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sábado, 5 de setembro de 2015

"Uma Década Queer"

http://www.indexebooks.com/uma-decada-queer.html
"Uma Década Queer"
Este blogue tem estado parado desde que comecei a trabalhar num outro, Persona Grata, lançado em Março de 2015. Ao mesmo tempo, estive ocupado com a preparação de Uma Década Queer, livro electrónico com  50 entrevistas que fiz entre 2004 e 2014. 

Uma Década Queer, editado pela INDEX ebooks, com capa de Bráulio Amado, está à venda a partir de segunda-feira, 7, na Amazon, iTunes, Google Play, Kobo e Wook, entre outras lojas electrónicas.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Fixe este nome: Gengoroh Tagame




Gengoroh Tagame ainda é um nome pouco familiar entre leitores habituais de manga (banda desenhada japonesa). No Japão, pelo contrário, é uma lenda viva, sendo certo que o país tem uma oferta e consumo de BD muito acima da média de qualquer país ocidental.


Com 50 anos de idade e 20 de carreira, Gengoroh Tagame acaba de publicar o quarto livro em inglês, Fishermen's Lodge, através da editora alemã Bruno Gmünder. O álbum inclui duas outras histórias breves, Confession e End Line.


“Como sempre faço, tentei mostrar a beleza e o erotismo dos corpos masculinos”, diz o artista à Time Out Lisboa, através de uma entrevista por correio electrónico.


[excerto de artigo publicado na Time Out Lisboa, 24 de Dezembro de 2014, pp. 64-65]

domingo, 5 de outubro de 2014

O casamento gay de um católico

Bruno Horta já leu o novo livro de José António Almeida. É um olhar sobre os acontecimentos de Janeiro de 2010. 

Quatro anos passados sobre a entrada em vigor da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, está na altura de reflectir sobre o tema e apresentar um testemunho daqueles dias. Assim terá pensado o poeta e escritor José António Almeida, cujo novo livro, Memória de Lápis de Cor, faz um balanço muito pessoal daquilo a que ele chama “uma nova realidade que destrona arcaicas ficções delirantes e homofóbicas”. 

A capa cor-de-rosa, quase infantil, não deixa adivinhar o que as 47 páginas do livro exibem. O percurso do autor, marcado pela ficção e poesia, também não. Memória de Lápis de Cor, oitavo livro de quem começou a publicar em 1984, é diário, é crónica e são memórias. Não há poesia, apenas ideologia.

Nascido em 1960, declara-se “católico de condição homossexual”. A vivência no Alentejo profundo (vila de Cuba) leva-o a concluir que “a situação dos homossexuais melhorou um pouco na capital e noutras cidades durante os últimos anos mas continua muito complicada ou bastante difícil nas aldeias, vilas e pequenos centros urbanos.”

O artigo 13º da Constituição portuguesa, que desde 2004 inclui a orientação sexual como característica em função da qual ninguém pode ser prejudicado ou beneficiado, é “insuficiente, por demasiado abstracto”, escreve José António Almeida. O casamento gay, aprovado a 8 de Janeiro 2010, esse sim, “constitui a mais sábia, prudente e segura maneira de prevenir crimes de natureza vária contra qualquer homossexual vivo ou por nascer”. Acrescenta: “A já principiada institucionalização universal do casamento entre pessoas do mesmo sexo produz um efeito de homologação entre hétero e homossexuais.”

Numa obra que parece ser a primeira do género a pensar à distância as alterações do Código Civil em 2010 são lançadas farpas aos que vêem o casamento como uma “imposição uniformizadora da diversidade homossexual” (argumento de sectores feministas e de esquerda, segundo os quais o casamento é uma instituição retrógrada e os homossexuais não deveriam querer pertencer-lhe).

Sobre política partidária, o livro recorda que o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista foram os únicos a inscrever explicitamente nos seus programas eleitorais de 2009 a promessa de aprovação do casamento (mas José António de Almeida omite que num primeiro momento, em 2008, o Partido Socialista votou contra o casamento gay e em 2010 recusou a parentalidade aos homossexuais).

Sobre a Igreja, lê-se que “a mais purpurada hierarquia católica e os católicos fundamentalistas do mundo inteiro permanecem incapazes de compreender que é possível viver de amoroso modo a condição homossexual como forma de bem-aventurança”.

Por isso, José António de Almeida deixa o vaticínio: “O próximo grande passo rumo à vitória da liberdade e ao triunfo do amor parece ser o casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo.” Eis a ideia nova que o livro contém.

[textos publicado na Time Out Lisboa de 20 de Julho de 2014, p. 64]

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Já sabe o que vai ler nas férias?

Bruno Horta cumpre a tradição estival da secção Gay da Time Out e recomenda-lhe seis livros LGBT para os dias de descanso.

Propaganda
Joana Estrela
Plana Press, 10€
É a primeira obra de fôlego de Joana Estrela, ilustradora de Penafiel, de 23 anos. Estudou design na Faculdade de Belas- -Artes da Universidade do Porto e em 2012 tornou-se voluntária da Liga Gay da Lituânia, onde ajudou a preparar a primeira edição do Baltic Pride. A experiência deu o mote a este diário gráfico, escrito em inglês. Vende-se no site planapress.org.

