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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Fixe este nome: Gengoroh Tagame




Gengoroh Tagame ainda é um nome pouco familiar entre leitores habituais de manga (banda desenhada japonesa). No Japão, pelo contrário, é uma lenda viva, sendo certo que o país tem uma oferta e consumo de BD muito acima da média de qualquer país ocidental.


Com 50 anos de idade e 20 de carreira, Gengoroh Tagame acaba de publicar o quarto livro em inglês, Fishermen's Lodge, através da editora alemã Bruno Gmünder. O álbum inclui duas outras histórias breves, Confession e End Line.


“Como sempre faço, tentei mostrar a beleza e o erotismo dos corpos masculinos”, diz o artista à Time Out Lisboa, através de uma entrevista por correio electrónico.


[excerto de artigo publicado na Time Out Lisboa, 24 de Dezembro de 2014, pp. 64-65]

sábado, 31 de janeiro de 2015

"Ainda há quem ache que ser gay é ser especial"


(foto: Queer Lisboa)
Andrew Haigh saiu do quase anonimato em 2011, quando assinou a longa-metragem Weekend, exibida em 2012 no festival de cinema Queer Lisboa. A história de dois homens que ficam juntos por um fim-de-semana foi celebrada por apresentar uma visão despretensiosa das relações gay. Britânico, nascido há 41 anos em Harrogate, no Norte de Inglaterra, Haigh juntou-se em 2013 ao canal americano HBO como um dos autores, produtores e realizadores de Looking. A série mostra um grupo de amigos gay de São Francisco, perdidos entre o admirável mundo novo da homossexualidade sem censura e o desejo de uma vida amorosa estável. A primeira temporada de Looking passou no ano passado em Portugal, através do canal por cabo TVSéries, o mesmo que a partir de 29 de Janeiro vai emitir a segunda temporada (que se estreou a 11 de Janeiro nos EUA).

A imprensa americana diz que a primeira temporada de Looking teve “audiências modestas”. A história vai mudar muito para alcançar mais público?
Não me parece. O público é sempre relativamente pequeno em séries deste género, porque se trata de temática gay. Eu e o Michael [Lannan, criador da série] achámos que seria de manter a história como está, em vez de a adaptar à luta por audiências.
[...]
Em Weekend também nos mostrou dois gays comuns. É uma forma de combater os estereótipos ou uma cedência à representação aceitável da homossexualidade?
Nem uma coisa nem outra. Nunca tive como objectivo promover, através do grande ecrã, certas formas de sexualidade. Weekend e Looking não são sobre todos os homossexuais, são sobre as personagens que ali estão. Por vezes, quando se filma uma história gay parece que tudo tem de se resumir à sexualidade. Não é o aspecto mais importante. Sou gay, gosto de contar histórias sobre vidas que entendo bem e o que quero é ser fiel ao meu entendimento do mundo.

[excerto da entrevista publicada na Time Out Lisboa, 21 de Dezembro de 2014, p. 64]

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

"O meu nome não era eu, era o que outros fizeram de mim" (excerto)


E de repente, no fim de 2014, aparece o livro gay mais impressionante dos últimos 12 meses. Acabar com Eddy Bellegueule, autobiografia sob a forma de romance, relato atroz da violência física, verbal e simbólica sobre um adolescente homossexual que vive numa aldeia e pertence a uma família pobre. “Um manifesto sobre a possibilidade de nos reinventarmos”, diz o autor, Édouard Louis.

A Time Out entrevistou-o, há dias, em Lisboa. Rapaz alto, magro, de sorriso tímido, muito curioso, nasceu há 22 anos numa aldeia de Hallencourt, no Norte de França. Vive agora em Paris, onde estudou sociologia. Começou a escrever este primeiro romance quando tinha 19. É ele o protagonista da história, quando ainda se chamava Eddy Bellegueule.

Entretanto, mudou de nome, matou o passado e arrumou-o neste livro – trazido para Portugal por uma nova editora lisboeta, Fumo Editora, com tradução do crítico António Guerreiro. O realizador André Téchiné, adianta Édouard Louis, vai adaptar a história ao cinema e o filme deverá sair em 2016.


Fez questão de ser entrevistado pela Time Out Lisboa quando lhe disseram que é a única publicação em Portugal que escreve regularmente sobre a realidade gay. Porquê?
Porque sou gay e é importante falar para o público gay. Muitos artistas e escritores têm problemas com isso. Há pouco tempo, em França, houve grande controvérsia por um jornalista se ter dirigido a Xavier Dolan com a expressão “realizador gay”. Ele respondeu: “Sou realizador, não sou um realizador gay”. Para mim é muito importante afirmar esta condição. Aliás, tento mostrar com o livro que a homossexualidade foi a única maneira que encontrei de fugir da minha família. Foi por ser homossexual que consegui fugir.

