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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Podem, mas não devem

"O Público de 2 de Maio continha um artigo intitulado "Tratamentos para alterar orientação sexual não são uma coisa do passado". Tudo começou com a petição online de um homem de 30 anos que reclama "um comprimido, uma injecção", para fazer face ao "enorme desgosto por sofrer de tendências homossexuais".
(...)
Dezenas de anos depois de a homossexualidade ter deixado de ser considerada doença pela comunidade internacional, alguns dos nossos psiquiatras (com responsabilidades!) falam de "homossexualidade primária", com "cunho biológico marcado" e de "homossexualidade secundária", ou desenvolvem a possibilidade de "reenquadrar a identidade de género e as opções de relacionamento sexualizado".
O problema não é saber se os psiquiatras podem tratar homossexuais, a questão é que não devem. É certo que muitos homossexuais revelam sintomas psicopatológicos, mas a análise cuidada dessas manifestações demonstra que elas são devidas à discriminação sofrida: quem não se sentirá mal se for alvo sistemático de troça ou de humilhação? O papel dos terapeutas, perante um eventual pedido, deverá ser o de capacitar para a luta contra a homofobia, ajudando a que sejam capazes de afirmar a sua orientação sexual primeiro junto de pessoas próximas, depois (se o desejarem) em contextos mais alargados.
(...)
As declarações são ainda mais graves quando já se iniciou entre nós a discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, porque não faltarão referências a estas posições como justificativas da não alteração da legislação sobre o casamento, embora elas não possuam qualquer justificação."
[Daniel Sampaio, revista Pública, ontem]

domingo, 4 de janeiro de 2009

Entrevista com Ivo Pintanguy

"Minha mãe nunca fez nenhuma operação estética. Me ensinou também que a pessoa, quando se tolera, não precisa fazer cirurgia nenhuma! [risos] Importante é você gostar de você. A finalidade da cirurgia é trazer o bem-estar; e quando ela pode, tem uma legitimação enorme. (…) Sabe que as coisas muito bonitas nunca foram tocadas?"


"Era um garoto sonhador, muito curioso. Nunca fiz da realidade, embora respeitando-a, a minha mestra, para que eu não fosse seu escravo."

"As pessoas que fizeram coisas importantes, na arte, na literatura ou no plano social, são todas pessoas interessantes, mas não transmitem obrigatoriamente coisas interessantes. Elas são interessantes pelo que fazem, pelo que representam."


"É sobretudo na vulnerabilidade, na fragilidade, que demonstramos a nossa força. Porque, paradoxalmente, quando está mostrando a sua força, está mostrando alguma coisa, não está sendo. E quando está sendo, está sobrevivendo ao que os outros poderiam pensar, está sendo o que você é. É difícil avaliar o que é força e o que é fragilidade."


"Quando me perguntam porque é que os homens hoje fazem mais cirurgias do que faziam anteriormente, posso responder de mil maneiras; mas uma das coisas que digo é que a mulher ocupou uma força tal no mundo que ele pode se permitir aquela que é talvez a sua maior força: a sua fragilidade, e fazer o que quiser com o seu corpo. É uma coisa que parece tola, mas não é."

"A medicina é uma arte aplicada, não é uma coisa normativa. É uma criatividade permanente, é um bom senso. E não existe uma habilidade
como lhe disse, a mão é o instrumento primordial do cérebro."


"Sempre mantive uma relação com o meu corpo dentro do meu biótipo, com o melhor que ele pode me oferecer, e com muito respeito. Embora possa me permitir alguns excessos, mas não vou viver neles. O corpo merece um cuidado especial, é o nosso santuário. Até hoje tenho o cuidado de exercitar."

[excertos da entrevista com Ivo Pintanguy, "o mais famoso cirurgião plástico do mundo", na revista "Pública", por Anabela Mota Ribeiro, hoje]

domingo, 30 de março de 2008

Revistas de domingo

A "Pública" (do "Público") faz capa com Jack Nicholson, a propósito do recente filme "Nunca é Tarde Demais", mas o artigo mais interessante está escondido lá dentro: é uma reportagem de Sofia Branco com perfis, na primeira pessoa, de várias mulheres feministas, de Norte a Sul de Portugal.
Uma delas é Fina d'Armada (pseudónimo de Josefina Fernandes). Lembro-me do nome em livros e artigos sobre OVNIs. Não a sabia feminista e nunca tinha visto uma foto dela. Surpresas.