Notícia do Maior Escândalo Erótico-Sexual do Século XX em Portugal
Zetho Cunha Gonçalves
Letra Livre, 14€
A Nota Prévia esclarece:  “O presente livro reúne pela primeira vez e na íntegra a totalidade dos textos que enformam a polémica gerada em torno da segunda edição do livro Canções, de António Botto.” A polémica é sumarenta, passa-se na Lisboa dos anos 20 e mete ao barulho Fernando Pessoa, Raul Leal, Júlio Dantas e Marcello Caetano. Além, claro, de Botto,  o nosso primeiro poeta homossexual digno desse nome, vítima da intolerância selectiva em Portugal.

O Caso Renato Seabra: Por Detrás das Cortinas
Marta Dhanis
Chiado Editora, 14€
Muito criticado por revelar sem autorização correspondência trocada entre Renato Seabra e a autora, o livro tem, afinal, apenas uma página (entre 118) com duas breves missivas. Assinado pela correspondente da TVI nos EUA, a obra conta escabrosidades colhidas em tribunal e reconstitui a relação do cronista Carlos Castro com o modelo Renato Seabra, aquele assassinado por este em Janeiro de 2011 num hotel de Nova Iorque.

Pompas Fúnebres
Eduardo Pitta
Ulisseia, 14,90€
Aqui se reúnem 48 crónicas que Eduardo Pitta publicou na revista Ler entre 2008 e 2014. Sempre obcecado com pormenores, datas, nomes, categorias, o autor carrega na sua já conhecida veia politicamente incorrecta e no seu não menos conhecido estilo irónico e sintético. Os textos não vêm datados, o que é pena, e por isso organizam-se em sequência lógica, não cronológica. Lê-se na página 19: “Fosse como fosse, Emily Dickinson isolou-se por opção. No quarto, só mesmo Helen Hunt Jackson, antiga companheira dos bancos de escola, e, sim, também isso em que possam conjecturar.” Promete. Mas só está à venda a partir da próxima semana.

Retrato de Rapaz
Mário Cláudio
D. Quixote, 13€
A atracção homoerótica que as classes baixas exercem sobre as classes altas ou burguesas é estudada pelas ciências sociais desde há pelo menos 30 anos. Não consta que a hipótese existisse nestes termos na viragem dos séculos XV para XVI – época que viveu Leonardo da Vinci. Mas é essa atracção, isenta ainda de identidades sexuais definidas, que Mário Cláudio explora numa prosa superior. O mestre renascentista apaixona-se (dê-se   o adjectivo que se queira a esta paixão) por um miúdo pobre que vai parar à sua oficina. A perda da beleza e da juventude, tema clássico em autores homossexuais, paira ali a tempo inteiro. 

Poemas Homoeróticos Escolhidos
Paulo Azevedo Chaves, Raimundo de Moraes
Index ebooks, gratuito
“Mas tu, amado, também te pões/ Assim como o sol, e crescem/ À minha volta as sombras/ Da solidão, velhice, morte.” Eis um dos clássicos homoeróticos, este assinado por Luis Cernuda (1902- -1963), que Paulo Azevedo Chaves e Raimundo de Moraes, ambos brasileiros, seleccionaram para a ocasião (alguns em tradução nova). Além disso, aparecem aqui originais daquela dupla. O livro, editado no Brasil em 2011 e agora repescado pela portuguesa Índex, é recomendável a quem não consegue ir de férias sem levar atrás a parafernália electrónica (sim, é um livro digital).
 
[textos publicados na Time Out Lisboa de 16 de Julho de 2014, pp. 72]

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Literatura gay como nunca ninguém a viu




O primeiro dicionário de literatura LGBT portuguesa é uma ideia da editora Índex. Electrónico e gratuito, escreve Bruno Horta.

O que é um livro ou um filme gay? Há peças de teatro gay? Porque é que um bar frequentado por todo o tipo de pessoas deve ser considerado gay? O que é gay não é para todos? Se é para todos, para quê chamar-lhe gay? São estas perguntas sem resposta definitiva que circulam com mais ou menos frequência pela redacção da Time Out Lisboa.

Pois parece que o dilema não é só nosso e acaba de fazer novas vítimas. São eles João Máximo e Luís Chainho, coordenadores do novo Dicionário de Literatura Gay e responsáveis pela editora que o dá à estampa, Índex Ebooks – primeira editora portuguesa de literatura LGBT em formato digital, fundada em Março de 2012.

O dicionário, descrito por João Máximo como “o primeiro do género em português, tanto quanto se saiba”, começa a ser publicado já na próxima segunda-feira, 24. Electrónico e gratuito, pode ser descarregado através das lojas online Amazon, Google Play e Apple e no site de impressão a pedido (print on demand) Lulu.com. É projecto para durar cerca de um ano. Ao longo dos próximos meses vão saindo fascículos que correspondem às letras do alfabeto.

