Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de novembro de 2014

Teorema

Está lá, por várias vezes, o rumor, que é um ronronar de ansiedade, que eu já tinha ouvido em "Cada Sopro", peça que John Romão apresentou no Teatro da Politécnica no Verão de 2013. Está lá a pizza, estão os miúdos, está a câmara de filmar em tempo real, a loucura e o universo infantil, o grotesco e o epiléptico que eu já vi em "O Arco da Histeria" (2010) e em "Eu Não Sou Bonita, Eu Sou o Porco" (2012), está lá também o espampanante e o festivo que já vi em "Velocidade Máxima" (2009).

Quer dizer: "Teorema", espectáculo que John Romão apresentou no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, nos dias 27 e 28 de Novembro (depois da estreia, em Outubro, no Rivoli), reproduz a linguagem própria do criador, o universo mental dele, que é fresco e divertido, sério e depressivo, homoerótico mas sem o acto. Estão lá marcas de autor, o que significa que temos um criador com voz própria, e isso é muito. 

Mas "Teorema" não seduz. É demorado, foge da palavra e agarra-se à plástica, vive de quadros independentes e acaba por frustrar. Olha-se à procura de um sentido (se é que tem de haver ali um sentido) e não se encontra. É o espectáculo mais bem montado e adornado que já vi de John Romão. Um espectáculo de maturidade plástica. Mas queria ter visto mais teatro.

domingo, 1 de junho de 2014

Valentim de Barros, o bailarino a quem roubaram a vida

Viveu preso num hospital psiquiátrico entre 1949 e 1986. Todos o disseram louco mas a única “doença” que lhe apontaram foi ser homossexual

Valentim de Barros em 1968 (foto de José Fontes)

O bailarino português Valentim de Barros morreu há precisamente 28 anos, a 3 de Fevereiro de 1986. Tinha 69 anos e passou quase quatro décadas encarcerado no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Teve aulas de dança no Teatro Nacional D. Maria II, foi estrela cadente em palcos de Barcelona, Berlim e Estugarda, assistiu à ascensão dos nazis na Alemanha e chegou a ser preso pela polícia política em Portugal. Um dia, apagaram-no da sociedade. A vida diletante, o incerto fetiche pelo travestismo, a homossexualidade e os excessos da sua personalidade podem ter sido os motivos. Foi internado, operado ao cérebro, depois transferido para uma ala de segurança. Alimentou-se das memórias dos breves anos em que dançou e, mais tarde, a única afeição que conheceu foi a de médicos e enfermeiros. Chegou a ser entrevistado pelo “Diário de Lisboa” e pelo “Expresso”, mas vem a morrer doente e abandonado num quarto de hospital.
Maior que a vida, a história de Valentim é aqui reconstituída pela primeira vez na íntegra, com base em documentos inéditos. Por Bruno Horta.

Texto completo aqui.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Biblioteca de jornais a caminho da Lapa

Caro leitor: tem exactamente oito dias para ir à Hemeroteca antes que se acabe. Depois, só em 2014. Bruno Horta explica o que se passa. As fotos são de Joana Freitas.

“Pelas notícias da Corte de Viena se sabe que o emperador dos turcos continua os seus aprestos militares contra a Europa.” É com novidades do Império Otomano que começa a notícia de abertura da primeira edição da Gazeta de Lisboa, publicada há quase três séculos, em Agosto de 1715. Foi precursor dos jornais portugueses e publicou-se até 1833. É uma das jóias da coroa da Hemeroteca Municipal.

A Time Out Lisboa visitou esta semana o Palácio dos Condes de Tomar, ali junto ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, e viu pela última vez nos próximos meses a Gazeta e outras preciosidades. Entre elas, o jornal humorístico  Os Ridículos, que começou em 1895 com o objectivo de “ridicularizar, apepinar, troçar a humanidade em geral e os políticos em particular”. E ainda as edições do venerado República que deram a notícia do 25 de Abril de 1974. Daqui a oito dias, começa tudo a ser encaixotado e alguém apagará a luz do palácio. A Hemeroteca muda de instalações, precisamente 40 anos depois de ali ter chegado. 

A Câmara diz que o processo será rápido e que ao longo de 2014 vai reabrir a Hemeroteca na zona da Lapa. A data certa é desconhecida, mas é sabido que durante meses a cidade estará privada desta biblioteca com 23 mil títulos de jornais e revistas, de 1715 até hoje.

O transporte dos periódicos “vai ser feito inicialmente para o depósito central da rede de bibliotecas” de Lisboa, explica Susana Silvestre, chefe de divisão da Rede de Bibliotecas da Câmara Municipal. “Numa segunda fase uma parte do acervo transitará para novas instalações e outra parte permanecerá em depósito de retaguarda como é habitual em todas bibliotecas”, acrescenta, o que pode indicar que o novo edifício tem capacidade restrita.

O encerramento esteve previsto para 7 de Setembro, depois foi adiado para 12. E agora deve acontecer no próximo dia 5 de Outubro. A degradação das actuais instalações tem sido apresentada como argumento. Susana Silvestre não quer, no entanto, entrar em detalhes. Diz apenas que em termos de alternativas, durante o período de mudanças, “o melhor é sem dúvida a Biblioteca Nacional”, que “tem uma colecção idêntica”.

