segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As invejas tradicionais


Lux - É vítima de inveja da classe jornalística?
Felícia Cabrita - Sou. Nós padecemos do mal de sermos um país pequeno, com as promiscuidades habituais entre polícias, jornalistas, etc., e com as invejas tradicionais. A inveja é o sentimento mais inútil que conheço, porque apenas devora quem o sente, não tem alcance sobre o outro. De cada vez que vejo o que os outros fazem em relação ao meu trabalho, lastimo-o, mas não perco tempo com isso. Preciso de trabalhar e de estar concentrada. Mas tenho um lema: cá se fazem, cá se pagam. Mas com toda a tranquilidade, porque primeiro está o meu trabalho, que é muito nobre.

[entrevista publicada na edição de 26 de Dezembro da revista Lux]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Miau-miau nas ruas de Lisboa

Fomos à procura da nova droga que invadiu a cidade. É barata e legal. E vende-se em lojas. O efeito é parecido ao da cocaína. Há quem lhe chame fertilizante para plantas, mas é só para disfarçar, conta Bruno Horta.
 

A vida de Pedro não tem nada de original. Sai à noite, bebe uns copos, fuma, ouve música, dança e experimenta drogas. “Live fast, die young”, poderia ele dizer, aos 23 anos. Em 2009 descobriu a mefedrona, um estimulante também conhecido por miau-miau, blow ou bloom. Cheira-se para esticar a noite, acelerar a música, fazer fluir a conversa. E ser o centro do mundo. Um amigo falou-lhe em fertilizante para plantas, o nome-segredo da mefedrona, e Pedro disse que sim. “Já tinha consumido erva e cocaína, esta era apenas mais uma.” Cheirou a dose que lhe meteram à frente e gostou. “Fazia arder a narina, mas o efeito era parecido ao da coca. Isto dá energia, mas não é uma coisa exagerada, uma pessoa sente-se um pouco melhor neste mundo de merda.”

Os médicos sabem bem como é. Efeitos comuns: excitação, diminuição da sensação de cansaço, empatia. E a seguir: dificuldades de memória, falta de apetite, depressão. Cereja no topo do bolo: vontade de consumir mais. É legal em Portugal, embora prestes a ser incluída na lista de substâncias reprimidas. Existe em pó ou comprimidos de cor branca e vende-se em pequenas embalagens de plástico nas smart shops, lojas de drogas legais.

O miau-miau “já começa a ser uma moda em Portugal, sobretudo entre os jovens que gostam de experimentar novas sensações”, explica o médico João Goulão, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT, que em breve será extinto pelo Governo para passar a Serviço de Intervenção dos Comportamentos Aditivos e Dependências). “A mefedrona tem grande projecção neste momento e é muito consumida em Lisboa mas, mal seja ilegalizada, será substituída por outras substâncias semelhantes”, acredita a psicóloga Helena Valente, voluntária do projecto Check In, da Agência Piaget para o Desenvolvimento.

O Check In actua nas freguesias de São Paulo, Santa Catarina, Santos-o-Velho e Encarnação, ou seja, no Bairro Alto, na Bica e no Cais do Sodré – as zonas onde os lisboetas aquecem antes de seguirem para as discotecas. Helena Valente está lá duas vezes por semana: instala uma banca com folhetos e esclarece quem passa. “Pelo contacto com as pessoas, sou levada a concluir que há cada vez mais gente a experimentar mefedrona, sobretudo adolescentes e jovens adultos.” Fora esta percepção empírica, não há ainda dados objectivos, de acordo com o presidente do IDT.

O World Drug Report 2011, das Nações Unidas, informa que a mefedrona tem como nome químico 4-methylmethcathinone. É uma substância psicoactiva da família das catinonas (semelhantes às anfetaminas). “Apareceu pela primeira vez no mercado negro por volta de 2007 como alternativa legal às anfetaminas ou cocaína”, lê-se. No entanto, sublinha João Goulão, “esta e outras drogas novas representam em Portugal uma ínfima parte das preocupações”. “A heroína, a cocaína ou o ecstasy continuam a ter um peso incomparavelmente maior.”

