sábado, 12 de Abril de 2014

Sexualidade e política

«Não precisamos  de regressar ao defunto freudo-marxismo dos anos  60, nem ao problema da integração da sexualidade na luta política, para percebermos que a sexualidade é um problema político; e que, na rejeição ou na aprovação da lei da co-adopção, a homossexualidade estava em causa não como o que se passa na cama,  mas como o que se passa na polis, na praça pública. E aqui começamos a perceber que entre a afirmação  “eu sou homossexual” e a recusa de o dizer há uma  zona muito mais ambígua que Daniel Oliveira parece  não reconhecer. Aquilo que na homossexualidade  constitui um problema para os políticos não é o que se passa na cama, mas o modo como a sexualidade se difunde num modo de vida, que compreende uma  cultura e uma ética. É com toda a veemência que  temos de recusar esta ideia muito limpinha de Daniel Oliveira: “Um homossexual é apenas uma pessoa que  tem preferência sexual e/ou amorosa por pessoas do  mesmo sexo”. Igualmente falsa, escandalosamente  falsa, é a ideia simétrica de que um heterossexual é  apenas uma pessoa que tem preferência por pessoas  do sexo oposto.»
António Guerreiro, Ípsilon, ontem, aqui

terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Literatura gay como nunca ninguém a viu




O primeiro dicionário de literatura LGBT portuguesa é uma ideia da editora Índex. Electrónico e gratuito, escreve Bruno Horta.

O que é um livro ou um filme gay? Há peças de teatro gay? Porque é que um bar frequentado por todo o tipo de pessoas deve ser considerado gay? O que é gay não é para todos? Se é para todos, para quê chamar-lhe gay? São estas perguntas sem resposta definitiva que circulam com mais ou menos frequência pela redacção da Time Out Lisboa.

Pois parece que o dilema não é só nosso e acaba de fazer novas vítimas. São eles João Máximo e Luís Chainho, coordenadores do novo Dicionário de Literatura Gay e responsáveis pela editora que o dá à estampa, Índex Ebooks – primeira editora portuguesa de literatura LGBT em formato digital, fundada em Março de 2012.

O dicionário, descrito por João Máximo como “o primeiro do género em português, tanto quanto se saiba”, começa a ser publicado já na próxima segunda-feira, 24. Electrónico e gratuito, pode ser descarregado através das lojas online Amazon, Google Play e Apple e no site de impressão a pedido (print on demand) Lulu.com. É projecto para durar cerca de um ano. Ao longo dos próximos meses vão saindo fascículos que correspondem às letras do alfabeto.

Para já, sai o tomo da letra “A”. Começa com A Alma Trocada, de Rosa Lobato Faria, e vai até Aula de Poesia, de Eduardo Pitta. Foi este primeiro volume que a Time Out já leu numa versão provisória. Nele aparecem livros como A Vida de Horácio, de José António Almeida; Antinous, de Fernando Pessoa; ou Agradece o Beijo, de Ana Zanatti; e notas biográficas de Ary dos Santos ou Al Berto.

Nas primeiras páginas surge um aviso que demonstra a dificuldade dos coordenadores na escolha do conteúdo. “A inclusão de um autor, editor, livreiro, ou qualquer outra pessoa, não tem qualquer significado em relação à sua orientação sexual. O único critério para inclusão de autores ou outros prende-se com a sua contribuição para a literatura gay”, lê-se.

João Máximo explica à Time Out que o objectivo do aviso é o de “evitar causar melindre”. E dá um exemplo. “Há uma entrada para António Lobo Antunes, por causa do livro Que Farei Quando Tudo Arde? Ele não é um autor de literatura gay, mas aquela obra  é de temática gay.”

O mesmo responsável nota que ele e os colaboradores do projecto, cuja lista final de nomes está por fechar, não são académicos nem especialistas em literatura. “Não temos a veleidade de fazer uma análise literária profunda, por isso é que se trata de um dicionário e não de uma enciclopédia. Limitámo-nos a elencar referências, não estamos a fazer crítica ou estudos comparados”, afirma. “O objectivo é ter uma lista exaustiva: tudo quanto soubermos e conseguirmos apurar, entra.”

Com capa inspirada numa serigrafia de Salvador Dalí, o dicionário junta algumas ideias e sugestões recolhidas através de um fórum que os editores criaram em 2012 no site GoodReads. Pela primeira vez, sob a forma de fichas de leitura, junta-se informação dispersa que pode ser útil a quem acompanha a temática LGBT. A grafia escolhida é a do Acordo Ortográfico de 1990.