Para já, sai o tomo da letra “A”. Começa com A Alma Trocada, de Rosa Lobato Faria, e vai até Aula de Poesia, de Eduardo Pitta. Foi este primeiro volume que a Time Out já leu numa versão provisória. Nele aparecem livros como A Vida de Horácio, de José António Almeida; Antinous, de Fernando Pessoa; ou Agradece o Beijo, de Ana Zanatti; e notas biográficas de Ary dos Santos ou Al Berto.

Nas primeiras páginas surge um aviso que demonstra a dificuldade dos coordenadores na escolha do conteúdo. “A inclusão de um autor, editor, livreiro, ou qualquer outra pessoa, não tem qualquer significado em relação à sua orientação sexual. O único critério para inclusão de autores ou outros prende-se com a sua contribuição para a literatura gay”, lê-se.

João Máximo explica à Time Out que o objectivo do aviso é o de “evitar causar melindre”. E dá um exemplo. “Há uma entrada para António Lobo Antunes, por causa do livro Que Farei Quando Tudo Arde? Ele não é um autor de literatura gay, mas aquela obra  é de temática gay.”

O mesmo responsável nota que ele e os colaboradores do projecto, cuja lista final de nomes está por fechar, não são académicos nem especialistas em literatura. “Não temos a veleidade de fazer uma análise literária profunda, por isso é que se trata de um dicionário e não de uma enciclopédia. Limitámo-nos a elencar referências, não estamos a fazer crítica ou estudos comparados”, afirma. “O objectivo é ter uma lista exaustiva: tudo quanto soubermos e conseguirmos apurar, entra.”

Com capa inspirada numa serigrafia de Salvador Dalí, o dicionário junta algumas ideias e sugestões recolhidas através de um fórum que os editores criaram em 2012 no site GoodReads. Pela primeira vez, sob a forma de fichas de leitura, junta-se informação dispersa que pode ser útil a quem acompanha a temática LGBT. A grafia escolhida é a do Acordo Ortográfico de 1990.

Há citações e hiperligações de diversas fontes, uma das quais a Time Out Lisboa (por iniciativa dos organizadores), e são apenas referidos autores de língua portuguesa publicados em Portugal. “Limitámos o âmbito, porque não temos acesso a especialistas que nos dêem informações sobre tudo o que sai nos países de língua portuguesa”, justifica João Máximo. “O critério principal é o interesse que certos livros ou autores têm para a comunidade LGBT. A fronteira não é fácil de definir, haverá sempre lugar a grandes debates”, conclui.
[texto publicado na Time Out Lisboa de 19 de Fevereiro de 2014, pp. 64]

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Que farei sem este armário?


Dois poemas neste livro parecem comunicar entre si, mesmo se estão longe em termos de forma e de paginação: “As Bodas de Caná” (pág. 7) e “Armário Antigo” (pág. 64).

No primeiro, José António Almeida  (n. 1960) canta loas ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, do ponto de vista do que seria a inexistência desta lei: “Que podem dois rapazes como nós/ senão viver assim dissimulados/ e procurar sorrir desentendidos/ a perguntas que ficam sem resposta./ Ninguém abençoa a nossa aliança// – nem aplauso, nem música, nem vinho.”

No segundo poema, metáfora do fim da ocultação gay, dois versos lançam uma pergunta desconcertante: “Agora que enfim dele nos livrámos,/ que vamos nós fazer sem esse armário?”

Arco da Porta do Mar, agora editado pela &Etc e com ilustração da capa de Luís Manuel Gaspar, sucede imediatamente a Obsessão (2010) e a O Casamento Foi Sempre Gay e Nunca Triste (2009), dois livros de poemas que avultavam em activismo e homoerotismo. São marcas de um autor que começou a publicar em 1984 e há muito se apresenta fora do armário.

Desta vez, porém, José António Almeida aprofunda o tom, transformando-o; a espaços, pornográfico: “Sombra longa de faca que foi círio/ vermelho numa tenda toda branca” (“Velho Poeta em Maus Lençóis”, pág. 17); “Secreta flauta tocas, pastorinho/ – e no mais profundo de mim mesmo sei/ que sou tua, pastor, ovelha negra.” (“Ovelha Negra”, pág. 24); ou ainda no apenso em prosa “Corandel”, no fim do volume: “Talvez a poesia seja um noivo ou um mistério que nunca se abandona ou de nós, por magna razão desconhecida, não desiste, se acaso, ainda que por uma única e bastante fortuita vez, no passado mais pretérito lhe pertencemos a ele, esse noivo ou mistério, pelo nosso rabinho, devagar e direito e com muita humildade, docemente se entranhou” (pág. 80).

No mesmo registo, “Releitura de Kavafis nos Trópicos” (pág. 46) é uma rara composição sobre a vida interior numa sauna gay: “Vermelho fulgor, húmido, tangível,/ do deleite carnal sem atavios/ trepando por sorrisos e blandícias// em cave corroída de bolor./ Com o musgo do sexo na parede/ da casa abrasadora desse bairro,/ decrépito bordel onde provei/ com fúnebre sabor e passiflora/ migalha de torpor do paraíso.”