Muitas vezes é a indústria farmacêutica quem descobre as drogas sintéticas, no decorrer de investigações rotineiras. Os resultados publicados em revistas científicas são depois reproduzidos por laboratórios ilegais. E o que poderia ser transformado em medicamento passa a droga recreativa.

Tanto quanto se sabe, o miau-miau chega a Lisboa depois de embalado na Europa. O conteúdo provém da China, da Índia e dos países de Leste. Estes últimos “têm uma tradição de maior produção local de substâncias sintéticas, porque sempre tiveram um controlo fronteiriço muito apertado”, esclarece o presidente do IDT. 

Isto quer dizer que a mefedrona é apenas uma parte de um todo a que os ingleses chamam legal highs, ou “pedras” legais. Explica o livro História Elementar das Drogas (2004, edição portuguesa) do filósofo espanhol Antonio Escohotado: “A guerra às drogas ressuscita com grande virulência nos anos 80, uma era marcada pelo binómio Reagan-Tatcher.” Enquanto os governos e os média representavam a cocaína e a heroína como uma praga, novas substâncias sintéticas eram feitas em laboratório para as substituir. “Estas substâncias representam a resposta do mercado negro ao recrudescimento da cruzada, uma resposta que em menos de uma década inventará novos sucedâneos mais potentes, mais baratos e quase sempre mais tóxicos.” Assim aparece o famoso ecstasy (MDMA), associado às festas de música electrónica do início dos anos 90. E daí até à mefedrona foi apenas um passo.

Há um ano, na sequência de 37 mortes atribuídas ao bloom no Reino Unido e Suécia, o comité científico do Observatório Europeu da Droga (agência da União Europeia com sede em Lisboa desde 1995) pediu ao Conselho da União Europeia que ilegalizasse a mefedrona, o que este fez. Alguns países adoptaram a recomendação, mas tal ainda não aconteceu em Portugal. “Mudanças na lista de substâncias proibidas ou sujeitas a controlo obrigam a alterar a lei da droga e isso implica a Assembleia da República”, contextualiza João Goulão. “Este processo estava em curso quando o governo anterior caiu e aguarda-se agora novo agendamento para discussão e votação.” Até lá, é legal. E segundo explicou à Time Out Lisboa o gerente de uma smart shop, é de longe o produto mais vendido nestas lojas.

Desde 2008, as smart shops têm aparecido como cogumelos pelas ruas da capital. A Magic Mushroom, no Bairro Alto, foi a primeira e já tem duas filiais. A seguir veio a Freemind, em Santos, que até faz entregas ao domicílio. Na semana passada abriu outra, Wonderland, junto à Praça das Flores. Se um grama de cocaína pode custar cerca de 60 euros no mercado negro, um grama de bloom não ultrapassa os 45 nas lojas. “A mefedrona torna-se apetecível por causa do preço, sim, mas também porque se vende abertamente em lojas, o que evita ter de se frequentar os circuitos clandestinos da cocaína”, diz Helena Valente, chamando a atenção para um “falso sentimento de segurança”: “Não só as lojas não têm a certeza de todos os aditivos que estão dentro da embalagem, como nem sempre sabem dizer às pessoas quais as doses certas” (entre 15 a 80 miligramas pela “via snifada”, aconselham os folhetos informativos do projecto Check In).

Pedro admite “uma certa dose de irresponsabilidade” ao cheirar bloom, mas diz que “nos ambientes normais de festa” não tem “problemas nenhuns em consumir”. “Uma pessoa às vezes tem de tomar estas coisas para se esquecer um bocado da vida.”

Mesmo antes de a proibição começar a ser falada, as smart shops identificavam a mefedrona como “fertilizante para plantas impróprio para consumo humano” – assim contornando qualquer acusação de ilegalidade. Agora, metem autocolantes sobre as embalagens com a frase “mephedrone free”, o que é interpretado como apenas um truque comercial, sem fundo de verdade. De resto, mesmo que a lei mude, nada de importante irá ser alterado. “Isto é um jogo do gato e do rato”, concede João Goulão. “Depois de uma substância ser incluída na lista negra, os laboratórios introduzem um radical qualquer na molécula e já estamos perante uma nova substância que não aquela que acaba de ser proibida.”

