Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevistas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevistas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 5 de setembro de 2015

"Uma Década Queer"

http://www.indexebooks.com/uma-decada-queer.html
"Uma Década Queer"
Este blogue tem estado parado desde que comecei a trabalhar num outro, Persona Grata, lançado em Março de 2015. Ao mesmo tempo, estive ocupado com a preparação de Uma Década Queer, livro electrónico com  50 entrevistas que fiz entre 2004 e 2014. 

Uma Década Queer, editado pela INDEX ebooks, com capa de Bráulio Amado, está à venda a partir de segunda-feira, 7, na Amazon, iTunes, Google Play, Kobo e Wook, entre outras lojas electrónicas.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

“Os meus filmes não são pornográficos”




Na semana passada, quando falou com a Time Out Lisboa, Travis Mathews não sabia que Interior. Leather Bar tinha estreia agendada no circuito comercial para esta quinta-feira, 3. “Tenho tido pouco contacto com a distribuidora em Portugal e não me disseram nada”, lamentou. A entrevista acontece durante o Queer Lisboa, no cinema São Jorge. O festival de cinema gay e lésbico exibiu aquele documentário de ficção (realizado em conjunto com o actor James Franco) e a curta In Their Room London (terceira parte de uma série de filmes conceptuais sobre a intimidade de homens gay). Nascido há 38 anos no estado do Ohio, Travis Mathews mora em São Francisco e é um autodidacta do cinema. Estudou psicologia e chegou a exercer, mas depois dos 30 anos cedeu à antiga paixão pela sétima arte.

Interior. Leather Bar faz parte de um conjunto de filmes recentes que adoptam a linguagem da pornografia. Concorda?
Chamo-lhe um documentário de ficção, mas a natureza do filme é muito escorregadia. Até agora, só tinha feito filmes gay, mas Interior. Leather Bar é um filme queer. Está entre a ficção e o documentário, entre o filme independente e o pornográfico. O conteúdo é sobre a desconstrução de fronteiras, sobre o que é ou não permitido. E além disso, o actor principal, Val Lauren, é mesmo heterossexual e aproxima-se de um mundo gay que é desestruturante, para ele e para muitas pessoas que entram no filme.

É possível saber onde começa e acaba a ficção neste filme? 
Não se sabe. Mas também não tenho problemas em falar sobre isso. Já me perguntaram sobre as conversas telefónicas que aparecem e eu assumo que são ficção. Filmámos com quatro ou cinco câmaras e toda a gente sabia que estariam sempre ligadas mesmo depois de eu dizer “corta”.



[excerto da entrevista publicada na Time Out Lisboa de 2 de Outubro de 2013, pp. 64-65] 

sábado, 20 de outubro de 2012

A arte de viver segundo Cindy Scrash



Era apenas uma transformista da noite de Lisboa até ter sido descoberta por João Pedro Rodrigues. É transexual. Tem 47 anos.

Dez da noite no Terreiro do Paço. O barco do Barreiro atraca e lá do fundo vem Cindy esguia, mini-saia e blusão de cabedal, phones nos ouvidos e carteira a tiracolo. “Olá, amor”, diz, muito loura, e logo se afasta para a casa de banho, talvez para retocar a maquilhagem. Daí a nada está a posar para a câmara fotográfica sem se queixar do frio que vem do Tejo. A seguir, um táxi, até à porta de um café no Chiado.



[excerto de texto publicado no Público de 18 de Outubro de 2012, p. 27]

domingo, 9 de setembro de 2012

A revolução de identidade que nasce com Andrej Pejic


É um rapaz mas parece uma rapariga e quando tem de entrar numa casa de banho pública desafia as convenções. O bósnio Andrej Pejic cresceu num campo de refugiados, era gozado na escola e agora tem os estilistas a seus pés. É uma celebridade da moda. E mesmo que não saiba está a anunciar uma revolução. Por Bruno Horta


É louro, tem olhos verdes e pele branca como a neve. Mede um metro e 88, calça o 41 e fez 21 anos a 28 de Agosto. É por agora o mais poderoso ícone da indústria da moda. Apareceu com uma rosa na boca nas páginas centrais da Vogue Paris. A marca holandesa Hema fez dele protagonista num anúncio de soutiens. O estilista Jean Paul Gaultier adoptou-o como musa e tem-no feito desfilar por várias vezes com roupa de homem e de mulher, incluindo um vestido de noiva em alta-costura.