Há citações e hiperligações de diversas fontes, uma das quais a Time Out Lisboa (por iniciativa dos organizadores), e são apenas referidos autores de língua portuguesa publicados em Portugal. “Limitámos o âmbito, porque não temos acesso a especialistas que nos dêem informações sobre tudo o que sai nos países de língua portuguesa”, justifica João Máximo. “O critério principal é o interesse que certos livros ou autores têm para a comunidade LGBT. A fronteira não é fácil de definir, haverá sempre lugar a grandes debates”, conclui.
[texto publicado na Time Out Lisboa de 19 de Fevereiro de 2014, pp. 64]

terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014

“É importante erotizar corpos velhos e gordos”


O realizador Alain Guiraudie conversa com Bruno Horta sobre o filme O Desconhecido do Lago. E explica porque é que filmou imagens pornográficas. O retrato é de Gonçalo F. Santos.

Quem é o desconhecido do lago? Talvez seja Henri, o homem gordo de meia-idade que se senta à beira da água e espera que a vida mude sozinha. Ou Franck, o jovem que procura sexo anónimo no bosque junto ao lago. Ou então Michel, um críptico corpo sexual que todos namoram. Talvez seja, enfim, o morto que aparece a boiar, segredo de polichinelo nesta história. Ou se calhar não é nenhum deles.

"Fiz um filme em torno da questão do desejo, sobre o que é o desejo”, explica o realizador, Alain Guiraudie, em conversa com a Time Out. “Procurei evocar o mistério do desejo, é um assunto que me fascina. O desejo não apenas homossexual e não apenas sexual. O desconhecido, aqui, pode muito bem ser o desejo.”

Alain Guiraudie esteve em Lisboa na semana passada para participar no Lisbon & Estoril Film Festival. Foi homenageado com uma retrospectiva integral que incluiu O Desconhecido do Lago, com estreia comercial agendada para esta quinta-feira. O filme ganhou em Maio, no festival de Cannes, a Palma Queer, prémio criado em 2010 para o melhor filme de temática LGBT, e ainda o Prémio de Melhor Realização na secção Un Certain Regard.

É um Verão francês à beira-lago com homens solitários à procura de companhia para uns minutos de prazer. O engate acontece numa mata vizinha (é inevitável, para os lisboetas, pensar na Praia 19 da Costa da Caparica, porque a coreografia é a mesma).

É assim que Franck (Pierre Deladonchamps) conhece Michel (Christophe Paou). Henri (Patrick d'Assumçao, actor francês de origem portuguesa), pelo contrário, não engata mas procura companhia, tal como os outros. E de repente, dá-se o homicídio de um desses buscadores de sexo, facto que parece não alterar em nada a rotina daqueles homens. “O crime é uma metáfora dos amantes ultra-liberais dos dias de hoje que descartam rapidamente as pessoas com quem tiveram sexo”, comenta o realizador.

A entrevista decorre no Cinema Monumental, ao fim do dia. Alain Guiraudie mostra-se interessado em debater as várias interpretações que a história desperta. Não fala inglês, apenas francês, mas mesmo na sua língua luta com as palavras, como se não tivesse, e parece não ter, um discurso formatado sobre aquilo que faz.

Anda às voltas para explicar as cenas de sexo explícito do filme. “Retirei a carga pornográfica do acto sexual e juntei órgãos sexuais em funcionamento a grandes imagens de amor”, diz ao início. E acrescenta: “A paixão amorosa passa pelo sexo e o sexo são os órgãos em funcionamento.” Por fim, remata: “Acho que vivemos num mundo com cada vez mais imagens pornográficas, mas não me deixei influenciar por isso, penso até que estou contra a corrente. Quero unir imagens de sexo a imagens amorosas, à paixão e até mesmo a uma narrativa, ou seja, à palavra. Às vezes parece que temos um cinema de segunda, que é pornográfico, e um grande cinema lírico, que mostra os beijos e o amor. É importante que ambos se juntem.”

Alain Guiraudie nasceu há 49 anos em Villefranche-de-Rouergue e vive em Albi, uma cidade de 50 mil habitantes perto de Toulouse, em França. O ambiente rural é-lhe familiar e por isso o representa tanto no grande ecrã. Assim é em O Desconhecido do Lago e assim foi em O Rei da Evasão, que os portugueses puderam ver em 2010.

“É importante defender o mundo rural e erotizar corpos que não costumam ser erotizados no cinema: velhos, gordos e pessoas com mais de 30 anos, que também têm direito à sexualidade e ao prazer”, defende.