O número de Abril da revista da sobrevalorizadíssima discoteca Lux tem um artigo interessante sobre o estilista Filipe Faísca e uma nota que recorda Laura Branigan (descrita como "cocainómana, paranóica e sociopata") e o seu êxito "Gloria".
Se calhar, é pós-moderno não meter ficha técnica nas revistas. Esta não tem. É pena.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Antes da hora do pânico

Na "Pública" de 31 de Dezembro de 2006.

A profecia, antes de tudo: “à medida que o fumo se adensa no teatro global, brilha cada vez mais o sinal de Saída. Mesmo que ainda não tenhamos visto esse sinal de Saída, a hora do pânico está mesmo atrás de nós”.

Bruce Sterling, 52 anos, norte-americano. Há duas décadas, fez publicar “Mirrorshades”, livro de contos e ensaios sobre a cultura cyberpunk. Hoje dedica-se a falar e a escrever sobre meios de comunicação e design. Um futurólogo, que até faz parte do catálogo da gigantesca editora Random House.

É ele o oráculo nas primeiras páginas do livro “Worldchanging”, publicado no início de Novembro nos EUA. Subtítulo: guia do utilizador para o século XXI. A editora, Harry N. Abrams, diz que estão à venda cem mil exemplares e que até ao momento ainda não recebeu qualquer pedido de editoras portuguesas interessadas na tradução.

O livro é “praticamente uma enciclopédia dos sinais de Saída” (a maiúscula consta no original inglês) para a crise mundial, garante Sterling, ao mesmo tempo que elogia a numerosa equipa que o escreveu: “estas pessoas não são comissárias políticas. Debatem-se claramente com ideias e assuntos quase inimagináveis”.

O prefácio, brevíssimo, é de Al Gore. Tal como o antigo vice-presidente democrata americano, Sterling é apenas uma estrela convidada para credibilizar o todo. Os textos são pequenos, carregados de referências bibliográficas, espalhados por 600 páginas com cores diferentes, consoante o tema tratado, e acompanhados por fotografias, algumas de grande formato. Expõem problemas ambientais, políticos, sociais e tecnológicos e dão conselhos práticos sobre como os ultrapassar. Obra colectiva.

Os currículos dos 62 autores estão lá. Gente desconhecida do grande público: músicos, designers, físicos, jornalistas, escritores, engenheiros, etnógrafos, entre outros. Sobressai o ecologista Alex Steffen, coordenador da obra e do blog com o mesmo título, um dos mais populares sobre temas ambientais, criado há três anos. Stefffen (há 224 mil entradas para o nome dele no Google.com) vive em Washington e, segundo a Wikipedia.org, criou este livro com base no “The Whole Earth Catalog”, publicado anualmente entre 1968 e 1998, onde predominavam a ecologia e a chamada contracultura.

As linhas de acção propostas espalham-se por áreas como o consumo privado (aconselha-se a compra de roupa de algodão orgânico e não de algodão convencional, pois este resulta de processos agrícolas que empregam enorme quantidade de pesticidas, que se infiltram no solo e atingem os recursos aquíferos), o optimismo, aplicado aos movimentos sociais de contestação (“a História atesta que se se mostrar às pessoas um futuro melhor, consegue-se construir movimentos que mudem o mundo”) ou os negócios (por tópicos, dizem-nos como reconhecer a seriedade da propaganda comercial).

Num capítulo dedicado à política é curioso o incentivo ao chamado “citizen journalism” na Internet, ou, como já se diz em português, jornalismo participativo: colaboração estreita entre profissionais e amadores. “Além de poderem dizer [através da Internet] o que os media mais conhecidos nunca publicariam ou difundiriam, os jornalistas podem trabalhar à sua vontade, livres de tutelas, de Relações Públicas e da habitual passividade da maioria dos jornalistas próximos dos militares”, lê-se.

