domingo, 1 de Junho de 2014

Valentim de Barros, o bailarino a quem roubaram a vida

Viveu preso num hospital psiquiátrico entre 1949 e 1986. Todos o disseram louco mas a única “doença” que lhe apontaram foi ser homossexual

Valentim de Barros em 1968 (foto de José Fontes)

O bailarino português Valentim de Barros morreu há precisamente 28 anos, a 3 de Fevereiro de 1986. Tinha 69 anos e passou quase quatro décadas encarcerado no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Teve aulas de dança no Teatro Nacional D. Maria II, foi estrela cadente em palcos de Barcelona, Berlim e Estugarda, assistiu à ascensão dos nazis na Alemanha e chegou a ser preso pela polícia política em Portugal. Um dia, apagaram-no da sociedade. A vida diletante, o incerto fetiche pelo travestismo, a homossexualidade e os excessos da sua personalidade podem ter sido os motivos. Foi internado, operado ao cérebro, depois transferido para uma ala de segurança. Alimentou-se das memórias dos breves anos em que dançou e, mais tarde, a única afeição que conheceu foi a de médicos e enfermeiros. Chegou a ser entrevistado pelo “Diário de Lisboa” e pelo “Expresso”, mas vem a morrer doente e abandonado num quarto de hospital.
Maior que a vida, a história de Valentim é aqui reconstituída pela primeira vez na íntegra, com base em documentos inéditos. Por Bruno Horta.

 
MÃE
Lavra a I Guerra Mundial há dois quando Ana da Encarnação dá à luz o oitavo e último filho. É a 11 de Novembro de 1916, tem ela 29 anos. O bebé recebe o nome do avô materno, Valentim, e marca a renovação da vida numa casa que a morte visitou três vezes.
Ana da Encarnação, de apelido Monteiro Figueiredo, perdeu três filhos. Joaquim não resistiu a ataques epilépticos. Amélia sucumbiu à febre tifóide, provavelmente durante o surto que atingiu Lisboa em Outubro de 1916. António foi arrasado por uma bronquite capilar.
Agora nasce Valentim, saudável e encantador. Não está sozinho, há outros irmãos: Maria, António, Ester e José, nascidos por esta ordem. A família habita o número 96 da Rua da Boavista, em Lisboa. É a época em que os homens não saem à rua sem fato, gravata, chapéu e bigode; as mulheres, sem longos vestidos; uns e outros de cores fechadas. As tropas portuguesas estão prestes a entrar na I Guerra e a cidade assiste a fúnebres paradas militares na Baixa e na Avenida da República. Na Rua da Boavista, o pequeno Valentim eclipsa atenções.
“Era o rapaz mais bonito que tenho visto, fisicamente era um Adónis”, descreverá a mãe a um médico, anos mais tarde, quando o filho é internado no Hospital Miguel Bombarda. “Era uma verdadeira estampa. As raparigas beijavam-no por prazer. Havia famílias amigas que o levavam para casa às semanas inteiras só para terem o prazer de o admirar.” Ana da Encarnação tem um carinho extremoso pelo rapaz, amamenta-o, cuida-o, narcisa-o. À medida que cresce, o que ele faça será bem feito. Até ao dia em que é ela a entregá-lo a um hospital psiquiátrico, talvez vencida ou iludida. Mas isso será apenas em 1939.
“Para os arranjos da casa e trabalhos femininos, não há ninguém como ele”, contará Ana da Encarnação. “É capaz de fazer os desenhos para o mobiliário e decoração de qualquer casa. Sabe fazer rendas, toalhas de mesa, guardanapos, naperons, colchas de filet e bordados.”
Cedo, também, descobre Valentim o prazer da dança. Organiza demonstrações em casa para os amigos da sua idade. Um bailarino de nome desconhecido, homem feito, será visita assídua de casa a pretexto de ensinar o miúdo a dançar, tem este 14 anos. Terá sido um erro.
É aquele bailarino quem lhe “mete o vício no corpo”, acredita a mãe. “Os dois fechavam-se numa sala durante horas e lá dentro faziam o que lhes apetecia”, lamentará, anos depois, e enquanto o faz reúne evidências do que sempre soube e não quis ver: “As minhas filhas não gostavam dele, ele às vezes roubava-lhes os namorados.”
De Ana da Encarnação nada mais se sabe, apenas que se separa do marido em data incerta.

PAI
Joaquim José de Barros nasce numa família pobre a 18 de Setembro de 1882. A infância em Paço de Arcos perdeu-se no tempo. O que se sabe com segurança é da vida profissional de sucesso, timidamente iniciada com um curso técnico na Escola Prática de Telegrafia, em 1901, e um posto na Administração-Geral dos Correios e Telégrafos.
Nunca parou de estudar. Fez um curso no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, em Lisboa, e em 1923, aos 41 anos, concluiu uma licenciatura em Ciências Histórico-Naturais, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Estagiou no Museu Botânico da Universidade de Berlim. Apresentou a tese de doutoramento em 1934, sob o título “Sociologia Botânica: Métodos de Investigação Florística”.
Vem a morrer subitamente, de causa incerta, a 15 de Junho de 1938. É então um respeitado professor-assistente de biologia na Faculdade de Ciências. Os meios académicos portugueses reconhecem-lhe méritos e disso faz prova o extenso obituário que o livro da Sociedade Broteriana de Coimbra, de que Joaquim José de Barros fazia parte, lhe dedica no ano seguinte à morte.
São enormes as semelhanças físicas entre Joaquim e o filho Valentim: em ambos o olhar firme, a testa saliente, o nariz grego, os lábios desenhados. No mais, uma distância. Joaquim é um intelectual, Valentim mal acaba o primeiro ano no Liceu Passos Manuel, em Lisboa. Na vida do filho, Joaquim é a figura mais presente de tão ausente.