Se não fosse homossexual teria reagido de outra forma?
A princípio, foi um problema, a família do Eddy dizia-lhe que ele não fazia parte da família, porque era homossexual. Ele tentou tudo para ser normal, quis jogar futebol, quis gostar de mulheres. Mas depois percebi que era impossível, sentia este desejo e continuava a ser um rapaz feminino. No fim do livro, mostro que foi por os outros dizerem que eu era diferente que não tive outra escolha que não fosse ser diferente e fugir. A sociologia explica isto: se houver cinco filhos numa família pobre e um deles abandonar a família, são altas as hipóteses de ele ser homossexual.



[uma versão desta entrevista foi publicada na Time Out Lisboa de 3 de Dezembro de 2014, p. 78]

sábado, 22 de novembro de 2014

"Che Guevara era um terrível homofóbico"

É tímido o homem que sai do elevador no átrio do hotel. É o mítico Bruce LaBruce, cujos filmes usam a pornografia como forma de discurso artístico e político. Visitou Lisboa no primeiro fim-de-semana de Novembro para participar no ciclo “Harvard na Gulbenkian”, durante o qual foram exibidos Super 8 ½ (1994) e Gerontophilia (2013). Aos 50 anos, o realizador nascido em Ontário, no Canadá, cujo primeiro filme é de 1987 (Boy, Girl), continua a querer ser visto como dissidente. Pode ter filmes em Sundance ou Locarno, mas não alinha com apocalípticos ou integrados. Move-o o fetichismo e o tabu. Aparentemente ansioso, senta-se a conversar com a Time Out Lisboa num sábado de manhã.


Gerontophilia foi muito criticado por representar a sua normalização enquanto realizador. Será?
De certa forma, sim. Mas foi essa a minha intenção. Espera-se que faça sempre a mesma coisa e a única maneira que encontrei de continuar a ser polémico foi fazer um filme para o grande público. Quis pegar num assunto próximo das temáticas que costumo filmar, o fetichismo e o amor proibido, e dar-lhe uma forma narrativa mais comum. Na verdade, Gerontophilia não é assim tão diferente daquilo que já fiz. Há elementos românticos nos meus filmes anteriores, para lá do sexo explícito, e uma estrutura narrativa forte, apesar de fracturada e pouco convencional.
Vai abandonar a pornografia?
De maneira nenhuma. Há alguns anos tentei fazer filmes mais comerciais e nunca encontrei o argumento e o orçamento certos. Se calhar, não tinha vontade. Desta vez, foi possível.
Não se arrisca a perder o seu público?
Algumas pessoas ficaram desiludidas, mas era esse o objectivo: trabalhar contra as expectativas. Pierrot Lunaire [o mais recente filme, exibido este ano nos festivais IndieLisboa e Queer Lisboa] é um filme de baixo orçamento, com bastante violência, mas também diferente de tudo o que fiz até hoje. Ando a fazer coisas diferentes.


[excerto da entrevista publicada na Time Out Lisboa de 19 de Novembro de 2014, pp. 64-65]

domingo, 5 de outubro de 2014

O casamento gay de um católico

Bruno Horta já leu o novo livro de José António Almeida. É um olhar sobre os acontecimentos de Janeiro de 2010. 

Quatro anos passados sobre a entrada em vigor da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, está na altura de reflectir sobre o tema e apresentar um testemunho daqueles dias. Assim terá pensado o poeta e escritor José António Almeida, cujo novo livro, Memória de Lápis de Cor, faz um balanço muito pessoal daquilo a que ele chama “uma nova realidade que destrona arcaicas ficções delirantes e homofóbicas”. 

A capa cor-de-rosa, quase infantil, não deixa adivinhar o que as 47 páginas do livro exibem. O percurso do autor, marcado pela ficção e poesia, também não. Memória de Lápis de Cor, oitavo livro de quem começou a publicar em 1984, é diário, é crónica e são memórias. Não há poesia, apenas ideologia.

Nascido em 1960, declara-se “católico de condição homossexual”. A vivência no Alentejo profundo (vila de Cuba) leva-o a concluir que “a situação dos homossexuais melhorou um pouco na capital e noutras cidades durante os últimos anos mas continua muito complicada ou bastante difícil nas aldeias, vilas e pequenos centros urbanos.”

