terça-feira, 16 de dezembro de 2014

"O meu nome não era eu, era o que outros fizeram de mim"

Bruno Horta entrevistou o escritor francês Édouard Louis, cujo primeiro romance é um ajuste de contas com a violência anti-gay de que foi vítima. O retrato é de David Clifford.

E de repente, no fim de 2014, aparece o livro gay mais impressionante dos últimos 12 meses. Acabar com Eddy Bellegueule, autobiografia sob a forma de romance, relato atroz da violência física, verbal e simbólica sobre um adolescente homossexual que vive numa aldeia e pertence a uma família pobre. “Um manifesto sobre a possibilidade de nos reinventarmos”, diz o autor, Édouard Louis.

A Time Out entrevistou-o, há dias, em Lisboa. Rapaz alto, magro, de sorriso tímido, muito curioso, nasceu há 22 anos numa aldeia de Hallencourt, no Norte de França. Vive agora em Paris, onde estudou sociologia. Começou a escrever este primeiro romance quando tinha 19. É ele o protagonista da história, quando ainda se chamava Eddy Bellegueule.

Entretanto, mudou de nome, matou o passado e arrumou-o neste livro – trazido para Portugal por uma nova editora lisboeta, Fumo Editora, com tradução do crítico António Guerreiro. O realizador André Téchiné, adianta Édouard Louis, vai adaptar a história ao cinema e o filme deverá sair em 2016.


Fez questão de ser entrevistado pela Time Out Lisboa quando lhe disseram que é a única publicação em Portugal que escreve regularmente sobre a realidade gay. Porquê?
Porque sou gay e é importante falar para o público gay. Muitos artistas e escritores têm problemas com isso. Há pouco tempo, em França, houve grande controvérsia por um jornalista se ter dirigido a Xavier Dolan com a expressão “realizador gay”. Ele respondeu: “Sou realizador, não sou um realizador gay”. Para mim é muito importante afirmar esta condição. Aliás, tento mostrar com o livro que a homossexualidade foi a única maneira que encontrei de fugir da minha família. Foi por ser homossexual que consegui fugir.

Se não fosse homossexual teria reagido de outra forma?
A princípio, foi um problema, a família do Eddy dizia-lhe que ele não fazia parte da família, porque era homossexual. Ele tentou tudo para ser normal, quis jogar futebol, quis gostar de mulheres. Mas depois percebi que era impossível, sentia este desejo e continuava a ser um rapaz feminino. No fim do livro, mostro que foi por os outros dizerem que eu era diferente que não tive outra escolha que não fosse ser diferente e fugir. A sociologia explica isto: se houver cinco filhos numa família pobre e um deles abandonar a família, são altas as hipóteses de ele ser homossexual.

O historiador francês Didier Eribon, a quem dedica o seu livro, escreveu bastante sobre os homossexuais que constroem a identidade em torno do insulto e da fuga…
Mesmo que o insulto seja subtil, mesmo que as pessoas não usem palavras como “paneleiro” – no caso de Eddy usavam –, o homossexual tem sempre medo, nem que seja dos gestos femininos que possa fazer. Mesmo que não seja pronunciado, o insulto está sempre presente. O Eddy chega ao mundo, desperta para a vida, e imediatamente é dominado pelo insulto. Mas não é só o Eddy. Todas as personagens do livro foram geradas pela dominação.

Diria que o livro é uma forte crítica à organização da sociedade francesa?
E não só francesa. A reprodução da dominação e das desigualdades está por todo o lado e afecta homossexuais, estrangeiros, negros, mulheres. Não consigo entender como é que não há revoluções todos os dias, como é que as pessoas não saem à rua.

Estudou sociologia, que explicação encontra para isso?
As pessoas crescem neste sistema, não conseguem ver a violência do sistema, é um dado adquirido, é aquilo a que chamam vida. A mãe do Eddy não se considera dominada como mulher, não diz que deixou a escola por a família não ter posses. Diz que foi uma escolha, que não estudou mais porque não quis. Não é verdade. Simplesmente, ela não se apercebe da violência exercida sobre ela. Quando escolhi o título Acabar com Eddy Bellegueulle estava a falar do meu passado mas também da percepção do Eddy. Eu, naquela altura, não via que estava dominado.

O livro é também uma crítica severa à sua família?
Não me parece. Limito-me o criticar o sistema em que eles cresceram e vivem. O sistema de desigualdade criou o comportamento deles. 

Escreve a certa altura que só se apercebeu de que era mesmo muito pobre depois de sair da aldeia onde nasceu.
Exactamente. Para mim, aquilo era a vida. Não era mau, era a vida. Ao fugir, apercebi-me da violência em que cresci.

Não tinha internet nem computador em casa, mas tinha televisão e cresceu nos anos 90. Não teve acesso a outras realidades, não viu outros mundos através da TV?
É complicado… A realidade que aparece na televisão não parece real, é uma coisa distante. O meu pai trabalhava na fábrica da aldeia, o meu avô também, o meu bisavô também. E era isto. A grande cidade era vista como um sítio perigoso, onde havia árabes e negros perigosos. Resistia-se à ideia de sair daquele contexto, aceitava-se. Nada é mais violento para alguém que está dominado do que assumir que está dominado. Ou não se vê a violência ou então não se aceita que se está sujeito a ela.

É uma interpretação marxista.
De certa forma, sim, embora o marxismo diga que as pessoas acabam por ter consciência de classe, e não tenho a certeza de que isso aconteça. A armadilha da dominação e da violência é as vítimas terem vergonha da dominação e da violência e passarem a mentir para esconder isso.

Porque é que decidiu mudar de nome?
Eddy é um nome americano e em França dar nomes americanos aos filhos é típico das classes baixas. “Belle” significa bonito e “gueulle” significa focinho ou tromba. Eu tinha um nome difícil. Mudei há cerca de dois anos, primeiro o nome, depois o apelido. O nome é uma coisa externa que nos apanha à nascença. O meu nome não era eu, era o que outros fizeram de mim.

Significa que quis cortar com passado? Mas o passado não desaparece.
Claro que tenho muitos traços do meu passado, o que digo é que realmente é possível ser-se outra coisa.

Diria que Édouard Louis é mais verdadeiro que Eddy Bellegueulle?
Eu não era Eddy Bellegueulle. Eddy Bellegueulle era o produto do que os outros fizeram de mim.