O coordenador da Hemeroteca, Álvaro Costa de Matos, acrescenta que a Hemeroteca Digital (hemerotecadigital.cm-lisboa.pt) pode ser uma alternativa e por isso passará a publicar novidades todas as semanas – mas apenas de periódicos relacionados com Lisboa. Em Dezembro de 2005, o risco de derrocada do edifício já tinha levado ao encerramento temporário dos serviços, a que se seguiram obras de restauro, em Fevereiro de 2006. Nessa altura, falava-se da transferência da Hemeroteca para o antigo edifício do jornal Record, na Rua da Atalaia. A ideia chegou a ser defendida pela direcção da Hemeroteca, mas nunca se concretizou.  As novas instalações situam-se no antigo complexo desportivo da Lapa, na Rua Almeida Brandão, perto do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).

O edifício ocupa uma área de dez mil metros quadrados e estava abandonado desde 2007, ano em que a empresa imobiliária de capitais públicos Estamo o comprou ao Instituto do Desporto de Portugal por cerca de 8 milhões de euros, escreveram então os jornais.

Em Junho do ano passado, a Câmara de Lisboa tomou posse do complexo e fez algumas obras. Está agora prevista a instalação da Hemeroteca e a reabertura dos espaços desportivos.

Quanto ao Palácio dos Condes de Tomar, passa para as mãos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Fonte da instituição diz que o futuro uso do palácio ainda não está definido e que numa primeira fase serão feitas obras profundas de reabilitação.

O palácio fica na Rua de São Pedro de Alcântara, foi construído por particulares na segunda metade do século XIX e comprado pelo município em 1969 – por cinco mil contos. A Hemeroteca foi ali instalada em Outubro de 1973 com base na colecção de periódicos que existiam na Biblioteca Municipal Central, no Campo Pequeno.

Em termos arquitectónicos e artísticos, explica o site da Câmara, trata-se de um edifício de linguagem romântica com soluções decorativas que incluem o estuque, o couro, o vidro pintado e colorido, o azulejo e o ferro forjado.

Para se perceber a importância da Hemeroteca bastará dizer que é frequentada diariamente por dezenas de investigadores, jornalistas e estudantes. De acordo com Susana Silvestre, houve 48 mil leitores em 2012, o que dá uma média diária de 154 pessoas.

[texto publicado na Time Out Lisboa de 25 de Setembro de 2013 , pp. 10 e 11]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Perguntas & Respostas Sobre o Chiado


Quando é que o Chiado se tornou uma zona chique?
Não foi de certeza no tempo de D. Afonso Henriques, quando a zona era conhecida pelo esclarecedor nome de Pedreira. A Rua Nova do Almada só aparece na segunda metade do século XVII. A Rua do Carmo é criada depois do Terramoto. “É uma área muito bem posicionada, entre a cidade velha da cerca fernandina e a nova cidade que nasceu fora das muralhas com o século XVI”, explica a historiadora Maria Calado Gomes. “Numa cidade que vive muito de bairros e bairrismo, o Chiado conseguiu conjugar uma identidade de bairro com uma posição de vanguarda: é o sítio onde vemos a cidade e o estrangeiro”, acrescenta a historiadora.

Mas como é que o ambiente cosmopolita se estabeleceu?
Com a restauração da independência, em 1640, é para o Chiado que confluem os lisboetas à procura de novidades, sobretudo através dos primeiros jornais portugueses: Gazeta e Mercúrio Português. No livro Chiado, o historiador Joaquim Parro descreve com pompa aqueles tempos:  “Estilo barroco na arte, cortesãos ataviados, pedantes de maneiras e no traje.” Assim se  foi criando o mito. No século XIX, o Conservatório leva os intelectuais para a zona, o mesmo faz a instalação da Biblioteca Nacional no Convento de São Francisco (actual Museu do Chiado) e a inauguração do Teatro Dona Amélia (depois Teatro da República, hoje Teatro São Luiz). No século XX, aparece a Faculdade de Belas-Artes e as vanguardas estéticas nascem e circulam no Chiado: Futurismo, Modernismo, Surrealismo.

É verdade que o Chiado deve o nome a um taberneiro?
É uma velha discussão. Oficialmente, o bairro foi baptizado em referência ao poeta António Ribeiro Chiado, que desde 1925 tem uma estátua no Largo do Chiado. O famoso olisipógrafo Norberto de Araújo tinha outra versão: Chiado seria, sim, a alcunha do taberneiro Gaspar Dias, com estabelecimento junto aos actuais Armazéns do Chiado – alcunha que depois se generalizou.

Qual é o café mais antigo do Chiado?
Ainda em funcionamento, é o Tavares, aberto desde 1823 e herdeiro de uma velha taberna que existia na Rua da Misericórdia desde 1779, escreve o jornalista Manuel Maria Múrias em Chiado: Do Século XII ao 25 de Abril. E acrescenta: o Tavares “só tem o aspecto espelhado, dourado e alcatifado depois de em 1861 um tal Vicente Caldeira, restaurador galego imigrado em Lisboa,  o ter transformado em restaurante de luxo.” A presença do grupo dos Vencidos da Vida (Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, etc.) tornou a casa eterna.