O artigo 13º da Constituição portuguesa, que desde 2004 inclui a orientação sexual como característica em função da qual ninguém pode ser prejudicado ou beneficiado, é “insuficiente, por demasiado abstracto”, escreve José António Almeida. O casamento gay, aprovado a 8 de Janeiro 2010, esse sim, “constitui a mais sábia, prudente e segura maneira de prevenir crimes de natureza vária contra qualquer homossexual vivo ou por nascer”. Acrescenta: “A já principiada institucionalização universal do casamento entre pessoas do mesmo sexo produz um efeito de homologação entre hétero e homossexuais.”

Numa obra que parece ser a primeira do género a pensar à distância as alterações do Código Civil em 2010 são lançadas farpas aos que vêem o casamento como uma “imposição uniformizadora da diversidade homossexual” (argumento de sectores feministas e de esquerda, segundo os quais o casamento é uma instituição retrógrada e os homossexuais não deveriam querer pertencer-lhe).

Sobre política partidária, o livro recorda que o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista foram os únicos a inscrever explicitamente nos seus programas eleitorais de 2009 a promessa de aprovação do casamento (mas José António de Almeida omite que num primeiro momento, em 2008, o Partido Socialista votou contra o casamento gay e em 2010 recusou a parentalidade aos homossexuais).

Sobre a Igreja, lê-se que “a mais purpurada hierarquia católica e os católicos fundamentalistas do mundo inteiro permanecem incapazes de compreender que é possível viver de amoroso modo a condição homossexual como forma de bem-aventurança”.

Por isso, José António de Almeida deixa o vaticínio: “O próximo grande passo rumo à vitória da liberdade e ao triunfo do amor parece ser o casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo.” Eis a ideia nova que o livro contém.

[textos publicado na Time Out Lisboa de 20 de Julho de 2014, p. 64]

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Já sabe o que vai ler nas férias?

Bruno Horta cumpre a tradição estival da secção Gay da Time Out e recomenda-lhe seis livros LGBT para os dias de descanso.

Propaganda
Joana Estrela
Plana Press, 10€
É a primeira obra de fôlego de Joana Estrela, ilustradora de Penafiel, de 23 anos. Estudou design na Faculdade de Belas- -Artes da Universidade do Porto e em 2012 tornou-se voluntária da Liga Gay da Lituânia, onde ajudou a preparar a primeira edição do Baltic Pride. A experiência deu o mote a este diário gráfico, escrito em inglês. Vende-se no site planapress.org.

Notícia do Maior Escândalo Erótico-Sexual do Século XX em Portugal
Zetho Cunha Gonçalves
Letra Livre, 14€
A Nota Prévia esclarece:  “O presente livro reúne pela primeira vez e na íntegra a totalidade dos textos que enformam a polémica gerada em torno da segunda edição do livro Canções, de António Botto.” A polémica é sumarenta, passa-se na Lisboa dos anos 20 e mete ao barulho Fernando Pessoa, Raul Leal, Júlio Dantas e Marcello Caetano. Além, claro, de Botto,  o nosso primeiro poeta homossexual digno desse nome, vítima da intolerância selectiva em Portugal.

O Caso Renato Seabra: Por Detrás das Cortinas
Marta Dhanis
Chiado Editora, 14€
Muito criticado por revelar sem autorização correspondência trocada entre Renato Seabra e a autora, o livro tem, afinal, apenas uma página (entre 118) com duas breves missivas. Assinado pela correspondente da TVI nos EUA, a obra conta escabrosidades colhidas em tribunal e reconstitui a relação do cronista Carlos Castro com o modelo Renato Seabra, aquele assassinado por este em Janeiro de 2011 num hotel de Nova Iorque.

Pompas Fúnebres
Eduardo Pitta
Ulisseia, 14,90€
Aqui se reúnem 48 crónicas que Eduardo Pitta publicou na revista Ler entre 2008 e 2014. Sempre obcecado com pormenores, datas, nomes, categorias, o autor carrega na sua já conhecida veia politicamente incorrecta e no seu não menos conhecido estilo irónico e sintético. Os textos não vêm datados, o que é pena, e por isso organizam-se em sequência lógica, não cronológica. Lê-se na página 19: “Fosse como fosse, Emily Dickinson isolou-se por opção. No quarto, só mesmo Helen Hunt Jackson, antiga companheira dos bancos de escola, e, sim, também isso em que possam conjecturar.” Promete. Mas só está à venda a partir da próxima semana.

Retrato de Rapaz
Mário Cláudio
D. Quixote, 13€
A atracção homoerótica que as classes baixas exercem sobre as classes altas ou burguesas é estudada pelas ciências sociais desde há pelo menos 30 anos. Não consta que a hipótese existisse nestes termos na viragem dos séculos XV para XVI – época que viveu Leonardo da Vinci. Mas é essa atracção, isenta ainda de identidades sexuais definidas, que Mário Cláudio explora numa prosa superior. O mestre renascentista apaixona-se (dê-se   o adjectivo que se queira a esta paixão) por um miúdo pobre que vai parar à sua oficina. A perda da beleza e da juventude, tema clássico em autores homossexuais, paira ali a tempo inteiro. 