Escreveu o livro depois de fazer terapia ou o livro foi uma forma de terapia?
Penso que construí o livro com base numa atitude política, não tanto como terapia. Mas nunca fiz terapia, prefiro a amizade como forma de vida, como dizia Foucault.

O livro esteve envolto em grande polémica em França…
Não foi uma grande polémica, foi uma coisa criada por uma publicação de direita. Le Nouvel Observateur [agora chama-se L’Obs] foi visitar a minha família ao Norte de França. Entrevistaram a minha mãe e depois escreveram que o meu livro é uma fraude, que foi tudo inventado ou exagerado.

A versão da sua mãe era assim tão diferente da sua?
Claro que sim. Para se conseguir dizer a verdade é preciso fazer-se uma construção e ganhar distância. Obviamente, quando um jornalista pergunta à minha mãe se é mesmo racista, ela diz que não. Claro. A minha mãe não tem a percepção exacta. Ela dizia coisas como: “Não tenho nada contra homossexuais, mas dois homens juntos é nojento.” Ela nunca se consideraria homofóbica. É importante destacar o seguinte: Le Nouvel Observateur acusou-me de exagerar as coisas. O tema do exagero atravessa a História. O sociólogo Abdelmalek Sayad dizia que quando se fala das torturas perpetradas pelo exército francês na Argélia, há muita gente que considera o relato exagerado. Quando uma mulher, ou um homem, se apresenta como vítima de violação, é porque está a exagerar, não foi bem assim. Quando se tenta denunciar alguma coisa, o discurso conservador diz sempre que se trata de um exagero.

Se tivesse nascido numa família favorecida, teria sido mais fácil crescer como homossexual?
Claro que é muito mais fácil ser-se gay em França ou no Canadá do que na Rússia ou no Irão. E obviamente é mais fácil ser-se gay numa grande cidade e numa família de intelectuais. Eu vivo melhor desde que vivo em Paris. Mas muitas pessoas não admitem o seguinte: o que é uma forma de discriminação é olhar para as classes populares como portadoras de autenticidade, tal como fazia Pasolini. A ideia de que os pobres são mais simples, mais verdadeiros, que gostam muito de rir.

Considera errada a maneira como Pasolini filmou os pobres?
Sou um grande admirador da obra dele, mas aquela ideia de que a burguesia está constantemente a desempenhar um papel, enquanto os pobres são muito mais autênticos… Não é verdade, não é verdade. É uma percepção errada, é o princípio do bom selvagem. A vida dos homens e das mulheres homossexuais nas classes desfavorecidas é muito mais difícil do que nas classes burguesas. Não estou a falar da alta burguesia de valores católicos.

Já regressou à sua aldeia desde que saiu?
Estive lá duas ou três vezes, mas desde que escrevi o livro não voltei. A distância entre mim e a minha família era já muito grande, foi-se instalando.

Telefona aos seus pais ou aos seus irmãos?
Não. Quando o livro saiu, o meu pai telefonou-me e disse-me: “Édouard, estou muito orgulhoso de ti.” Foi a primeira vez que ele me chamou Édouard. Comprou 30 exemplares e ofereceu aos amigos.

Mas será que leu?
Acho que não, ele tem dificuldade em concentrar-se na leitura.

[uma versão desta entrevista foi publicada na Time Out Lisboa de 3 de Dezembro de 2014, p. 78]

domingo, 30 de novembro de 2014

Teorema

Está lá, por várias vezes, o rumor, que é um ronronar de ansiedade, que eu já tinha ouvido em "Cada Sopro", peça que John Romão apresentou no Teatro da Politécnica no Verão de 2013. Está lá a pizza, estão os miúdos, está a câmara de filmar em tempo real, a loucura e o universo infantil, o grotesco e o epiléptico que eu já vi em "O Arco da Histeria" (2010) e em "Eu Não Sou Bonita, Eu Sou o Porco" (2012), está lá também o espampanante e o festivo que já vi em "Velocidade Máxima" (2009).

Quer dizer: "Teorema", espectáculo que John Romão apresentou no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, nos dias 27 e 28 de Novembro (depois da estreia, em Outubro, no Rivoli), reproduz a linguagem própria do criador, o universo mental dele, que é fresco e divertido, sério e depressivo, homoerótico mas sem o acto. Estão lá marcas de autor, o que significa que temos um criador com voz própria, e isso é muito. 

Mas "Teorema" não seduz. É demorado, foge da palavra e agarra-se à plástica, vive de quadros independentes e acaba por frustrar. Olha-se à procura de um sentido (se é que tem de haver ali um sentido) e não se encontra. É o espectáculo mais bem montado e adornado que já vi de John Romão. Um espectáculo de maturidade plástica. Mas queria ter visto mais teatro.

domingo, 23 de novembro de 2014

Em nome do pai



Negócios. Família de Leiria com fortuna de milhões

Em nome do pai



Começaram por baixo, como vendedores de máquinas, e hoje são uma das famílias mais ricas de Portugal. Donos do Grupo Lena, facturam milhões de euros e querem continuar a crescer. Perfil dos Rodrigues, protegidos no céu, adorados na terra. Bruno Horta


António ainda nem sabia andar e já tinha o destino traçado. Baptizaram-no como o pai e determinaram que, tal como ele, haveria de ser empresário. Aos 14 anos já passava as férias do Natal em cima das máquinas de terraplanagem que o pai vendia, para aprender a sério como funcionava o motor da pequena riqueza da família. Ao mesmo tempo, era instigado a correr o mundo, para alargar os horizontes. Ainda adolescente, foi a Londres, ao Japão e à Austrália, quase sempre sozinho. Aos domingos, alumiava a alma no altar de uma igreja.


António Vieira Rodrigues, o patriarca, viu nele um sucessor à altura. Nos anos 90, quando os negócios já tinham crescido mais do que alguma vez imaginara, passou-lhe o testemunho. Hoje, António Barroca Rodrigues, o filho pródigo, está à frente de um pequeno império familiar chamado Lena. A sede do grupo é em Leiria, mas ele estende-se por todas as áreas possíveis e imaginárias e tem ramificações no Leste europeu, em África e na América do Sul. No ano passado facturou, números oficiais, 425 milhões de euros. A riqueza da família Rodrigues é de 90,3 milhões – 70 lugares abaixo de Belmiro de Azevedo, o mais rico de Portugal.