A editora diz que o papel usado na impressão do livro é amigo do ambiente, porque 100 por cento reciclado e livre de cloro.

B.H.

domingo, 15 de outubro de 2006

A América diz o que pensa

FACTOS
Na revista Pública de hoje.

É uma espécie de blog aberto ao público. Quem tiver as opiniões mais populares recebe dinheiro.

Aqui, encontra-se de tudo. “O casamento entre homossexuais é como as bibliotecas públicas: favorece o movimento de luta pelos direitos cívicos”. “A melhor forma de os congressistas prestarem atenção ao povo é acabar de vez com os lóbis. Ilegalizem os lobistas”. “Uma das prioridades da humanidade deve ser a de verificar se somos os únicos seres na Galáxia”. De opinião em opinião, de tema em tema, de foto em foto, as viagens pelo site gather.com são intermináveis. E há cada vez mais gente a fazê-las.

Não é um blog ou um jornal on-line. Não é uma revista especializada ou um motor de busca. É um pouco disso tudo. Pode dizer-se, usando a linguagem dos teóricos da Internet, que é uma “rede social online” (online social network), parte integrante de um conceito mais vasto conhecido por Web 2.0 (a segunda idade da Internet: mais participada do que no início, feita a pensar no utilizador, infinita na troca de dados e nas oportunidades de negócio).

A empresa tem sede em Boston e na sua origem estão dois empresários: Tom Gerace, formado em ciências sociais, e Bill Kling, fundador da American Public Media, a rádio pública americana. São ambos administradores executivos. O director do site é, imagine-se, Bill Bradley, antigo basquetebolista e senador democrata, que há seis anos se candidatou à presidência americana.

Numa entrevista por e-mail, Tom Gerace explica que o Gather “é um lugar onde cidadãos de todo o mundo, adultos e informados, podem partilhar e explorar interesses e paixões comuns”. A palavra “adultos” é muito importante para ele, já que, neste caso, não lhe interessa a geração de jovens cibernéticos, que se juntam aos milhões em torno MySpace.com. O alvo aqui são os mais velhos, embora a lógica seja a mesma do MySpace.

A novidade do site é a de que quem publica coisas pode ser remunerado (já se faz o mesmo nos blogs, com o Google AdSense ou o blogsvertise.com). Em dinheiro, se for essa a vontade do utilizador, ou em pontos convertíveis em livros, hambúrgueres e electrodomésticos em grandes lojas americanas. Tudo depende da quantidade de visitas e comentários a cada texto. Quem tiver mais, recebe mais.

O número de pessoas registadas é coisa que o administrador não diz. O número de visitantes (page views) e o lucro obtido no último ano também ficam em segredo.

O site está organizado por grupos temáticos. Há mais de 200. Uns com quarto membros, outros com mais de 300. São quase todos americanos. De Nova Iorque, muitos. Mas também há dinamarqueses, indianos, palestinianos, egípcios, australianos, ingleses. Toda a gente escreve em inglês.

De cada um sabe-se o nome com que se registou e a cidade onde vive. Há quem publique a sua própria foto e há quem mostre uma foto do Batman ou do animal de estimação.

No grupo All Things Japanese alguém recomenda cinco hotéis em Tóquio por menos de 80 dólares por noite. E nos grupos sobre viagens fala-se, entre outras coisas, da comida portuguesa, da poncha madeirense, do Bairro Alto e do fado. Dan Brown, Richard Branson, Elvis Presley e Bush são visados com frequência.

“Ao contrário dos blogs, que têm uma natureza solitária e, muitas vezes, não permitem o diálogo, o nosso site estimula a interacção”, argumenta Tom Gerace. “O número de comentários diários é dez vezes superior ao número de artigos publicados”.

B.H.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

“Os governos mentem, estão sempre a mentir”

No dia em Tony Blair anuncia que vai abandonar a chefia do governo britânico em Maio do próximo ano, entrevista com Craig Murray, antigo embaixador do Reino Unido no Uzbequistão. Publicada originalmente na revista Pública de 27 de Agosto.