Poemas Homoeróticos Escolhidos
Paulo Azevedo Chaves, Raimundo de Moraes
Index ebooks, gratuito
“Mas tu, amado, também te pões/ Assim como o sol, e crescem/ À minha volta as sombras/ Da solidão, velhice, morte.” Eis um dos clássicos homoeróticos, este assinado por Luis Cernuda (1902- -1963), que Paulo Azevedo Chaves e Raimundo de Moraes, ambos brasileiros, seleccionaram para a ocasião (alguns em tradução nova). Além disso, aparecem aqui originais daquela dupla. O livro, editado no Brasil em 2011 e agora repescado pela portuguesa Índex, é recomendável a quem não consegue ir de férias sem levar atrás a parafernália electrónica (sim, é um livro digital).
 
[textos publicados na Time Out Lisboa de 16 de Julho de 2014, pp. 72]

domingo, 1 de junho de 2014

Valentim de Barros, o bailarino a quem roubaram a vida

Viveu preso num hospital psiquiátrico entre 1949 e 1986. Todos o disseram louco mas a única “doença” que lhe apontaram foi ser homossexual

Valentim de Barros em 1968 (foto de José Fontes)

O bailarino português Valentim de Barros morreu há precisamente 28 anos, a 3 de Fevereiro de 1986. Tinha 69 anos e passou quase quatro décadas encarcerado no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Teve aulas de dança no Teatro Nacional D. Maria II, foi estrela cadente em palcos de Barcelona, Berlim e Estugarda, assistiu à ascensão dos nazis na Alemanha e chegou a ser preso pela polícia política em Portugal. Um dia, apagaram-no da sociedade. A vida diletante, o incerto fetiche pelo travestismo, a homossexualidade e os excessos da sua personalidade podem ter sido os motivos. Foi internado, operado ao cérebro, depois transferido para uma ala de segurança. Alimentou-se das memórias dos breves anos em que dançou e, mais tarde, a única afeição que conheceu foi a de médicos e enfermeiros. Chegou a ser entrevistado pelo “Diário de Lisboa” e pelo “Expresso”, mas vem a morrer doente e abandonado num quarto de hospital.
Maior que a vida, a história de Valentim é aqui reconstituída pela primeira vez na íntegra, com base em documentos inéditos. Por Bruno Horta.

Texto completo aqui.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

"Casamento e cultura gay", por António Guerreiro

Em tempos não muito recuados, a homossexualidade precisava de um álibi literário (onde adquiria geralmente o charme da transgressão) ou científico (quando era considerada uma patologia ou um distúrbio) para ser representada publicamente. A tolerância em relação ao que se passava na literatura emigrou, felizmente, de um modo geral, para a vida social. A imagem pública dos homossexuais como grandes consumidores e viajantes fez muito por isso: a plena cidadania adquire-se hoje muito especialmente pelo acto do consumo. A iconografia gay tinha então um aspecto kitsch muito marcado e era reconhecível à distância. Hoje, o kitsch correspondente à nova época aloja-se sobretudo numa forma de proselitismo que invadiu jornais e revistas: as reportagens sobre os casais homossexuais com filhos, todos a transbordarem de felicidade e de normalidade, em conformidade total com o ideal de vida que até há pouco tinha servido para os excluir. 
Mais do que isso: hiperconformes, como aquele judeu assimilado de que fala Hannah Arendt, Mr. Cohn, que foi sucessivamente alemão a 150%, vienense a 150% e francês também a 150% .

Michel Foucault, falando da cultura gay como aquilo a que ele chamava um “modo de vida” (e que o levava a dizer “temos que aspirar a tornarmo-nos homossexuais e não a reconhecer que o somos”, ou “a homossexualidade não é uma forma de desejo, mas algo desejável”), tentou equacionar este dilema: ou reintroduzir a homossexualidade na normalidade geral das relações sociais, ou, pelo contrário, fazer com que ela escape na medida do possível ao tipo de relações que é proposto na nossa sociedade, criando um espaço vazio onde são possíveis novas possibilidades de relação. Tais proposições ganhavam sentido numa altura em que a sexualidade era integrada na luta política, mas é duvidoso que hoje ainda o tenham. A questão de Foucault era a de inventar, multiplicar, modular as relações que podem ser estabelecidas através da homossexualidade. Em suma: criar modos de existência, tipos de valores, formas de troca entre os indivíduos que não fossem correspondentes às formas culturais gerais. Para ele, a sexualidade era uma questão de modo de vida e reenviava para uma técnica de construção de um sujeito.