O presidente do IDT pensa que uma das soluções é ter tabelas de proibição com “grandes grupos de substâncias e estruturas moleculares aparentadas”, em vez da designação concreta das drogas. A responsável pelo Check In inclina-se para defender a despenalização.

(originalmente publicado na revista Time Out Lisboa de 9 de Novembro de 2011)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Futuro do jornalismo são as "narrativas baseadas em factos" (ou a literatura com rigor)


Excertos do texto de Philip Meyer "Precision Journalism and Narrative Journalism: Toward a Unified Field Theory", de 3 de Outubro de 2011 (original aqui):


«[On the] second half of the 20th century, when journalists began experimenting with two new ways of making the quest for truth more manageable. Precision journalism borrowed the tools of science. Narrative journalism was based on art. In their early stages, these two approaches seemed to be in conflict. My argument today is that, in the 21st century, we should consider the possibility that we need both.
 
[…] Science creates structure with what Lippmann called schematic models, which come from theory. Art creates structure through the narrative design in storytelling. Is it possible for us to find ways to merge these two strategies and tell stories about the data that are grounded in verifiable theory?

[…] In 1974, the year that Walter Lippmann died, Everette E. Dennis and William L. Rivers published a book titled “Other Voices.” It catalogued what their subtitle called “The New Journalism in America.” They labeled one of their categories “the new nonfiction.” Today it is known as “narrative journalism” or “creative nonfiction.” In recognition that it has become a mainstream technique, Harvard University’s Nieman Foundation ran a well-attended annual conference on narrative journalism from 2001 to 2009. Attendance peaked at nearly 900 in 2008, before the recession discouraged discretionary travel. The genre first started to appear in the 1960s. Its fiction-like techniques include internal monologue — what a newsworthy person was thinking — and detailed character development and scene building. Early practitioners included Gay Talese and Tom Wolfe and Jimmy Breslin. Some novelists tried it working from the other direction, creating the nonfiction novel. There was Norman Mailer’s “The Executioner’s Song” and Truman Capote’s “In Cold Blood.”


It was also in the 1960’s that some of us began to apply social science research methods—including statistical analysis and hypothesis testing—to the practice of news reporting. This genre is often called “precision journalism,” a term coined by Dennis. He and Rivers saw the conflict. The narrative journalists, they said, “are subjective to a degree that disturbs conventional journalists and horrifies precision journalists. In essence, all the other new journalists push reporting toward art. Precision journalists push it toward science.”

[…] Both genres, narrative journalism and precision journalism, are special forms requiring special skills. If we were to blend the two, what should we call it? I like the term “evidence-based narrative.” It implies good storytelling based on verifiable evidence.
Yes, that would be an esoteric specialty. But I believe that a market for it is developing. The information marketplace is moving us inexorably toward greater and greater specialization.

Since the end of World War II, journalism has been evolving from a mass production model to one of more intimate communication. Traditional media were manufacturing products. They required economies of scale to cost-justify their means of production – a printing press or a broadcast transmitter. And so journalism was a matter of creating a few messages designed to reach many people. But as technology increases the number of channels, the new information economy supports more specialized content—many messages, each reaching a few people. That means, as a public, we have fewer common experiences that build common values.


[…] An environment that rewards specialization need not limit itself to subject matter specialization. It can also build a specialty based on methodology. Both precision journalism and narrative journalism appeal to a sophisticated audience, one that appreciates the need for information to be structured in a way that focuses attention on the truth.

That is why it is not so wild a dream that evidence-based journalism, incorporating precision with narrative, could fill a need for trustworthy interpretation and selection of the relevant truth from the eternal data stream.

[…] The need for systems that synthesize and process data into shared knowledge will, I predict, become obvious. Unprocessed data is indistinguishable from noise. As the unending stream of data increases, so will the demand for institutions and better methods to process it.
[…]
Citizens can offer Twitter updates from a scene, and reporters can look for patterns and determine which tweets might be self-serving or fraudulent.