Para não se perder o fio à meada, é preciso recuar ao início dos anos 70. O leiriense Vieira Rodrigues, homem de origem humilde, mas de inteligência afiada, torna-se vendedor de máquinas de terraplanagem para a agricultura. Rapidamente, passa a fazer negócio com construtores civis e é com eles que troca umas ideias. Ainda se aventura, na fase final do Estado Novo, numa viagem a África. Vai a Angola e a Moçambique “olhar o mercado”, como conta o filho. Abre uma conta bancária na antiga Lourenço Marques, mas volta à metrópole, sem grande vontade de se estabelecer lá fora. Depois do 25 de Abril, convida alguns dos seus empregados para se associarem a ele na fundação da Construtora do Lena – do nome do rio que desagua na sua cidade. É apenas o princípio de uma grande fortuna. Os anos do cavaquismo e das grandes obras públicas vão ser dourados para os Rodrigues. Auto-estradas, pontes, barragens, escolas. Estiveram e estão em todos os grandes negócios. Como conseguem? “A única escola de gestão que o meu pai frequentou foi a da vida”, disse Barroca Rodrigues à SÁBADO, durante uma conversa no seu muito sóbrio gabinete de trabalho, na sede do grupo, junto à estação de comboios de Leiria.



A presença de Deus tem sido indispensável. E a força dos homens, em oposição à das mulheres, também. Vieira Rodrigues preparou muito bem a sucessão. Deixou tudo aos varões. A única filha, Fátima, tem funções executivas, é certo, mas é pelos manos António Barroca Rodrigues e Joaquim Barroca Vieira Rodrigues que todo o poder circula. O primeiro ficou com a parte de leão. Preside à Lena SGPS, a casa mãe que dá origem a todas as outras empresas do grupo – nove sub-holdings e 72 empresas, das quais são donos ou sócios. Joaquim manda numa das sub-holdings, a Lena Construções, herdeira da Construções do Lena, que contribui com 42,2% para o total de facturação anual do grupo. O velho patriarca continua a ser sócio maioritário e a presidir ao conselho de administração, mas já não decide nada. Ainda assim, o filho António nem sonha subalternizar-se. “Eu e os meus irmãos continuamos a respeitá-lo como patrão e vemo-nos como meros funcionários dele”.


Quanto à devoção católica, não é ostensiva, mas é assinalável. A primeira pessoa a quem Barroca Rodrigues ouviu dizer que o pai é um self-made man foi ao reitor do santuário de Fátima, monsenhor Luciano Guerra, visita da casa. Fonte autorizada disse à SÁBADO que “é normal” que uma família de homens de negócios seja “muito bem relacionada com quem tem poder”. António Sala, nome fundamental da cristã Rádio Renascença, já esteve presente em eventos sociais do grupo Lena, cujo hino, escrito por uma funcionária e apresentado na última festa de Natal, deixa entender o espírito que os rege: “Nascemos dos bons valores, criámos a união, na família o fundamento, nos parceiros a gestão.”



Foi depois de o fundador se retirar que os filhos começaram a alargar a carteira de investimentos. Com o dinheiro do betão a sustentar tudo, avançaram pela estrada do sucesso. Como grupo, a Lena nasce em 1998. Contam cerca de cinco mil empregados e, de acordo com Barroca Rodrigues, o objectivo hoje é o de “crescer ainda mais”. No início deste ano, apresentaram ao Governo uma proposta para concorrerem, ao lado da espanhola Aldesa, à construção da rede nacional do TGV. E compraram cinco empresas em Angola, na área da construção civil, turismo, automóveis e comunicação. O negócio lá fora tem crescido “dois a três dígitos por ano”, adianta. A área da biotecnologia também lhes interessa. São donos de metade da Biocodex, uma empresa que se associou à Universidade do Porto para investigar células estaminais. Até 2010 querem três das sub-holdings cotadas em bolsa.


Para já, têm hotéis e restaurantes, empresas de distribuição de gás natural, concessionários de automóveis e de combustível, seguradoras e agências de viagens. E jornais e rádios locais. Fonte segura adianta que “não há a mínima espécie de ingerência” da família Rodrigues na linha editorial dos meios de comunicação que detém. Mas lembra que a Lena se viu envolvida em polémica por causa da recente construção do estádio do União de Leiria. A atribuição do alvará ao grupo foi posta em causa por outros contendores. E nessa altura “os jornais deles foram mais tímidos do que outros” no acompanhamento do assunto.


É talvez seja para evitar problemas do género que se remetem ao silêncio. Chegar até Barroca Rodrigues é muito difícil. Raramente dá entrevistas. É um homem muito ocupado, pouco expansivo, sem o dom da palavra, muito prudente. Quando se lhe pergunta pelos seus negócios, hesita. Quando se lhe pede para falar sobre o mundo empresarial em geral, tem a resposta na ponta da língua. É como as várias tartarugas de plástico que decoram as prateleiras do seu gabinete: passa muito tempo escondido e só se mostra quando é preciso.


Uma empregada traça o perfil da família: “Simples, razoável e discreta”. Barroca Rodrigues acha que os três adjectivos descrevem bem a realidade e acrescenta um outro: “humanista”. “É sempre difícil falarmos de nós mesmos, mas, pelos menos, tentamos praticar a educação humanista que o nosso pai nos deu”. No meio disso, como é ser rico? “Não é muito diferente de há dez anos, quando não éramos”, garante o empresário.



[uma versão deste artigo foi publicada em Abril de 2006 na revista Sábado]

sábado, 22 de novembro de 2014

"Che Guevara era um terrível homofóbico"

Bruno Horta entrevista Bruce LaBruce, nome fundamental do cinema queer. Fotografias de David Clifford.
É tímido o homem que sai do elevador no átrio do hotel. É o mítico Bruce LaBruce, cujos filmes usam a pornografia como forma de discurso artístico e político. Visitou Lisboa no primeiro fim-de-semana de Novembro para participar no ciclo “Harvard na Gulbenkian”, durante o qual foram exibidos Super 8 ½ (1994) e Gerontophilia (2013). Aos 50 anos, o realizador nascido em Ontário, no Canadá, cujo primeiro filme é de 1987 (Boy, Girl), continua a querer ser visto como dissidente. Pode ter filmes em Sundance ou Locarno, mas não alinha com apocalípticos ou integrados. Move-o o fetichismo e o tabu. Aparentemente ansioso, senta-se a conversar com a Time Out Lisboa num sábado de manhã.