Todas estas questões políticas estão hoje ausentes de qualquer debate e, provavelmente, só vinham perturbar aquilo que é justamente visto como conquista de igualdade e emancipação. Mas a um outro nível que não é o dos debates parlamentares e nem sequer o da discussão pública nos jornais, as coisas são muito mais complicadas e mal parece sairmos de um “mito” responsável por uma longa história de repressão entramos noutro que parece libertador, mas não deixa de ser uma mentira, com o seu correspondente estético no kitsch das representações fotográficas da felicidade conjugal e da maternidade e paternidade sem mácula. É inevitável que assim seja e as vantagens são bem maiores do que os malefícios? Provavelmente, mas isso não nos deve impedir de verificar que, neste domínio, mal uma restrição é anulada, logo outra se levanta. De resto, ao falar de uma “cultura gay”, Foucault não se referia a uma cultura liberta de todos os constrangimentos, mas a uma cultura em que os indivíduos submetidos a um sistema (não um sistema intolerável, pois aí não há mobilidade possível) conseguem criar os meios para o modificar num sentido que não é o da estratégia do Mr. Cohn.
António Guerreiro, Ípsilon (Público), 31 de Maio de 2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

"O espírito da fornicação", por António Guerreiro

«Nas últimas semanas, os media europeus têm tentado escrever uma crónica da vida esotérica do Vaticano que poderia intitular-se, à maneira nietzschiana, “A resignação do Papa a partir do espírito da fornicação”. Esta crónica informa-nos muito pouco sobre a vida secreta das altas instâncias da hierarquia católica, mas diz-nos muito sobre a excitação que provoca entrar na zona mais interdita às coisas da sexualidade, usando uma pergunta característica do século XIX: “Diz-me os teus desejos e eu dir-te-ei quem és”.

Tal crónica começou com a eleição, pelas revistas mais mundanas, de um símbolo sexy: um secretário do Papa, a quem chamaram o “George Clooney do Vaticano”. E prosseguiu com a revelação de um “lobby gay” por trás da extraordinária resignação. É sabido que o pressuposto da dominação heterossexual é o de que em qualquer lugar de poder onde residam mais do que dois homossexuais, aí se instala um lobby. Mas um “lobby gay” no Vaticano não tem qualquer verosimilhança. Antes de mais porque só poderia ser assim designado um grupo de influência, uma organização que se representa como classe com interesses comuns, em torno de questões que têm que ver com a integração da sexualidade na luta política e no debate religioso; em segundo lugar, porque o próprio conceito de “gay” refere-se não apenas a uma orientação sexual mas a uma forma e a um estilo de vida que criam uma cultura, ostensivamente exibida para ser objecto de reconhecimento. Um bispo pode ser homossexual, mas o que lhe está absolutamente interdito é ser “gay”.

O mais interessante porém é o facto de uma instituição que fez da castidade uma das suas regras classificar os seus membros como heterossexuais ou homossexuais, mas não os considerando em pé de igualdade: enquanto os primeiros são-no em potência, mas — em princípio — não em acto (aceitam submeter o corpo à maceração, à mortificação; detêm o poder imenso de não-fazer), os segundos são vistos como destituídos desse poder e, se são homossexuais em potência, logo também o são em acto; os primeiros, por exigência ascética, lutam contra o espírito da fornicação; os segundos estão reféns da concupiscência da carne e do espírito. Em suma, são o que sempre foram desde o século XIX, quando eram considerados “doentes do instinto sexual”.

Ora, o que é curioso verificar é que esta visão que a Igreja tem da homossexualidade é reproduzida nos media muito modernos, muito desinibidos, que até preferem dizer “gay” a “homossexual”, mas assim que vêem alguns homossexuais juntos acham que eles não podem estar a fazer outra coisa se não a fornicar ou a reivindicar a consciência de classe.»
António Guerreiro, Ípsilon (Público), 1 de Março de 2013

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"My life as a bear"

Um artigo sobre envelhecimento da autoria de James Collard, recentemente publicado pela Out, mostra, se preciso fosse, que os jornalistas americanos e britânicos conseguem sempre falar de coisas sérias com humor, o que os portugueses não sabem nem têm de saber, mas às vezes tentam. E o resultado é o que se sabe. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Gays no desporto? Não perguntes, não digas

Em Portugal não há um único desportista profissional que se assuma como  gay  ou transexual. Benfica, Sporting e FC Porto recusam-se a falar sobre o tema. E o Comité Olímpico entende que não é preciso adoptar qualquer política para defender os direitos das minorias sexuais. Na semana em que se iniciaram os Jogos Olímpicos de Londres, um retrato da homofobia e da transfobia no desporto de alta competição.