SEXO
A sexualidade de Valentim de Barros vai ser a questão mais importante da sua vida, causa da perseguição que lhe vão mover e possível origem da personagem pícara que por vezes assumirá – ora cabotino, ora temerário, excessivo sempre. Cedo inicia a vida sexual, logo aos 14 com um homem mais velho que aqui se identifica como G.P.
“Conheci-o em Paço de Arcos. Ensinava-lhe natação e ele ensinava-me boxe e cultura física. Era empregado no Ministério do Interior e gostava muito de andar comigo, dizia que eu tinha um corpo muito elegante. A esposa dele tinha muitos ciúmes meus, mas ele só gostava de andar comigo. Fui amante dele. Nunca tive ninguém de quem gostasse tanto como do G.P., nunca tive dedicação maior. Durou até aos 20, quando fui para a Espanha como bailarino”, contará Valentim em 1939, durante o exame psiquiátrico no Hospital Miguel Bombarda.
A relação começara em 1930, ano em que o falsário Alves dos Reis é condenado a duas décadas de prisão, ano em que Marlene Dietrich brilha em “O Anjo Azul” e ano em que o quarto aniversário do 28 de Maio é celebrado na Avenida da Liberdade. Em Lisboa, Valentim tem o papel principal no filme da sua vida. Nos próximos nove anos, vai conhecer o triunfo e a capitulação. Mas por enquanto estamos só em 1930.
“O G.P. era muito meu amigo, tinha-me por conta num quarto e sustentava-me. No entanto, eu também trabalhava. Pintava quadros a óleo, fazia reclames para os panos de boca dos teatros e cinema, dava lições de ginástica a alunos particulares. Uma vez tive um esquentamento no ânus. Suponho que foi ele que me contagiou. Andei imenso tempo a tratar-me no Hospital do Desterro. Quando voltei da Alemanha soube que ele tinha morrido, fiquei inconsolável.”
Na anamnese, em 1939, o médico pergunta-lhe se não voltou a ter “outra afeição” e Valentim discorre longamente sobre o assunto. “Tive logo a seguir o A., de quem ainda gostei mais. Era mais inteligente e tinha um membro mais avantajado que o G.P. Quando ele se servia de mim, agarrava-me ao colo e atirava-me para cima da cama como quem atira com um boneco. Depois saltava para cima de mim como se fosse de uma mulher. O A. tinha um barão muito rico, que foi quem lhe arranjou o lugar no banco Fonsecas, Santos & Viana; Viana. O barão tem grandes haveres em Vila Franca de Xira e arredores e é um empregado superior do banco. Eu tinha outros amantes, avulso ou permanentes. O J.H., desenhador, tinha por mim uma paixão abrasadora. Ficávamos ambos nus, eu tinha um cinturinha muito elegante, ele levantava-me no ar pela cintura, cheio de desejos, e então, loucos de prazer, começava a luxuriante cena. O C., empregado na [loja de frigoríficos] Frigidaire da Avenida da Liberdade, era muito bem formado de corpo, alto, elegante. Amantes avulso tive poucos, os habituais absorviam-me todo o tempo. No meio teatral era muito perseguido tanto por homens como por mulheres, mas eu não cedia. Uma vez, no Porto, por ocasião da Exposição Colonial [1934], o R.C. entrou no meu camarim, começou a palpar-me as coxas e as nádegas e a fazer-me propostas libidinosas, mas eu não cedi.”

DANÇA
Nas primeiras décadas do século XX, Lisboa é ponto de passagem das mais importantes companhias de dança. O Coliseu dos Recreios recebe os Ballets Russes de Diaghilev em 1917. A Companhia de Ana Pavlova apresenta-se em São Carlos em 1919. O teatro Éden acolhe a Troupe de Bailados Russos Eltzoff em 1925. E o célebre bailarino português Francis (Francisco Florêncio da Graça) estreia-se no Salão Tivoli em 1925 e mais tarde, em 1932, é aclamado no Politeama. Tê-lo-á Valentim visto dançar?
“Sempre teve tendências artísticas e principalmente para bailarino”, dirá Ana da Encarnação. Aos 16 anos, torna-se aluno de Ruth Aswin, professora alemã de dança clássica que vivia em Lisboa. As aulas decorrem no Teatro Nacional D. Maria II, mas a família do jovem não está ao corrente.
Ao descobrir, o pai pressiona-o para que largue a dança e outras práticas. Valentim não consente. Magica um lugar de liberdade. Um dia foge para Espanha, alegadamente contratado por uma companhia de dança. Tem 20 anos, corre o ano de 1936.
Em Madrid, dança em boîtes sem nome, depois bate à porta do cabaret Barcelona de Noche e do Teatro-Circo Barcelonês. Faz “danças de fantasia”.
A história, aqui, confunde-se, falhos os registos e incerto o curso dos acontecimentos à distância de oitenta anos. Muito mais tarde, a figura de Valentim vai fascinar dois jovens jornalistas que decidem entrevistá-lo: Luís d'Oliveira Nunes, do “Diário de Lisboa”, em 6 de Abril de 1968; e Maria João Avillez, do “Expresso”, em 10 de Maio de 1980. É com estes documentos que sabemos hoje mais pormenores da aventura do bailarino.
Estala a Guerra Civil de Espanha. “As embaixadas diziam para a gente largar aquele flagelo, só havia tiroteios, falta de alimentos, grupos de gente a zaragatearem-se por todos os lados”, recordará no “Expresso”. “Foi feito prisioneiro pelos republicanos. Conseguiu-se evadir deste cativeiro duma forma rocambolesca. Aproveitando a sua beleza e jeito para o travesti, refugiou-se num convento e conseguiu fugir, disfarçado de freira, conjuntamente com um grupo de membros da colectividade a que se recolhera”, relata o “Diário de Lisboa”. Génova e Marselha são as cidades que se seguem. Por fim, chega à Alemanha. No ano anterior, Hitler recusara cumprimentar o recordista negro Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim.