Gerontophilia foi muito criticado por representar a sua normalização enquanto realizador. Será?
De certa forma, sim. Mas foi essa a minha intenção. Espera-se que faça sempre a mesma coisa e a única maneira que encontrei de continuar a ser polémico foi fazer um filme para o grande público. Quis pegar num assunto próximo das temáticas que costumo filmar, o fetichismo e o amor proibido, e dar-lhe uma forma narrativa mais comum. Na verdade, Gerontophilia não é assim tão diferente daquilo que já fiz. Há elementos românticos nos meus filmes anteriores, para lá do sexo explícito, e uma estrutura narrativa forte, apesar de fracturada e pouco convencional.
Vai abandonar a pornografia?
De maneira nenhuma. Há alguns anos tentei fazer filmes mais comerciais e nunca encontrei o argumento e o orçamento certos. Se calhar, não tinha vontade. Desta vez, foi possível.
Não se arrisca a perder o seu público?
Algumas pessoas ficaram desiludidas, mas era esse o objectivo: trabalhar contra as expectativas. Pierrot Lunaire [o mais recente filme, exibido este ano nos festivais IndieLisboa e Queer Lisboa] é um filme de baixo orçamento, com bastante violência, mas também diferente de tudo o que fiz até hoje. Ando a fazer coisas diferentes.
O próximo chama-se Ulrike’s Brain.
Vai ser um filme experimental. E também estou em fase de produção de um outro, Twincest, que é mais próximo da linguagem de Gerontophilia. É sobre outro tabu: uma relação incestuosa.
Saem no próximo ano?
Ulrike’s Brain deverá estar pronto no fim de 2015. O outro está a ser escrito, é cedo para falar em datas.
Há três palavras muito utilizadas para descrever os seus filmes: subculturas, fetichismo e marginalidade. Concorda?
Não sei se podemos falar em marginalidade, sempre me situei na margem das margens. Mesmo dentro do movimento gay, estive sempre nas franjas. E ao não estar ideologicamente inserido na subcultura gay, consegui estar mais próximo da sociedade em geral. Não sinto particular ligação à marginalidade, às tantas torna-se um lugar dogmático e doutrinário.
Pode ser esse o caminho do movimento gay?
Pode e foi. Sempre lutei contra as representações politicamente correctas da homossexualidade. Três dos meus filmes tiveram estreia mundial no festival de Sundance e fiz um filme pornográfico gay sobre mortos-vivos que esteve em Locarno [L.A. Zombie, de 2010]. Não me marginalizo a mim mesmo, faço filmes que as pessoas querem marginalizar ou acham que só fazem sentido em certos contextos. Por isso, fazer filmes para o grande público é uma maneira de chegar a mais pessoas, uma forma de marketing em larga escala. É preciso jogar esse jogo.
Aparece creditado como um dos fundadores do movimento queercore no Canadá.
O que quer que isso queira dizer… Queercore foi uma resposta ao movimento punk hardcore dos EUA, que era uma forma muito específica do punk, relacionada com certas formas de música, com o pensamento anarquista e anti-capitalista.
Quis responder-lhes em que termos?
Em termos sexuais.
O movimento hardocre era anti-gay?
Não totalmente, mas havia uma forte corrente anti-gay. Qualquer movimento radical de esquerda tem sempre correntes homofóbicas. Che Guevara era um terrível homofóbico. Não tenho medo de criticar a esquerda radical, que não é tão radical quanto pensa. E quero mostrar através dos meus filmes que não existirá revolução sexual sem uma revolução homossexual.
Quer explicar melhor?
A política revolucionária de esquerda baseia-se na recusa das convenções sociais fundamentais, incluindo as convenções sobre sexo e género que se tornaram repressivas.
Situa-se nessa esquerda?
Não. Recentemente estive na Polónia e durante uma conversa com o público alguém se referiu a mim como um realizador de direita. No contexto actual, não há qualquer diferença entre esquerda e direita. A minha posição é mais complexa do que isso, mas acredito em princípios de esquerda como a igualdade, o anti-autoritarismo ou o feminismo.

Que aconteceu entretanto ao queercore?
Tive a mesma relação com o movimento punk que tive com o movimento gay: estive lá através de uma persona que se interessava por alguns dos valores, mas não se identificava por inteiro. Digamos que os princípios do punk se esvaziaram ao serem cooptados pela moda e pela corrente dominante. As tatuagens e as roupas tornaram-se contra-significantes de rebeldia.
Porque é que vê a normalização como uma coisa negativa?
Quem se opõe aos principais autoritários da sociedade não pode fazer parte do sistema repressivo e, no fundo, corrupto. Veja-se o cinema comercial: é quase sempre uma ferramenta de propaganda, um produto reaccionário ou nacionalista.
A palavra queer descreve bem o seu trabalho?
Sinto-me confortável com essa palavra, apesar das conotações ideológicas. Queer, para mim, significa questionar todas as convenções de género e de sexualidade. Tornar alguma coisa queer significa estragar, desafiar, perverter.
Está atento à nova vaga de realizadores queer: Ira Sachs, Andrew Haigh, Xavier Dolan?
Sou amigo do Xavier, vi os filmes dele. Dos outros dois conheço algumas coisas. Não podemos meter tudo no mesmo saco. Não sei.
Em comum têm o facto de filmarem sexo gay explícito.
Mostram penetrações? É tudo uma questão de penetração. É isso que separa os homens dos rapazes. Estou a brincar! Mas é preciso fazer a distinção entre pornografia e nudez.
Uma última pergunta: qual é o seu nome verdadeiro?
A única coisa que posso dizer é que tenho um nome verdadeiro e um nome falso que passa por verdadeiro.

[entrevista publicada na Time Out Lisboa de 19 de Novembro de 2014, pp. 64-65]

domingo, 5 de outubro de 2014

O casamento gay de um católico

Bruno Horta já leu o novo livro de José António Almeida. É um olhar sobre os acontecimentos de Janeiro de 2010. 