Há algum estilo arquitectónico característico do Chiado?
“A base conventual ainda hoje é visível, porque o Chiado foi uma zona de conventos durante séculos”, observa Maria Calado Gomes. O historiador José-Augusto França chamava-lhe “gosto fin de siècle muito  inclinado  para  o neo-românico”. Isto porque algumas das construções mais famosas do Chiado datavam do fim do século XIX e inícios do XX: o cinema Chiado Terrasse (do arquitecto Tertuliano de Lacerda Marques, inaugurado em 1908 na Rua António Maria Cardoso, no que é hoje uma agência da Caixa Geral de Depósitos) ou os Grandes Armazéns Grandella (de George Demay, terminados em 1914, foco do grande incêndio de 25 de Agosto de 1988). Os actuais Armazéns do Chiado, projectados por Siza Vieira, seguem a linha arquitectónica anterior.

Quanto custa uma casa no Chiado?
A renda média de um T1 é de 750 euros, mas pode ir até aos dois mil euros mensais.  “É a zona mais cara da cidade”, diz Luís Pereirinha, da agência imobiliária ERA Chiado. Em termos de comércio, a realidade é igual. Um relatório da consultora Cushman & Wakefield, relativo a 2012/2013, apresenta o Chiado como a zona mais cara de Portugal para arrendar loja ou escritório, “porque a procura se resume na prática à Rua Garrett e a oferta é escassa”. Os preços rondam os 90 euros por mês, por metro quadrado.

Só mais duas curiosidades: o Pingo Doce começou mesmo no Chiado…? 
O próprio Pingo Doce, não, mas os Estabelecimentos Jerónimo Martins, que dariam origem à cadeia de supermercados, sim. O galego Jerónimo Martins instala a sua “tenda” na Rua Ivens em 1792 e poucos anos depois muda-se para a Rua Garrett. Vendia enchidos, trigo, milho, velas, vinho, vassouras, loiças, material de escritório. No início do século XX, a empresa foi comprada pela família Soares dos Santos, actual proprietária. Foi uma das lojas emblemáticas do Chiado até 1988.

…e o velho Tribunal da Boa-Hora – vai ser um hotel?
Já não. O tribunal foi transferido em 2009 para o Campus da Justiça, no Parque das Nações, e nessa altura a Câmara de Lisboa, proprietária do imóvel, via com bons olhos a transformação em hotel. Em Janeiro último, a ministra da Justiça anunciou que a posse do antigo convento passaria da Câmara para o ministério e nele se vai instalar o Centro de Estudos Judiciários e o futuro Museu Judiciário. “Mas só talvez em 2014”, diz Anabela Mendes, assessora da ministra da Justiça. Para já “está a ser feito um levantamento do acervo histórico que existe nos tribunais de todo o país para se decidir qual o conteúdo do museu.”

[texto publicado na Time Out Lisboa de 13 de Março de 2013 , pp. 16 e 17]

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O Frágil abriu há 30 anos

A noite de Lisboa era triste e decadente, tímida e antiquada. E então apareceu o Frágil e a partir daí nada seria como dantes. O bar criado em 1982 por Manuel Reis e Carlos Fonseca trouxe a Europa até Lisboa e deu gás aos sonhos de uma juventude inquieta. Esta semana, para assinalar três décadas de vida, há festa na Rua da Atalaia, escreve Bruno Horta.


 
 

Já ninguém vai ao Bairro Alto para encontrar poetas e intelectuais inatingíveis – porque já ninguém é inatingível e a última coisa de que se quer falar é de arte ou política às duas da manhã. Também já não se escolhe a melhor roupa para conseguir entrada num bar – porque  os  bares  se estendem todos para a rua e a roupa com mais estilo é hoje, quase sempre, a menos engomada. Se observarmos a noite de agora com os olhos de há três décadas, ela está definitivamente em parte incerta. Tornou-se anónima, informal, massificada e largou os punhos de renda que Portugal mantinha nos anos 80. Entre um copo e uma música, já não se decreta um programa para mudar o mundo, porque Lisboa já não tem – e talvez não queira – um lugar, apenas, onde se agitem  possibilidades.  Esse  lugar  existiu  há  30 anos, foi o Frágil e abriu a 15 de Junho de 1982.


[EXCERTO DE artigo publicado na revista Time Out Lisboa de 20 de Junho de 2012, pp. 22 a 24]

sábado, 23 de junho de 2012

"António Costa e a liberdade de informação"

