«Os média dão do surf uma imagem de riqueza, sexo e vaidade. Mas eu passei dez
anos no guincho com a comunidade surfista, e vi que os verdadeiros surfistas
são pessoas que romperam com a sociedade. Não têm dinheiro. Quase não comem.
Levantam-se todos os dias de madrugada para ir surfar. Ficam horas no mar, à
espera das ondas, em contemplação, sozinhos no frio. Mas ao mesmo tempo, quando
a onda vem, há uma violência única de entrega a uma força incontrolável da
natureza. Só saem da água quando estão totalmente esgotados, destruídos. No dia
seguinte fazem o mesmo. O mar do Guincho é o mais inclemente, rejeita aqueles
que não têm a humildade de aceitar esta violência. Quando conheci o Pedro Sousa,
campeão júnior de surf, conheci este outro lado. E um dia apercebi-me que
tinham um segredo. Havia um lugar no topo da serra onde às vezes iam passar a
noite. Eram as ruínas do Convento dos Capuchos. O Pedro Sousa não me sabia
explicar porque se sentiam atraídos por aquele sítio. Um dia, também eu subi a
serra, saltei
o muro do convento, e sentei-me no claustro, preparando-me para passar ali a
noite. Veio uma coluna de nevoeiro, das que vão passando no topo da montanha, que num segundo
fez desaparecer o claustro, e depois o próprio convento. Na confusão das portas e
das janelas escondidas, vi os monges nas suas tarefas quotidianas, abstraídos da minha
presença, mas totalmente absorvidos numa oração interior. Tão rapidamente como veio, o
nevoeiro levantou-se e desapareceu, levando os monges consigo. Eu sabia que o
Pedro Sousa era um desses monges. Foi assim que começou o Deste Lado da Ressurreição.» Joaquim Sapinho
sábado, 27 de outubro de 2012
sábado, 20 de outubro de 2012
A arte de viver segundo Cindy Scrash
Era
apenas uma transformista da noite de Lisboa até ter sido descoberta por João
Pedro Rodrigues. É transexual. Tem 47 anos.
Dez
da noite no Terreiro do Paço. O barco do Barreiro atraca e lá do fundo vem
Cindy esguia, mini-saia e blusão de cabedal, phones nos ouvidos e carteira a
tiracolo. “Olá, amor”, diz, muito loura, e logo se afasta para a casa de banho,
talvez para retocar a maquilhagem. Daí a nada está a posar para a câmara
fotográfica sem se queixar do frio que vem do Tejo. A seguir, um táxi, até à
porta de um café no Chiado.
[excerto de texto publicado no Público de 18 de Outubro de 2012, p. 27]
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sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Do caos nasceu uma obra-prima
Há seis anos, Alison Bechdel estava prestes a desistir da vida de desenhadora e cartoonista. “Era cada vez mais difícil ganhar a vida e pensei que teria de arranjar um emprego a sério”, conta. Foi quando conseguiu publicar Fun Home, história autobiográfica em banda desenhada que se tornou um êxito de vendas e chegou a “Livro do Ano” do New York Times. “Este livro salvou-me a carreira”, constata a autora, nascida há 52 anos no estado da Pensilvânia, EUA.
[excerto de texto publicado na revista Time Out Lisboa de 17 de Outubro de 2012, p. 64]
sábado, 13 de outubro de 2012
Jornalismo à portuguesa
Notícias em primeira mão são cada vez mais raras nos jornais e nas revistas (em papel ou na internet). Tão raras que aquilo que às vezes parece uma notícia em primeira mão resulta apenas de um acordo entre um jornalista e uma agência de comunicação, um assessor do Governo ou uma editora de livros ou discos. Nestes casos, o jornal ou a revista tornam-se cúmplices de estratégias comerciais ou políticas. Se isso significar que o público tem acesso a factos novos importantes então não há outro remédio.