Quatro anos passados sobre a entrada em vigor da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, está na altura de reflectir sobre o tema e apresentar um testemunho daqueles dias. Assim terá pensado o poeta e escritor José António Almeida, cujo novo livro, Memória de Lápis de Cor, faz um balanço muito pessoal daquilo a que ele chama “uma nova realidade que destrona arcaicas ficções delirantes e homofóbicas”. 

A capa cor-de-rosa, quase infantil, não deixa adivinhar o que as 47 páginas do livro exibem. O percurso do autor, marcado pela ficção e poesia, também não. Memória de Lápis de Cor, oitavo livro de quem começou a publicar em 1984, é diário, é crónica e são memórias. Não há poesia, apenas ideologia.

Nascido em 1960, declara-se “católico de condição homossexual”. A vivência no Alentejo profundo (vila de Cuba) leva-o a concluir que “a situação dos homossexuais melhorou um pouco na capital e noutras cidades durante os últimos anos mas continua muito complicada ou bastante difícil nas aldeias, vilas e pequenos centros urbanos.”

O artigo 13º da Constituição portuguesa, que desde 2004 inclui a orientação sexual como característica em função da qual ninguém pode ser prejudicado ou beneficiado, é “insuficiente, por demasiado abstracto”, escreve José António Almeida. O casamento gay, aprovado a 8 de Janeiro 2010, esse sim, “constitui a mais sábia, prudente e segura maneira de prevenir crimes de natureza vária contra qualquer homossexual vivo ou por nascer”. Acrescenta: “A já principiada institucionalização universal do casamento entre pessoas do mesmo sexo produz um efeito de homologação entre hétero e homossexuais.”

Numa obra que parece ser a primeira do género a pensar à distância as alterações do Código Civil em 2010 são lançadas farpas aos que vêem o casamento como uma “imposição uniformizadora da diversidade homossexual” (argumento de sectores feministas e de esquerda, segundo os quais o casamento é uma instituição retrógrada e os homossexuais não deveriam querer pertencer-lhe).

Sobre política partidária, o livro recorda que o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista foram os únicos a inscrever explicitamente nos seus programas eleitorais de 2009 a promessa de aprovação do casamento (mas José António de Almeida omite que num primeiro momento, em 2008, o Partido Socialista votou contra o casamento gay e em 2010 recusou a parentalidade aos homossexuais).

Sobre a Igreja, lê-se que “a mais purpurada hierarquia católica e os católicos fundamentalistas do mundo inteiro permanecem incapazes de compreender que é possível viver de amoroso modo a condição homossexual como forma de bem-aventurança”.

Por isso, José António de Almeida deixa o vaticínio: “O próximo grande passo rumo à vitória da liberdade e ao triunfo do amor parece ser o casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo.” Eis a ideia nova que o livro contém.

[textos publicado na Time Out Lisboa de 20 de Julho de 2014, p. 64]

domingo, 31 de agosto de 2014

A transexualidade é natural?

[texto publicado no Diário de Notícias/Quociente de Inteligência de 30 de Agosto de 2014, pp. 10-12]




Saiu a primeira revista científica que aborda a transexualidade sem a considerar uma doença. Transgender Studies Quartely surge nos EUA numa altura em que o tema da identidade de género está a atingir o auge mediático e académico. Por Bruno Horta



Uma daquelas notícias que se perdem no meio do Verão – o anúncio da mudança de sexo do manequim croata Andrej Pejic, a 24 de Julho.  “Enquanto mulher transgénero, espero mostrar depois do processo de mudança que posso ser feliz e ter sucesso sem precisar de esquecer o passado", escreveu no Facebook a agora modelo feminina, que passa a chamar-se Andreja. Dias depois, no Twitter, detalhava ter feito uma cirurgia e rejeitava “ter-se tornado” uma mulher. “Sempre fui mulher, porque sempre senti que o era.”

Andreja Pejic é um dos mais poderosos ícones da indústria da moda. Rompeu para a fama na Vogue Paris de Setembro de 2010 e rapidamente passou a trabalhar para Gaultier, Galliano, Paul Smith ou Comme des Garçons, muitas vezes em desfiles e produções femininas. Em entrevista ao QI, ainda apenas Andrej, em Setembro de 2012, disse que tivera “um comportamento muito feminino” em criança, pois gostava de brincar com bonecas e de se vestir como as amigas. Sobre transexualidade, não se alongou: “As fronteiras entre o que é masculino ou feminino têm vindo a desaparecer em termos de vida social, económica e sexual.” 


Quando ela nasceu, há 22 anos – em Tuzla, na Bósnia-Herzegovina, pouco antes do início da guerra na ex-Jugoslávia, o que a obrigou a viver alguns anos num campo de refugiados na Sérvia – a transexualidade começava a ganhar foros de tema académico. Saía finalmente do restrito campo do activismo social e entrava no restrito mundo da universidade. Em 2014, quando Andreja Pejic muda de sexo e género, a transexualidade ganha uma revista científica pioneira: Transgender Studies Quartely (TSQ).


Trata-se de uma publicação em inglês, em versão electrónica e impressa, que inclui revisão por pares (peer-review, método de controlo de qualidade). Tem a chancela da Duke University Press (Carolina do Norte, EUA) e os principais editores são dois professores universitários: Susan Stryker, professora de Estudos de Género na Universidade do Arizona, e Paisley Currah, professor de Ciência Política e Estudos de Género na City University de Nova Iorque.


O primeiro número, que é duplo, saiu a 23 de Maio e tem como tema “Pós-pós-transexual: Conceitos-chave para os Estudos Transgénero no Século XXI”. A próxima edição está agendada para Outubro e será sobre “A Descolonização do Imaginário Trans”. 


Na capa do volume de estreia, uma imagem que é uma declaração de intenções: Chelsea Manning, transexual anteriormente conhecida por Bradley Manning, o militar americano que em 2009 verteu para a WikiLeaks centenas de milhares de documentos classificados sobre a guerra do Iraque e do Afeganistão e acabou condenado, em Agosto do ano passado, a 35 anos de prisão.


“Penso que o caso Manning é importantíssimo”, afirma Susan Stryker, de 53 anos, em entrevista ao QI. “É uma excelente forma de mostrar a transversalidade dos temas trans. É impossível pensar hoje a geopolítica – a vigilância exercida pelo estado, as pretensões globais dos EUA, assim como as estratégias de resistência à opressão dos governos – sem falar de Manning e da questão transgénero.”