[Artigo de opinião do jornalista José António Cerejo, publicado no jornal "Público" de 23 de Junho de 2012]
António Costa e a liberdade de informação
«O país assistiu em Março a uma bem montada operação de marketing político com o objectivo de lançar a corrida de António Costa a São Bento. O pretexto escolhido pelo presidente da Câmara de Lisboa para apontar ao mundo o destino com que sonha foi a publicação de uma colectânea de discursos intitulada "Caminho aberto". Explicou então, nas entrevistas e declarações que encheram os media, que era um homem de acção, com gosto pelas tarefas executivas, e que o livro servia para "prestar contas" aos cidadãos sobre o que tem andado a fazer.
Como jornalista que acompanha regularmente a actividade da Câmara de Lisboa, a minha primeira reacção foi de satisfação. António Costa falava em prestar contas e isso poderia significar o reconhecimento, embora tardio, de que devia explicações, muitas explicações, em primeiro lugar a quem vive e trabalha em Lisboa, sobre as únicas funções executivas que desempenha presentemente. Os meses que se seguiram mostraram, porém, que não era disso que se tratava. Na Câmara de Lisboa nada mudou e António Costa permanece fiel ao seu entendimento de sempre: a câmara é dele, e é ele, consoante os seus interesses e estratégias pessoais, quem decide o que diz, onde, quando e a quem, sobre aquilo que faz no lugar para que foi eleito. Totalmente fora do seu quadro mental está a natureza das funções públicas que desempenha e aquilo a que a Constituição e as leis da República o obrigam, precisamente em matéria de prestação de contas. Não é daqui a vinte anos, nas suas memórias, ou quando lhe der jeito, nas entrevistas e livros que congeminar, que tem de as prestar. É agora, hoje e todos os dias, que a lei lhe impõe uma conduta diametralmente oposta àquela que tem marcado os seus mandatos na Câmara de Lisboa. A prestação de contas devida ao povo pelos titulares de cargos públicos passa em grande parte pela intermediação dos jornalistas e pelo escrupuloso cumprimento das normas legais que consagram o livre acesso, por parte destes, à informação existente na posse daqueles. Em concreto, o Estatuto dos Jornalistas (Lei n.º 1/99) estabelece que "o direito de acesso às fontes de informação é assegurado aos jornalistas" por toda a espécie de entidades públicas, incluindo as autarquias, e que "a liberdade de expressão e criação dos jornalistas não está sujeita a impedimentos ou discriminações". Na Câmara de Lisboa, todavia, a lei é letra-morta e há cinco anos que António Costa passa alegremente por cima dela, negando o acesso dos jornalistas a toda e qualquer informação que lhe pareça prejudicial ao seu "caminho". Nos computadores de muitos deles acumulam-se centenas de perguntas sem resposta dirigidas aos porta-vozes da câmara, ao gabinete do presidente e a alguns vereadores. Perguntas sobre factos concretos, não sobre opiniões, perguntas sobre actos ou omissões dos serviços do município, sobre decisões camarárias - pedidos de esclarecimento essenciais para que os cidadãos possam ser informados com rigor. Perguntas que esperam respostas semanas e meses a fio e sem as quais, por vezes, as notícias têm de ficar na gaveta, tornando-se o silêncio da câmara um imperdoável impedimento à liberdade de informação. Mas não é só a gestão ilegal do silêncio que caracteriza a política de comunicação de António Costa, ela passa também pela discriminação de alguns jornalistas e meios de comunicação em relação a outros. E até por inomináveis manobras em que as informações pedidas por uns são entregues a terceiros, que supostamente tratarão do assunto de uma forma mais benigna para a autarquia. À imagem de muitos outros políticos, em particular autarcas como Rui Rio, e seguindo a cartilha de João Soares, um dos seus antecessores, o presidente da Câmara de Lisboa constituiu-se há muito como um inimigo da liberdade de informação. E como já se viu noutros casos, fê-lo com a conivência de muitos jornalistas e da entidade reguladora do sector. Sendo a lei aquilo que é, fantástica na proclamação de princípios, mas inconsequente no que respeita à sua aplicação, impõe-se que as normas do Estatuto do Jornalista quanto ao acesso às fontes oficiais de informação sejam mais do que isso - meros princípios. Impõe-se que a lei seja revista e diga expressamente que os titulares de cargos públicos têm de responder às perguntas dos jornalistas sobre factos concretos, ou de fundamentar por escrito as razões da sua recusa em responder. E impõe-se que a violação da lei não possa ficar impune.»
[Artigo de opinião do jornalista José António Cerejo, publicado no jornal "Público" de 23 de Junho de 2012: http://jornal.publico.pt/noticia/23-06-2012/antonio-costa-e-a-liberdade-de-informacao-24773244.htm]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Bric-à-Bar

Ilustração da autoria do cenógrafo e figurinista português, de origem alemã, Jorge Herold (1907-1990). Foi feita em 1978 e imita o estilo gráfico do famoso ilustrador Tom of Finland. Representa o bar Bric-à-Bar que funcionou entre 1968 e 2012 na Rua Cecílio de Sousa (Príncipe Real, Lisboa).

domingo, 25 de março de 2012

Tem visto OVNIs por Lisboa?



Dezenas juntam-se num hotel para ouvir falar de ETs. Será uma tendência na cidade? Nos últimos meses houve três reuniões do género. Bruno Horta faz a crónica da mais recente. Ilustração de Luis Levy Lima.

Acreditar é a palavra de ordem. “Esta sexta-feira, na estrada Porto-Guimarães, apareceu um OVNI com quinas”, relata o homem que promove o encontro, Luís Aparício, da Associação de Pesquisa OVNI. “Estava a uns 700 metros de altura e foi visto por uma rapariga de 14 anos. Pelo que ela me contou, há ali princípios de abdução [rapto], porque ficou sem o período.” Isto começa bem.

São seis da tarde de sábado, dia 3 de Março. Há 30 almas reunidas numa sala alcatifada do Hotel Príncipe Lisboa, na Avenida Duque d’Ávila. Luís Aparício só quis deixar aquele breve apontamento, como que para criar ambiente. Retira-se depressa para a plateia e dá protagonismo ao convidado desta semana: Francisco Mourão Corrêa, do Instituto Português de Exopolítica. Tem uns 40 anos e sotaque do Norte. Usa fato, gravata e suspensórios. Liga o portátil Toshiba a um projector de vídeo, instala-se com grande à-vontade e começa a sua apresentação em Powerpoint.
Francisco estuda a forma como os terráqueos devem estabelecer relações diplomáticas com extraterrestres. Quem nos representa perante eles, com que legitimidade, em que termos? Sim, porque os extraterrestres existem de certeza, já estão entre nós e já comunicam com os militares americanos.