ALEMANHA
Berlim terá sido o primeiro destino alemão de Valentim de Barros. Estamos em 1937. “Fui ao Teatro da Ópera de Berlim e falei com a coreógrafa. Ela viu-me dançar, gostou da minha técnica e da minha expressão.” Ali fica por pouco tempo. “Não tinha a técnica dos outros”, justificará. Os arquivos da instituição foram destruídos em 1943 por bombardeamentos dos Aliados, pelo que a estância de Valentim permanece indocumentada.
Dirá ao “Expresso” que durante essa fase conheceu Marlene Dietrich. “Era uma mulher muito vaporosa, usava lenços transparentes nas mãos, bebia champanhe na Friedrichstrasse, uma rua muito animada, com cabarets, luzes, muita alegria.” São memórias feéricas que ele desfia com prazer. Diz também que chegou a dançar em castelos e palácios alemães. “As senhoras estavam todas num luxo. Era tudo aristocratas, gente muito fina e muitas entidades. Às vezes o Hitler também ia. Nos jardins havia sempre um lago e quando nós dançávamos em cima de estrados os bailados que fazíamos espelhavam-se em cima da água. Era tão lindo.”
Em fins de 1937, registará o médico do Miguel Bombarda, passa três meses preso em Berlim (data que não deve corresponder à verdade, pois existem documentos oficiais sobre a presença dele em Estugarda entre Agosto de 1937 e Maio de 1938).
“Um bailarino agrediu-me e fui fazer queixa dele à polícia, aí retiveram-me durante três meses, dizendo-me que era para averiguações, e roubaram-me todos os meus haveres.” Passa-se isto na prisão de Lichtenberg, na capital alemã. “Davam-me uma comida que nem para porcos servia. Quando de lá saí parecia um cadáver”, afirma Valentim, rematando com uma informação de monta: “Isso alterou muito a minha saúde e os meus nervos.”
Dirá ao médico que depois é enviado para uma outra cadeia, em Hamburgo, e daí deportado para Portugal. O fio dos acontecimentos não deve ter sido este.
Dirige-se, sim, para Estugarda e bate à porta do Teatro da Ópera. Torna-se ali bailarino do corpo de baile (não é solista) e sabe-se com segurança que chega a dançar “As Criaturas de Prometeu”, de Beethoven, e “Petrushka”, de Michel Fokine.
“Os homens do regime enchiam-lhe o camarim de flores e na sua mesa havia sempre champanhe”, detalha o “Diário de Lisboa”. “Data dessa altura a condecoração alemã que Göring, em nome de Hitler, lhe atribuiu.” “No ardor dos seus 18 belos anos” Valentim “haveria de ter” em Göring, fundador da Gestapo e ministro do regime nazi, “um ardoroso amigo”, sustenta aquele jornal.

RESCISÃO
Os arquivos do Teatro da Ópera de Estugarda, intactos e legíveis, incluem o processo pessoal de Valentim, num total de 63 páginas. Não fica demonstrada a alegada proximidade a Göring, antes uma estada truculenta e breve do bailarino a quem chamavam “Valentino” de Barros. Entra a 1 de Agosto de 1937 e sai a 10 de Maio de 1938. São os anos da consolidação nazi – a Áustria vai ser anexada, a II Guerra é um caminho sem retorno. Valentim passa incólume, está num sétimo céu.
A data de nascimento que figura em pelo menos quatro folhas do processo pessoal, 11 de Outubro de 1915, é diferente da data oficial de nascimento de Valentim, 11 de Novembro de 1916. Mas é dele que se trata. Um “teste de ascendência ariana” a que o bailarino é sujeito – condição indispensável para se ser admitido num teatro do III Reich – leva-o a preencher uma ficha com dados pessoais e aí se reúnem detalhes sobre os seus antepassados: José de Barros, comerciante de Paço de Arcos, e Maria Florinda eram os avós paternos; Valentim de Monteiro de Figueiredo, natural de Viseu, e Mariana Augusta Monteiro, os avós maternos.
Mais tarde, ao médico que o observará no Miguel Bombarda, e a pedido deste, Valentim falará sobre as relações sexuais que manteve na Alemanha: “Em Estugarda tive o R.W., professor de ginástica, era um rapaz bem desenvolvido, tipo atleta. Tive também o H., era dono de um estabelecimento de arte antiga, era fino, calado, delicado.”
O regresso de Valentim à capital portuguesa e o fim da ligação à Ópera de Estugarda aparecem justificados no “Diário de Lisboa” com o início da II Guerra e a turbulência política de então, mas o processo pessoal indicia que o seu comportamento disciplinar terá sido o verdadeiro fundamento. Os últimos meses de trabalho em Estugarda são um crescendo de problemas.
A 21 de Abril de 1938 é avisado por carta de que será despedido se faltar outra vez a um show. Em Abril e Maio chega por três vezes atrasado, sem avisar. A 6 de Maio de 1938 a mestre de dança Lina Gerzer, figura de relvo na dança clássica alemã, queixa-se por carta de que Valentim “recusa receber ordens de alemães” e pretende maior protagonismo em “As Criaturas de Prometeu”, pois acha que é “um bailarino importante, que o público quer ver”. A carta termina com a saudação “Heil Hitler!”, como era de uso, e alguma correspondência apensa assinada por Valentim utiliza a mesma fórmula.
A 9 de Maio de 1938 é visto “quase nu no quarto do chefe de orquestra” do Teatro da Ópera de Estugarda, lê-se no processo. É despedido a 10 de Maio: “Rescisão pelo empregador devido a negligência ao serviço.” Acaba expulso da Alemanha por razões desconhecidas e vai ser repatriado a partir de Hamburgo, em Dezembro de 1939. A II Guerra tinha rebentado em Setembro, com a invasão da Polónia.

PVDE
“Altura: 1,70m. Cor: natural. Sinais particulares: tem duas pequenas cicatrizes debaixo do queixo.” Assim aparece descrito Valentim de Barros na ficha número 10.988 lavrada em 1939 pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), força secreta criada em 1933 por Salazar, com âmbito internacional e funções de controlo das fronteiras. Na ficha constam três fotografias tiradas pela polícia a Valentim. São os três retratos típicos dos presos políticos do Estado Novo: a preto e branco, tipo passe, com a cara de perfil, de frente e a três quartos. Valentim tem 22 anos, está de semblante fechado e manifesta uma beleza discreta.
A biografia prisional inclusa regista: “Preso por esta polícia no Porto em 2 de Janeiro de 1939 em bordo do vapor São Miguel, vindo expulso da Alemanha. Restituído à liberdade em 25 de Março de 1939.” Quase três meses de cárcere em Portugal. O processo 12/39, aberto na sequência destes factos, ostenta a acusação: “Expulso da Alemanha e falsa identidade”. Correspondência interna, apensa ao processo, oferece informações caricatas.
Valentim fica na cela 5 da delegação do Porto da PDVE, no Largo Soares dos Reis. Tenta fugir a 8 de Janeiro, seis dias depois de ali ter entrado. Pede ao guarda Joaquim Matos para ir à casa de banho e “ao ser-lhe aberta pelo guarda a porta do referido WC, já para sair, empurrou com tanta violência a porta que este não pôde evitar a fuga já premeditada”, regista o tenente Manuel Magro Romão, director-delegado da PVDE. “Dado imediato conhecimento ao agente, ambos, bem como o 'chauffeur' de serviço, correram sobre ele, tendo-o conseguido recapturar junto ao quiosque do Largo Soares dos Reis.”
Mais escreve o director-delegado que “o Barros pretende fazer-se passar por alienado, levando dias e noites consecutivamente aos pontapés e socos à porta da cela, recusa toda a comida que lhe é levada, chegando por vezes a atirá-la para o chão”.
A 11 de Janeiro, o tenente Romão muda de opinião e deixa cair a ideia de loucura dissimulada. Envia um ofício ao secretário-geral da PVDE, em Lisboa, perguntado, “a bem da Nação”, o que fazer com Valentim, pois este “nas suas atitudes vem dando sinais de demência”.
No dia anterior, 10 de Janeiro, o encarregado dos serviços de investigação, António Ródo, escreve num relatório: “Apesar das várias tentativas feitas no sentido de averiguar dos motivos por que foi expulso da Alemanha o nacional Valentim de Barros nada de concreto se conseguiu apurar, em virtude de o mesmo dar indícios de alienação mental e não responder com suficiente clareza às perguntas que lhe são formuladas.” Despacho: “Seja presente ao Exº. clínico da polícia.”
A 23 de Março, o tenente Romão escreve novamente ao secretário-geral da PVDE e deixa subentendido que Valentim foi considerado doente mental, logo, inimputável: “Verificando-se do relatório médico-legal passado no Hospital Conde Ferreira que ao preso não cabe responsabilidade criminal, tenho a honra de o fazer apresentar a V. Exª, a fim de ser entregue às pessoas de família que o mesmo possui nessa cidade.”
“Vim para o Governo Civil de Lisboa, acompanhado por um agente da PVDE. Daí trouxeram-me para este manicómio Bombarda”, recordará Valentim ao médico do hospital.