À ruralidade e às personagens pouco óbvias alia um discurso marginal sobre a homossexualidade. Daí que a Palma Queer o perturbe um pouco. “Deram-me e aceitei, até porque o presidente do júri era João Pedro Rodrigues, por quem tenho enorme admiração. Recusar o prémio teria sido pretensioso, mas não páro de me questionar. Queer é uma ideia política que implica uma certa abertura ao mundo. Nesse caso, porque é que filmes sobre heterossexuais não recebem prémios queer?”

O realizador entende que as palavras “gay” e “queer” resultam de uma americanização das sociedades e do ambiente politicamente correcto em que vivemos. Aplicadas ao cinema, afirma, são palavras que “não fazem sentido” por não corresponderem a géneros cinematográficos. “Na Fnac, em França, e penso que aqui em Portugal também, há uma secção de filmes e livros gay. Ao mesmo tempo, Pedro Almodóvar ou André Téchiné não são vendidos como realizadores gay. Só os autores menos conhecidos é que entram nessa categoria. Quando se atinge um certo sucesso, sai-se da categoria. Espero que os meus filmes possam ser vistos como filmes universais.”

 
[entrevista publicada na Time Out Lisboa de 20 de Novembro de 2013, pp. 64-65]

segunda-feira, 27 de Janeiro de 2014

“Os meus filmes não são pornográficos”




Na semana passada, quando falou com a Time Out Lisboa, Travis Mathews não sabia que Interior. Leather Bar tinha estreia agendada no circuito comercial para esta quinta-feira, 3. “Tenho tido pouco contacto com a distribuidora em Portugal e não me disseram nada”, lamentou. A entrevista acontece durante o Queer Lisboa, no cinema São Jorge. O festival de cinema gay e lésbico exibiu aquele documentário de ficção (realizado em conjunto com o actor James Franco) e a curta In Their Room London (terceira parte de uma série de filmes conceptuais sobre a intimidade de homens gay). Nascido há 38 anos no estado do Ohio, Travis Mathews mora em São Francisco e é um autodidacta do cinema. Estudou psicologia e chegou a exercer, mas depois dos 30 anos cedeu à antiga paixão pela sétima arte.

Interior. Leather Bar faz parte de um conjunto de filmes recentes que adoptam a linguagem da pornografia. Concorda?
Chamo-lhe um documentário de ficção, mas a natureza do filme é muito escorregadia. Até agora, só tinha feito filmes gay, mas Interior. Leather Bar é um filme queer. Está entre a ficção e o documentário, entre o filme independente e o pornográfico. O conteúdo é sobre a desconstrução de fronteiras, sobre o que é ou não permitido. E além disso, o actor principal, Val Lauren, é mesmo heterossexual e aproxima-se de um mundo gay que é desestruturante, para ele e para muitas pessoas que entram no filme.

É possível saber onde começa e acaba a ficção neste filme? 
Não se sabe. Mas também não tenho problemas em falar sobre isso. Já me perguntaram sobre as conversas telefónicas que aparecem e eu assumo que são ficção. Filmámos com quatro ou cinco câmaras e toda a gente sabia que estariam sempre ligadas mesmo depois de eu dizer “corta”.

Como é que aconteceu esta colaboração com James Franco? 
Um dos produtores dele enviou-me um email. O James Franco queria fazer um filme baseado em A Caça, de 1980, e estava interessado em colaborar com um realizador que já tivesse usado o sexo como dispositivo narrativo. Isto passou-se no Verão do ano passado. Eu já tinha visto A Caça, estava a par da polémica que o filme gerou na altura, mas nunca tinha ouvido falar dos míticos 40 minutos que terão ficado de fora da montagem final. Descobri essa informação e acabámos os dois por perceber que seria um bom ponto de partida.

Mas porquê esse filme em particular?
A ideia foi do James. Acho que ele sempre se interessou por temas provocantes e polémicos. A ideia era a de perceber como é que um filme daqueles seria recebido nos dias de hoje.

À época, A Caça foi considerado anti-gay.
Sim, claro. A mensagem central é de que há um assassino que só o é por ser gay. Noto que hoje já nem todos pensam assim. Os gays mais novos, com menos de 30 anos, olham para aquilo com nostalgia, gostam de ver o ambiente gay de Nova Iorque no fim dos anos 70, antes do aparecimento da sida. 

Interior. Leather Bar transmite uma crítica muito forte: a ideia de que a cultura dominante aceita a homossexualidade em abstracto, mas não as práticas sexuais dos homossexuais.
Nas primeiras conversas que tive com o James Franco falámos desse tema: em troca de direitos iguais, em troca do direito ao casamento, corre-se o risco de se perder alguma coisa, o risco de se apagar certas realidades. Os aspectos mais marginais, provocadores e sexuais das pessoas queer estão a ser um pouco silenciados em favor de uma assimilação, uma aproximação à cultura heterossexual dominante.  