[…] Greater analytic and narrative skills will be needed. It won’t be often that the two skills, analysis and narrative, can be combined in one reporter, so we’ll need more team reporting and editors capable of recruiting and managing the necessary talent. In other words, the old media will have to change, too.
[…]
ProPublica, based in New York City, teamed with The Seattle Times last December to report on the home mortgage crisis in the USA. ProPublica supplied a computer specialist, Jennifer Lefluer, to do the heavy lifting in the data analysis, and the Times provided a reporter, Sanjay Bhatt. They drew a probability sample of about 400 foreclosure filings in each of three widely separated metropolitan areas, Seattle, Baltimore and Phoenix. Their jointly written story combined quantitative analysis with human interest reporting, and it showed vividly how the combination of relaxed lending standards and inflated home prices caused the crisis.
[…]
Institutions like ProPublica have an enormous opportunity. They can stand out so clearly from the noisy confusion of information overload, their value could be so rare, that everyone will want to pay attention to them.»

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Entrevista com Alan Hollinghurst


Depois do gravador desligado, no bar de um hotel de Lisboa, o escritor britânico Alan Hollinghurst fala sobre as redes sociais na internet e nota que têm mudado bastante a forma como os homens gay se conhecem. “Talvez seja o tema do meu próximo livro.” Pouco antes, foi outro o motivo da conversa: O Filho do Desconhecido, publicado em Junho em Inglaterra e agora traduzido para português. É o menos homoerótico dos seus cinco romances. [...] Tímido e fleumático, Hollinghurst, de 57 anos, fala como escreve: o mais importante nas entrelinhas



Disse numa entrevista recente que ser conhecido como escritor gay já não tem importância.
Cansei-me desta cena: entrevistadores heterossexuais de mente aberta que vão ter com o escritor gay para que ele fale sobre sexo. Em 2011, as entrevistas deveriam ir mais além. Mas não tenho tido sorte.

Que explicação encontra?
É uma narrativa com a qual as pessoas continuam a identificar-se. Aparecer como gay foi importante no início [o primeiro livro, A Biblioteca da Piscina, saiu em 1988 e foi traduzido em Portugal em 2009]. A literatura gay mal existia, pelo menos aos olhos do grande público. Entretanto, houve enormes alterações, a nossa cultura tornou-se liberal e progressista neste particular. A categoria literatura gay dissolveu--se na corrente e, de certa forma, tornou-me menos necessária.

Quer dizer que quanto mais direitos legais são reconhecidos aos homossexuais no Ocidente, menos interessantes se tornam.
Sem dúvida. A vida gay contemporânea tornou-se pouco estimulante como tema literário. Sei que as coisas não são perfeitas, mas hoje há cada vez mais homossexuais assumidos, logo, ser gay tornou-se quase irrelevante, porque pouco distintivo. Havia mais material quando se tratava de uma questão problemática, quando havia conflito e ocultação.
 
É por isso que O Filho do Desconhecido é o menos gay dos seus romances?
Não sei. Este livro descreve vários graus de dificuldade na relação com a homossexualidade. Começa em vésperas da I Guerra Mundial, quando é uma coisa sobre a qual não se pode falar, e acaba em 2008, num mundo com uniões civis [civil partnerships] entre homossexuais. É um livro cheio de ambiguidade sexual e daí as personagens bissexuais. Interessou-me escrever sobre a variedade de experiências sexuais, não tanto sobre comportamentos classificáveis.
 
E parece ter-se cansado das cenas de sexo entre homens.
Nunca me cansaria de tal coisa. O leitor é deixado à mercê da incerteza que rodeia as personagens e não sabe, à excepção de um ou dois momentos, o que aconteceu entre elas. Teria sido incongruente explicitar demasiado.
 
Uma coisa que mantém é o fascínio pelas classes altas. Porquê?
Na verdade, o que me fascina é o fascínio pelas classes altas. É um complexo muito britânico, que mistura uma certa inveja com vontade de lá chegar. É muito divertido escrever sobre as classes altas. Fazem o que as outras não podem, têm maior margem de manobra para pisar o risco. Na minha cabeça há um pouco de Henry James: escrever sobre os interstícios da vida privada, sobre as classes cuja origem dos rendimentos é deselegantíssimo referir. Neste sentido, estarei a dar continuidade à tradição britânica da comédia de costumes.
 