Mais do que uma revista científica sobre transexualidade, a TSQ apresenta-se como a primeira revista científica sem uma abordagem médica à transexualidade, o que diz quase tudo sobre a ideologia que lhe subjaz. 


Absolutamente central, aqui, é o conceito de biopolítica, ou biopoder, conceito construído, tal como o conhecemos, na década de 1970 pelo filósofo francês, e homossexual, Michel Foucault (1926-1984). Explica Susan Stryker na revista: “Biopolítica descreve o cálculo de custos e benefícios através do qual as características biológicas de uma população são escrupulosamente aproveitadas para fins determinados pelo Estado ou por este autorizados.” O termo, acrescenta, refere-se à “somatização, por parte do indivíduo, das normas corpóreas e da ideologia que regula toda a população a que esse mesmo indivíduo pertence.”


Vivemos, portanto, em sociedades cujas tradições e sistemas político, social, legal, religioso e científico promovem a ideia de “inevitabilidade natural” nos corpos e comportamentos. É “normatividade de género” ou “binarismo de género”, que nega, no dizer de Susan Stryker, “o facto de a construção do corpo ser um artifício altamente contingente e reconfigurável”.


Vale a pena seguir o pensamento de Susan Stryker por mais alguns instantes: “Na abordagem biopolítica, o género não pertence, à partida, aos domínios da representação, isto é, à formação de imagens correctas ou incorrectas sobre a coincidência entre um sexo significante (macho ou fêmea) e uma categoria social significante (homem ou mulher) ou um quadro psíquico (masculino ou feminino). Na abordagem biopolítica, o género é, sim, um instrumento através do qual todos os corpos são confiscados, o que tem efeitos concretos como seja o rastreio burocrático que começa no nascimento, acaba na morte e atravessa todo o tipo de práticas de documentação exercidas ou autorizadas pelo Estado.”


Estamos no plano teórico puro – o plano dos Estudos Transgénero. A revista reivindica que as pessoas transexuais, tal como reivindicaram os homossexuais noutras épocas, não são doentes mentais (daí a rejeição da abordagem médica). São vítimas das normas sociais que vigiam, controlam e censuram todos os comportamentos não-normativos, especialmente no domínio das sexualidades.


“Pessoalmente, não considero a transexualidade uma patologia”, explica Susan Stryker ao QI. “É uma forma de se ser diferente, tal como a homossexualidade. Há quem seja e há quem não seja, é simples. Por vezes, o preconceito social ou a dificuldade que existe em lidar com a temática transgénero dentro das relações ou da família podem criar problemas de adaptação às pessoas trans. Mas ser trans não é, em si, uma doença. Há muitos casos em que os serviços de saúde intervêm sobre situações não-patológicas: a gravidez, por exemplo.”


Ao que se lê na introdução, os Estudos Transgénero, como campo interdiciplinar autónomo, têm origem em 1991 no livro Posttransexual Manifesto, da americana Sandy Stone. Aí se chamava a atenção para a necessidade de levar a transexualidade para a praça pública e quebrar o silêncio que então existia em torno do tema, utilizando-o, até, para “produzir disrupções nas sexualidades convencionais”.


Passados 23 anos, os Estudos Transgénero são uma área do conhecimento ainda a dar os primeiros passos. Convidada a escrever um dos artigos da TSQ, a referida Sandy Stone, professora emérita da Universidade do Texas, deixa o resumo: “É bom lembrar que ninguém que se dedique aos Estudos Transgénero tem formação em Estudos Transgénero. Estamos tão perto da origem quanto isto.”


A mesma especialista entende ser esta a quarta fase da evolução da disciplina: “Não está ainda formada nem tem os objectivos todos traçados, mas está no seu auge.” As outras três fases terão sido, por ordem cronológica, a do despertar individual para a temática, a da aproximação entre iguais e, ainda, a do início de um movimento social transgénero baseado em encontros, conferências e publicações amadoras.


Susan Stryker acentua que os Estudos Transgénero são um campo em “rápida consolidação”. Ao QI, aponta os EUA, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia como faróis nesta área, logo seguidos pela Escandinávia e países do subcontinente indiano e do Sudeste Asiático. Questionada sobre quantos investigadores se dedicam ao assunto, em que universidades e em que termos, a professora informa que a investigação provém dos grandes departamentos das universidades americanas, enquanto muitas faculdades de ciências humanas de vertente liberal têm cursos de Estudos Trans, mas apenas ao nível do bacharelato. “Ainda assim, persiste uma certa resistência da academia feminista em relação aos Estudos Trans”, sublinha.


Para Susan Stryker, “há uma curiosa relação entre a língua e os países em que os Estudos Trans se estabelecem primeiro.” “Conceptualmente, a disciplina baseia-se na distinção entre sexo e género, que facilmente se faz na língua inglesa mas é difícil de fazer noutros idiomas, incluindo os de origem latina.”


Em rigor, a língua portuguesa opera bem a diferença entre sexo e género, mesmo se na linguagem comum os termos se equivalem. “Sexo” descreve características biológicas, ou seja, os caracteres sexuais primários e secundários: masculino/macho e feminino/fêmea. “Género” descreve a construção social e cultural feita em torno do sexo: mulher/senhora homem/senhor. Quem nasce pertencendo ao sexo masculino, por exemplo, deve comportar-se de acordo com o que a sociedade espera de um homem: as bonecas são para as meninas, os rapazes não vestem saias, os homens sentem-se atraídos por mulheres, os homens são menos emocionais que as mulheres, etc.


Questionar isto representa um corte epistemológico com a “natureza”, porque na natureza nada é natural, tudo é convenção – eis o que vêm dizer os Estudos Transgénero, como já o tinham dito os Estudos Queer nos anos 1980. “O biologismo é a crença segundo a qual factores biológicos são determinantes na essência e para a essência dos fenómenos humanos, incluindo categoriais de identidade como raça e etnia, estatuto socio-económico, género e sexo”, escreve Sari M. van Anders, professora de psicologia e Estudos Feministas na Universidade do Michigan. Os Estudos Trans negam o “biologismo”. “Desde pelo menos o século XIX, a instituição médica, científica e legal, na Europa e na América do Norte, tem interpretado os indivíduos que manifestam comportamentos transgénero, ou têm características análogas, como seres cujos corpos devem sujeitar-se a toda a sorte de intervenções, com ou sem anuência”, lê-se na introdução da revista. “Os Estudos Transgénero, pelo contrário, derivam da contestação ao conhecimento normativo, surgida ao longo do século XX a partir da Teoria Crítica [Escola de Frankfurt] e das epistemologias pós-estruturalista e pós-modernista.”