“O que venho dizer não é a verdade”, começa por dizer. “É uma versão de acontecimentos, baseia-se em relatos. Ainda não existem as provas que todos procuramos.”

A declaração de transparência parece sensata, mas a plateia, claramente, não precisa dela para nada. Há homens e mulheres de todas as idades. Ao canto, uma mulher com o filho de sete ou oito anos. Eles acreditam. E as crenças costumam dispensar a lógica.

Por vezes, o convidado é interrompido pela assistência. “Claro que eles aparecem mais a partir de Setembro, e depois em Março. Porquê? Por causa do equinócio, como toda a gente sabe”, apregoa um homem desgrenhado, com sotaque brasileiro e óculos esverdeados. Assíduo destes encontros, não restam dúvidas. “Mas esse autor já comunicou com seres de Andrómeda”, nota uma outra voz enérgica. E depressa se percebe que para estas pessoas discos voadores e extraterrestres são uma e a mesma coisa.

Querem mostrar que sabem muito, que dominam o assunto, que têm a lição na ponta da língua. É definitivamente um encontro para consumo interno. De entusiastas para entusiastas.

De repente, é como se tivéssemos regressado àquele Verão de 1995 em que a autópsia do extraterrestre de Roswell foi apresentada por José Rodrigues dos Santos no Canal 1. As fantasias cósmicas voltam a ser reais. “Isto deve-se ao encontro de 1954 entre a Administração americana e uma comitiva extraterrestre”, assegura Francisco. “Billy Meier costumava ter encontros com mulheres ET e chegou a contactar com a neta de uma ET que o tinha raptado muitos anos antes”, acrescenta. E depois dá-nos a cereja no topo do bolo: “Há raças extraterrestres benévolas, como os reptilianos e os annunaki. E raças malévolas, que cooperam com os militares: são os telosianos e pleiadianos, entre outros.” Levanta-se voo e não se quer voltar à aborrecida realidade.

[publicado na revista Time Out Lisboa de 21 de Março de 2012, pág. 11]

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma linguagem “queer” que seja nossa

Tiago Cadete, Mariana Tengner Barros e Cláudio Filipe Vieira (foto de Nuno Alexandre Ferreira)

Há momentos de prenúncio. O espectáculo "Mente", que cerca de 200 pessoas viram na madrugada desta quarta-feira na discoteca Finalmente, em Lisboa, é, sem favor, o caso. 

“Mente” propôs-se levar ao mais conhecido palco do travestismo lisboeta um conjunto de artistas do teatro e da dança que, individualmente, em actuações de seis minutos, subvertessem a linguagem dos travestis e questionassem as noções de género. Ora, foi isso mesmo o que aconteceu. 

Em rigor, “Mente” foi (e é, porque os organizadores querem repetir a ideia noutros espaços nocturnos) um momento-luz na cidade. Pode tudo continuar na mesma que uma coisa ficou ontem à noite a saber-se: a linguagem “queer” começa a ser assimilada pelos artistas portugueses, o que significa que falta pouco para chegar ao país. Há até motivos para desconfiar que essa linguagem já é conjugada à portuguesa: incorporada e relida.

O dramatismo dos travestis de meia-idade, mais os seus trajes solenes e os seus modos revoltosos, deram lugar, por uma hora, a artistas quase todos nascidos no fim da década de 70, festivos e despreocupados, interessados em celebrar o pós-tudo: o pós-moderno, o pós-dramático, o pós-porno, o pós-gay. Artistas “queer” indiferentes ao peso de quaisquer categorias, enchendo as suas ideias com referências da cultura de massas, lida a partir daqui.

Três momentos, entre outros possíveis: a coreógrafa Tânia Carvalho com uma “Canção do Engate” desconstruída e esconjurada (diz-se que gritada); o revivalismo dos anos 90 do "performer" Rogério Nuno Costa (o novo revivalismo, evidentemente); e, número que fechou, Maria Bakker, personagem “trans” do actor Gonçalo Ferreira de Almeida, a lembrar que é preciso que tudo mude para que tudo fique sempre na mesma.

Como fica dito, “Mente” é um momento-luz, não um momento-fractura. O espectáculo foi apresentado pelo principal travesti português, Deborah Kristal, anfitrião habitual do Finalmente. Entre o velho e o novo não há, aqui, cisão; há uma ponte, que é o legado.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Metro de Lisboa não gosta de ver homens juntos


Quem é o defensor da moral pública e da higiene visual na cidade? O Metropolitano de Lisboa, evidentemente. Para o Metro, é indecente publicitar redes sociais da internet que promovam encontros entre homens. Vai daí, a transportadora pública acaba de proibir a afixação, em várias estações, de cartazes do Manhunt, rede social norte-americana onde são publicados convites para sexo e fotografias eróticas – e que tem, de acordo com dados próprios, cerca de 60 mil utilizadores registados em Portugal.