DOENÇA
Cerca de 300 doentes dão entrada em 1939 e Valentim é um deles. O hospital é então conhecido como Manicómio Bombarda ou Hospital de Rilhafoles, do nome do convento que ali tinha funcionado até 1834. Há 92 enfermeiros e sete médicos. Um deles faz o exame psiquiátrico a Valentim. E deixa gravado: “Cumprimenta-me à entrada, senta-se quando lhe ordeno. Modos afeminados, melífluos, dengosos, denunciantes da sua inversão sexual. Perfeitamente calmo, humor natural. Respostas adaptadas, longas, circunstanciadas, voz afeminada.”
A palavra “homossexual” tinha sido cunhada em 1848, ano em que o Miguel Bombarda é instituído por iniciativa do presidente do conselho de ministros Duque de Saldanha. “O impulso homossexual cria de antemão uma aversão ao sexo oposto”, estabelecera o psicólogo austro-húngaro Karoly Maria Benkert nesse ano de 1848. “A inversão sexual é uma doença tão digna de ser tratada como qualquer outra”, escreve Egas Moniz na sua tese de doutoramento em 1911 – ano em que arranca o ensino da psiquiatria em Portugal.
Valentim dizia ter sido internado em Julho de 1938, aos 22 anos, mas não é de crer. Não só o regresso a Portugal está registado pela PVDE em 1939, como os seus primeiros assentos no Miguel Bombarda só a 18 de Maio de 1939 têm início. Nessa altura vive com a mãe, ou na Avenida de Berna ou ainda na Rua da Boavista.
Antes de ser internado, terá tido alegados acessos de loucura. “Um dia, agride a mãe e parte tudo em casa”, lê-se no “Diário de Lisboa”. “Sonhava, em delírio, com a dança. Era o começo da loucura. Sonhava que era Nijinsky [bailarino russo do início do século XX, internado em 1917 devido a esquizofrenia] e acomodava-se mal às realidades locais. A primeira cena com a mãe leva-o ao manicómio.”
Internado a 18 de Junho de 1939, tem alta a 25 de Setembro. Volta a ser admitido a 10 de Janeiro de 1940 e só sai a 9 de Junho de 1948 para ser sujeito a uma operação ao cérebro. Regressa logo a 24 de Junho, mas tem alta a 30 de Novembro. “Toda a sua actividade está dirigida no sentido sexual”, anota o médico do hospital, para quem a intensa vida sexual de Valentim seria patológica. Diagnóstico: “Psicopatia homossexual e pederastia passiva.” Adiante, uma nota: em criança teve um “desenvolvimento somático e psíquico normal.”
“Eu não sei... Trouxeram-me para o hospital por enfraquecimento, doença, falta de recursos. O meu pai deixou a minha mãe e foi viver com uma alemã, deixou-nos sem nada. Com a perda das minhas coisas, a morte do meu paizinho, comecei a sentir-me mal e a minha mãezinha pôs-me aqui”, sustenta Valentim na entrevista a Maria João Avillez.
Num texto de 2013, saído no catálogo de uma exposição dedicada a Valentim de Barros, Luís d’Oliveira Nunes, o jornalista que o entrevistou em 1968, não tem dúvidas em afirmar que o bailarino esteve “em cativeiro forçado apenas por ser homossexual e imprudente ao manifestá-lo, dando largas ao fenómeno de travestismo.”