É um livro culto, com densas camadas a pedirem exploração atenta, mas talvez carregue um excessivo adorno de epígrafes, dedicatórias e citações (inglês, francês, italiano). Trabalho de filigrana que José António Almeida parece justificar em “Corandel”: “Não sei, nem nunca saberei, definir poesia. Mas a palavra que para mim, apesar de tudo, está mais próxima dela é a palavra obsessão.” Bruno Horta

[texto publicado na Time Out Lisboa de 8 de Janeiro de 2014, p. 65]

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Os rapazes lá do bairro

Um novo livro recupera fotografias captadas em Nova Iorque nos anos 60. Hoje dizemos que são imagens gay, à época dizia-se que eram imagens de atletas, escreve Bruno Horta.

Danny Fitzgerald (1921-2000) gostava de teatro e cinema e coleccionava revistas de homens nus. Tinha estatura baixa, era um pouco efeminado e musculado. Cresceu em Brooklyn, Nova Iorque, e viveu praticamente a vida inteira em casa dos pais: mãe italiana, pai irlandês, ambos comerciantes. Era um homossexual no armário, como então se usava, mas o interesse pelas artes levou-o a aproximar-se da fotografia no fim da década de 50 e a tornar-se fotógrafo de rapazes de rua. Fez centenas de retratos numa estética que imitava ora o retrato clássico,  ora a pornografia homossexual típica daquele tempo nos EUA.

Brooklyn Boys, agora publicado pela editora alemã Bruno Gmünder, recupera essas imagens vintage. Com edição e textos de Robert Loncar e James Kempster, o volume reproduz 152 fotos, quase todas a preto e branco, tiradas entre 1959 e 1966.

Talvez surpreenda o facto de os modelos cultivarem um aspecto atlético e cuidado, nada distante do padrão actual. De resto, o trabalho de Danny Fitzgerald não foi totalmente inovador.

Depois da II Guerra Mundial tinha surgido nos EUA a moda das revistas fotográficas com homens nus, incluindo na capa. Physique Pictorial, de Bob Mizer, foi a pioneira. Depois veio a Adonis, a Body Beautiful, a Young Physique, entre muitas outras. Não eram apresentadas como revistas para homossexuais, embora toda a gente soubesse que  era esse o público principal. À superfície, revistas que fomentavam a prática de exercício físico. Na verdade, as primeiras revistas pornográficas gay. “Beefcake magazines” é o termo utilizado em inglês. (Um parêntesis para dizer que em 2000 o artista plástico lisboeta João Pedro Vale criou uma peça intitulada “Beefcake”, consistindo num haltere de musculação, em baton e esferovite, que remetia para o imaginário erótico daquelas revistas.)

Os rapazes das classes baixas, muitos de origem italiana, foram os primeiros e os principais modelos de Danny Fitzgerald. Viviam na zona de Carroll Gardens, em Brooklyn, e pertenciam ao famoso gangue dos anos 50 “South Brooklyn Boys” , nome que passaria a designar mais tarde todos os jovens italo-americanos que faziam da rua  um modo de vida. Alguns eram prostitutos, Danny Fitzgerald pagava-lhes para posarem.  

O fotógrafo conhecia-os no ginásio que frequentava. “Impressionava-os ao exibir conhecimentos de literatura e cultura geral e através de elogios à beleza física dos jovens. Era então que uma nota de dez, 20 ou 50 dólares escorregava para os bolsos dos rapazes”, lê-se.

Ao longo da década de 60, Danny Fitzgerald apurou o estilo e passou a publicar nas revistas Era, The Young Physique e Muscles à Go-Go, entre outras. Assinava como Les Demi Dieux. Praticamente até ao ano da sua morte, poucos sabiam quem era  a pessoa por detrás do pseudónimo. Brooklyn Boys é o primeiro livro que junta as peças. Richard Bennett, um dos modelos e mais tarde companheiro de vida, trabalhou sempre com ele e ajudou na elaboração do livro.

Os editores destacam a influência, no trabalho de Danny Fitzgerald, de fotógrafos como Alfred Eisenstaedt (famoso pela foto do casal que se beija em Times Square no fim da  II Guerra) e de realizadores  como Leni Riefenstahl e Sergei Eisenstein.

Será exagero acrescentar que muitos anos depois seria Danny Fitzgerald a exercer influência sobre fotógrafos como Bruce Weber, aquele que criou a imagem homoerótica das marcas Calvin Klein e Abercrombie & Fitch?

[texto publicado na Time Out Lisboa de 6 de Novembro de 2013, pp. 64 e 65]

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Elvis

Elvis - Kneeling at the Mosque - Richmond - Virginia -  June 30 1956
Fotografia hoje divulgada pela editora Taschen para promover o livro Alfred Wertheimer. Elvis and the Birth of Rock and Roll, de Chris Murray e Robert Santelli, que vai ser publicado em Fevereiro.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Do caos nasceu uma obra-prima



Há seis anos, Alison Bechdel estava prestes a desistir da vida de desenhadora e cartoonista. “Era cada vez mais difícil ganhar a vida e pensei que teria de arranjar um emprego a sério”, conta. Foi quando conseguiu publicar Fun Home, história autobiográfica em banda desenhada que se tornou um êxito de vendas e chegou a “Livro do Ano” do New York Times. “Este livro salvou-me a carreira”, constata a autora, nascida há 52 anos no estado da Pensilvânia, EUA.