Não lhe restava mais nada. Afastado do cargo há dois anos, o antigo embaixador britânico no Uzbequistão publicou agora um livro onde acusa o governo britânico de receber informações secretas obtidas através de tortura. Dissidente político ao mais alto nível, Craig Murray não tem dúvidas de que Blair e Bush são criminosos de guerra.

O nó do problema deu-se em Agosto de 2002, quando este funcionário do Serviço Diplomático do ministério dos Negócios Estrangeiros britânico (

Foreign and Commonwealth Office, FCO) foi enviado para Tashken, capital do Uzbequistão. Seria a primeira e última vez que lhe confiavam o cargo de embaixador. Num país sem eleições livres ou tribunais independentes, Craig Murray, hoje com 47 anos, manteve contacto regular com dissidentes políticos e com Organizações Não Governamentais a operar no território. Alertou o FCO para o facto de as informações sobre o perigo islâmico enviados pelo Uzbequistão para os serviços secretos americanos (CIA) e britânicos (MI6) serem obtidas através de tortura e falou em público contra o regime uzbeque. Londres não quis saber. Na altura, Islam Karimov, presidente da antiga república soviética, era (já não é) um aliado da coligação anglo-americana na chamada Guerra Contra o Terror, iniciada depois do 11 de Setembro. O embaixador ascendeu depressa a um estatuto incómodo. O álcool e a visita frequente a bares de striptease, fizeram o resto. Repreendido, ignorado e, por fim, perseguido, Murray acabaria demitido em Outubro de 2004. Quando regressa a casa, é um homem destroçado. A brilhante carreira iniciada em 1984 chegou o fim. Pede a reforma antecipada e começa a escrever um livro, onde regista o que se passou naqueles dois anos: Murder in Samarkand (Homicídio em Samarcanda). Quatrocentas páginas, publicadas a 24 de Julho, alegadamente censuradas pelo governo.

Espera que o livro seja banido no Reino Unido? A situação é pouco clara. O governo não queria que o livro fosse publicado, mas já saiu e até agora não aconteceu nada.

Porque é que submeteu o original à apreciação do FCO? Porque o FCO diz que os antigos funcionários têm de o fazer. Eles dizem, aliás, que isso está no contrato de trabalho, embora eu não encontre nada no meu.

Quando enviou o livro ao FCO já se tinha reformado? Já.

Mesmo assim, achou que deveria fazê-lo? O FCO diz que, mesmo depois da reforma, qualquer funcionário tem de submeter as suas memórias escritas a apreciação. Enviaram-me uma coisa chamada Regulamento do Serviço Diplomático, que alegadamente contém as regras de comportamento de um diplomata, incluindo esta. Em primeiro lugar, quando assinei o contrato, e foi há muito tempo [1984], acho que esse Regulamento não existia, em segundo, é estranho que eles queiram que eu obedeça às regras deles mesmo depois da reforma. Por uma questão de educação, e sem ter em conta qualquer regra, remeti o original ao FCO.

Pediram-lhe para fazer muitas alterações? Muitas, incluindo retirar vários documentos anexos [telegramas e e-mails oficiais]. Fi-lo, porque me pediram e porque queria que o livro fosse publicado. Fiz as alterações e o FCO respondeu que, mesmo assim, não me deixava publicá-lo. Isto é completamente ridículo: primeiro pedem-me para mudar coisas, depois dizem que mesmo alterado o livro não pode sair. De que valeu então pedirem as alterações? Nessa altura, pensei que o melhor seria publicar a versão original, sem alterações, mas o editor não quis, com medo de processos judiciais. Por isso é que os documentos anexos foram parar à minha página na Internet [http://www.craigmurray.co.uk/].

É correcto dizer que o livro que está à venda foi censurado? Sim.

O governo britânico censura livros? É uma conclusão sensata.

Está a ser alvo de pressões por parte do governo? Nas últimas semanas [Julho de 2006], recebi várias cartas de procuradores do governo a chamar-me a atenção para o conteúdo do meu site, mas não disseram nada sobre o livro, desde que foi posto à venda. Há uns tempos, o governo afirmou no parlamento que se o livro fosse publicado considerava a hipótese de tomar medidas legais para o proibir.

Quem disse? Jack Straw [ministro dos Negócios Estrangeiros]. Mas foi bluff, o objectivo era o de desestabilizar o meu editor.