Independentemente de aspectos políticos concretos, diria que os seus filmes, incluindo a série de curtas In Their Room, são porno-arte?
Sei que não existirá nunca uma definição consensual sobre o que  é a pornografia, mas para mim o principal objectivo de quem faz  e de quem vê pornografia  é o de provocar excitação sexual. Os meus filmes não são pornográficos, porque quando os faço só muito remotamente me ocorre que há quem os possa usar para se masturbar. O que me interessa são outras realidades  da sexualidade: a intimidade, os medos, o naturalismo, os pormenores que dizem muito ou  a informação que é transmitida pelo simples facto de se estar nu.

[entrevista publicada na Time Out Lisboa de 2 de Outubro de 2013, pp. 64-65] 

segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014

Que farei sem este armário?


Dois poemas neste livro parecem comunicar entre si, mesmo se estão longe em termos de forma e de paginação: “As Bodas de Caná” (pág. 7) e “Armário Antigo” (pág. 64).

No primeiro, José António Almeida  (n. 1960) canta loas ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, do ponto de vista do que seria a inexistência desta lei: “Que podem dois rapazes como nós/ senão viver assim dissimulados/ e procurar sorrir desentendidos/ a perguntas que ficam sem resposta./ Ninguém abençoa a nossa aliança// – nem aplauso, nem música, nem vinho.”

No segundo poema, metáfora do fim da ocultação gay, dois versos lançam uma pergunta desconcertante: “Agora que enfim dele nos livrámos,/ que vamos nós fazer sem esse armário?”

Arco da Porta do Mar, agora editado pela &Etc e com ilustração da capa de Luís Manuel Gaspar, sucede imediatamente a Obsessão (2010) e a O Casamento Foi Sempre Gay e Nunca Triste (2009), dois livros de poemas que avultavam em activismo e homoerotismo. São marcas de um autor que começou a publicar em 1984 e há muito se apresenta fora do armário.

Desta vez, porém, José António Almeida aprofunda o tom, transformando-o; a espaços, pornográfico: “Sombra longa de faca que foi círio/ vermelho numa tenda toda branca” (“Velho Poeta em Maus Lençóis”, pág. 17); “Secreta flauta tocas, pastorinho/ – e no mais profundo de mim mesmo sei/ que sou tua, pastor, ovelha negra.” (“Ovelha Negra”, pág. 24); ou ainda no apenso em prosa “Corandel”, no fim do volume: “Talvez a poesia seja um noivo ou um mistério que nunca se abandona ou de nós, por magna razão desconhecida, não desiste, se acaso, ainda que por uma única e bastante fortuita vez, no passado mais pretérito lhe pertencemos a ele, esse noivo ou mistério, pelo nosso rabinho, devagar e direito e com muita humildade, docemente se entranhou” (pág. 80).

No mesmo registo, “Releitura de Kavafis nos Trópicos” (pág. 46) é uma rara composição sobre a vida interior numa sauna gay: “Vermelho fulgor, húmido, tangível,/ do deleite carnal sem atavios/ trepando por sorrisos e blandícias// em cave corroída de bolor./ Com o musgo do sexo na parede/ da casa abrasadora desse bairro,/ decrépito bordel onde provei/ com fúnebre sabor e passiflora/ migalha de torpor do paraíso.”

É um livro culto, com densas camadas a pedirem exploração atenta, mas talvez carregue um excessivo adorno de epígrafes, dedicatórias e citações (inglês, francês, italiano). Trabalho de filigrana que José António Almeida parece justificar em “Corandel”: “Não sei, nem nunca saberei, definir poesia. Mas a palavra que para mim, apesar de tudo, está mais próxima dela é a palavra obsessão.” Bruno Horta

[texto publicado na Time Out Lisboa de 8 de Janeiro de 2014, p. 65]

domingo, 19 de Janeiro de 2014

MOOC é o nome de uma revolução na internet e no ensino

Estudar através do computador é a nova moda vinda dos EUA. Está atrair adultos já formados e com emprego. Chamam-se Massive Online Open Courses (MOOC). A diferença em relação aos velhos cursos à distância está num pormenor: são gratuitos. Mas o certo é que alguém tem de pagar a conta. Relato de um jornalista na primeira pessoa. Por Bruno Horta

Nos últimos tempos tive aulas com jornalistas do El Mundo, do New York Times, do site ProPublica e da NPR (rádio pública norte-americana). Eu e mais uns milhares de pessoas. Aprendemos as noções básicas do jornalismo de dados, uma nova técnica de investigação que tem vindo a ganhar protagonismo nas redacções. Consiste, resumidamente, em encontrar notícias em relatórios e tabelas e apresentar o resultado através de um grafismo apelativo, em papel ou online. Contactar com alguns dos melhores do mundo e falar directamente com eles foi uma oportunidade única, sobretudo para quem como eu exerce a profissão em Portugal e sente estar longe das inovações na área. Acontece que os instrutores não me ficaram a conhecer. Nem eu a eles.