 


[excerto de texto publicado na revista Time Out Lisboa de 17 de Outubro de 2012, p. 64]

domingo, 3 de junho de 2012

Zé Borrego

A história foi ressuscitada no Verão de 2010 pelo jornal Público: Zé Borrego, assassino homofóbico que nos anos 60 saiu das serranias para limpar Lisboa (escrevi aqui uma entrada sobre a reportagem que o Público então deu à estampa).

O livro Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo, de João Ferreira, recentemente publicado, dedica duas páginas ao caso de Zé Borrego. Estas:



segunda-feira, 7 de maio de 2012

"Tudo se resolve ou adia numa linguagem hipócrita"

Reinventar Portugal

vários autores

Ed. Estampa, 2012
Reinventar Portugal é um conjunto de ensaios sobre o futuro de Portugal perante a crise económica, financeira, política e social que vivemos. 

João Carlos Alvim, o editor, ele próprio autor de um dos ensaios, convidou Alexandre Franco de Sá (professor de filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa); António Carlos Carvalho (jornalista e documentarista); Carlos Fragateiro (professor na Universidade de Aveiro); Diana Andringa (jornalista e documentarista); Fernando H. Lopes da Silva (médico); Joana Lopes (professora de filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa); João Freire (sociólogo); José Adelino Maltez (professor no ISCSP); Maria do Carmo Vieira (professora do ensino secundário); Miguel Cardina (historiador); e Paulo Côrte-Real (professor de Economia e presidente da ILGA).

Se o interesse despertado por cada texto é irregular, também a qualidade literária o é. Podem passar-se vários parágrafos sem que se encontre uma ideia nova, viva e vibrante, dita de maneira eficaz, cativante, esperta.

Não é, ainda assim, um livro chato. Acrescenta saber e faz pensar.

Curiosamente, é de João Carlos Alvim um dos textos que mais me interessaram. Intitula-se "Um Lugar Como Outro Qualquer". Excertos da página 113:

Por razões seguramente complexas, não temos sido capazes de assumir olhos nos olhos, com meridiana clareza, as nossas divergências. Tudo se resolve ou adia numa linguagem alusiva, seráfica e hipócrita como poucas, a que alguns chamam consenso democrático. [...]

[Uma das condições para ultrapassarmos a crise] consiste em não menosprezar os nossos concidadãos, quaisquer que eles sejam, por se considerar que eles não pensam ou não agem consoante outros grupos mais próximos das supostas elites desejariam. O modo como muitas vezes se olha para os rurais, ou para os católicos, como se criticam as classes médias que hoje clamam por ordem e segurança, ou finalmente como se vêem todos aqueles que não chegam a querer ser tão livres e inovadores como o desejariam alguns de nós, e só ambicionam uma existência rotineira e desprovida de problemas - tudo isto indica uma democracia doente [...]."
Este último parágrafo dá que pensar à luz do recente episódio de consumo desenfreado nas lojas Pingo Doce (aqui).

domingo, 11 de março de 2012

A ficção ajuda a contar os subúrbios de Liverpool

Soljas

Graham Johnson

Ed. Guerra & Paz, 2012

O jornalismo vive de histórias e anda sempre à procura de heróis. Quando precisa de noticiar um número, um relatório ou uma realidade abstracta, vai desencantar uma pessoa que sirva para o “era uma vez” mediático. Chama-se a isto, do ponto de vista dos jornalistas, “arranjar um caso”. Quer dizer: encontrar uma pessoa que dê a cara pelo facto abstracto.
 
Quando não há casos, os jornalistas inventam-nos. Por isso é que as redes sociais na Internet andam cheias de pedidos bizarros de jornalistas. Querem pessoas pobres que tenham comprado um telemóvel na Austrália, pessoas feias que só comam hambúrgueres à sexta-feira, pessoas divorciadas que só saem de casa ao domingo. Tudo verosímil e edificante, como se quer.

O jornalista Graham Johnson poderia ter feito exactamente o mesmo. Se queria escrever um livro sobre gangues juvenis em Inglaterra, metia-se na Internet à pergunta de rapazes com menos de 15 anos que se dedicam a arruinar a vida da classe média-baixa a que pertencem. Era fácil para ele, poupava dinheiro ao patrão, fazia vender jornais e deixava os leitores, que têm o espírito crítico de uma parede, todos contentes.

Mas não. Graham Johnson, de 43 anos, jornalista de investigação do Sunday Mirror, terá acompanhado o tema durante três anos, com olhos de ver. No fim, em vez de publicar reportagens mais ou menos poéticas sobre a vida dos subúrbios britânicos, escreveu Soljas, romance saído em 2010 em Inglaterra e agora editado em Portugal.
Utilizar a ficção como substituto da realidade é muitas vezes útil, sobretudo do ponto de vista de um jornalista. Se não é possível, por contingências várias, contar tudo o que se viu, ou ver tudo o que se queria, o melhor é pegar no pouco que se tem e fazer um romance baseado em factos. Em vez de uma reportagem fraca, ganha-se um livro forte, com a ética da rua e a estética da literatura.