Como o próprio título indica, a TSQ compromete-se a publicar quatro números por ano, o que significa que a edição de Outubro será igualmente dupla. A Duke University Press financia o projecto durante cinco anos com 100 mil dólares (cerca de 75 mil euros) e os editores ficaram responsáveis por angariar outro tanto. Nas contas de Susan Stryker, isto equivale a escassos 15 mil euros por ano. Por alguma razão que aquela responsável prefere não explicar, cinco fundações americanas que costumam doar fundos para causas trans não quiseram financiar o projecto, pelo que os editores optaram, no que aos seus 75 mil euros diz respeito, por criar campanhas de angariação de fundos através da internet (crowdfunding).


O volume inaugural apresenta 86 artigos que correspondem a entradas de enciclopédia e não propriamente a ensaios académicos. Esses surgirão nos números seguintes. Note-se que o nome Andrej Pejic não aparece uma única vez nas 302 páginas da revista, talvez por a figura andrógina que ele assumia antes da mudança de sexo não ter peso suficiente no discurso político trans. Várias figuras públicas transgénero são enunciadas nos artigos da revista. Uma delas é Buck Angel, conhecido actor pornográfico americano cujo trabalho pôde ser visto pelos lisboetas em 2008 quando a curta-metragem Schwarzwald: The Movie You Can Dance To, de Richard Kimmel, foi exibido no festival de cinema Queer Lisboa. Buck Angel mudou de género sem se sujeitar à mudança de sexo. “Não preciso de ter um pénis para ser um homem” é a declaração de guerrilha que costuma fazer.


É desigual a abordagem dos textos, uns imparciais e de síntese, outros assumidamente interventivos e focados em cisões do movimento social trans. A questão da linguagem e da ideologia das palavras atravessa-os quase todos. Os Estudos Trans reclamam o seu espaço e a batalha faz-se ao nível dos conceitos. 


Que é a transexualidade? Qual o alcance do conceito transgénero? O travestismo é uma forma de “transgenerismo” (palavra não dicionarizada)? Que lugar têm na discussão as pessoas intersexuais (hermafroditas)? Para que servem os Estudos Trans na luta pela “despsiquiatrização” da transexualidade? À luz desta disciplina, como entender a androginia noutras culturas?


Comecemos pela entrada “LGBT”, assinada por Zein Murib, aluno de doutoramento em Ciência Política na Universidade do Minnesota. “O uso ubíquo da sigla LGBT no discurso social, académico e político norte-americano sugere que as categoriais lésbica, gay, bissexual e transgénero se equivalem e são idênticas na sua experiência de vida, pelo que podem ser todas remetidas para essa mesma categoria”, enuncia. Ora, as recentes mudanças na percepção pública Ocidental da homossexualidade teriam criado, segundo Zein Murib, um conjunto de privilegiados dentro das minorias sexuais. Seriam os assimilados: gays e lésbicas que querem viver de acordo com as regras que muitos heterossexuais projectam (monogamia, casamento, filhos). Esses assimilados rejeitariam qualquer expressão não-normativa da sexualidade como a que transexuais e travestis incorporam.


O ponto de vista coincide, em parte, com divergências havidas no interior do movimento LGBT português por volta de 2009-2010, quando o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo estava na ordem do dia. Activistas mais chegados à esquerda criticaram sectores LGBT centristas por estes, alegadamente, pretenderem extinguir a exuberância dos travestis na Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa (manifestação pública que decorre em fins de Junho).


Na entrada “Cisgenderism”, os psicólogos Erica Lennon e Brian J. Mistler, notam que o termo cisgénero (“dentro do género”, ou seja, as pessoas não-transexuais) pode ser aplicado a quem “nega, denigre ou medicaliza as identidades de género que não correspondem ao sexo atribuído à nascença”. O “cisgenderismo”, dizem, é uma “ideologia que protege e prolonga a crença de que as identidades cisgénero devem ser mais valorizadas do que as identidades transgénero, o que cria um sistema de poder e privilégio.” Logo, os indivíduos que não se conformem às normas da maioria passam a ser vistos como “desviantes e imorais”.


Especialmente revelador é o texto “Islam and Islamophobia”, demonstrativo de que o universo trans pode criar pontes para temáticas diversas. Rüstem Ertüg Altinay, aluno de doutoramento na Universidade de Nova Iorque, afirma ser distorcida a ideia de que os países islâmicos perseguem os homossexuais masculinos, obrigando-os a mudar de sexo. Uma ideia alimentada pelas práticas no Irão dos ayatollahs, como mostra o documentário Be Like Others, de Tanaz Eshaghian, exibido no festival DocLisboa 2008. 


“O discurso nacionalista que retrata o Islão e as sociedades islâmicas como puramente transfóbicas, homofóbicas, ignorantes e retrógradas serve o mito da excepcionalidade ocidental e legitima formas de violência e opressão” sobre o Médio Oriente, escreve Rüstem Ertüg Altinay. Conclui: “A bioética islâmica dá às pessoas uma autonomia limitada sobre os seus corpos, pois considera que lhes foram atribuídos por Alá como prova de confiança. Dentro deste modelo, as operações de mudança de sexo são proibidas por constituírem lesões auto-infligidas. Os maiores opositores destas operações são os juristas sunitas [a maior ramo do Islão], para os quais se trata de repudiar a vontade de Alá. Os apoiantes das operações de mudança de sexo, imãs shiitas e uma minoria de juristas sunitas, sublinham o princípio islâmico de que a necessidade deve sobrepor-se às proibições.”


Na linha deste artigo, Susan Stryker reconhece logo nas primeiras páginas a insuficiente visão euro-americana da revista. Espalhados pelo mundo, sempre houve grupos que cultivam aquilo a que o Ocidente agora chama “transgenerismo”: eunucos ou hijras na Índia, baklâs nas Filipinas, mahus no Havai ou berdaches entre os ameríndios.