Recorri a uma nova forma de ensino à distância: Massive Online Open Courses (MOOC), ou cursos livres online em larga escala. Descobri-os em Novembro de 2012 e até então nunca tinha ouvido falar de tal coisa. Até agora, completei dois MOOC e envolvi-me num terceiro que deixei a meio. Todos na área do jornalismo.

Um MOOC pode durar cinco ou seis semanas e cada uma delas costuma corresponder a um módulo da matéria. No computador e no telemóvel vejo vídeos com palestras dos instrutores e leio textos recomendados. As aulas, chamemos-lhes assim, não têm hora marcada, são assíncronas, frequento-as quando quero. Aproveito os fins-de-semana, que é quando tenho mais tempo. A cada oito dias faço um teste de escolha múltipla ou um exercício prático proposto. Passa-se tudo em ambiente digital, por escrito, à distância e em inglês. Sou avaliado pelos meus colegas ou pelos instrutores. No fim do curso, posso pedir um certificado de frequência, mas para isso tenho de pagar (30 dólares, cerca de 23 euros, em dois casos). De resto, é tudo gratuito. Ou quase.

Os MOOC são obviamente revolucionários e começam agora a espalhar-se por todo o mundo depois de em 2012 e 2013 terem estado sob os holofotes da imprensa americana. Alguns especialistas têm uma fé inabalável de que nada será como dantes na área da educação. Mas perante este entusiasmo é preciso falar dos contornos pouco claros em que o negócio pode assentar. 
 
Guiado por uma grande curiosidade sobre o tema, a mesma que agora me leva a escrever este texto, consultei na Internet, durante o Verão passado, o programa de uma conferência internacional sobre educação que iria decorrer em fins de Outubro em Doha, no Qatar. Procurei referências aos MOOC. E lá estavam. Um dos debates tinha por título “Podem os MOOC democratizar o acesso ao ensino superior?”.
A World Innovation Summit for Education (WISE), assim se chama a conferência, é promovida desde 2009 pela Fundação Qatar, com o apoio da UNESCO. Há quem lhe chame “Davos da educação”. Tal como no Fórum Mundial Económico, também aqui se juntam as personagens que contam. Neste caso, as do mundo da educação. George Siemens, que há cinco anos inventou os MOOC, esteve por lá e falou comigo. 
 
As opiniões sobre os MOOC têm vindo a extremar-se. Houve quem dissesse durante a conferência que são uma nova forma de colonização, por estarem dependentes das temáticas e instituições norte-americanas. E houve quem, pelo contrário, defendesse que esta novidade está para o ensino como os computadores tablet para a distribuição de conteúdos: conhecimento portátil e de fácil interacção. 

Os MOOC configuram uma mudança de poder e uma reorganização das relações de aprendizagem”, explicou-me George Siemens, professor na Universidade do Athabasca, no Canadá. “Sempre que surgem novas estruturas de poder, aparecem resistências por parte de quem sente o seu lugar ameaçado. Os MOOC são também ministrados por empresas privadas e muitos académicos estão preocupados, e bem, com o papel das universidades públicas. As universidades devem participar na discussão deste tema”, sob pena de ficarem para trás.

O meu primeiro MOOC começou em Outubro de 2012 e chamava-se "Introdução à Infografia e Visualização de Dados". Era promovido pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas, e tinha como professor Alberto Cairo, jornalista espanhol que depois de ter trabalhado no El Mundo e na revista brasileira Época se tornou um dos maiores especialistas mundiais em infografia e jornalismo de dados. Fiz o curso até ao fim, durante seis semanas, juntamente com dois mil estudantes de 109 países (dados oficiais).

Acho que soube da existência do curso através da newsletter que o Centro Knight costuma enviar por email, mas já não tenho a certeza. Terá sido o primeiro MOOC sobre jornalismo alguma vez realizado.