“Danielle: fronha enrugada, bronzeado falso, cabelo curto e louro, mamas grandes […]. Vai ser montada pela casa toda, daqui a pouco. Amanhã, os rapazes hão-de ir todos ao bar local, o Canada Dock, de telefone em punho e mandar por bluetooth o novo vídeo da Danielle. A malta vai adorar” (pag. 23). “Nogger está a pensar nos seus próprios pais, carochos de dentes podres. Monster Munch ao pequeno-almoço, para ele e para as irmãs, gelados meio descongelados para o lanche. A abanar para longe os fumos do crack enquanto vêem CBeebies [canal infantil de TV]” (pag. 112).

O ritmo da narrativa é alucinante, como se estivéssemos na cabeça perdida dos putos suburbanos. A linguagem, rente ao vivido. E a tradução, que tenta replicar a linguagem de rua, é por vezes desadequada, como quando opta por “tás a zber” em lugar de “estás a perceber”. E o mesmo se diga do próprio título, Soljas, que vai buscar o calão britânico de rua para soldiers (soldados), que é como os membros dos gangues juvenis se chamam a si mesmos.

Evidentemente, o significado da  palavra soljas não é entendível pelos portugueses (eu, pelo menos, tive de pesquisar na Internet até perceber do que se tratava).

O substrato real para esta história está nos subúrbios de Liverpool. O gangue Nogzy, liderado por Nogger e Dylan, rivaliza com o gangue Crocky (o Guardian contava em 2007 uma história real sobre os dois gangues).

São pré-adolescentes de quem os pais e a polícia têm medo. Não estudam, não trabalham, passam o dia a ver pornografia, a fumar haxixe, a traficar cocaína, a comprar armas, a assaltar casas e, se for preciso, a matar pessoas. São incapazes de perceber a diferença entre a vida e um videojogo, entre pessoas reais e reality shows de celebridades, entre namoradas e estrelas da pornografia. Não é só preocupante, é grotesco.

Parece que  em Portugal tem vindo a diminuir  o número de crimes praticados por jovens: dizia-se isso em 2008 e continua a dizer-se em 2012 (“A Procuradoria Distrital de Lisboa registou menos [663] crimes cometidos por jovens menores em 2011 relativamente ao ano anterior”, escrevia o Diário de Notícias a 26 de Fevereiro do corrente, na edição imprensa e sem reprodução online). Em Inglaterra, acontece o contrário. Os motins de Agosto passado em Londres, Liverpool e outras cidades, provam que os gangues juvenis são um problema gravíssimo. Felizmente, aos olhos do portugueses, Soljas nunca daria uma reportagem de jornal. Está bem como livro de ficção que é.

[adenda: o rapper britânico Plan B publicou em Março de 2012 um tema, "Ill Manors", sobre os motins de 2011]

domingo, 4 de março de 2012

As paisagens de David Hockney


David Hockney: A Bigger Picture, obra colectiva dada à estampa pela editora britânica Thames & Hudson, é em rigor o catálogo da exposição homónima que está na Royal Academy of Arts de Londres desde 21 de Janeiro até 9 de Abril de 2012. Em Maio vai para o Guggenheim de Bilbau e em Outubro, para o Museu Ludwig de Colónia.

Não posso ir ver as exposições, mas posso ver, e já vi, o catálogo.

Tim Barringer, Edith Devaney, Margaret Drabble, Martin Gayford, Marco Livingstone e Xavier F. Salomon são os autores destas 304 páginas. Ideia-chave: para lá dos cenários apolíneos da Califórnia que o tornaram famoso, David Hockney (n. 1937) também pinta e desenha um certo bucolismo inglês.


Entre as décadas de 60 e 90, Hockney viveu em Los Angeles. Na viragem do século, regressou ao condado de Yorkshire, em Inglaterra, onde nasceu (em Bradford, mais precisamente). Instalou-se em Bridlington, onde vivia a sua mãe, que morreu em 1999, e aí tem passado a maior parte do tempo.

Os novos trabalhos que esta exposição exibe, alguns nunca antes vistos, alguns feitos através de um telemóvel iPhone, dão conta da nova fase da vida do artista.

Não que as paisagens sejam uma novidade nele: desde os anos 60 que as faz. Novo é o local retratado e os métodos de trabalho.


"Há uma longa tradição na arte britânica relacionada com lugares, paisagens e topografia", escreve Margaret Drabble. E acrescenta: "Hockney regressou ao mesmo mundo rural que conheceu em criança. [...] Ele vem de um linhagem de trabalhadores do campo e reclama para si mesmo uma familiaridade com a terra que é de antes da Revolução Industrial" (p.38).


A primeira parte do livro apresenta ensaios que enquadram a obra de Hockney e fazem comparações com a de outros pintores, como Turner. 