Porque é que escreveu agora e não esperou mais alguns anos? Penso que é altura certa para o fazer. As pessoas têm o direito de conhecer por dentro o tipo de políticas seguidas por este governo. Continuo a acreditar que a obtenção de material secreto através de tortura é ilegal e que isso deve ser denunciado.

Inspirou-se em livros de espionagem para escrever? O estilo apareceu naturalmente, não é artificioso, é a minha forma de contar histórias. Há quem destaque o humor, que é pouco comum neste género de livros e que decidi utilizar.

Tem hoje mais amigos do que antes de publicar o livro? Em geral, penso que até tenho mais amigos. Por estar contra a tortura e a guerra no Iraque, contra, se preferir, a fabricação de uma parte da verdade da Guerra Contra o Terror, criou-se em alguns círculos políticos [ministros] a ideia de que sou de esquerda. Quando as pessoas lêem o livro, descobrem que sou liberal em termos de economia, não sou como elas pensavam. Claro que criei muitos inimigos…

Ainda tem amigos na esfera política? Bastantes, até. Não me parece que tenha perdido amizades, posso, sim, ter perdido alguns conhecidos. Ainda tenho amigos no FCO. Há dias, por exemplo, ligou-me um amigo, cujo nome não vou revelar, que integra uma missão à ONU, em Nova Iorque. Ele estava perante um dilema, teria de argumentar na ONU contra o cessar-fogo no Líbano. A consciência estava a pesar-lhe, porque tinha de defender um ponto de vista com o qual, perante as fotografias dos mortos no Líbano, não está de acordo. É alguém com quem trabalhei e que me ligou só para dizer que compreendia os dilemas por que passei perante a estratégia de Blair e Bush. Dou só este exemplo para que se perceba que tenho amigos dentro da estrutura, que continuam a consultar-me.

Além disso, dão-lhe alguma espécie de apoio? Nada de extraordinário, embora eu também não peça. Recebi apoio quando o FCO estava a analisar o meu livro e quando me escreveu as cartas. Os meus contactos diziam-me o que estava a acontecer, o que viria a seguir, quem é que estava por detrás do quê. Uma espécie de informações secretas úteis. Conheço bem o staff júnior, sempre fui mais popular junto das pessoas que hierarquicamente dependiam de mim.

O embaixador foi convidado a renunciar ao cargo em Agosto de 2003. O FCO abrira um inquérito, com alegações muito graves: em troca de sexo, Murray teria dado vistos a cidadãs uzbeques para viajarem para o Reino Unido; seria alcoólico e, com frequência, chegaria bêbado ao trabalho às cinco da tarde; estaria a fazer uma gestão danosa das finanças da embaixada. O inquérito nunca foi concluído. Nessa altura, já o embaixador se envolvera com Nadira Bekhanov, apresentada no livro como dançarina, à noite, e professora de inglês, de dia. A sua mulher estava ao corrente de tudo. Perante a cada vez mais evidente ruína profissional e pessoal, Murray entrou em colapso. De passagem por Londres para responder às acusações do FCO, acabou internado num hospital psiquiátrico. Durante dez dias, esteve sob vigilância. Os médicos temiam que se suicidasse. É nesta altura que a imprensa inglesa desperta para o caso. O FCO tenta por várias semanas impedir o regresso de Murray a Tashkent, devido ao seu estado de saúde. O embaixador escreve no livro que se tratou apenas de uma desculpa para o tentar impedir de reassumir funções. Em fins de 2003, regressou. Na primeira manhã, algo estranho aconteceu. “Sentia uma dor indescritível quando tentava endireitar as costas. Não conseguia respirar”. Enviado de urgência para Londres, concluiu-se que teria tido uma espécie de embolia pulmonar, em resultado de uma trombose. Os pulmões estavam cheios de coágulos. “Não engulo a teoria da trombose. Suspeito fortemente que, uma vez que pessoas poderosas tinham tentado tirar-me de Tashkent, eu deveria ter morrido no regresso”, escreve. Meses depois, ser-lhe-ia diagnosticada hipertensão pulmonar. Em Julho de 2004, o embaixador envia mais um telegrama incómodo aos seus superiores. “Recebemos, através dos EUA, informações secretas obtidas sob tortura pelos serviços secretos uzbeques. Devemos parar. As vítimas da tortura são obrigadas a assinar confissões”. Dirigindo-se em particular a Jack Straw, disse-lhe que a sua política atiçava o ódio dos muçulmanos e que ele, o ministro, estava a “vender a alma por cinco tostões”. Três meses depois, o Financial Times cita o telegrama. O FCO telefona a Craig Murray e diz-lhe que já não é embaixador.