Inscrevi-me na plataforma online que a instituição criou para o efeito e participei no curso em casa, através do meu computador portátil: às vezes no sofá, outras à secretária e outras, até, na cama. Um esquema em árvore permitia-me saber a todo o tempo que módulo estava a fazer e quantos faltavam. Os vídeos duravam cerca de dez minutos cada e eram muito simples, com uma voz off sobre imagens criadas em Powerpoint. Através de fóruns online, que não utilizei tanto quanto deveria, troquei ideias com colegas de todo o mundo. Dei opinião sobre os exercícios dos outros e recebi opiniões sobre os exercícios que fiz.

Se acho que aprendi alguma coisa? Sim, mas não me tornei especialista em jornalismo de dados, porque não era esse o objectivo. Fiquei com uma visão geral sobre o assunto. Fui um autodidacta que encontrou a matéria já organizada. 
 
Meses mais tarde, inscrevi-me num segundo MOOC do Centro Knight, “Jornalismo de Dados: Noções Básicas”, que decorreu em Agosto e Setembro de 2013 e terá tido 3700 participantes de 143 países. Na primeira semana contei 11 portugueses: dois do Porto, um de Coimbra e oito de Lisboa.

Derek Willis, jornalista e programador informático do New York Times; Sisi Wei, jornalista e designer gráfica que trabalhou no Washington Post e agora está no site sem fins lucrativos ProPublica, dedicado ao jornalismo de investigação; e Jeremy Bowers, da NPR, foram alguns dos meus instrutores. Note-se que em países anglo-saxónicos a noção de jornalismo é mais abrangente do que em Portugal e inclui tarefas técnicas e criativas como as de designer editorial.

No primeiro MOOC andei um pouco perdido, sem saber que tipo de participação e rotina deveria adoptar. Desta vez, apliquei-me a sério. Conversei mais vezes nos fóruns e descobri que aí se aprende bastante. A interacção com os instrutores é limitada, mas existe, enquanto a partilha entre colegas, essa sim, é frequente e fundamental.

Diariamente publiquei na minha conta do Twitter ideias soltas sobre este segundo MOOC. Há duas ou três coisas que então escrevi e agora recupero. Pareceu-me que cinco semanas de curso foi demasiado, porque no fim, à distância, sempre no mesmo registo, o entusiasmo já não era o mesmo. Gostei de ver que alguns dos textos recomendados eram de blogues, o que significa que os autores canónicos têm protagonismo limitado. Não gostei que muitos dos exemplos dados se baseassem exclusivamente na realidade mediática e cultural dos EUA. E uma vez anotei: “Instrutores, em geral, muito bons. Ao contrário do académico-tipo português, estes partilham.”

Quantas pessoas terão chegado ao fim de ambos os cursos, não sei. A taxa de abandono nos MOOC costuma ser muito alta e os detractores sublinham esse facto. George Siemens disse-me que “é irrelevante” e deu-me um exemplo adaptado à realidade portuguesa. “Se vivesse no Porto e me inscrevesse numa faculdade em Lisboa teria de mudar de casa, pagar propinas, deixar a família e os amigos. Seria um grande investimento psicológico, social e económico. E falhar teria repercussões importantes. Ora, no sistema MOOC, a pessoa limita-se a carregar num botão. Desistir a meio não tem grandes implicações. Há quem faça apenas uma ou duas semanas do curso e depois saia.”

Os MOOC são uma das componentes do e-learning (ensino à distância em plataformas digitais). Derivam da ideia nascida no fim dos anos 90 de que os recursos educativos utilizados pelos professores nas aulas poderiam ser partilhados de forma gratuita com a comunidade, através da Internet. George Siemens foi um dos teóricos desse movimento de “conectivismo”. Mais do que oferecer recursos, pretendia-se também que os utilizadores, milhares ao mesmo tempo e em rede, fabricassem o seu próprio conhecimento pela partilha de informações e ideias. Há quem fale em “conhecimento rizomático”, construído de forma horizontal e sem hierarquias.

Em 2008, George Simens e Stephen Downes criaram um curso livre através da Internet a que chamaram “Connectivism and Connective Knowledge”, que teve a participação de alguns estudantes da Universidade de Manitoba, no Canadá, e de centenas de pessoas exteriores à academia. Nascia o primeiro MOOC, então distribuído através da tecnologia RSS (agregador de conteúdos na Web). O termo MOOC terá sido cunhado naquele ano pelo próprio Siemens e pelo também professor universitário Dave Cormier. 

Quisemos tirar partido das potencialidades da Internet e criar conhecimento a partir da contribuição de todos”, diz-me Siemens. “Não gostávamos do modelo universitário em que o professor diz aos alunos o que é importante saber. Quisemos envolver os estudantes e trazê-los para este diálogo.” 
 
