É um rapaz mas parece uma rapariga e quando tem de
entrar numa casa de banho pública desafia as convenções. O bósnio Andrej Pejic
cresceu num campo de refugiados, era gozado na escola e agora tem os estilistas
a seus pés. É uma celebridade da moda. E mesmo que não saiba está a anunciar
uma revolução. Por Bruno Horta
É louro, tem olhos verdes e pele branca como a
neve. Mede um metro e 88, calça o 41 e fez 21 anos a 28 de Agosto. É por agora
o mais poderoso ícone da indústria da moda. Apareceu com uma rosa na boca nas
páginas centrais da Vogue Paris. A marca holandesa Hema fez dele protagonista
num anúncio de soutiens. O estilista Jean Paul Gaultier adoptou-o como musa e
tem-no feito desfilar por várias vezes com roupa de homem e de mulher,
incluindo um vestido de noiva em alta-costura.
Quando já se fala em mundo pós-gay, por via do
acesso universal ao casamento e à parentalidade (adopção, co-adopção e
procriação medicamente assistida), Pejic aparece para abalar o conforto das
grandes certezas. É uma menina num corpo de homem, rapaz em corpo de mulher,
espírito à solta que pede classificação urgente – o que é inútil e
impraticável.
[excerto de entrevista publicada no suplemento Quociente de Inteligência (QI), do Diário de Notícias de 8 de Setembro de 2012; pp. 18 e 19; aqui sem a grafia do Acordo Ortográfico de 1990]