LEUCOTOMIA
A 10 de Junho de 1948 – dois meses antes de se realizar no Miguel Bombarda o Congresso Internacional de Psicocirurgia, durante o qual Egas Moniz recolhe apoios para chegar a Prémio Nobel da Fisiologia e da Medicina, galardão que receberá em 1949 com base na descoberta, em 1935, do método de leucotomia pré-frontal – Valentim de Barros é leucotomizado. Abrem-lhe orifícios no crânio com o fim de lesionar fibras nervosas do cérebro e assim reduzir a sua alegada agitação constante.
“A leucotomia tem valor terapêutico em certas psicoses”, justifica o Comité Nobel em 1949, a três anos de distância dos primeiros medicamentos neurolépticos, ou antipsicóticos. Quanto se sabe e ficou escrito, o único diagnóstico que até 1948 lhe tinham atribuído era o de homossexual e a homossexualidade não era considerada uma psicose.
O registo de entradas e saídas do hospital dá a entender que a trepanação (trépano é o outro nome da broca de perfuração) não acontece no Miguel Bombarda. Valentim sai a 9 de Junho e só regressa a 24. Poderá ter sido leucotomizado no Hospital Júlio de Matos, mas não é seguro. O médico que o acompanha desde 1938 deixa inscrita uma observação perturbante que contesta a necessidade da operação: “Será o doente portador de qualquer psicose? Examinei-o cuidadosamente nesse sentido e cheguei a resultados negativos. Fiz-lhe um interrogatório apertado, mandei-o resolver vários problemas, submeti-o a vários testes e conclui que não tem psicose. Eu, que tenho acompanhado o doente desde a sua primeira admissão até agora, acho que não houve qualquer alteração da sua personalidade depois da leucotomia.”
O enfermeiro Silvino, assim identificado pelo médico, faz notar que “o doente conserva a mesma actividade sexual antes e depois da leucotomia”. “Se dantes convidava os outros doentes para práticas homossexuais e se metia na cama com eles, depois da leucotomia faz precisamente a mesma coisa.” Em contrapartida, “já não agride o pessoal de enfermagem, é mais obediente e respeita mais as leis da casa.”
A 30 de Novembro de 1948, Valentim tem alta: “Estado: melhorado.” Regressará ao hospital em Janeiro do ano seguinte.
Nos intervalos dos internamentos, terá trabalhado como bailarino do teatro Éden, mas, relata o “Diário de Lisboa”, “as coisas voltam a complicar-se após uma cena violenta”. “Entrou travestido na casa de banho das senhoras e foi descoberto por uma das utentes que exuberantemente manifestou o seu pânico ao perceber que estava perante um homem. Acabou por ser agredida e Valentim deu definitivamente entrada no Miguel Bombarda.” É a 21 de Janeiro de 1949.
O psiquiatra Sobral Cid, director do Miguel Bombarda entre 1922 e 1941, fora um dos maiores adversários das leucotomias. A história oficial do hospital destaca ter sido ali que se escolheram os primeiros doentes sujeitos a trepanações, mas Egas Moniz, sabe-se hoje através de cartas que enviou para o amigo e psiquiatra Walter Freedman (que em 1936 leva a leucotomia para os EUA e a transforma em lobotomia), teve a resistência de Sobral Cid.

CARTA
Em data incerta da década de 1960, Valentim de Barros escreve uma carta cujo destinatário não se conhece. Apesar das passagens ilegíveis, da grafia antiga e da confusão de ideias, a mensagem parece ser apenas uma: ao falar dos pertences que lhe tiraram, Valentim grita contra a expropriação da sua identidade. 
Lisboa, dia 2 de Novembro de 196[?]
Havendo entrado para o Hospital Miguel Bombarda no ano de 1938 mês de Julho e depois de vários anos de internado havêr obtido alta médica definitiva para eu podêr conservar-me trabalhando na minha profição de bailarino de ópera (Balet) e havendo-me ido a minha casa a polícia buscar-me de novo para êste hospital onde obedecendo ao rigoroso tratamento e electro-choques na 6ª enfª me mandaram para a 8ª enfª donde escrevo esta carta a V.ças Ex.as. Anotaram a roupa boa que eu trazia no corpo mas não (segundo me diceram na secretaria do hospital M.B.) um porta-moedas [?] cor creme com 430$000 dinheiro que me faz bastante [falta] para a minha vida aqui [...] A polícia foi-me a casa buscar mandada pelo Dr. Fernando Ilharco ao hospital Júlio de Matos [?] de me haverem no Júlio de Matos operado a cabeça […] havendo eu ficado com dois côncavos [marcados] para toda a minha [vida]. O Dr. Ilharco escreveu uma [?] para eu e minha irmã [?] (que foi quem me acompanhou na jornada) para entregar ao Dr. Amaral (director do hospital Miguel Bombarda nessa ocasião havendo falecido pouco tempo depois) e que nesse momento não estava de serviço no hospital, então o sr. Chefe Ferreira recebeu a carta que estava fechada e disse que o sr. Dr. Amaral não estava e deteve-me de novo para a enfermaria e opus-me mas em vão alegando que estava com alta definitiva passada pelo médico a minha mãe Dr. Sanctos Freitas. Fizeram-me entregar tudo que trazia incluso o porta-moedas com o dinheiro, que até hoje nunca mais vi, mais [?] enfermeiro chamado Carlos, [natural] de Mirandela que já não trabalhando cá no Miguel Bombarda vai para hanos. [?] peço a V.ª Exª. o favor de [?] deslindar êste assumpto pois [custa-me] muito em cima de tudo [estar] sem aquilo que é meu. [?] Peço desculpa de só agora me queixar a V.ª Exª. disto.
Se digne aceitar meus respeitosos cumprimentos e desde já agradeço respeitosamente.
Bailarino,
Valentim de Barros
8ª ENFERMARIA
Valentim passa pela 2ª, 5ª e 6ª enfermarias do Hospital Miguel Bombarda até que em 1951, três anos depois da leucotomia, é transferido para a 8ª Enfermaria, também conhecida como Pavilhão de Segurança. Era a ala psiquiátrica onde, até 2000, se internavam os criminosos com doença mental (inimputáveis) e os doentes extremamente violentos. Uma prisão psiquiátrica. Ali fica, nunca se perceberá a razão concreta, até morrer.
“Gostas de cá estar?” – pergunta-lhe um médico em Dezembro de 1951. “Sim, havendo sossego, não desgosto. Já estou acostumado ao meio, conheço o pessoal médico e de enfermagem. O que eu queria era que me deixassem ir a casa agora pelo Natal.” Ainda o médico: “Por que não pedes alta?” Valentim: “Não sei a quem pedir, o director parece que está doente.”
Em Março de 1964, um enfermeiro regista que Valentim tinha agredido um doente com um murro. Em Abril de 1965 outro enfermeiro dirá que ele se apresenta “lúcido e orientado” e que se “ocupa inteiramente de artigos femininos”. Em Junho de 1965 um terceiro enfermeiro anota que o comportamento de Valentim é “hostil para com a família”. “Diz que a mãe é que faz para que ele não saia daqui, porque, diz ele, tem inveja que ele pertença ao teatro”.
Quando Luís d'Oliveira Nunes o entrevista encontra-o no quarto-cela “a fazer tricot, rodeado de santos, pássaros e flores, a falar fluente e correctamente alemão, francês e espanhol.” O jornalista soubera da existência da história através da professora de dança Ruth Aswin, que naquela ocasião também foi visitar o antigo aluno. Luís d'Oliveira Nunes descreve-o como “um farrapo” em termos físicos.
Dedica-se a pinturas, criação de bonecas de pano, pintura de cenários em lençóis. “Inúmeras vezes aparecia no meu gabinete para vender as suas criações e era presença habitual nas festas de Natal que o hospital organizava”, escreve Reis de Oliveira, antigo administrador do hospital Miguel Bombarda, no catálogo de uma exposição dedicada a Valentim, em 2013.
A seguir ao 25 de Abril de 1974 passa a ter liberdade de movimentos, embora continue na 8ª Enfermaria. “Às vezes vou a casa da minha irmã Ester, mora aqui perto, trata-me bem”, diz a Maria João Avillez. Passa a ter liberdade, mas sai pouco. Lisboa é já um mundo que ele tanto desconhece. Apareceu a ponte sobre o Tejo e o Padrão dos Descobrimentos, a Cidade Universitária e o metropolitano, fechou o cinema Chiado Terrasse e já não há vendedoras de flores na Rua Garrett, subsistem os polícias sinaleiros de luvas brancas e capacete no Largo do Chiado. A paisagem é a mesma mas tudo mudou: Portugal é uma democracia. Mas ele já só vê o que lhe interessa.
“Hoje fui à Baixa, ao Ramiro Leão” – conta no “Expresso” – “por causa de uma fazenda de que ando à procura para fazer umas calças para o senhor enfermeiro. Ficaram de me dar umas amostras para a semana, não havia a fazenda com aquelas listas, como eu gosto. Quando está sol vou a Paço de Arcos. Nós éramos de lá e gosto de lá ir tomar o sol, tomar banho. Faz bem nadar na água limpa do oceano.”
Ainda ao “Expresso, queixa-se da comida que lhe servem nos austeros refeitórios do hospital, com bancos corridos e mesas gastas de madeira e tampo branco: “A sopa é muito reimosa, tem muito óleo, o estômago não digere.” E expõe hábitos diários: “Da televisão não gosto nada. Do que eu gosto é daqueles artistas travestidos, muito gordos, são cómicos no palco a fazerem de mulheres. Às vezes vou ao Parque Mayer, está a mesma coisa. Sento-me numa esplanada e deixo-me lá estar, não falo com ninguém, já não é gente dos meus tempos.”
A jornalista do “Expresso” descreve-o como “mais personagem que doente, mais caso social que mental e sobretudo mais memória que vida”. Do quarto de Valentim, a que chama “quarto-camarim”, faz um retrato cru: “Caixas de cartão, papéis, comida, garrafas, um fogareiro a gás, panelas, colheres de pau, cremes, produtos de beleza, cordéis, bonecas, roupas amontoadas, livros, álbuns, e a um canto uma penosa Gioconda pintada por ele; em cima da cama, os trabalhos de crochet ou de bordados que faz neste momento e nas paredes um mapa de Portugal, imagens religiosas e, encaixilhadas, várias recordações do Valentim-bailarino. Tudo aquilo é fascinante e patético.”
No dizer de Reis de Oliveira, Valentim “era o modelo perfeito do doente institucionalizado em corte total com as agressões do mundo exterior”. A 8ª Enfermaria tinha-se tornado um lar, o sítio de onde já não saía ainda que pudesse.
“O quarto-cela era o local mais reivindicado para si próprio, recriando um mundo que não partilhava com mais ninguém”, acrescenta o antigo administrador hospitalar. “Era, afinal, aquilo que Erving Goffman denominou personal territory, onde acumulava todos os objectos susceptíveis de lhe proporcionarem algum conforto, prazer e independência.”
No fim da entrevista, Maria João Avillez reagirá: “Tenho vontade de voltar para trás e de lhe explicar que não foi o hospital, não foi o azar, não foi sequer a vida que o tornaram assim, mas penso que é melhor para ele continuar sem saber que fomos nós, que a culpa é nossa.”