Quando já se fala em mundo pós-gay, por via do acesso universal ao casamento e à parentalidade (adopção, co-adopção e procriação medicamente assistida), Pejic aparece para abalar o conforto das grandes certezas. É uma menina num corpo de homem, rapaz em corpo de mulher, espírito à solta que pede classificação urgente – o que é inútil e impraticável.



[excerto de entrevista publicada no suplemento Quociente de Inteligência (QI), do Diário de Notícias de 8 de Setembro de 2012; pp. 18 e 19; aqui sem a grafia do Acordo Ortográfico de 1990]

sábado, 4 de agosto de 2012

João Alves da Costa: "600 mil portugueses não passam sem ter o bumbum comido por brasileiras"


Acompanhantes sadomasoquistas? Anúncios de sexo nos jornais? Entretenimento para adultos? João Alves da Costa é um perito. E nesta entrevista a Bruno Horta explica como transforma em literatura as suas aventuras sexuais. Fotografia de Joana Freitas.


[excerto de entrevista publicada na revista Time Out Lisboa de 27 de Junho de 2012, pp. 20 e 21]

sábado, 14 de abril de 2012

"A minha caixa de madeira estava sempre aberta e nunca me faltou nada"

"Junto de mim estavam dois carteiristas. A um deles chamavam-lhe O Americano, porque de cada vez que vinha uma esquadra americana ao Tejo ele fugia da colónia disciplinar e vinha para o Cais do Sodré gamar carteiras aos americanos. E depois voltava, era penalizado, etc. Ao lado, estava outro que também era carteirista. E a minha caixa de madeira, debaixo da cama, com tudo aquilo que eu tinha, inclusive dinheiro, estava sempre aberta e nunca me faltou nada. [...] Havia um código de conduta entre nós [...] que era respeitado. Vejo muita gente que é considerada séria e que deve ter um estatuto menor do que o daqueles vigaristas com quem eu estive a lidar. [...] As pessoas não podem ser classificadas a preto e branco. Há toda uma avaliação da personalidade e do comportamento das pessoas que tem de ser feita independentemente dos seus sinais exteriores ou mesmo de alguns actos condenatórios que fizeram."
Historiador e político José Manuel Tengarrinha sobre a sua passagem pela Colónia Penal de Penamacor, em entrevista à Antena 1 emitida a 12 de Abril de 2012 (a partir do minuto 10).

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quando a identidade começa a desaparecer

«People with blue eyes do not have an identity because nobody reacts negatively to them. People with a black skin, which is simply another color of another part of your anatomy, do have an identity because there has been a history of negative reaction to them. [...] For gay people, this negative reaction has sprung from a number of sources, whether it was from those who said we were immoral and sinners, those who said we were illegal and criminal, or those who said we were sick and perverted. [...] When the negative reaction begins to cease [...] you find that the identity itself begins to fade. I see that eventually happening with gays, but it has a long way to go — particularly if the fundamentalists keep pounding away. It’s a bit too soon to know exactly where this marriage issue will go.»
Frank Kameny (1925-2011), activista gay americano, numa entrevista de 2003 publicada pela primeira vez há poucos dias, aqui.

Conjugar com:
«A vida gay contemporânea tornou-se pouco estimulante como tema literário. Sei que as coisas não são perfeitas, mas hoje há cada vez mais homossexuais assumidos, logo, ser gay tornou-se quase irrelevante, porque pouco distintivo. Havia mais material quando se tratava de uma questão problemática, quando havia conflito e ocultação. [...] Um movimento de libertação que,  em última análise, ambiciona deixar de existir... É como a literatura gay, que tem esse propósito e acaba por o ver extinguir-se. Não posso falar por uma imensidão de pessoas. Sei que os gays continuam a achar graça à provocação, o que não aconteceria se tivesse havido uma integração avassaladora.»
Allan Hollinghusrst, aqui

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Entrevista com Alan Hollinghurst


Depois do gravador desligado, no bar de um hotel de Lisboa, o escritor britânico Alan Hollinghurst fala sobre as redes sociais na internet e nota que têm mudado bastante a forma como os homens gay se conhecem. “Talvez seja o tema do meu próximo livro.” Pouco antes, foi outro o motivo da conversa: O Filho do Desconhecido, publicado em Junho em Inglaterra e agora traduzido para português. É o menos homoerótico dos seus cinco romances. [...] Tímido e fleumático, Hollinghurst, de 57 anos, fala como escreve: o mais importante nas entrelinhas



Disse numa entrevista recente que ser conhecido como escritor gay já não tem importância.
Cansei-me desta cena: entrevistadores heterossexuais de mente aberta que vão ter com o escritor gay para que ele fale sobre sexo. Em 2011, as entrevistas deveriam ir mais além. Mas não tenho tido sorte.

