segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O filme sobre Carlos Castro não é sobre Carlos Castro

A viagem para a morte do cronista social Carlos Castro é recriada em Crime, cuja primeira apresentação acontece esta quarta-feira. Bruno Horta viu o filme e conversou com o realizador.

Quando o trailer começou a circular na internet, em meados de Dezembro, choveram críticas à estética do filme, alegadamente pouco profissional. “É-me difícil criticar um filme sem o ver, mas admito que haja pessoas para quem isso não seja importante”, ironiza o realizador, Rui Filipe Torres. Finalmente, esta quarta-feira, dia 7, na Cinemateca Portuguesa, detractores ou entusiastas poderão ver na íntegra o filme de que tanto se fala.

Crime parte do caso real de homicídio do cronista social Carlos Castro, aos 65 anos, a 7 de Janeiro de 2011 num hotel de Nova Iorque. A sessão está marcada para as 21.30 e o bilhete custa 3,20 euros.

O argumento, da autoria do realizador, adapta uma peça de teatro escrita pelo actor João D’Ávila, que teve uma leitura encenada em 2011, na Sociedade de Língua Portuguesa. As personagens não têm os nomes das pessoas reais envolvidas no caso. Não há um Carlos Castro e um Renato Seabra (jovem modelo que matou o cronista e acabou condenado a 25 anos de prisão nos EUA). No filme, há um António (João D’Ávila) e um Rodrigo (Ruben Garcia). 

“Para João D’Ávila, a peça é influenciada pelo fim trágico de Carlos Castro, até porque eram amigos”, explica o realizador, de 55 anos. “Mas para mim o filme é mais do que isso, o que me interessou não foi a morte de uma pessoa concreta, mas aquilo que há de universal na situação”, conta Rui Filipe Torres. 

Ainda sem data de estreia comercial, Crime leva pela primeira vez ao grande ecrã uma versão do caso Carlos Castro. “Filmámos em condições-limite”, revela o autor. “Sem orçamento, abaixo de todas as condições necessárias, foi tudo feito em nove noites, em Abril de 2014. Decidimos que, mesmo assim, valia a pena avançar.”

As duas personagens aparecem num quarto de hotel em vésperas de uma viagem a Nova Iorque. Um crescendo de tensão entre António e Rodrigo culmina no assassinato daquele – o que mais um vez difere dos acontecimentos reais, pois Castro foi morto em Nova Iorque e não em Lisboa.

De um lado, um homem envelhecido, apaixonado por um rapaz muito mais novo. Anseia estar em Nova Iorque para a lua-de-mel de ambos e declara: “A ilusão é muito mais importante do que tu pensas, aliás, a ilusão é a realidade”. Do outro lado, um rapaz muito mais novo com sonhos de fama e reconhecimento, a rejeitar as investidas amorosas do outro. “O que é que podes dar-me, além desse teu corpo envelhecido? Viagens, fantasia, mariquices!”

Para o realizador, trata-se “fundamentalmente de um trabalho de dádiva dos actores à câmara”. É um jogo psicológico de insultos mútuos, um jogo de poderes simbólicos embrulhado em paixão e obsessão, oportunismo e ingenuidade, chantagem e rejeição, verdade e simulacro. 

[uma versão deste texto saiu na Time Out Lisboa de 17 de Dezembro de 2014, p. 64]

domingo, 18 de janeiro de 2015

Don Bachardy aquém e além Isherwood

São quase 50 anos de retratos de actores, realizadores e argumentistas. Hollywood é o álbum em que o artista plástico Don Bachardy ostenta uma voz própria. Mesmo se viveu sempre eclipsado pelo génio do companheiro, Christopher Isherwood.