Mesmo que não tivesse sido afastado, teria tido condições pessoais e de saúde para permanecer no cargo? Acho que sim. Naquela altura, estava muito doente, os médicos pensavam que não me restavam mais do que alguns meses de vida, cansava-me com muita facilidade, mas conseguia trabalhar normalmente. Mesmo com pouco tempo de vida previsto, sabia-se que a minha doença não era degenerativa, se morresse, morreria como estava. Poderia ter continuado por mais algum tempo. O que estava a tornar difícil a minha vida no Uzbequistão não era o estado de saúde, era o facto de o governo britânico ter tornado óbvio perante as autoridades locais que já não me apoiava. Durante o primeiro ano como embaixador, tinha grande influência, era forte e duro, e eles tinham de lidar comigo. Depois, quando o governo britânico me começou a atacar, tudo mudou. Mas, mesmo na parte final, fiz melhor do que o embaixador actual, que não faz nada e não tem influência nenhuma.

Sabe como é que o novo embaixador britânico em Taskhen se relaciona com Karimov? Não sei, mas, como não vejo nenhuma acção concreta, não o vejo a salvar pessoas vítimas de violência, mas apenas a fazer umas declarações contra a violação dos direitos humanos. Acho que ele vai a uns cocktails, deve ser muito cortês com aos ministros uzbeques e deve jogar bastante golfe.

Qual foi a razão apontada pelo FCO para o demitir? A desculpa que arranjaram foi a fuga de um telegrama para o Financial Times, em 2004.

Foi a única razão? A única.

O FCO diz que você que já não reunia as condições necessárias para desempenhar funções. Sabe de que condições estão a falar? Sinceramente, não sei. A explicação que me deram tinha a ver apenas com o telegrama.

Está a ser alvo de algum inquérito? Não.

Mas houve um inquérito. Disseram-me que tinha começado a fazer um inquérito relacionado com o telegrama, mas pelos vistos não começaram. Nunca fui chamado a depor. E posso garantir que não tive nada a ver com a fuga do telegrama. Teria todo o gosto em colaborar. Se houve fuga alguém tem de ser responsabilizado. Isso constitui matéria criminal. É claro que eles não querem fazer inquérito algum, nunca quiseram, porque tenho quase a certeza que foi o FCO quem fez chegar o telegrama ao Financial Times.

Quem foram os seus carrascos? Jack Straw, Tony Blair? Talvez, neste caso, a ordem tenha sido enviada por Downing Street [residência e gabinete oficiais do primeiro-ministro] ao FCO. Em Agosto de 2003, quando me pediram para resignar e me lançaram diversas acusações, tenho a certeza de que foi isso que se passou.

O MI6 e a CIA terão tido algum papel na sua demissão? Por certo, não gostavam nada de mim e terão achado ameaçadoras as minhas objecções quanto à obtenção de informações secretas através de tortura. Não me parece, no entanto, que tenham sido responsáveis directos. Não sei quem é que deu o telegrama ao jornal, não sei mesmo, mas não é nada que precisasse de ser feito pela MI6 ou pela CIA. Pode simplesmente ter sido o gabinete do primeiro-ministro ou o FCO.

Portanto, quem o quis demitir foi Tony Blair. Acredito que sim.

Foi envenenado durante uma viagem de regresso ao Uzbequistão? É difícil encontrar outra explicação, mas, em rigor, não sei o que se passou. O exame de toxicologia não encontrou nada. É uma coisa rara, coágulos múltiplos, em ambos os pulmões. Isso não aparece sem mais nem menos, de forma espontânea. E antes de aparecer, eu nunca tinha tido nada nos pulmões que o indicasse. Aconteceu numa altura em que havia muita gente a querer impedir o meu regresso a Taskhen. Regressei, e de repente estive às portas da morte por causa desta doença misteriosa e súbita.

