dizia-se isso em 2008 e continua a dizer-se em 2012 (“A Procuradoria Distrital de Lisboa registou menos [663] crimes cometidos por jovens menores em 2011 relativamente ao ano anterior”, escrevia o Diário de Notícias a 26 de Fevereiro do corrente, na edição imprensa e sem reprodução online). Em Inglaterra, acontece o contrário. Os motins de Agosto passado em Londres, Liverpool e outras cidades, provam que os gangues juvenis são um problema gravíssimo. Felizmente, aos olhos do portugueses, Soljas nunca daria uma reportagem de jornal. Está bem como livro de ficção que é.

[adenda: o rapper britânico Plan B publicou em Março de 2012 um tema, "Ill Manors", sobre os motins de 2011]

sexta-feira, 9 de março de 2012

O Irão, agora

Soheil, dancing to music. He is the guitar player in The Azhirock rock band.
Tehran, Iran. February 2010
"Mirzoyan"
Behzad Eliasazar, 24-year-old designer and his car.
Tehran, Iran. May 2008
Rena Effendi
Dance class in Tehran University.
Tehran, Iran. May 2008
Rena Effendi
Street scene.
Bandar Lengeh, Iran. December 2005
Sergey Maximishin
Street scene.
Bandar-e Abbas , Iran. December 2005
Sergey Maximishin
[The work isn't presented at the exhibition.]
Sergey Kaptilkin
Quem por estes dias visitasse Moscovo, poderia ver a exposição "Dialetics of Strangers' Vision: Iran". Há mais vida para além dos ayatollahs.

terça-feira, 6 de março de 2012

"Still Life (Hunting Trophies)"

Era uma das mais bonitas e misteriosas peças da exposição "Morgue" que Miguel Bonneville apresentou entre 13 de Janeiro e 18 de Fevereiro na Galeria 3+1, Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.
Still Life (Hunting Trophies), lápis de cor sobre papel, com as dimensões de 167 x 154 cm. Descrição da folha de sala daquela exposição: "Miscelânea de carnificina e perseguições carnais numa composição onde retratos do artista em estado terminal convivem com outros lucidamente predatórios, numa sugestão de continuidade e de representação da sobrevivência, conscientes do que se passou."

segunda-feira, 5 de março de 2012

Imagens do filme "Nada Fazi"

Nada Fazi, curta-metragem de ficção realizada por Filipa Reis e João Miller Guerra. Ganhou o Prémio de Cinema Português do Fantasporto 2012. Imagens divulgadas pela produtora do filme, Vende-se Filmes.

domingo, 4 de março de 2012

As paisagens de David Hockney


David Hockney: A Bigger Picture, obra colectiva dada à estampa pela editora britânica Thames & Hudson, é em rigor o catálogo da exposição homónima que está na Royal Academy of Arts de Londres desde 21 de Janeiro até 9 de Abril de 2012. Em Maio vai para o Guggenheim de Bilbau e em Outubro, para o Museu Ludwig de Colónia.

Não posso ir ver as exposições, mas posso ver, e já vi, o catálogo.

Tim Barringer, Edith Devaney, Margaret Drabble, Martin Gayford, Marco Livingstone e Xavier F. Salomon são os autores destas 304 páginas. Ideia-chave: para lá dos cenários apolíneos da Califórnia que o tornaram famoso, David Hockney (n. 1937) também pinta e desenha um certo bucolismo inglês.


Entre as décadas de 60 e 90, Hockney viveu em Los Angeles. Na viragem do século, regressou ao condado de Yorkshire, em Inglaterra, onde nasceu (em Bradford, mais precisamente). Instalou-se em Bridlington, onde vivia a sua mãe, que morreu em 1999, e aí tem passado a maior parte do tempo.

Os novos trabalhos que esta exposição exibe, alguns nunca antes vistos, alguns feitos através de um telemóvel iPhone, dão conta da nova fase da vida do artista.

Não que as paisagens sejam uma novidade nele: desde os anos 60 que as faz. Novo é o local retratado e os métodos de trabalho.


"Há uma longa tradição na arte britânica relacionada com lugares, paisagens e topografia", escreve Margaret Drabble. E acrescenta: "Hockney regressou ao mesmo mundo rural que conheceu em criança. [...] Ele vem de um linhagem de trabalhadores do campo e reclama para si mesmo uma familiaridade com a terra que é de antes da Revolução Industrial" (p.38).


A primeira parte do livro apresenta ensaios que enquadram a obra de Hockney e fazem comparações com a de outros pintores, como Turner. 

A segunda parte é apenas visual e reproduz os trabalhos da exposição, aguarelas na maior parte. No fim, uma cronologia biográfica e artística muito bem organizada.

sábado, 3 de março de 2012

Nações Unidas com nova interpretação sobre liberdade de expressão e opinião

Excerto da "newsletter" nº40 do Gabinete Para os Meios de Comunicação Social, distribuída em Fevereiro de 2012:
«O Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas adoptou uma nova observação geral sobre o artigo 19 (liberdade de opinião e de expressão) do Pacto Internacional relativo aos Direitos Civis e Políticos (PIDCP). O Comité dos Direitos Humanos é um órgão composto por peritos independentes encarregue de controlar a aplicação do PIDCP por parte dos Estados-Membros, e as observações gerais tratam de temas específicos ou de disposições do Pacto constituindo a principal fonte de interpretação do PIDCP. A nova observação geral - n.º 34, versão preliminar - substitui a precedente observação geral n.º 10 do Comité sobre do artigo 19, adoptada em 1983, que não antecipou a realidade actual de um ambiente das comunicações globalizado e dominado pelas tecnologias que assentam na Internet.
Fonte: IRIS : Observations Juridiques de L'Observatoire Européen de L'Audiovisuel, Strasbourg. - ISSN 2078-614X. - nº 10 (2011), pp. 8-9.»