 
 
 
 

Conhec[e] algum futebolista português que seja homossexual? “Não”, responde Joaquim Evangelista, presidente da direcção do Sindicato de Jogadores Profi ssionais de Futebol (SJPF). Que leitura faz a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) do facto de não haver gays assumidos no campeonato nacional? “A Federação não pode pronunciar-se sem conhecimento de situações em concreto”, diz Sebastião Lobo, director de marketing e imagem da FPF. Há algum atleta olímpico português homossexual ou transexual? “Não tenho qualquer informação nesse sentido”, informa Vicente de Moura, presidente do Comité Olímpico Português (COP). 
TEXTO COMPLETO AQUI


[excerto de artigo publicado na revista 2, do jornal Público, de 29 de Julho de 2012; pp. 20-25]

domingo, 13 de maio de 2012

Onde está a novidade?


A já famosa declaração de Obama sobre o casamento gay não me aquece nem arrefece. O presidente norte-americano disse esta semana numa entrevista à ABC que  "pessoalmente" lhe parece "importante" que "os casais do mesmo sexo possam casar-se". No original: "I’ve just concluded that for me personally it is important for me to go ahead and affirm that I think same-sex couples should be able to get married."

Há que diga que a frase é histórica por nenhum presidente dos EUA algum dia ter falado tão abertamente sobre homossexualidade. Pois eu acho que a frase, além de ambígua, não tem nada de histórico nem de marcante.

Por três razões:
1) Obama não defendeu o casamento gay; conseguiu fazer-se passar por apoiante da causa, mas evidentemente, se for reeleito, não vai fazer nada (não fez enquanto podia) para mudar a lei federal. A frase de há dias serve apenas para agradar aos financiadores gay da sua campanha eleitoral (um em cada seis doadores de fundos para Obama são gays):

2) no dia anterior à declaração de Obama, o estado da Carolina do Norte votou esmagadoramente, em referendo, a favor da criação de uma cláusula constitucional estadual que impede explicitamente o casamento gay ou quaisquer formas de união gay naquele estado. Obama já tinha dito que se opunha a tal cláusula. Ou seja, tinha dito (através de um porta-voz, é certo) que apoiava o casamento gay. A declaração à ABC não contém, pois, novidade no conteúdo, mas apenas na forma: ser ele dizê-lo de viva voz.

3) A posição alegadamente inovadora de Obama só agrada a quem ainda pensa que o casamento gay é uma conquista legal importante; a declaração encaixa no discurso conformista segundo o qual as pessoas homossexuais querem uma conjugalidade e uma vida familiar decalcadas do padrão heterossexual (visão que muitos grupos gay fazem passar nos média como opinião consensual, o que não corresponde à verdade).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Metro de Lisboa não gosta de ver homens juntos


Quem é o defensor da moral pública e da higiene visual na cidade? O Metropolitano de Lisboa, evidentemente. Para o Metro, é indecente publicitar redes sociais da internet que promovam encontros entre homens. Vai daí, a transportadora pública acaba de proibir a afixação, em várias estações, de cartazes do Manhunt, rede social norte-americana onde são publicados convites para sexo e fotografias eróticas – e que tem, de acordo com dados próprios, cerca de 60 mil utilizadores registados em Portugal.

O representante do Manhunt em Portugal, Iuri Vilar, acusa o Metro de “homofobia”. Diz que apresentou duas versões de um mesmo cartaz publicitário e ambas foram rejeitadas por alegado “teor sexual”. A transportadora justifica-se: “É opção do Metro de Lisboa não aceitar a divulgação de uma campanha publicitária sempre que se coloque a dúvida de que a mensagem possa de algum modo ferir susceptibilidades.”

O caso foi gerido pela Multimedia Outdoors Portugal (MOP), empresa privada responsável pelos múpis (Mobiliário Urbano Para Informação) existentes nas estações de Metro. “Tive uma primeira reunião com os responsáveis pela MOP há cerca de um ano e mostraram-se muito entusiasmados, não revelaram qualquer preconceito, pelo contrário, até acharam importante a divulgação desta marca”, relata Iuri Vilar. “Passaram-se vários meses, sem que eu tivesse avançado, e em Outubro finalmente comecei a tratar de tudo para colocar publicidade nas estações de metro”.

