sábado, 13 de outubro de 2012

Jornalismo à portuguesa

Notícias em primeira mão são cada vez mais raras nos jornais e nas revistas (em papel ou na internet). Tão raras que aquilo que às vezes parece uma notícia em primeira mão resulta apenas de um acordo entre um jornalista e uma agência de comunicação, um assessor do Governo ou uma editora de livros ou discos. Nestes casos, o jornal ou a revista tornam-se cúmplices de estratégias comerciais ou políticas. Se isso significar que o público tem acesso a factos novos importantes então não há outro remédio.

Acontece que maior parte das vezes tais exclusivos são sobre o jovem empreendedor com três apelidos que decidiu abrir uma loja no Chiado depois de longa reflexão espiritual no Camboja. Ou sobre o empresário que ao fim-de-semana anda de BMX e precisa de tratar da imagem pública, pelo que exige subtilmente uma entrevista sobre hobbies e uma fotografia limpinha. São os exclusivos do jornalismo à portuguesa (e à moda de muitos outros países).

As entrevistas destinam-se a revelar o pensamento de um entrevistado. É suposto, portanto, que ele pense. E que tenha alguma coisa válida para dizer. Quando é patrão de uma empresa monopolista, cacique num partido ou mero par de mamas, aí os géneros jornalísticos adaptam-se. E uma entrevista passa a ser o que deus quiser.

Investigar assuntos importantes e explicar aos leitores o que realmente interessa tem os dias contados porque não há dinheiro para pagar a jornalistas que passem semanas atrás de um só assunto. E as empresas que detêm os órgãos de comunicação social não querem arriscar perder anunciantes ou sofrer boicotes noutros negócios que têm à margem da imprensa, por via das notícias incómodas que sempre resultam da investigação jornalística. O país é pequeno e quando uma porta se fecha não se abre logo outra ao lado.

Quer isto dizer que quando um jornal decide mandar dezenas de jornalistas borda fora, como aconteceu esta semana, a mensagem que está a passar aos leitores e às fontes organizadas (assessores, relações públicas e outros incompetentes) é só uma: os jornalistas são uns bocados de merda. É comprá-los.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Matthias Schoenaerts

Papel de uma vida em Bullhead (2011), de Michaël R. Roskam. E aparece nas salas portuguesas a 7 de Fevereiro de 2013 em De Rouille et d'Os, de Jacques Audiard.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"My life as a bear"

Um artigo sobre envelhecimento da autoria de James Collard, recentemente publicado pela Out, mostra, se preciso fosse, que os jornalistas americanos e britânicos conseguem sempre falar de coisas sérias com humor, o que os portugueses não sabem nem têm de saber, mas às vezes tentam. E o resultado é o que se sabe. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Colóquio vai estar online

 

Para quem, como eu, é obcecado por arquivos, esta é uma excelente notícia: a Fundação Calouste Gulbenkian divulgou hoje que os 61 números da revista Colóquio/Letras publicados entre 1959 e 1970 vão estar online a partir da próxima segunda-feira, 24 de Setembro.

Até 1970, a revista chamava-se Colóquio, Revista de Artes e Letras. A partir de então dividiu-se em duas: Colóquio/Artes e Colóquio/Letras.

Os números publicados entre 1971 e a actualidade estão online há vários meses (aqui) e são uma preciosidade, até porque o sistema de pesquisa é muito eficaz.

domingo, 9 de setembro de 2012

A revolução de identidade que nasce com Andrej Pejic


É um rapaz mas parece uma rapariga e quando tem de entrar numa casa de banho pública desafia as convenções. O bósnio Andrej Pejic cresceu num campo de refugiados, era gozado na escola e agora tem os estilistas a seus pés. É uma celebridade da moda. E mesmo que não saiba está a anunciar uma revolução. Por Bruno Horta


É louro, tem olhos verdes e pele branca como a neve. Mede um metro e 88, calça o 41 e fez 21 anos a 28 de Agosto. É por agora o mais poderoso ícone da indústria da moda. Apareceu com uma rosa na boca nas páginas centrais da Vogue Paris. A marca holandesa Hema fez dele protagonista num anúncio de soutiens. O estilista Jean Paul Gaultier adoptou-o como musa e tem-no feito desfilar por várias vezes com roupa de homem e de mulher, incluindo um vestido de noiva em alta-costura.

Quando já se fala em mundo pós-gay, por via do acesso universal ao casamento e à parentalidade (adopção, co-adopção e procriação medicamente assistida), Pejic aparece para abalar o conforto das grandes certezas. É uma menina num corpo de homem, rapaz em corpo de mulher, espírito à solta que pede classificação urgente – o que é inútil e impraticável.



[excerto de entrevista publicada no suplemento Quociente de Inteligência (QI), do Diário de Notícias de 8 de Setembro de 2012; pp. 18 e 19; aqui sem a grafia do Acordo Ortográfico de 1990]

sábado, 8 de setembro de 2012

"Arquivo de Sócrates atirado para o lixo"

Notícia de rodapé publicada a 28 de Agosto no Diário de Notícias.

domingo, 2 de setembro de 2012

Nada é nada

«O Governo é bastante medíocre. Há excepções, mas são excepções, a governação em geral está longe de responder às dificuldades do momento. A única coisa que unifica a governação são os cortes impostos pelas Finanças. Fora disso não há nada. [...] A única privatização que o PS não aceita é a de tornar o “bloco central” na RTP propriedade do PSD, e, quando lá chegar, não haja nada no “pote”. [...] O PS está-se nas tintas para os Estaleiros de Viana do Castelo, ou a TAP, ou a ANA, mas não se está nas tintas para o controlo da comunicação social pelo PSD. Admite que o PSD, enquanto governa, manda mais do que o PS na comunicação social do Estado, mas quer, quando lá chegar, ter disponíveis os mesmos meios de controlo, para ser a sua vez. É esta relação que tem sido o seguro de vida da RTP.»
Pacheco Pereira, Público, 1 de Setembro (aqui)