Quando, em 1964, Christopher Isherwood publica o romance “Um Homem no Singular” – história de um britânico em Los Angeles que recusa continuar viver perante a morte acidental do namorado – é inteiramente sobre a sua relação com Don Bachardy que está a escrever. Quando, em 2009, o livro é adaptado ao cinema por Tom Ford, sob o título português “Um Homem Singular”, Bachardy parece ganhar algum protagonismo simbólico, já sem a tutela de Isherwood, que morrera em 1986. O seu papel tem vindo a ser reabilitado, mas jamais se conseguirá falar de Bachardy sem se começar por Isherwood. E o próprio assim recomenda.

“Tive a sorte de conhecer estas pessoas através da minha parceria com Christopher Isherwood, ele era a garantia da minha seriedade e do meu talento”, diz Bachardy, de 80 anos, logo no início de uma conversa telefónica com o Ípsilon, a partir da cidade costeira de Santa Mónica, em Los Angeles, onde nasceu e vive. O termo que utiliza é este mesmo: “parceria” (“association”). E as pessoas a que se refere são actores, realizadores e argumentistas de cinema cujos retratos foi fazendo nos últimos 48 anos – para agora os apresentar no álbum antológico “Hollywood”.

“Convidava as pessoas quando as conhecia em circunstâncias sociais”, acrescenta. “Sugeria a possibilidade de lhes fazer o retrato e as pessoas assumiam que, sendo amigo de Christopher Isherwood, deveria ser talentoso.”

Fosse o livro representativo da obra de Bachardy e não teríamos cerca de 300 desenhos de figuras hollywoodescas, apenas cinco ou seis. Mas a editora assim quis e o artista concordou. “Um retratista tem de apresentar objectos reconhecíveis, de outro modo o público não consegue julgar a validade do trabalho”, justifica, fazendo notar, ainda assim, que é ínfima a percentagem de retratos seus de celebridades da sétima arte.

Com prefácio do escritor Armistead Maupin, introdução do próprio artista e nota inicial de Tom Ford, o livro encontra-se dividido em três partes principais, correspondentes à profissão dos retratados: realizadores, actores e argumentistas e outros. Personalidades directa ou indirectamente ligadas à indústria do cinema americano. Robert Altman, Lindsay Anderson, Kenneth Anger, Stephen Frears, Todd Haynes, Fritz Lang, Gus Van Sant, Truffaut, Polanski, Bertolucci, Roland Petit, Gore Vidal, Fred Astaire, Warren Beatty, Katharine Hepburn, Glenn Ford, Jack Nicholson, Joan Collins, Joe Dallesandro, Marlene Dietrich, Mia Farrow, Julianne Moore, entre tantos outros. Os retratos mais antigos são de 1961; os mais recentes, de 2009. Inéditos, cerca de 150.

Num sotaque que se diria mais próximo do londrino que do californiano, o artista explica que a proximidade a estas figuras foi quase sempre apenas profissional. “Muitos posaram por generosidade para com um jovem artista”, reconhece. “Alguns, conhecia-os bem, outros eram amigos e muito poucos se tornaram íntimos. É o caso de Leslie Caron, Deborah Kerr ou Glenn Ford. Gore Vidal foi também um bom amigo e posou para mim dezenas de vezes entre 1959, quando era um homem muito bonito, e os anos 90.” 

Salta à vista a existência de muitos retratos a preto e branco até 1986, ano da morte de Isherwood, e quase todos a cores depois desta data. A amostra, esclarece o autor, está enviesada.  “O livro talvez permita tirar essa conclusão, mas a verdade é que comecei a fazer trabalhos com cor em meados dos anos 60 e nos anos 70 já trabalhava quase exclusivamente assim. Quis ganhar absoluta confiança nas minhas capacidades antes de abandonar o preto e branco.” 

Curiosamente, os retratos a preto e branco parecem os mais realistas, enquanto os coloridos aceitam sugestões expressionistas. Será assim? Don Bachardy não concorda inteiramente. “O expressionismo está mais implicado em trabalhos de pintura do que em desenhos, mas as pessoas acabam por se referir aos meus trabalhos como expressionistas porque eles são muito coloridos, nunca me limito aos pastéis e aos cinzentos. Uso muita cor porque é assim que vejo as pessoas quando elas posam para mim.”