O representante do Manhunt em Portugal, Iuri Vilar, acusa o Metro de “homofobia”. Diz que apresentou duas versões de um mesmo cartaz publicitário e ambas foram rejeitadas por alegado “teor sexual”. A transportadora justifica-se: “É opção do Metro de Lisboa não aceitar a divulgação de uma campanha publicitária sempre que se coloque a dúvida de que a mensagem possa de algum modo ferir susceptibilidades.”

O caso foi gerido pela Multimedia Outdoors Portugal (MOP), empresa privada responsável pelos múpis (Mobiliário Urbano Para Informação) existentes nas estações de Metro. “Tive uma primeira reunião com os responsáveis pela MOP há cerca de um ano e mostraram-se muito entusiasmados, não revelaram qualquer preconceito, pelo contrário, até acharam importante a divulgação desta marca”, relata Iuri Vilar. “Passaram-se vários meses, sem que eu tivesse avançado, e em Outubro finalmente comecei a tratar de tudo para colocar publicidade nas estações de metro”.

Segundo este responsável, os cartazes deveriam estar em seis estações: Cais do Sodré, Restauradores, Marquês de Pombal, Rato, Picoas e Saldanha. Um total de 15 múpis expostos durante um mês, entre Dezembro de 2011 e Janeiro. “Quando lhes enviei por mail as artes-finais [versão definitiva do cartaz], onde aparecem dois homens de tronco nu quase a beijar-se, responderam que não aceitavam.”

A Time Out viu os emails trocados entre a MOP e Iuri Vilar. “Infelizmente o Metro não aprova esta imagem, pelo que não a podemos afixar”, escreveu a MOP, a 16 de Dezembro.

O representante da rede social remeteu um novo cartaz, poucos dias depois: apareciam dois homens também, mas desta vez vestidos. “Os temas de teor sexual não estão autorizados nas redes [de múpis]. O Metro de Lisboa não autoriza a afixação”, respondeu-lhe a MOP, por mail, a 19 de Janeiro. 

“É incrível”, comenta Iuri Vilar. “Trata-se obviamente um caso de discriminação e homofobia. Acho escandaloso que tenham dois pesos e duas medidas: a publicidade da Armani, com jogadores de futebol quase nus, ou da Triumph, com mulheres em lingerie, é considerada normal. Qual é a diferença entre isso e dois homens de tronco nu?”, questiona. Iuri Vilar vai “estudar o caso com os advogados” do Manhunt e pondera “apresentar queixa”.

Através da agência de comunicação Unimagem, o Metro disse à Time Out que  “a orientação vigente é a de rejeitar publicidade que não se coaduna com a imagem de um  serviço público que se dirige a uma multiplicidade de clientes com sensibilidades várias”. A Time Out quis saber quais as cláusulas do acordo entre a MOP e o Metro, mas ficou sem resposta.

No “Código de Ética e de Conduta”, publicado no site oficial, o Metro diz ter como “princípios estruturantes da sua actividade”, entre outros, a “erradicação de todas as práticas discriminatórias” e a “lealdade, justiça e equidade”.

A MOP não respondeu a diversas tentativas de contacto.

[notícia publicada na revista "Time Out Lisboa", de 25 de Janeiro de 2012, pág. 10]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Miau-miau nas ruas de Lisboa

Fomos à procura da nova droga que invadiu a cidade. É barata e legal. E vende-se em lojas. O efeito é parecido ao da cocaína. Há quem lhe chame fertilizante para plantas, mas é só para disfarçar, conta Bruno Horta.
 

A vida de Pedro não tem nada de original. Sai à noite, bebe uns copos, fuma, ouve música, dança e experimenta drogas. “Live fast, die young”, poderia ele dizer, aos 23 anos. Em 2009 descobriu a mefedrona, um estimulante também conhecido por miau-miau, blow ou bloom. Cheira-se para esticar a noite, acelerar a música, fazer fluir a conversa. E ser o centro do mundo. Um amigo falou-lhe em fertilizante para plantas, o nome-segredo da mefedrona, e Pedro disse que sim. “Já tinha consumido erva e cocaína, esta era apenas mais uma.” Cheirou a dose que lhe meteram à frente e gostou. “Fazia arder a narina, mas o efeito era parecido ao da coca. Isto dá energia, mas não é uma coisa exagerada, uma pessoa sente-se um pouco melhor neste mundo de merda.”

Os médicos sabem bem como é. Efeitos comuns: excitação, diminuição da sensação de cansaço, empatia. E a seguir: dificuldades de memória, falta de apetite, depressão. Cereja no topo do bolo: vontade de consumir mais. É legal em Portugal, embora prestes a ser incluída na lista de substâncias reprimidas. Existe em pó ou comprimidos de cor branca e vende-se em pequenas embalagens de plástico nas smart shops, lojas de drogas legais.

O miau-miau “já começa a ser uma moda em Portugal, sobretudo entre os jovens que gostam de experimentar novas sensações”, explica o médico João Goulão, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT, que em breve será extinto pelo Governo para passar a Serviço de Intervenção dos Comportamentos Aditivos e Dependências). “A mefedrona tem grande projecção neste momento e é muito consumida em Lisboa mas, mal seja ilegalizada, será substituída por outras substâncias semelhantes”, acredita a psicóloga Helena Valente, voluntária do projecto Check In, da Agência Piaget para o Desenvolvimento.