Que explicação encontra?
É uma narrativa com a qual as pessoas continuam a identificar-se. Aparecer como gay foi importante no início [o primeiro livro, A Biblioteca da Piscina, saiu em 1988 e foi traduzido em Portugal em 2009]. A literatura gay mal existia, pelo menos aos olhos do grande público. Entretanto, houve enormes alterações, a nossa cultura tornou-se liberal e progressista neste particular. A categoria literatura gay dissolveu--se na corrente e, de certa forma, tornou-me menos necessária.

Quer dizer que quanto mais direitos legais são reconhecidos aos homossexuais no Ocidente, menos interessantes se tornam.
Sem dúvida. A vida gay contemporânea tornou-se pouco estimulante como tema literário. Sei que as coisas não são perfeitas, mas hoje há cada vez mais homossexuais assumidos, logo, ser gay tornou-se quase irrelevante, porque pouco distintivo. Havia mais material quando se tratava de uma questão problemática, quando havia conflito e ocultação.
 
É por isso que O Filho do Desconhecido é o menos gay dos seus romances?
Não sei. Este livro descreve vários graus de dificuldade na relação com a homossexualidade. Começa em vésperas da I Guerra Mundial, quando é uma coisa sobre a qual não se pode falar, e acaba em 2008, num mundo com uniões civis [civil partnerships] entre homossexuais. É um livro cheio de ambiguidade sexual e daí as personagens bissexuais. Interessou-me escrever sobre a variedade de experiências sexuais, não tanto sobre comportamentos classificáveis.
 
E parece ter-se cansado das cenas de sexo entre homens.
Nunca me cansaria de tal coisa. O leitor é deixado à mercê da incerteza que rodeia as personagens e não sabe, à excepção de um ou dois momentos, o que aconteceu entre elas. Teria sido incongruente explicitar demasiado.
 
Uma coisa que mantém é o fascínio pelas classes altas. Porquê?
Na verdade, o que me fascina é o fascínio pelas classes altas. É um complexo muito britânico, que mistura uma certa inveja com vontade de lá chegar. É muito divertido escrever sobre as classes altas. Fazem o que as outras não podem, têm maior margem de manobra para pisar o risco. Na minha cabeça há um pouco de Henry James: escrever sobre os interstícios da vida privada, sobre as classes cuja origem dos rendimentos é deselegantíssimo referir. Neste sentido, estarei a dar continuidade à tradição britânica da comédia de costumes.
 
Sobre o Prémio Booker [o mais importante da literatura inglesa]: porque é que não lho deram este ano?
Devem ter achado que o meu livro não era bom.

E para além dessa resposta politicamente correcta?
A presidente do júri, Stela Rumming, antiga líder dos serviços de espionagem [directora-geral do MI5 de 1992 a 96] é uma pessoa sem grandes pergaminhos literários. E foi muito clara ao dizer que queria distinguir histórias diferentes do habitual. É-me difícil dizer mais, passaria por ressentido.

Que opinião tem sobre a era do casamento gay e das uniões civis registadas?
As uniões começaram em Inglaterra em 2005 e passei o ano seguinte a ser convidado para cerimónias. Agora estou a viver a primeira vaga de divórcios. É uma imitação da estrutura social vigente. Parece-me bem. Não tenho a nostalgia que noto em algumas pessoas mais velhas que eu, que conservam a excitação da ilegalidade e ficaram muito desapontadas com o caminho que o movimento gay tomou.

Foi um caminho de libertação ou de arregimentação?
Um movimento de libertação que,  em última análise, ambiciona deixar de existir... É como a literatura gay, que tem esse propósito e acaba por o ver extinguir-se. Não posso falar por uma imensidão de pessoas. Sei que os gays continuam a achar graça à provocação, o que não aconteceria se tivesse havido uma integração avassaladora. Mas também vejo que os desfiles gay tinham objectivos políticos e agora são festas com homens seminus. Já não há um ponto de vista político, é tudo pour épater le bourgeois. Tenho sentimentos paradoxais sobre este assunto.