“Uma vez que o conceito transgénero pode incluir, em última instância, todas as variantes de uma norma nem sempre estabelecida, arrisca-se a ser mais um programa de colonização”, concede Susan Stryker. Os Estudos Trans estariam, pois, a “tentar entender a diversidade humana a partir de um quadro mental de matriz eurocêntrica”, quando, na verdade, outras culturas incorporam e interpretam com outras ferramentas as suas próprias manifestações de metamorfose de sexo e género sem as nomearem como transgénero.


No artigo “Transgender”, de Cristan Williams, directora da Transgender Foundation of America, ficamos a saber que aquela palavra, como termo-chapéu para “um conjunto de identidades de género não-normativas”, ganhou popularidade no inglês americano em inícios da década de 1990 (a autora rejeita a ideia corrente de ter sido o travesti americano Virginia Prince a cunhar a palavra em 1969). Já em meados de 80, diz, “transgénero” designava genericamente transexuais, travestis, intersexuais (hermafroditas) e outras identidades não-cisgénero.


Mas voltemos à questão da doença, fundamental no discurso trans. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a transexualidade é uma “perturbação mental”. Assim aparece descrita no documento de referência Classificação Internacional das Doenças (ICD, na sigla inglesa), décima versão, de 2010. Note-se, a propósito, que até 1990 também a homossexualidade foi uma doença mental no entender da OMS, ainda que tivesse desaparecido em 1973 do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria.


Este mesmo manual, cuja quinta edição saiu no ano passado, fez substituir a anterior noção de “perturbação da identidade de género” por “disforia de género”. À luz da psiquiatria, uma pessoa pode ser diagnosticada com “disforia [mal-estar] de género” se manifestar uma “diferença assinalável entre o género que expressa ou sente e o género que outros lhe atribuiriam, o que deve durar pelo menos seis meses.”


Tais visões psiquiatrizantes têm sido contestadas pelo activismo trans – veja-se a campanha internacional Stop Trans Pathologization 2012. E por instituições como o Parlamento Europeu – que em 2011 aprovou uma resolução que pedia à OMS a retirada da transexualidade do ICD (cuja 11ª versão estava prevista para 2015 e foi adiada para 2017).


No artigo “Human Rigths”, lê-se que a identidade de género (por oposição à orientação sexual, ou seja, homo ou bissexualidade) só no século XXI conseguiu reconhecimento como direito fundamental. Escreve Carsten Balzer, da organização não-governamental Transgender Europe, que a mudança de paradigma teve o momento alto com a aprovação dos Princípios de Yogyakarta, em 2006. O documento, reconhecido pela Organização das Nações Unidas e pelo Conselho da Europa, entre outros, fala especificamente das minoriais sexuais e diz que, “não obstante quaisquer classificações contrárias, a orientação sexual e a identidade de género não são, em si mesmas, problemas de saúde, pelo que não se podem sujeitar a tratamento, cura ou repressão.”


Os defensores da transexualidade como identidade não-patológica entendem que a violência simbólica e a discriminação de que são alvo as pessoas transexuais – por vezes vítimas de agressão e homicídio, como aconteceu em Portugal a Gisberta Salce Júnior, em 2006 – se devem em grande medida às classificações médicas.
 

Na entrada “Depathologization”, assinada pela socióloga espanhola Amets Suess, entre outros autores, destaca-se a mudança de paradigma que o discurso da “despatologização” propõe: “Deixar-se-ia de conceber a transição de género como um distúrbio mental, reconhecendo-a, sim, como um direito fundamental e uma forma de expressão da diversidade humana.” Dentro desta perspectiva, “o conflito não está na própria pessoa trans, mas numa sociedade transfóbica, caracterizada pelo binarismo de género.”


Em 2004, a Constituição portuguesa passa a incluir no artigo 13º a “orientação sexual” (homo ou bissexual) como característica em função da qual nenhum cidadão pode ser prejudicado ou beneficiado. A categoria “identidade de género” ficou de fora, o que gerou conflitos no movimento LGBT, no qual a realidade trans sempre foi marginal.


Em 2011, o Código do Registo Civil é alterado para permitir a “mudança de sexo no registo civil e correspondente alteração de nome próprio”, desde que haja um dignóstico de perturbação da identidade de género (agora entendida como “disforia de género”). Chamada Lei da Identidade de Género, teve como principais autores os então deputados Miguel Vale de Almeida (independente eleito pelo Partido Socialista) e José Soeiro (Bloco de Esquerda), que se inspiraram directamente num diploma semelhante que vigorava em Espanha desde 2007. Os transexuais portugueses passaram a poder mudar de sexo e nome sem se sujeitarem a cirurgias genitais e ao consequente procedimento judicial para efeitos de registo civil.


Em Novembro último, a Alemanha passou a permitir que os bebés intersexuais (hermafroditas) sejam registados como pertencendo a um sexo “indefinido”, o que é visto como uma forma de respeitar a integridade das cerca de 150 pessoas hermafroditas que todos os anos nascem naquele país. 


São exemplos da recente adaptação legal à realidade transgénero. Em termos mediáticos, há cada vez maior visibilidade. Disso são exemplo a série americana Orange is the New Black, que tem como uma das protagonistas a actriz transexual Laverne Cox, ou o filme O Clube de Dallas (2013), de Jean-Marc Vallée, em que o actor Jared Leto deu corpo a uma mulher transexual, o que lhe valeu um Óscar para Melhor Actor Secundário e um Globo de Ouro na mesma categoria. O mesmo se diga da emergência de manequins transexuais no Brasil, como a já famosa Lea T e a recém-chegada Carol Marra, ou ainda, entre nós, da participação do transexual mulher-para-homem Lourenço Ódin Cunha no reality show da TVI Casa dos Segredos 4, no ano passado.


Será que a temática trans inicia agora um percurso idêntico ao já feito pelos homossexuais, a caminho de uma visibilidade que se torne normalizante? “Estamos a abrir a porta”, responde Susan Stryker ao QI. “Há hoje mais oportunidades para algumas pessoas transgénero chegarem ao espaço público: as que consigam incorporar normas e ideais dominantes, como ser branco e monogâmico, ter um corpo elegante e aparentar normalidade social. Outras pessoas continuarão a ser marginalizadas. Penso que antigamente quem quer que fosse trans estava sujeito a opressão. Agora, a comunidade começa a polarizar-se em dois grupos: os mais fracos e os menos fracos de entre os trans.”