O Check In actua nas freguesias de São Paulo, Santa Catarina, Santos-o-Velho e Encarnação, ou seja, no Bairro Alto, na Bica e no Cais do Sodré – as zonas onde os lisboetas aquecem antes de seguirem para as discotecas. Helena Valente está lá duas vezes por semana: instala uma banca com folhetos e esclarece quem passa. “Pelo contacto com as pessoas, sou levada a concluir que há cada vez mais gente a experimentar mefedrona, sobretudo adolescentes e jovens adultos.” Fora esta percepção empírica, não há ainda dados objectivos, de acordo com o presidente do IDT.

O World Drug Report 2011, das Nações Unidas, informa que a mefedrona tem como nome químico 4-methylmethcathinone. É uma substância psicoactiva da família das catinonas (semelhantes às anfetaminas). “Apareceu pela primeira vez no mercado negro por volta de 2007 como alternativa legal às anfetaminas ou cocaína”, lê-se. No entanto, sublinha João Goulão, “esta e outras drogas novas representam em Portugal uma ínfima parte das preocupações”. “A heroína, a cocaína ou o ecstasy continuam a ter um peso incomparavelmente maior.”

Muitas vezes é a indústria farmacêutica quem descobre as drogas sintéticas, no decorrer de investigações rotineiras. Os resultados publicados em revistas científicas são depois reproduzidos por laboratórios ilegais. E o que poderia ser transformado em medicamento passa a droga recreativa.

Tanto quanto se sabe, o miau-miau chega a Lisboa depois de embalado na Europa. O conteúdo provém da China, da Índia e dos países de Leste. Estes últimos “têm uma tradição de maior produção local de substâncias sintéticas, porque sempre tiveram um controlo fronteiriço muito apertado”, esclarece o presidente do IDT. 

Isto quer dizer que a mefedrona é apenas uma parte de um todo a que os ingleses chamam legal highs, ou “pedras” legais. Explica o livro História Elementar das Drogas (2004, edição portuguesa) do filósofo espanhol Antonio Escohotado: “A guerra às drogas ressuscita com grande virulência nos anos 80, uma era marcada pelo binómio Reagan-Tatcher.” Enquanto os governos e os média representavam a cocaína e a heroína como uma praga, novas substâncias sintéticas eram feitas em laboratório para as substituir. “Estas substâncias representam a resposta do mercado negro ao recrudescimento da cruzada, uma resposta que em menos de uma década inventará novos sucedâneos mais potentes, mais baratos e quase sempre mais tóxicos.” Assim aparece o famoso ecstasy (MDMA), associado às festas de música electrónica do início dos anos 90. E daí até à mefedrona foi apenas um passo.

Há um ano, na sequência de 37 mortes atribuídas ao bloom no Reino Unido e Suécia, o comité científico do Observatório Europeu da Droga (agência da União Europeia com sede em Lisboa desde 1995) pediu ao Conselho da União Europeia que ilegalizasse a mefedrona, o que este fez. Alguns países adoptaram a recomendação, mas tal ainda não aconteceu em Portugal. “Mudanças na lista de substâncias proibidas ou sujeitas a controlo obrigam a alterar a lei da droga e isso implica a Assembleia da República”, contextualiza João Goulão. “Este processo estava em curso quando o governo anterior caiu e aguarda-se agora novo agendamento para discussão e votação.” Até lá, é legal. E segundo explicou à Time Out Lisboa o gerente de uma smart shop, é de longe o produto mais vendido nestas lojas.

Desde 2008, as smart shops têm aparecido como cogumelos pelas ruas da capital. A Magic Mushroom, no Bairro Alto, foi a primeira e já tem duas filiais. A seguir veio a Freemind, em Santos, que até faz entregas ao domicílio. Na semana passada abriu outra, Wonderland, junto à Praça das Flores. Se um grama de cocaína pode custar cerca de 60 euros no mercado negro, um grama de bloom não ultrapassa os 45 nas lojas. “A mefedrona torna-se apetecível por causa do preço, sim, mas também porque se vende abertamente em lojas, o que evita ter de se frequentar os circuitos clandestinos da cocaína”, diz Helena Valente, chamando a atenção para um “falso sentimento de segurança”: “Não só as lojas não têm a certeza de todos os aditivos que estão dentro da embalagem, como nem sempre sabem dizer às pessoas quais as doses certas” (entre 15 a 80 miligramas pela “via snifada”, aconselham os folhetos informativos do projecto Check In).

Pedro admite “uma certa dose de irresponsabilidade” ao cheirar bloom, mas diz que “nos ambientes normais de festa” não tem “problemas nenhuns em consumir”. “Uma pessoa às vezes tem de tomar estas coisas para se esquecer um bocado da vida.”

Mesmo antes de a proibição começar a ser falada, as smart shops identificavam a mefedrona como “fertilizante para plantas impróprio para consumo humano” – assim contornando qualquer acusação de ilegalidade. Agora, metem autocolantes sobre as embalagens com a frase “mephedrone free”, o que é interpretado como apenas um truque comercial, sem fundo de verdade. De resto, mesmo que a lei mude, nada de importante irá ser alterado. “Isto é um jogo do gato e do rato”, concede João Goulão. “Depois de uma substância ser incluída na lista negra, os laboratórios introduzem um radical qualquer na molécula e já estamos perante uma nova substância que não aquela que acaba de ser proibida.”

O presidente do IDT pensa que uma das soluções é ter tabelas de proibição com “grandes grupos de substâncias e estruturas moleculares aparentadas”, em vez da designação concreta das drogas. A responsável pelo Check In inclina-se para defender a despenalização.