Bruno Horta

(entrevista originalmente publicada na revista Time Out Lisboa de 23 de Novembro de 2011)

domingo, 21 de agosto de 2011

Subúrbios

"A pesar de que todos queremos vivir en el centro, nuestra manera de ser tiene que ver con esa fealdad y con esa precariedad."

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Vindos não sei de que cama"

«Creio que os centros culturais em velocidade de cruzeiro – Culturgest, Maria Matos, Centro Cultural de Belém... – andam a produzir todos o mesmo espectáculo teatral, que acredita numa coisa em que não acredito de todo: a especificidade teatral, a autoria da cena sobre a autoria literária. [...] [O] teatro que me interessa [...] é a literatura. [...] Numa sociedade dominada pela superficialidade da imagem, nas artes performativas, o que está a ser feito é a criação de imagens, acompanhadas de vagos lugares-comuns sobre a filosofia contemporânea. Três frases de Agamben, meia de Zizek, duas de Didi-Huberman mais três notícias de jornal e uma imagem forte e fica o espectáculo feito. Sou bastante contra.»
[...]
«Hoje assiste-se em Portugal à mesma coisa [lógica do Festival de Outono, criado em França em 1972, que passou a concentrar apresentações teatrais numa só época do ano, levando o público a consumir teatro em massa de uma só vez, e não ao longo do ano]: quem não vai ao cinema o ano inteiro pode ir ao Indie, ao Doc. "Foste ao Doc? Sim, vi seis filmes!" Ou seja, armazenou para o seu bem-estar económico seis filmes sem ir ao cinema nas outras alturas do ano. São ritos de iniciação à sociedade promovidos por estas entidades. E isto cria um público. Tem a ver com aquela figura a meu ver tremenda que é o programador, intermediários vindos não sei de que cama que aparecem para dizer à pessoas [o que ver]. Até aqui eram os artistas que faziam isso.»
Jorge Silva Melo, Público, 14 de Agosto

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Arrumar 2010

O Rei da Evasão, de Alain Guiraudie [na foto], que se estreou no Cinema King, em Lisboa,  no dia 11 de Novembro, não é um filme brilhante: fantasista, lento, inverosímil, previsível. Mas o realizador, que entrevistei por e-mail (uma entrevista breve, para recolha de depoimento) em vésperas da estreia, parece ser uma pessoa muito interessante. Excertos da entrevista saíram na revista Time Out Lisboa a 10 de Novembro. Fica aqui a totalidade, em inglês, como no original.

1 - Why did you chose an obese and middle-age actor (Ludovic Berthillot) to play the main character of Le roi de l'évasion?
I was looking for a middle-age actor (because it is a middle-age crisis movie) but not specially for an obese one. Ludovic Berthillot was simply the best of all the actors we met in this casting. 

2 - The story of Le roi de l'évasion is very surrealistic. Why is that?
In my movies, I use to mix elements of reality and what I would like the reality to be... I try to reinvent the reality... But for me, that is not surrealism.

3 - Where was the film shoot?
It was shot around the city where I live: Albi in the Tarn, close to Toulouse.
4 - Why is there a frequent presence of the rural world in your work? Is just because of your origins? What do you want to tell us about the rural world?
I was born in a small village. So, this rural world is my world. At least the world I know the best. All French films use to happen in big cities, that means in Paris, in the middle class, I want to talk from another part of the world... I don't like the idea that everything that happens in the world, happens in main cities.

5 - What do you think about the way mainstream cinema portraits gays and lesbians today? You seem to go counter-current. Do you agree?
As you can imagine, I don't like it so much. I specially don't like the fact that homosexuality and sexuality (and even sensuality) would only concern young, urban, beautiful and wealthy people... As movies, television or magazines try to make us believe since the 80's. And personally, I think that fat and old people can be very sexy.

6 - Do you consider yourself heir of directors like Pasolini?
Yes, but I prefer Fassbinder.

7 - What's your opinion on categories like "LGBT cinema" or "queer cinema"?
First, I want to make films for cinema... I don't want to be considered as a gay director... I don't even like the words "gay" or "queer"... Which are just American politically correct words. And I am French, so I use French words to say who or what I am. And I don't feel gay, I feel homosexual... I live as a homosexual. And I make cinema as a homosexual person, which is very important for me... In my movies, the marginality becomes the norm. So my movies are not queer or LGBT, they are movies.

8 - Are you 46 years old? Where do you live nowadays?
Yes, I'm 46 years old and I live in Albi near Toulouse.