O facto de quase todas as áreas das nossas vidas se terem tornado dependentes do digital, prossegue Siemens, explica em grande medida o êxito dos MOOC. “A educação não poderia ficar de fora. A difusão das tecnologias, o crescimento do mercado dos telefones inteligentes e das redes sociais, o facto de fazermos cada vez mais coisas online, desde falar com os amigos até operações bancárias, tudo isso levou a uma enorme difusão do conhecimento e à criação de realidades descentralizadas.”

As universidades dos EUA agarraram de tal forma a oportunidade que os MOOC são hoje tidos como uma criação norte-americana. Por enquanto, existem três grandes fornecedores americanos: edX (lançado em Maio de 2012), Coursera (April de 2012) e Udacity (Outubro de 2012). Só o primeiro foi exclusivamente criado e ainda se mantém dentro de duas instituições do ensino superior: a Universidade de Harvard e o Massachusetts Institute of Technology (MIT).

O Centro Knight, através do qual fiz dois MOOC, é um dos muitos pequenos fornecedores. Em pesquisas na Internet percebi que no Brasil apareceu a plataforma Veduca, da Universidade de São Paulo; em Espanha surgiu a MiríadaX, patrocinada pelo Banco Santander – curiosamente, um dos patrocinadores da cimeira WISE, que tanto destaque deu aos MOOC; na Alemanha existe o Iversity, financiado pela Deutsche Telekom; e no âmbito da iniciativa Open Education, da Comissão Europeia, está agora a ser criada uma estratégia comum europeia para os MOOC.

Em Portugal, a Universidade Aberta criou o iMOOC, que já promoveu um curso sobre alterações climáticas, enquanto a Universidade do Porto, a Universidade do Minho e o Instituto Superior Técnico, por exemplo, estão a dar os primeiros passos neste universo.

Os cortes no financiamento público do ensino, devido à crise económica e financeira, têm aberto caminho a uma forma de ensino que reduza despesas. Por causa desse mesmo contexto, as universidades precisam de se internacionalizar, o que significa quase sempre captar estudantes de outros países. Os MOOC funcionam, pois, como uma estratégia de marketing, ao darem uma amostra do tipo de ensino praticado pelas instituições.

Por outro lado, resultam do rápido desenvolvimento tecnológico dos últimos anos. Há apenas uma década não havia Facebook ou YouTube, os telefones inteligentes não tinham sido inventados e a Internet não estava disseminada como agora. A ideia de uma comunidade do conhecimento em rede existia mas não era palpável.

Em Doha encontrei-me com Piotr Mitros, um polaco que fez o doutoramento em engenharia informática no MIT e é um dos fundadores do edX. Até agora, criaram 91 MOOC em diversas áreas do conhecimento e o número total de alunos inscritos ultrapassou um milhão. A equipa tem entre 50 a 100 pessoas que trabalham a tempo inteiro ou parcial.

Piotr Mitros, cujas explicações são tão exaustivas que durante 30 minutos de conversa só lhe consigo fazer três perguntas completas, diz que os MOOC do edX são um pouco diferentes daqueles em que participei. Dirigem-se ao grande público, mas também aos estudantes de Harvard, do MIT e de outras universidades que entretanto se associaram. Há disciplinas que já são ministradas via online e complementadas por aulas presenciais (“blended learning”). 

Não foi ainda construído um modelo definitivo de MOOC e não é desejável que isso aconteça para já”, diz Piotr Mitros. “É uma área muito recente, precisamos de inovar e a partir do momento em que se criar um modelo rígido perde-se a capacidade de inovação.”

Outros dois aspectos ainda indefinidos são os da qualidade e da certificação. Por um lado, é difícil saber quais as empresas ou instituições cujos MOOC são credíveis. Por outro, nem todos os fornecedores de MOOC dão um diploma aos alunos e os que o fazem estão apenas a emitir um papel que não é reconhecido oficialmente pelo sistema educativo de cada país. 
 
No fundo, os actuais alunos são cobaias (é por isso que não pagam nada, talvez devessem ser pagos) de um modelo em formação.

A questão do pagamento é, de resto, ainda nebulosa e a grande questão está em saber porque é as instituições dão estes cursos de graça. Piotr Mitros indica que os fornecedores de MOOC ganham dinheiro com a venda dos certificados finais. Num universo de milhares há sempre algumas centenas que os compram, ainda que sirvam para pouco. Além disso, acrescenta, as instituições de ensino superior nos EUA vendem os currículos dos seus estudantes a empresas e os MOOC constituem uma forma de recolha maciça de currículos. Mais: os MOOC são uma fonte de recolha de dados pessoais de milhões de pessoas. Dados depois vendidos a empresas de publicidade ou de estudos de mercado. É aquilo a que se chama “big data” (dados em larga escala) e que em rigor são também a fonte de receita do Google, do Facebook, do Skype e de outras empresas tecnológicas. Vamos ter de encontrar um modelo que respeite os estudantes e a sua privacidade, ao mesmo tempo que permita gerar lucros”, diz-me Piotr Mitros.