1986
É um Valentim muito debilitado aquele que em meados dos anos 80 continua a viver no hospital, já depois da descriminalização da homossexualidade em Portugal, que data de 1982. Nos últimos meses de vida tem dificuldade em sair da cama, apresenta escaras no corpo e “apreciável grau de deterioração mental”. A morte será enigmática. A 3 de Fevereiro dão-lhe alta. “Melhorado”, é a justificação médica. Morre no Hospital de São José às 22h40 desse mesmo dia 3 de Fevereiro de 1986, atesta o Boletim de Óbito exarado pela 3ª conservatória do Registo Civil de Lisboa. Tem 69 anos. Vai a enterrar no dia 7. Fica na campa 374, secção 45, do cemitério de Benfica. Em 1991, os restos mortais são trasladados para um ossário do mesmo cemitério, a pedido de um familiar que se desconhece. Anos depois, por falta de pagamento de taxas, os restos são considerados abandonados e cremados.

HOJE
O nome de Valentim de Barros é referido pela primeira vez em tempos recentes na reportagem “O Estado Novo dizia que não havia homossexuais, mas perseguia-os”, que a jornalista São José Almeida assinou no jornal “Público” de 17 de Julho de 2009.
Em Abril de 2013, Sandro Resende, professor de arte no Hospital Júlio de Matos e responsável pela plataforma artística P28, organiza no Pavilhão 31 do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (Hospital Júlio de Matos, para onde foi transferido o acervo do Miguel Bombarda, cuja desactivação se iniciou em 2007), a exposição Distopia, colectiva onde se incluía um cenário de seis metros por três desenhado e pintado por Valentim de Barros em 1974.
Em Novembro e Dezembro do ano passado, no mesmo Pavilhão 31, Sandro Resende monta a exposição “Valentim de Barros”, com desenhos, cenários, postais de Natal e bonecas que o bailarino produziu, assim como uma gravação áudio captada no quarto do bailarino. O ministro da Saúde, Paulo Macedo, vai à inauguração.
Ainda em 2013, sai o livro "Miguel Bombarda: Preservar a Memória", de Pedro Cintra, onde se incluem fotografias de Valentim de Barros feitas nos anos 60 pelo médico radiologista José Fontes.
Para 2014 está prevista a publicação de um livro com fotografias inéditas tiradas a Valentim de Barros.
Ao longo das décadas, o comportamento afectivo do bailarino e a mítica história de que fora protagonista aproximaram-no de médicos e enfermeiros e suscitaram a curiosidade de jornalistas. A orientação sexual e as sevícias a que foi sujeito enredaram-no numa teia de silêncios e deslealdades, medos e cobardias. A força de Valentim percorreu os tempos e sobrevive-o.
 