Quem é que está por detrás deste mistério? Não sei. Não sei o que aconteceu, é muito estranho, não posso especular.

Durante os 20 anos que passou no FCO esteve na Polónia, na Nigéria, na Serra Leoa, no Chipre. Porque é que nessas ocasiões nunca sentiu a mesma necessidade de falar sobre direitos humanos? Nos sítios onde estive a situação dos direitos humanos não era, nem de perto, nem de longe, tão má. No Uzbequistão a situação é extrema, é um estado totalitário. Já tinha trabalhado, a partir de Londres, na questão do apartheid na África do Sul, mas nessa altura estava do lado da razão, Londres queria mudar as coisas. Agora, estar numa situação em que há um governo como aquele e o meu papel tem de ser o de o apoiar, é muito diferente de tudo o que eu tinha feito antes.

Qual é, em seu entender, o principal papel de um embaixador? O primeiro objectivo tem de ser a defesa dos interesses do país que representa. Mas é preciso ver isso de uma forma ampla. Tudo o que seja suportar um regime ditatorial para prosseguir os objectivos do nosso país é, no mínimo, contraditório e certamente errado.

Hoje, os EUA já não apoiam o regime de Karimov. É mais ao contrário: Karimov é que não apoia os EUA. Se ele permitisse, os EUA ainda estariam a dar-lhe dinheiro de boa vontade. E isso nada tem a ver com direitos humanos. Os EUA fingem que foi o massacre de Andijan [em Maio de 2004, quando a polícia uzbeque matou centenas de manifestantes da oposição] que os fez mudar de opinião, mas a reacção americana a esse massacre foi mínima. Demoraram muito a reagir, culparam ambas as partes e ainda disseram que haveria extremistas islâmicos entre os manifestantes. Comparado com o que disseram os países europeus, isto até foi uma forma de apoio.

E qual é agora a atitude britânica? Agora que ele já não é um amigo dos americanos, a Grã-Bretanha é muito mais crítica. Há três anos, qualquer ministro britânico diria que o Uzbequistão era um grande aliado na Guerra Contra o Terror. Mudaram muito, agora estão muito contentes por criticar Karimov.

O Reino Unido e os EUA ainda recebem informações dos serviços secretos obtidas sob tortura? Se as recebem do Uzbequistão, não tenho a certeza, não sei se Karimov cortou essa ligação. A minha sensibilidade diz-me que continua tudo igual.

E de outros países? Tenho a certeza que sim. O Uzbequistão era apenas uma parte. A política de obtenção de informações secretas por via da tortura continua a funcionar com a Arábia Saudita, com a Argélia, com Marrocos, com Gâmbia e outros.

Diz no livro que o Uzbequistão e o Afeganistão exportam droga para a Europa, mas não esclarece se os americanos estão directamente envolvidos. O que os EUA faziam na altura era ignorar a forma como Karimov lidava com o comércio de droga, permitindo que ele mantivesse relações com o general Dostum [ministro da Defesa do Afeganistão]. Dostum e Karimov eram aliados dos americanos, por isso, os EUA, em vez tomarem medidas contra eles e impedirem que a heroína chegasse à Europa, fingiam que nada se passava. Ao mesmo tempo, faziam declarações contra os talibã, envolvendo-os no negócio da heroína, quando os talibã não têm nada a ver com isso. Não quero ser mal interpretado: não defendo os talibã, mas o papel deles no negócio da droga era mínimo. Ora, ter os talibã como os maus da fita permitiu a Dostum e a Karimov começar a enviar grandes quantidades de heroína para a Europa a partir do Afeganistão. Como eles eram clientes americanos, toda a gente fingia não saber de nada e nenhuma medida efectiva foi tomada contra isso.