Segundo este responsável, os cartazes deveriam estar em seis estações: Cais do Sodré, Restauradores, Marquês de Pombal, Rato, Picoas e Saldanha. Um total de 15 múpis expostos durante um mês, entre Dezembro de 2011 e Janeiro. “Quando lhes enviei por mail as artes-finais [versão definitiva do cartaz], onde aparecem dois homens de tronco nu quase a beijar-se, responderam que não aceitavam.”

A Time Out viu os emails trocados entre a MOP e Iuri Vilar. “Infelizmente o Metro não aprova esta imagem, pelo que não a podemos afixar”, escreveu a MOP, a 16 de Dezembro.

O representante da rede social remeteu um novo cartaz, poucos dias depois: apareciam dois homens também, mas desta vez vestidos. “Os temas de teor sexual não estão autorizados nas redes [de múpis]. O Metro de Lisboa não autoriza a afixação”, respondeu-lhe a MOP, por mail, a 19 de Janeiro. 

“É incrível”, comenta Iuri Vilar. “Trata-se obviamente um caso de discriminação e homofobia. Acho escandaloso que tenham dois pesos e duas medidas: a publicidade da Armani, com jogadores de futebol quase nus, ou da Triumph, com mulheres em lingerie, é considerada normal. Qual é a diferença entre isso e dois homens de tronco nu?”, questiona. Iuri Vilar vai “estudar o caso com os advogados” do Manhunt e pondera “apresentar queixa”.

Através da agência de comunicação Unimagem, o Metro disse à Time Out que  “a orientação vigente é a de rejeitar publicidade que não se coaduna com a imagem de um  serviço público que se dirige a uma multiplicidade de clientes com sensibilidades várias”. A Time Out quis saber quais as cláusulas do acordo entre a MOP e o Metro, mas ficou sem resposta.

No “Código de Ética e de Conduta”, publicado no site oficial, o Metro diz ter como “princípios estruturantes da sua actividade”, entre outros, a “erradicação de todas as práticas discriminatórias” e a “lealdade, justiça e equidade”.

A MOP não respondeu a diversas tentativas de contacto.

[notícia publicada na revista "Time Out Lisboa", de 25 de Janeiro de 2012, pág. 10]

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O casamento gay e a PMA são como os telemóveis

O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda preparam-se para apresentar projectos de lei que permitem às mulheres lésbicas aceder, entre outros aspectos, à fertilização artificial, e aos homossexuais recorrer a barrigas de aluguer. Projectos que visam alterar a actual lei da Procriação Medicamente Assistida (PMA), aprovada em 2006.  A discussão decorre esta quinta-feira na Assembleia da República. As hipóteses de tais alterações serem aprovadas são quase nulas (juntei aqui as notícias e opiniões mais importantes sobre este tema).

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, 2011 foi o ano em que nasceram menos crianças em Portugal desde que há registos (anos 60). E foi um ano com muito menos casamentos do que é costume (e, curiosamente, por causa da crise, também muito menos divórcios).

Vivemos no Ocidente a era da "igualdade no acesso ao casamento civil" (formulação ideológica, e hipócrita, para casamento gay). E mais dia menos dia veremos removidas barreiras legais à procriação e à parentalidade universais. Concordo com a segunda, milito contra a primeira (por razões não religiosas, que exponho aqui).

Os regimes permitem hoje alargar aqueles domínios às minorias, porque aqueles domínios estão decadentes e perderam a simbólica. 

As mudanças a que vamos assistindo são espúrias e anacrónicas. Por isso é que acontecem.

A conquista de direitos civis, sexuais e reprodutivos, por parte das minorias, não é, em rigor, uma conquista. É uma dádiva, por desprezo. Quando o resto da sociedade, de uma maneira geral, os descanoniza ou menospreza é que as minorias os podem alcançar.

É como com os telemóveis: disseminam-se e democratizam-se nas versões mais básicas, quando versões mais sofisticadas estão disponíveis para outras classes sociais que as podem comprar. Aparecem para todos quando já não fazem falta às elites.

Neste caso, cabe perguntar: que novos direitos ou privilégios têm as maiorias que as fazem dar aos outros, por via legal, o casamento e a reprodução?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quando a identidade começa a desaparecer

«People with blue eyes do not have an identity because nobody reacts negatively to them. People with a black skin, which is simply another color of another part of your anatomy, do have an identity because there has been a history of negative reaction to them. [...] For gay people, this negative reaction has sprung from a number of sources, whether it was from those who said we were immoral and sinners, those who said we were illegal and criminal, or those who said we were sick and perverted. [...] When the negative reaction begins to cease [...] you find that the identity itself begins to fade. I see that eventually happening with gays, but it has a long way to go — particularly if the fundamentalists keep pounding away. It’s a bit too soon to know exactly where this marriage issue will go.»
Frank Kameny (1925-2011), activista gay americano, numa entrevista de 2003 publicada pela primeira vez há poucos dias, aqui.