A segunda parte é apenas visual e reproduz os trabalhos da exposição, aguarelas na maior parte. No fim, uma cronologia biográfica e artística muito bem organizada.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"Uma aberração da mentalidade nacional combalida"

«Nos primeiros tempos do domínio castelhano, ninguém acreditava na morte de D. Sebastião. Faltando um testemunho seguro do facto, engedravam-se lendas sobre a morte do rei, que todas concluíam pelo seu aparecimento. [...] Portugal vivia numa atmosfera de dor, de misticidade e de portentos.

Uma asserção, repetida com convicção e mostras de convicção por qualquer indivíduo, faz sempre algum abalo no espírito dos ouvintes. Quando é conclamada pelas multidões, inane, inverosímil, ou absurda que seja, converte-se numa força tremenda. [...]

O sebastianismo foi uma aberração da mentalidade nacional combalida e exasperada pelo infortúnio: sopeados, tiranizados, empobrecidos, humilhados, os portugueses apelavam para o Céu e acreditavam piamente que ele suspendera a lei de morte para o seu último rei natural. [...]

Esta aberração mental encasou-se tão estreitamente no organismo, que se transmitiu às gerações subsequentes.

A restauração não a saneou.»

Origens do Sebastianismo: História e Perfiguração Dramática  (Texto Editora, 2011), António de Sousa Silva Costa Lobo (ed. original 1909)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz ano novo

"Aquilo a que assistimos hoje, e que se tornou transparente como nunca com a reacção dos Estados à primeira crise do capitalismo global surgida nos fins de 2008, é uma confiscação da política pela 'economia', por uma ordem económica imperial e imperativa, absolutamente determinativa, que nessa sua absoluta determinação ou imperatividade se pretende pré-política ou supra-política, não política portanto.

[...] Chamam-lhe a 'nova economia', a 'economia do conhecimento', uma economia do capital como 'capital humano', que seria em si mesma pós-classista, neutra, apolítica, mas trata-se de facto de uma neo-economia de sobre-exploração de uma mão-de-obra, mesmo intelectual, precária, forçada à flexibilidade, à auto-flexibilização por formação profissional contínua. 

[...] Bizarro destino o da nova esquerda, convertida em consciência crítica do sistema político-económico reinante e nada mais querendo que o 'aprofundamento democrático' deste [...] e por isso temendo as rupturas [...]. Uma esquerda e até uma extrema-esquerda que se concentra nas questões ditas 'fracturantes', nas novas 'causas' sociais, numa política de promoção de novos 'direitos'. Trata-se pois já só de 'modernizar' o sistema, não de o combater [...].

O esquerdismo moderno, pós-revolucionário ou pós-comunista, como parte ainda do sistema político-económico de dominação porquanto componente necessária em termos objectivos da imagem de democraticidade desse sistema."
Sousa Dias
"Grandeza de Marx: Por uma Política do Impossível"
Assírio & Alvim, 2011
(pp. 71-78)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Entrevista com Alan Hollinghurst


Depois do gravador desligado, no bar de um hotel de Lisboa, o escritor britânico Alan Hollinghurst fala sobre as redes sociais na internet e nota que têm mudado bastante a forma como os homens gay se conhecem. “Talvez seja o tema do meu próximo livro.” Pouco antes, foi outro o motivo da conversa: O Filho do Desconhecido, publicado em Junho em Inglaterra e agora traduzido para português. É o menos homoerótico dos seus cinco romances. [...] Tímido e fleumático, Hollinghurst, de 57 anos, fala como escreve: o mais importante nas entrelinhas



Disse numa entrevista recente que ser conhecido como escritor gay já não tem importância.
Cansei-me desta cena: entrevistadores heterossexuais de mente aberta que vão ter com o escritor gay para que ele fale sobre sexo. Em 2011, as entrevistas deveriam ir mais além. Mas não tenho tido sorte.

Que explicação encontra?
É uma narrativa com a qual as pessoas continuam a identificar-se. Aparecer como gay foi importante no início [o primeiro livro, A Biblioteca da Piscina, saiu em 1988 e foi traduzido em Portugal em 2009]. A literatura gay mal existia, pelo menos aos olhos do grande público. Entretanto, houve enormes alterações, a nossa cultura tornou-se liberal e progressista neste particular. A categoria literatura gay dissolveu--se na corrente e, de certa forma, tornou-me menos necessária.

Quer dizer que quanto mais direitos legais são reconhecidos aos homossexuais no Ocidente, menos interessantes se tornam.
Sem dúvida. A vida gay contemporânea tornou-se pouco estimulante como tema literário. Sei que as coisas não são perfeitas, mas hoje há cada vez mais homossexuais assumidos, logo, ser gay tornou-se quase irrelevante, porque pouco distintivo. Havia mais material quando se tratava de uma questão problemática, quando havia conflito e ocultação.
 
É por isso que O Filho do Desconhecido é o menos gay dos seus romances?
Não sei. Este livro descreve vários graus de dificuldade na relação com a homossexualidade. Começa em vésperas da I Guerra Mundial, quando é uma coisa sobre a qual não se pode falar, e acaba em 2008, num mundo com uniões civis [civil partnerships] entre homossexuais. É um livro cheio de ambiguidade sexual e daí as personagens bissexuais. Interessou-me escrever sobre a variedade de experiências sexuais, não tanto sobre comportamentos classificáveis.
 