[compilação, sem Acordo Ortográfico de 1990, da reportagem publicada em fascículos no site Sapo Mulher entre 3 e 7 de Fevereiro de 2014]

terça-feira, 13 de Maio de 2014

Mentiras em dia de funeral

“Antes de aprenderem a amar, os homossexuais aprendem a mentir.” A frase é do dramaturgo canadiano Michel Marc Bouchard e pertence à peça Tom à La Ferme, adaptada ao cinema pelo também canadiano Xavier Dolan, de 25 anos, o menino-prodígio do cinema queer actual. É o filme de encerramento do 11º IndieLisboa, festival internacional de cinema independente  – passa este sábado, dia 3, às 21.30 na Culturgest, numa sessão por convite para a qual, informa a organização, também há alguns bilhetes à venda (4 euros). 

Tom à La Ferme (“Tom Visita a Quinta”, em tradução livre) põe em cena um rapaz (o próprio Xavier Dolan) que viaja até uma vila do interior do Canadá para ir ao enterro do namorado, que vivia com ele em Montréal. Chegado a casa da mãe do namorado, descobre que esta  (Lise Roy) não sabia, ou quer convencer-se disso, que o filho era homossexual. Descobre também que o falecido tem um irmão (Pierre-Yves Cardinal) cuja sexualidade carrega um enorme ponto de interrogação. É ele quem obriga Tom a alimentar a fábula em que vive a mãe.

A frase de Michel Marc Bouchard, incluída na peça mas deixada de fora do guião, alegadamente porque o realizador gosta de manter um certo grau de incerteza nestes temas, é uma poderosa síntese da história. No mais homoerótico filme de Dolan, sobrevém a homossexualidade não-cosmopolita, através de uma tensão quase sádica entre dois homens. Mostra-se a fachada, e talvez o medo da verdade, ainda que não se vislumbre qualquer crítica àquilo a que muitos chamam “homofobia interiorizada”. É um filme sobre a homossexualidade como desejo, não sobre a identidade gay, e nele se fazem constatações mais do que comentários.

Quarta longa-metragem de Dolan, depois de J'ai Tué Ma Mère (2009), Amores Imaginários (2010) e Laurence para Sempre (2012) – todos em torno das sexualidades –, Tom à la Ferme ganhou o prémio FRIPESCI dos críticos de cinema no Festival de Veneza do ano passado e, de acordo com a distribuidora Alambique, irá estrear-se dentro de poucos dias nas salas portuguesas. Entretanto, o quinto filme de Dolan, Mommy, é certo no festival de Cannes, que se inicia a 14 de Maio. Bruno Horta

[texto publicado na Time Out Lisboa de 30 de Abril de 2014, p. 64]

sábado, 12 de Abril de 2014

Sexualidade e política

«Não precisamos  de regressar ao defunto freudo-marxismo dos anos  60, nem ao problema da integração da sexualidade na luta política, para percebermos que a sexualidade é um problema político; e que, na rejeição ou na aprovação da lei da co-adopção, a homossexualidade estava em causa não como o que se passa na cama,  mas como o que se passa na polis, na praça pública. E aqui começamos a perceber que entre a afirmação  “eu sou homossexual” e a recusa de o dizer há uma  zona muito mais ambígua que Daniel Oliveira parece  não reconhecer. Aquilo que na homossexualidade  constitui um problema para os políticos não é o que se passa na cama, mas o modo como a sexualidade se difunde num modo de vida, que compreende uma  cultura e uma ética. É com toda a veemência que  temos de recusar esta ideia muito limpinha de Daniel Oliveira: “Um homossexual é apenas uma pessoa que  tem preferência sexual e/ou amorosa por pessoas do  mesmo sexo”. Igualmente falsa, escandalosamente  falsa, é a ideia simétrica de que um heterossexual é  apenas uma pessoa que tem preferência por pessoas  do sexo oposto.»
António Guerreiro, Ípsilon, ontem, aqui

terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Literatura gay como nunca ninguém a viu




O primeiro dicionário de literatura LGBT portuguesa é uma ideia da editora Índex. Electrónico e gratuito, escreve Bruno Horta.

O que é um livro ou um filme gay? Há peças de teatro gay? Porque é que um bar frequentado por todo o tipo de pessoas deve ser considerado gay? O que é gay não é para todos? Se é para todos, para quê chamar-lhe gay? São estas perguntas sem resposta definitiva que circulam com mais ou menos frequência pela redacção da Time Out Lisboa.

Pois parece que o dilema não é só nosso e acaba de fazer novas vítimas. São eles João Máximo e Luís Chainho, coordenadores do novo Dicionário de Literatura Gay e responsáveis pela editora que o dá à estampa, Índex Ebooks – primeira editora portuguesa de literatura LGBT em formato digital, fundada em Março de 2012.

O dicionário, descrito por João Máximo como “o primeiro do género em português, tanto quanto se saiba”, começa a ser publicado já na próxima segunda-feira, 24. Electrónico e gratuito, pode ser descarregado através das lojas online Amazon, Google Play e Apple e no site de impressão a pedido (print on demand) Lulu.com. É projecto para durar cerca de um ano. Ao longo dos próximos meses vão saindo fascículos que correspondem às letras do alfabeto.

Para já, sai o tomo da letra “A”. Começa com A Alma Trocada, de Rosa Lobato Faria, e vai até Aula de Poesia, de Eduardo Pitta. Foi este primeiro volume que a Time Out já leu numa versão provisória. Nele aparecem livros como A Vida de Horácio, de José António Almeida; Antinous, de Fernando Pessoa; ou Agradece o Beijo, de Ana Zanatti; e notas biográficas de Ary dos Santos ou Al Berto.

Nas primeiras páginas surge um aviso que demonstra a dificuldade dos coordenadores na escolha do conteúdo. “A inclusão de um autor, editor, livreiro, ou qualquer outra pessoa, não tem qualquer significado em relação à sua orientação sexual. O único critério para inclusão de autores ou outros prende-se com a sua contribuição para a literatura gay”, lê-se.

João Máximo explica à Time Out que o objectivo do aviso é o de “evitar causar melindre”. E dá um exemplo. “Há uma entrada para António Lobo Antunes, por causa do livro Que Farei Quando Tudo Arde? Ele não é um autor de literatura gay, mas aquela obra  é de temática gay.”