Sobre o Prémio Booker [o mais importante da literatura inglesa]: porque é que não lho deram este ano?
Devem ter achado que o meu livro não era bom.

E para além dessa resposta politicamente correcta?
A presidente do júri, Stela Rumming, antiga líder dos serviços de espionagem [directora-geral do MI5 de 1992 a 96] é uma pessoa sem grandes pergaminhos literários. E foi muito clara ao dizer que queria distinguir histórias diferentes do habitual. É-me difícil dizer mais, passaria por ressentido.

Que opinião tem sobre a era do casamento gay e das uniões civis registadas?
As uniões começaram em Inglaterra em 2005 e passei o ano seguinte a ser convidado para cerimónias. Agora estou a viver a primeira vaga de divórcios. É uma imitação da estrutura social vigente. Parece-me bem. Não tenho a nostalgia que noto em algumas pessoas mais velhas que eu, que conservam a excitação da ilegalidade e ficaram muito desapontadas com o caminho que o movimento gay tomou.

Foi um caminho de libertação ou de arregimentação?
Um movimento de libertação que,  em última análise, ambiciona deixar de existir... É como a literatura gay, que tem esse propósito e acaba por o ver extinguir-se. Não posso falar por uma imensidão de pessoas. Sei que os gays continuam a achar graça à provocação, o que não aconteceria se tivesse havido uma integração avassaladora. Mas também vejo que os desfiles gay tinham objectivos políticos e agora são festas com homens seminus. Já não há um ponto de vista político, é tudo pour épater le bourgeois. Tenho sentimentos paradoxais sobre este assunto.

Bruno Horta

(entrevista originalmente publicada na revista Time Out Lisboa de 23 de Novembro de 2011)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Seis Regras de Ouro do Jornalismo Freelance

foto: www.genuinejobs.com

O principal problema de um jornalista freelance não é o acesso às fontes ou a escolha de temas. O problema chama-se editor (ou editora): como chegar lá e chamar a atenção para a nossa proposta. Eis algumas regras e sugestões.

Primeira regra: jamais se faz um artigo antes de ter comprador (a não ser que se tenha acesso exclusivo a uma pessoa ou acontecimento). É altíssima a probabilidade de um artigo feito às escuras não ser comprado por ninguém. E dificilmente as fontes falam connosco sem saberem “onde vai sair”. Ninguém dá entrevistas ao jornalista João ou à jornalista Maria, mas todos falam com o João e a Maria que trabalham para o jornal x ou a revista y.

Segunda: os editores não são os nossos melhores amigos. Lêem os mails à pressa, porque não sabem nem querem saber das nossas propostas, ou então dizem que não tiveram tempo para pensar na nossa ideia por serem muito solicitados por agências de comunicação – e assim se chega à terceira regra: entre um jornalista freelance e um assessor de imprensa a diferença, aos olhos de alguns editores, é nula; são ambos considerados intrusos, é preciso nunca esquecer isto.

Quarta: o mail e o telefone são os nossos melhores amigos. O mail permite insistir vezes sem conta e não custa dinheiro; sobretudo, insistir pela calada, silenciosamente, incomodando sem incomodar. O telefone serve para a estocada final: quem não responde aos mails, tem de receber um telefonema gentil em que se diga “estou aqui”.

Quinta: o jornalista freelance deve ser o que as redacções não são: mais ágil e astuto que os jornalistas perdidos na abundância de dados e solicitações. As redacções escrevem as notícias do dia, vão à guerra, entrevistam o ministro, fazem o obituário. O freelance mistura as tintas e faz uma pintura nova. Eles são realistas, nós somos impressionistas.

Sexta: jamais há dinheiro certo ao fim do mês porque ninguém, nem o jornal mais sério, paga a tempo e horas.