Conjugar com:
«A vida gay contemporânea tornou-se pouco estimulante como tema literário. Sei que as coisas não são perfeitas, mas hoje há cada vez mais homossexuais assumidos, logo, ser gay tornou-se quase irrelevante, porque pouco distintivo. Havia mais material quando se tratava de uma questão problemática, quando havia conflito e ocultação. [...] Um movimento de libertação que,  em última análise, ambiciona deixar de existir... É como a literatura gay, que tem esse propósito e acaba por o ver extinguir-se. Não posso falar por uma imensidão de pessoas. Sei que os gays continuam a achar graça à provocação, o que não aconteceria se tivesse havido uma integração avassaladora.»
Allan Hollinghusrst, aqui

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Recrudescimento

«O responsável pela associação Opus Gay, António Serzedelo, sublinha que “não subscreve” o tipo de jornalismo que o cronista [Carlos Castro] praticava, mas “respeitava-o como pessoa”. E entende que, em parte, foi a recente discussão e aprovação do casamento gay em Portugal que potenciou um recrudescimento dos sentimentos de ódio em relação às pessoas homossexuais. “Havia a ideia, vendida por algum associativismo e contra a qual sempre estive, de que as ligações gay eram imunes à violência. Foi uma forma de convencer a opinião pública de que o casamento tinha de ser aprovado, porque os casais homossexuais seriam quase perfeitos”, explica.»
Time Out Lisboa, hoje 

Foto: Luís Coelho.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"A Fire in My Belly"



Este vídeo, com mais de 20 anos, foi censurado em Dezembro de 2010 por um museu americano (National Portrait Gallery, em Washington). Mas esta semana foi comprado pelo MoMa (Nova Iorque) e está em exibição até Maio.

"A Fire in My Belly" foi realizado em 1987 por David Wojnarowicz (1954-1992). É uma dissertação sobre a era da sida. Com música de Diamanda Galás.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Arrumar 2010

O Rei da Evasão, de Alain Guiraudie [na foto], que se estreou no Cinema King, em Lisboa,  no dia 11 de Novembro, não é um filme brilhante: fantasista, lento, inverosímil, previsível. Mas o realizador, que entrevistei por e-mail (uma entrevista breve, para recolha de depoimento) em vésperas da estreia, parece ser uma pessoa muito interessante. Excertos da entrevista saíram na revista Time Out Lisboa a 10 de Novembro. Fica aqui a totalidade, em inglês, como no original.

1 - Why did you chose an obese and middle-age actor (Ludovic Berthillot) to play the main character of Le roi de l'évasion?
I was looking for a middle-age actor (because it is a middle-age crisis movie) but not specially for an obese one. Ludovic Berthillot was simply the best of all the actors we met in this casting. 

2 - The story of Le roi de l'évasion is very surrealistic. Why is that?
In my movies, I use to mix elements of reality and what I would like the reality to be... I try to reinvent the reality... But for me, that is not surrealism.

3 - Where was the film shoot?
It was shot around the city where I live: Albi in the Tarn, close to Toulouse.
4 - Why is there a frequent presence of the rural world in your work? Is just because of your origins? What do you want to tell us about the rural world?
I was born in a small village. So, this rural world is my world. At least the world I know the best. All French films use to happen in big cities, that means in Paris, in the middle class, I want to talk from another part of the world... I don't like the idea that everything that happens in the world, happens in main cities.

5 - What do you think about the way mainstream cinema portraits gays and lesbians today? You seem to go counter-current. Do you agree?
As you can imagine, I don't like it so much. I specially don't like the fact that homosexuality and sexuality (and even sensuality) would only concern young, urban, beautiful and wealthy people... As movies, television or magazines try to make us believe since the 80's. And personally, I think that fat and old people can be very sexy.

6 - Do you consider yourself heir of directors like Pasolini?
Yes, but I prefer Fassbinder.

7 - What's your opinion on categories like "LGBT cinema" or "queer cinema"?
First, I want to make films for cinema... I don't want to be considered as a gay director... I don't even like the words "gay" or "queer"... Which are just American politically correct words. And I am French, so I use French words to say who or what I am. And I don't feel gay, I feel homosexual... I live as a homosexual. And I make cinema as a homosexual person, which is very important for me... In my movies, the marginality becomes the norm. So my movies are not queer or LGBT, they are movies.

8 - Are you 46 years old? Where do you live nowadays?
Yes, I'm 46 years old and I live in Albi near Toulouse.