(originalmente publicado na revista Time Out Lisboa de 9 de Novembro de 2011)

domingo, 4 de dezembro de 2011

A gala


Portugal, 1992 – poderia ter sido o título da primeira edição da Gala Abraço, que decorreu esta semana no Teatro São Luiz, em Lisboa (1 de Dezembro, Dia Mundial da Luta Contra a Sida). Ao fim de 19 anos de existência, a gala mudou de figura. Chamou-se dos Travestis desde o início e agora passou a Abraço, do nome da associação de apoio a seropositivos a favor da qual revertem as receitas de bilheteira. Já não é organizada pelo seu mentor, Carlos Castro, falecido em Janeiro, tem menos travestis e mais artistas para o grande público, mas continua a infantilizar quem assiste.

Desta vez, os apresentadores foram José Carlos Malato e Margarida Pinto Correia, acompanhados por actores e actrizes de telenovelas. Apareciam em palco depois das actuações musicais (cheias de problemas de som) e tentavam explicar às pessoas, de forma paternalista, como se previne a transmissão do VIH/sida.

O mais notável foi o tom heterossexual que se procurou passar. Veja-se a dupla de apresentadores (homem/mulher), a dupla de bailarinos que abriu a gala (homem/mulher), as duplas de actores convidados (homem/mulher) e os conselhos que deram, visando casais heterossexuais. Se a organização soubesse o que anda a fazer, saberia que é disparatado insistir, como se fazia há sete ou oito anos, nas pessoas heterossexuais como grupo de risco (a expressão é legítima, voltou a ser utilizada pelas autoridades de saúde norte-americanas, como se lê aqui nas páginas 20, 21, 22 e 46).

Diz o Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Infecção VIH/Sida 2011-2015, apresentado esta semana pelo Ministério da Saúde:
“Em Portugal, pese embora o número absoluto de casos ser superior como consequência da transmissão heterossexual, é nas chamadas populações vulneráveis que se concentra o risco mais elevado de infecção e é através delas que a infecção tende a ser transmitida. Os homens que fazem sexo com homens constituem actualmente a população onde se regista um aumento do número de novas infecções embora a verdadeira dimensão da epidemia neste grupo necessite de ser determinada. Fenómenos como o estigma, a discriminação e a homofobia, associados a uma desvalorização do risco constituem barreiras para recorrer aos serviços de saúde e podem dificultar a reversão da presente situação.”
A Gala quis inovar-se como espectáculo, mas voltou atrás no tipo de mensagem transmitida, o que além de errado é uma assunção de incompetência: poucos resultados teve o trabalho de prevenção dos últimos 20 anos. Por este andar, vamos ter de aturar a gala por muitos mais anos.

(fotografia: Joaquim Gromicho/Sapo Fama)

sábado, 9 de outubro de 2010

As modas de Lisboa

domingo, 6 de junho de 2010

Cuarto

El Cuarto de Leo (2009), de Enrique Buchichio, terça-feira, 8, 21h30, Cinema São Jorge, Lisboa.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Estreia

Um camião, vários homens, prostitutas sequestradas. Hard to Be a God, do encenador e realizador húngaro Kornél Mundruczó, estreia-se em Lisboa no sábado, 29. Espectáculo inspirado no romance Que Difícil é ser Deus, dos irmãos Strugatski (conhecidos pela autoria de livros de ficção-científica).
Faz parte da programação do Alkantara Festival.
[fotos: Márton Ágh]
Aqui.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Guida Scarllaty

"Trocou muitas vezes de cidade, de amigos, de amores e de profissão. Só nunca abandonou a personagem que o tornou famoso no fim dos anos 70 em Lisboa e que marcou um antes e um depois no travestismo artístico português: Guida Scarllaty, mulher faustosa e brejeira, caprichosa e burlesca, tímida e desbocada. Na sexta-feira passada regressou, depois de 20 anos adormecida."
Aqui.
(foto de Pauliana Valente Pimentel)

sábado, 17 de abril de 2010

"Grafitti"

No Público, hoje.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Feministas no Parque Eduardo VII, em Lisboa

Há 35 anos...


Hoje...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um espectáculo com hormonas

"Serão elas homens? Transexuais? Mulheres com pêlo? Aberrações? Passa por elas um grupo de adolescentes. Riem muito, apontam o dedo e não conseguem deixar de rir.

Esta cena a que a Time Out assistiu na semana passada é uma das dez cenas que Raquel Freire tem vindo a filmar e que vai exibir esta sexta e sábado, dias 30 e 31, durante a performance “Nósoutrxs”, no teatro São Luiz, como parte da programação do festival Temps d’Images 2009.

Dez intérpretes, quase todas mulheres, vão estar perante o público (50 lugares). “O espectáculo é sobre rebentar com o que é considerado normal e natural em relação ao género e à identidade das pessoas”, explica Raquel Freire, uma das autoras, juntamente com Marta Mateus, da banda O'queStrada."

[Time Out Lisboa, hoje; foto: Nuno Fox; aqui]

sábado, 24 de outubro de 2009

"Zoot" de Outono

Novo número da revista "Zoot". Tem 256 páginas, novo grafismo e é impressa pela primeira vez no mesmo tipo de papel utilizado pela revista "i-D".