Bruno Horta
Agosto de 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

A gala


Portugal, 1992 – poderia ter sido o título da primeira edição da Gala Abraço, que decorreu esta semana no Teatro São Luiz, em Lisboa (1 de Dezembro, Dia Mundial da Luta Contra a Sida). Ao fim de 19 anos de existência, a gala mudou de figura. Chamou-se dos Travestis desde o início e agora passou a Abraço, do nome da associação de apoio a seropositivos a favor da qual revertem as receitas de bilheteira. Já não é organizada pelo seu mentor, Carlos Castro, falecido em Janeiro, tem menos travestis e mais artistas para o grande público, mas continua a infantilizar quem assiste.

Desta vez, os apresentadores foram José Carlos Malato e Margarida Pinto Correia, acompanhados por actores e actrizes de telenovelas. Apareciam em palco depois das actuações musicais (cheias de problemas de som) e tentavam explicar às pessoas, de forma paternalista, como se previne a transmissão do VIH/sida.

O mais notável foi o tom heterossexual que se procurou passar. Veja-se a dupla de apresentadores (homem/mulher), a dupla de bailarinos que abriu a gala (homem/mulher), as duplas de actores convidados (homem/mulher) e os conselhos que deram, visando casais heterossexuais. Se a organização soubesse o que anda a fazer, saberia que é disparatado insistir, como se fazia há sete ou oito anos, nas pessoas heterossexuais como grupo de risco (a expressão é legítima, voltou a ser utilizada pelas autoridades de saúde norte-americanas, como se lê aqui nas páginas 20, 21, 22 e 46).

Diz o Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Infecção VIH/Sida 2011-2015, apresentado esta semana pelo Ministério da Saúde:
“Em Portugal, pese embora o número absoluto de casos ser superior como consequência da transmissão heterossexual, é nas chamadas populações vulneráveis que se concentra o risco mais elevado de infecção e é através delas que a infecção tende a ser transmitida. Os homens que fazem sexo com homens constituem actualmente a população onde se regista um aumento do número de novas infecções embora a verdadeira dimensão da epidemia neste grupo necessite de ser determinada. Fenómenos como o estigma, a discriminação e a homofobia, associados a uma desvalorização do risco constituem barreiras para recorrer aos serviços de saúde e podem dificultar a reversão da presente situação.”
A Gala quis inovar-se como espectáculo, mas voltou atrás no tipo de mensagem transmitida, o que além de errado é uma assunção de incompetência: poucos resultados teve o trabalho de prevenção dos últimos 20 anos. Por este andar, vamos ter de aturar a gala por muitos mais anos.

(fotografia: Joaquim Gromicho/Sapo Fama)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Homens

«From the time of the ancient Greeks up until the Enlightenment, differences between male and female were generally posited as ones of degree. Women were regarded as simply inferior versions of men. Man was generally seen as superior in two essential respects: in the more rational nature of his soul and in his embodying of the active factor in reproduction.

Indeed, although man has always been the rational animal, sexual activity has never been far from dominant conceptions of “manhood.” For example, Vern Bullough (1994, 43) argues that in the Middle Ages, although one of the basic assumptions about sexual difference was that a man was superior to a woman because he represented the rational soul, ultimately, the medieval man was defined in terms of sexual performance, measured, rather simply, as the ability to get an erection.

In a different context, that of pre-eighteenth-century America, Anthony Rotundo (1993, 10) claims that the essence of manhood was to be found in a man’s patriarchal role as head of a household. In both these examples, it is the notion of duty that is the key to understanding whatmakes a man. A man must perform his sexual duty according to nature, and he must take his place at the head of the family as the embodiment of God’s authority.

A man did not possess a “masculinity,” for “a person’s identity was bound up with the performance of social roles, not the expression of self” (Rotundo 1993, 13). Yet by the nineteenth century, the situation had changed dramatically. Being a man was now understood in terms of an inner personal identity. [...] R. W. Connell (1993) argues that we can speak of a gender order existing in both Europe and North America by the eighteenth century in which masculinity as we know it today had been produced. Connell also notes the connection of this concept with the growth of individualism and the emerging idea of the modern self.»

What is a Man?: Heterosexuality and the Technology of Masculinity
Steve Garlick
Men and Masculinities 2003; 6; 156