Acontece que maior parte das vezes tais exclusivos são sobre o jovem empreendedor com três apelidos que decidiu abrir uma loja no Chiado depois de longa reflexão espiritual no Camboja. Ou sobre o empresário que ao fim-de-semana anda de BMX e precisa de tratar da imagem pública, pelo que exige subtilmente uma entrevista sobre hobbies e uma fotografia limpinha. São os exclusivos do jornalismo à portuguesa (e à moda de muitos outros países).
As entrevistas destinam-se a revelar o pensamento de um entrevistado. É suposto, portanto, que ele pense. E que tenha alguma coisa válida para dizer. Quando é patrão de uma empresa monopolista, cacique num partido ou mero par de mamas, aí os géneros jornalísticos adaptam-se. E uma entrevista passa a ser o que deus quiser.
Investigar assuntos importantes e explicar aos leitores o que realmente interessa tem os dias contados porque não há dinheiro para pagar a jornalistas que passem semanas atrás de um só assunto. E as empresas que detêm os órgãos de comunicação social não querem arriscar perder anunciantes ou sofrer boicotes noutros negócios que têm à margem da imprensa, por via das notícias incómodas que sempre resultam da investigação jornalística. O país é pequeno e quando uma porta se fecha não se abre logo outra ao lado.
Quer isto dizer que quando um jornal decide mandar dezenas de jornalistas borda fora, como aconteceu esta semana, a mensagem que está a passar aos leitores e às fontes organizadas (assessores, relações públicas e outros incompetentes) é só uma: os jornalistas são uns bocados de merda. É comprá-los.
Acontece que maior parte das vezes tais exclusivos são sobre o jovem empreendedor com três apelidos que decidiu abrir uma loja no Chiado depois de longa reflexão espiritual no Camboja. Ou sobre o empresário que ao fim-de-semana anda de BMX e precisa de tratar da imagem pública, pelo que exige subtilmente uma entrevista sobre hobbies e uma fotografia limpinha. São os exclusivos do jornalismo à portuguesa (e à moda de muitos outros países).
As entrevistas destinam-se a revelar o pensamento de um entrevistado. É suposto, portanto, que ele pense. E que tenha alguma coisa válida para dizer. Quando é patrão de uma empresa monopolista, cacique num partido ou mero par de mamas, aí os géneros jornalísticos adaptam-se. E uma entrevista passa a ser o que deus quiser.
Investigar assuntos importantes e explicar aos leitores o que realmente interessa tem os dias contados porque não há dinheiro para pagar a jornalistas que passem semanas atrás de um só assunto. E as empresas que detêm os órgãos de comunicação social não querem arriscar perder anunciantes ou sofrer boicotes noutros negócios que têm à margem da imprensa, por via das notícias incómodas que sempre resultam da investigação jornalística. O país é pequeno e quando uma porta se fecha não se abre logo outra ao lado.
Quer isto dizer que quando um jornal decide mandar dezenas de jornalistas borda fora, como aconteceu esta semana, a mensagem que está a passar aos leitores e às fontes organizadas (assessores, relações públicas e outros incompetentes) é só uma: os jornalistas são uns bocados de merda. É comprá-los.
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terça-feira, 9 de outubro de 2012
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
"My life as a bear"
Um artigo sobre envelhecimento da autoria de James Collard, recentemente publicado pela Out, mostra, se preciso fosse, que os jornalistas americanos e britânicos conseguem sempre falar de coisas sérias com humor, o que os portugueses não sabem nem têm de saber, mas às vezes tentam. E o resultado é o que se sabe.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Colóquio vai estar online
Para quem, como eu, é obcecado por arquivos, esta é uma excelente notícia: a Fundação Calouste Gulbenkian divulgou hoje que os 61 números da revista Colóquio/Letras publicados entre 1959 e 1970 vão estar online a partir da próxima segunda-feira, 24 de Setembro.
Até 1970, a revista chamava-se Colóquio,
Revista de Artes e Letras. A partir de então dividiu-se em duas: Colóquio/Artes
e Colóquio/Letras.
Os números publicados entre 1971 e a actualidade estão online há vários meses (aqui) e são uma preciosidade, até porque o sistema de pesquisa é muito eficaz.
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