O mesmo responsável nota que ele e os colaboradores do projecto, cuja lista final de nomes está por fechar, não são académicos nem especialistas em literatura. “Não temos a veleidade de fazer uma análise literária profunda, por isso é que se trata de um dicionário e não de uma enciclopédia. Limitámo-nos a elencar referências, não estamos a fazer crítica ou estudos comparados”, afirma. “O objectivo é ter uma lista exaustiva: tudo quanto soubermos e conseguirmos apurar, entra.”

Com capa inspirada numa serigrafia de Salvador Dalí, o dicionário junta algumas ideias e sugestões recolhidas através de um fórum que os editores criaram em 2012 no site GoodReads. Pela primeira vez, sob a forma de fichas de leitura, junta-se informação dispersa que pode ser útil a quem acompanha a temática LGBT. A grafia escolhida é a do Acordo Ortográfico de 1990.

Há citações e hiperligações de diversas fontes, uma das quais a Time Out Lisboa (por iniciativa dos organizadores), e são apenas referidos autores de língua portuguesa publicados em Portugal. “Limitámos o âmbito, porque não temos acesso a especialistas que nos dêem informações sobre tudo o que sai nos países de língua portuguesa”, justifica João Máximo. “O critério principal é o interesse que certos livros ou autores têm para a comunidade LGBT. A fronteira não é fácil de definir, haverá sempre lugar a grandes debates”, conclui.
[texto publicado na Time Out Lisboa de 19 de Fevereiro de 2014, pp. 64]

terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014

“É importante erotizar corpos velhos e gordos”


O realizador Alain Guiraudie conversa com Bruno Horta sobre o filme O Desconhecido do Lago. E explica porque é que filmou imagens pornográficas. O retrato é de Gonçalo F. Santos.

Quem é o desconhecido do lago? Talvez seja Henri, o homem gordo de meia-idade que se senta à beira da água e espera que a vida mude sozinha. Ou Franck, o jovem que procura sexo anónimo no bosque junto ao lago. Ou então Michel, um críptico corpo sexual que todos namoram. Talvez seja, enfim, o morto que aparece a boiar, segredo de polichinelo nesta história. Ou se calhar não é nenhum deles.


"Fiz um filme em torno da questão do desejo, sobre o que é o desejo”, explica o realizador, Alain Guiraudie, em conversa com a Time Out. “Procurei evocar o mistério do desejo, é um assunto que me fascina. O desejo não apenas homossexual e não apenas sexual. O desconhecido, aqui, pode muito bem ser o desejo.”



Alain Guiraudie esteve em Lisboa na semana passada para participar no Lisbon & Estoril Film Festival. Foi homenageado com uma retrospectiva integral que incluiu O Desconhecido do Lago, com estreia comercial agendada para esta quinta-feira. O filme ganhou em Maio, no festival de Cannes, a Palma Queer, prémio criado em 2010 para o melhor filme de temática LGBT, e ainda o Prémio de Melhor Realização na secção Un Certain Regard.



É um Verão francês à beira-lago com homens solitários à procura de companhia para uns minutos de prazer. O engate acontece numa mata vizinha (é inevitável, para os lisboetas, pensar na Praia 19 da Costa da Caparica, porque a coreografia é a mesma).



É assim que Franck (Pierre Deladonchamps) conhece Michel (Christophe Paou). Henri (Patrick d'Assumçao, actor francês de origem portuguesa), pelo contrário, não engata mas procura companhia, tal como os outros. E de repente, dá-se o homicídio de um desses buscadores de sexo, facto que parece não alterar em nada a rotina daqueles homens. “O crime é uma metáfora dos amantes ultra-liberais dos dias de hoje que descartam rapidamente as pessoas com quem tiveram sexo”, comenta o realizador.



A entrevista decorre no Cinema Monumental, ao fim do dia. Alain Guiraudie mostra-se interessado em debater as várias interpretações que a história desperta. Não fala inglês, apenas francês, mas mesmo na sua língua luta com as palavras, como se não tivesse, e parece não ter, um discurso formatado sobre aquilo que faz.



Anda às voltas para explicar as cenas de sexo explícito do filme. “Retirei a carga pornográfica do acto sexual e juntei órgãos sexuais em funcionamento a grandes imagens de amor”, diz ao início. E acrescenta: “A paixão amorosa passa pelo sexo e o sexo são os órgãos em funcionamento.” Por fim, remata: “Acho que vivemos num mundo com cada vez mais imagens pornográficas, mas não me deixei influenciar por isso, penso até que estou contra a corrente. Quero unir imagens de sexo a imagens amorosas, à paixão e até mesmo a uma narrativa, ou seja, à palavra. Às vezes parece que temos um cinema de segunda, que é pornográfico, e um grande cinema lírico, que mostra os beijos e o amor. É importante que ambos se juntem.”



Alain Guiraudie nasceu há 49 anos em Villefranche-de-Rouergue e vive em Albi, uma cidade de 50 mil habitantes perto de Toulouse, em França. O ambiente rural é-lhe familiar e por isso o representa tanto no grande ecrã. Assim é em O Desconhecido do Lago e assim foi em O Rei da Evasão, que os portugueses puderam ver em 2010.



“É importante defender o mundo rural e erotizar corpos que não costumam ser erotizados no cinema: velhos, gordos e pessoas com mais de 30 anos, que também têm direito à sexualidade e ao prazer”, defende.



À ruralidade e às personagens pouco óbvias alia um discurso marginal sobre a homossexualidade. Daí que a Palma Queer o perturbe um pouco. “Deram-me e aceitei, até porque o presidente do júri era João Pedro Rodrigues, por quem tenho enorme admiração. Recusar o prémio teria sido pretensioso, mas não páro de me questionar. Queer é uma ideia política que implica uma certa abertura ao mundo. Nesse caso, porque é que filmes sobre heterossexuais não recebem prémios queer?”



O realizador entende que as palavras “gay” e “queer” resultam de uma americanização das sociedades e do ambiente politicamente correcto em que vivemos. Aplicadas ao cinema, afirma, são palavras que “não fazem sentido” por não corresponderem a géneros cinematográficos. “Na Fnac, em França, e penso que aqui em Portugal também, há uma secção de filmes e livros gay. Ao mesmo tempo, Pedro Almodóvar ou André Téchiné não são vendidos como realizadores gay. Só os autores menos conhecidos é que entram nessa categoria. Quando se atinge um certo sucesso, sai-se da categoria. Espero que os meus filmes possam ser vistos como filmes universais.”

[entrevista publicada na Time Out Lisboa de 20 de Novembro de 2013, pp. 64-65]