Em Outubro do ano passado, comecei a fazer o MOOC “The Future of Storytelling”, produzido pela Universidade de Potsdam para a plataforma alemã Iversity. Teve 50 mil inscritos e terminou a 20 de Dezembro. Em termos visuais era bastante atraente: interface simples de utilizar e vídeos com estética cuidada. Vi alguns vídeos, fiz poucas leituras, e decidi que não iria até ao fim por falta de tempo.

Já este ano, recebi por email a informação sobre um novo MOOC, com início a 3 de Fevereiro, sobre como utilizar as redes sociais para fazer jornalismo. Talvez me inscreve só para espreitar. A era da abundância do conhecimento tem destas coisas.

[uma versão deste artigo, traduzida para o Acordo Ortográfico de 1990, foi publicada no suplemento "Quociente de Inteligência" do Diário de Notícias de 18 de Janeiro de 2014, pp. 6-8]
 

sábado, 21 de Dezembro de 2013

Uma visão pessoalíssima de Natália Correia


O Botequim da Liberdade
Fernando Dacosta
Casa das Letras / Leya
ISBN 978-972-46-2195-1

A narrativa que o jornalismo constrói sobre si mesmo, com reflexos nas leis e no entendimento público da profissão, é largamente ficcional. Os jornalistas não assumem que o seu trabalho é apenas uma forma de ler, descrever, pensar e recriar o mundo – tal como o cinema documental, o teatro, a fotografia ou as histórias que as avós contam. O jornalismo abjura a ficção, mesmo se faz uso dela, e jamais aceita que o discurso que produz seja outra coisa que não um reflexo directo do real.

É por isso que ainda hoje persiste o mito da objectividade jornalística – mito criado na Europa na segunda metade do século XIX para permitir que os jornais, até então de causas e partidos, pudessem chegar a mais gente e produzir maiores lucros, como afirma José Rebelo em O Discurso do Jornal (2000).

Ora, se nos ficássemos pelo autoconceito do jornalismo, dificilmente poderíamos entender O Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta (n. 1945), e menos ainda considerá-lo um dos melhores livros portugueses de 2013.

A obra não nos propõe um relato objectivo, como o que por norma se espera de um jornalista. É, antes, uma visão pessoalíssima de Natália Correia (1923-1993), cruzamento de jornalismo e tributo, memórias pessoais e factos históricos, interpretações e suposições. Uma resenha engajada sobre um período recente da nossa vida colectiva. O autor assume, em nota final, que se trata de uma narrativa e antes deixa dito: “Com Natália Correia nem sempre havia fronteiras entre ficção e realidade.”

O Botequim do título, bar fundado por Natália no Largo da Graça, em Lisboa, em 1971, e ainda hoje em funcionamento, depois de alguns anos de interrupção, é descrito como um espaço onde se “navegava delirantemente em demanda de continentes venturosos.” O registo lírico de Dacosta: “No cenário da política e da cultura portuguesas das últimas décadas do século XX, o bar ocupou um espaço angular. Por ele, pelas suas fabulosas madrugadas, passaram projectos exaltantes de artes, de utopias, de convívios, de generosidades, de cumplicidades; pela sua saleta de músicas e cetins, estratégias de revoluções, de governos, de diplomacias, de socialismos, foram feitas, desfeitas, sem desânimo nem culpa.”

Natália “poeta, dramaturga, romancista, ensaísta, cronista, conferencista, deputada, oradora, editora, tradutora” é interpretada como “forte e desprotegida, imponente e indefesa, egoísta e generosa, arguta e ingénua, dissimulada e frontal.” Muito para além da imagem sedutora, primeiro, e combativa, depois, que o grande público dela guardará, O Botequim da Liberdade conta uma Natália mística até à náusea. A mulher que acreditava em amores lunares com piano ao fundo era, afinal, uma maga de energia andrógina.

O tema da sexualidade, caro ao autor, percorre inúmeras páginas, enquanto a actualidade do pensamento de Natália, à luz da crise que vivemos, é exaustivamente sublinhada.

O jornalista recupera um tempo em tons impressionistas. Esteve lá e viveu. Não quis ser objectivo no relato. A objectividade, às vezes, é sinal do não-vivido. Bruno Horta

[texto publicado no Diário de Notícias - caderno QI de 21 de Dezembro de 2013, p. 13]