E parece ter-se cansado das cenas de sexo entre homens.
Nunca me cansaria de tal coisa. O leitor é deixado à mercê da incerteza que rodeia as personagens e não sabe, à excepção de um ou dois momentos, o que aconteceu entre elas. Teria sido incongruente explicitar demasiado.
 
Uma coisa que mantém é o fascínio pelas classes altas. Porquê?
Na verdade, o que me fascina é o fascínio pelas classes altas. É um complexo muito britânico, que mistura uma certa inveja com vontade de lá chegar. É muito divertido escrever sobre as classes altas. Fazem o que as outras não podem, têm maior margem de manobra para pisar o risco. Na minha cabeça há um pouco de Henry James: escrever sobre os interstícios da vida privada, sobre as classes cuja origem dos rendimentos é deselegantíssimo referir. Neste sentido, estarei a dar continuidade à tradição britânica da comédia de costumes.
 
Sobre o Prémio Booker [o mais importante da literatura inglesa]: porque é que não lho deram este ano?
Devem ter achado que o meu livro não era bom.

E para além dessa resposta politicamente correcta?
A presidente do júri, Stela Rumming, antiga líder dos serviços de espionagem [directora-geral do MI5 de 1992 a 96] é uma pessoa sem grandes pergaminhos literários. E foi muito clara ao dizer que queria distinguir histórias diferentes do habitual. É-me difícil dizer mais, passaria por ressentido.

Que opinião tem sobre a era do casamento gay e das uniões civis registadas?
As uniões começaram em Inglaterra em 2005 e passei o ano seguinte a ser convidado para cerimónias. Agora estou a viver a primeira vaga de divórcios. É uma imitação da estrutura social vigente. Parece-me bem. Não tenho a nostalgia que noto em algumas pessoas mais velhas que eu, que conservam a excitação da ilegalidade e ficaram muito desapontadas com o caminho que o movimento gay tomou.

Foi um caminho de libertação ou de arregimentação?
Um movimento de libertação que,  em última análise, ambiciona deixar de existir... É como a literatura gay, que tem esse propósito e acaba por o ver extinguir-se. Não posso falar por uma imensidão de pessoas. Sei que os gays continuam a achar graça à provocação, o que não aconteceria se tivesse havido uma integração avassaladora. Mas também vejo que os desfiles gay tinham objectivos políticos e agora são festas com homens seminus. Já não há um ponto de vista político, é tudo pour épater le bourgeois. Tenho sentimentos paradoxais sobre este assunto.

Bruno Horta

(entrevista originalmente publicada na revista Time Out Lisboa de 23 de Novembro de 2011)

domingo, 30 de outubro de 2011

Leituras de fim-de-semana

"O Filho do Desconhecido", de Alan Hollinghurst (D. Quixote)

"English As She Spoke", catálogo da exposição de João Pedro Vale (Fundação PLMJ)

"Textos e Pretextos - Poesia Portuguesa: Os Últimos 20 Anos", revista do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

"Liberdade e Informação", de José Manuel Fernandes (Fundação Francisco Manuel dos Santos / Relógio d'Água)

domingo, 17 de julho de 2011

A violência ilustre e a violência ignara

"The reformist spirit is invariably aimed down the rungs of cultural idioms, at cartoons, slasher films, pornography, rap music and video games, while the carnage and bloodletting in Shakespeare, Goya and the Bible get a pass. Low-culture violence is literal, while high-culture violence is symbolic or allegorical and subject to critical interpretation. Low-culture violence coarsens us, high-culture violence edifies us."

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Arrumar 2010

"Ele tira más fotos em maus sítios", lê-se na introdução. Before Color, de William Eggleston (n. 1939), editado há poucas semanas pela Steidl, fica como um dos bons livros de fotografia de 2010. Não excelente, mas bom.
São fotos tiradas entre os meados dos anos 60 e os inícios dos 70. Fotos sem grande composição de imagem, capturas súbitas da vida quotidiana no Sul dos EUA, diz o livro.

Egglestone, explica a Wikipedia, fica como o fotógrafo que levou a cor para as galerias de arte, que até aos anos 70 valorizavam mais os trabalhos fotográficos a preto-e-branco.
Este livro mostra-o antes disso.
 
 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Arrumar 2010

Um dos livros que me foram enviados por editoras no fim deste ano: Break it Down: Demolição, de Lydia Davis. 
Contos escritos no início dos anos 80.
Tradução de José Mário Silva (boa, claro). 
Prefácio imaginativo, mas pouco sumarento, de José Luís Peixoto.

A contra-capa diz que a autora é "feminista convicta" e que "arrasa o género masculino", mas começa por a apresentar como "ex-mulher de Paul Auster", o que, sendo bom para vender livros, é a melhor forma de a desconsiderar.

Li os primeiros quatro ou cinco contos. São chatos. Parecem textos de quem passa o dia em casa a pensar na morte da bezerra e depois lá se obriga a escrever qualquer coisa ao fim da tarde.