Enquanto escrevia o livro nunca se perguntou se estaria a entrar num delírio, numa teoria da conspiração? Não me parece. Acho que tudo o que está escrito tem sustentação. Em geral, não tenho muito interesse na teoria da conspiração. Não acredito, por exemplo, que George Bush tenha estado envolvido no ataque às Torres Gémeas. Sou muito céptico. Não estou a dizer que os EUA fazem comércio de droga, estou a dizer que os EUA olharam para o lado e permitiram a Karimov continuar esse comércio. É um facto, não é uma conspiração.

Acredita que Bush e Blair serão julgados por aquilo que descreve no livro? Ambos têm baixíssimos níveis de popularidade nos seus países. Quando comecei a contar isto tudo, nem toda a gente acreditou em mim. Disse que o governo britânico estava implicado em acções de tortura, que deliberadamente difundia informações falsas para sobrevalorizar a ameaça da Al-Qaeda, mas apoiava um ditador [Karimov], em detrimento dos seus opositores, fazendo de conta que a oposição a esse ditador era a Al-Qaeda. E a seguir disse que o governo estava a querer afastar-me com base em justificações falsas. Nessa altura, ninguém me acreditava. Eu dizia que o governo estava a mentir, que os ministros estavam a mentir, e isso não é algo que as pessoas estejam dispostas a acreditar que se passa numa democracia. Entretanto, houve uma mudança na opinião pública e passaram a aceitar o que eu dizia. O facto de não terem sido encontradas Armas de Destruição Maciça no Iraque fez-nos perceber que os governos mentem, estão sempre a mentir.

Para além de um julgamento na praça pública, admite que Bush e Blair sejam levados a tribunal? A opinião pública e a História julgá-los-ão negativamente, sem dúvida. Mas lamento muito dizer isto: não me parece que eles vão a tribunal. Deveriam ir, porque são criminosos de guerra, estão envolvidos em várias guerras e agressões ilegais com o único objectivo de explorar recursos nos outros países e permitir a algumas grandes empresas ganhar muito dinheiro. Mas não vai haver nenhuma revolução nas estruturas sociais, pelo menos, não no meu tempo de vida, que me permita acreditar que eles serão levados a tribunal. BH

Perfil [actualizado]

Desempregdo, Craig Murray diz ter intenção de voltar a África para se dedicar a “projectos de desenvolvimento” – saudades do tempo em que trabalhou no processo de paz na Serra Leoa e na Libéria. Nascido em 1958 em Runton, condado de Norfolk, sudeste de Inglaterra, licenciou-se em História Moderna, em 1982, e, dois anos depois, entrou para o Foreign and Commonwealth Office.

Quando da primeira Guerra do Golfo, foi responsável pela análise de informações dos serviços secretos. Entre 1994 e 1997 esteve em Varsóvia como Primeiro Secretário da embaixada britânica. Divorciado, tem dois filhos menores, vive em Londres com Nadira Bekhanov. “Tenho terríveis problemas financeiros”, confessa. Nas legislativas de 2005, foi candidato independente por Blackburn, contra o ministro dos Negócios Estrangeiros Jack Straw. Teve pouco mais de dois mil votos.

Durante o mês de Setembro, vai participar em diversas conferências e eventos a favor da demissão de Tony Blair, incluindo a manifestação pública Time to Go, em Manchester, no dia 23.

O seu livro, Murder In Samarkand, vai ser adaptado ao cinema pelo realizador Michael Winterbottom (24 Hour Party People; 9 Canções). A rodagem começa no próximo ano e ainda não há elenco definido.

Devidamente autorizado

O Foreign and Commonwealth Office (FCO) diz que não se opõe à publicação de livros de memórias por parte de antigos diplomatas, desde que sejam observadas duas regras: as “confidências” neles contidas têm de ser salvaguardadas “por um intervalo de tempo razoável” e os textos “têm de ser devidamente autorizados”.

Questionado sobre o livro de Craig Muray, o ministério britânico respondeu que “certos elementos” de Murder in Samarkand são “incorrectos” e “susceptíveis de induzir em erro”, mas não identifica quais. Sustenta também que “a crítica dirigida a antigos colegas é uma atitude desleal e inaceitável”. O FCO diz “cooperar” com diversos países “a fim de assegurar que os direitos humanos sejam cada vez mais respeitados em todo o mundo”.