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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Ela pode, ele não

O português (e o espanhol, se pensarmos no já célebre psiquiatra forense que foi ao "Prós e Contras") não pode achar estranho que aquela mãe não mostre sentimentos em público. Se a mãe, a quem, para efeitos oficiais, raptaram a filha, não chora, não se irrita, não se comove, não faz as coisas que a gente supõe que as mães a quem roubam filhos fazem, é porque é inglesa e tem outra forma, que o português não tem, de lidar com as emoções. É mais fria, mais contida, diz-se. Querer que ela, que usou a televisão para fazer propaganda com uma mestria inatacável, mostre emoções em público é aplicar-lhe leis de reality show. É a ditadura da vida real sobre a mulher.
Agora, que o homem que investiga o desaparecimento da filha dela beba o seu jarro de vinho ao almoço, e tenha para isso uma ou duas horas, já mexe tanto com os contidos princípios partilhados pela desditosa mãe que se torna inaceitável. Este post não poderia ser mais certeiro. Ele (o investigador) não terá aguentado a pressão mediática. Já ela (a mãe) aguenta-se e bem, sabe deus a que expensas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

"A cara dela esconde um mistério"

Getty Images
José Cabrera, psiquiatra forense espanhol, no "Prós e Contras", da RTP, dia 10 de Setembro:
"Há algo estranho que eu, como psiquiatra, não entendo: o casal funciona em uníssono. Aparentemente, o pai [Gerry McCann] é quem dá ordens, mas, em minha opinião, a chave do mistério é a mãe [Kate McCann], uma mãe que já tinha problemas psicológicos, com tratamento médico, anteriores ao sequestro.
A conduta e o aspecto da cara da mãe denotam ausência de emoções. É a mesma cara que se tem quando se joga póquer: não demonstra nenhum tipo de sentimentos. Ocasionalmente, há lágrimas. Dá impressão que ela tem problemas afectivos profundos. Não é uma reacção depressiva, não é uma questão neurótica, é uma coisa mais profunda. A expressão facial dela quase não muda. Porquê? É um silêncio de culpa. Não sei se eles [o casal] sabem o que se passou [com a filha], mas é um sentimento de culpa. (...) Não estou a fazer um diagnóstico, não estou a culpar ninguém, estou a fazer um juízo de valor. Mas esta cara esconde um mistério.
(...) O marido, cirurgião, especialista, profissional, é quem a conduz em cena. São como dois actores num teatro. É ele quem dirige tudo. Ele é mais espontâneo do que ela, controla mais, é ele quem aparece nas televisões, mostra as fotos nas conferências de imprensa, dá sempre o primeiro passo. Ela está sempre atrás, quieta e calada. Há algo escondido. E é ela que esconde. O marido e ela escondem-se atrás da imagem do matrimónio perfeito, mas talvez não seja assim tão perfeito.
(...) Eles tratam o assunto como se tivesse havido um pacto entre eles, que os leva a fazerem sempre o mesmo, a dizerem o mesmo, a olharem da mesma forma as câmaras, os jornalistas e os polícias."