São agora raros os momentos em que se senta a pintar com um modelo à frente. No máximo das suas capacidades fazia sessões de três a cinco horas até obter uma série de três retratos da mesma pessoa. “Sem um único intervalo”, sublinha. 

É por isso que tem uma opinião pouco favorável dos artistas que pintam com base em fotografias e prescindem do modelo vivo. “A fotografia é trabalho do fotógrafo, ele é que tem a experiência artística”, argumenta. “Os pintores que só usam fotografias são escravos da fotografia, não chegam a sentir qualquer emoção real, muito menos a dificuldade e imprevisibilidade de ter um modelo à frente.”

A técnica é esta, pois: “A pessoa fica a posar para mim, parada e concentrada; começo imediatamente a trabalhar com cores, não dou cor a um desenho que tenha feito previamente, penso e trabalho directamente com cor.”

Don Bachardy estudou no antigo Chouinard Art Institute de Los Angeles e na Slade School of Art de Londres. Fez uma primeira exposição individual em 1961 na Redfern Gallery, em Londres, e até aos anos 2000 não mais voltou a mostrar-se em nome próprio. Trabalhos seus fazem parte do acervo de colecções como as do Metropolitan Museum de Nova Iorque (retratos de William S. Burroughs, Tennesse Williams e Isherwood, por exemplo) ou da National Portrait Gallery de Londres (W.H. Auden e E. M. Forster, entre outros).

“Foi Isherwood quem sugeriu que eu me tornasse artista”, lembra. “Quando o conheci, mostrei-lhes vários retratos que tinha feito em adolescente, com actores do cinema, retratos a partir de fotografias. Ele reconheceu-os a todos e entusiasmou-me, foi assim que comecei a desenhar com modelos vivos.”

Bachardy tinha 18 anos quando conheceu Isherwood em Los Angeles. Estávamos em 1953. Era um adolescente encantado pela beleza paternal do já então conhecido romancista britânico. Isherwood instalara-se nos EUA poucos meses antes do início da II Guerra Mundial, na companhia de W. H. Auden e depois de uma passagem por Portugal. Já tinha escrito a obra seminal, “Adeus a Berlim”, de 1938, mais tarde apensada a “Mister Norris Muda de Comboio”, de 1935, sob o título comum “The Berlim Stories”. Salvo a curta separação que inspirou “Um Homem no Singular”, no início dos anos 60, o retratista e o escritor mantiveram-se juntos por 33 anos.

A história do casal é narrada em “Chris & Don: A Love Story”, documentário de 2007 realizado por Guido Santi e Tina Mascara. Mas nem por sombras foi alguma vez secreta, como se poderia erradamente julgar, tratando-se de um casal homossexual numa época pré-gay (anterior à Revolta de Stonewall, em Nova Iorque, em 1969, início simbólico do movimento de defesa de direitos das minorias sexuais). 

“Como éramos artistas e não dependíamos de um patrão tínhamos a liberdade que os artistas em geral têm numa sociedade, não éramos julgados pelos padrões vigentes”, recorda Bachardy. “Ainda assim, era digno de notícia se aparecíamos juntos em festas, sobretudo se os convidados principais eram actores de primeira grandeza. Éramos o único casal masculino nas festas em casa de David Selznick. Uma vez, Joseph Cotten, que como se sabe era um actor famoso dos anos 40 [um dos protagonistas de “O Mundo a Seus Pés”], disse alto e bom som que ‘deplorava meios-homens’. Foi o único comentário deste género que alguma vez ouvi. E foi-me dito a mim, não ao Chris, que era muito respeitado. Teríamos sido expostos a muitas outras demonstrações de homofobia se não fossemos artistas”, afirma.

Quando, por fim, perguntamos a Don Bachardy o que sente ao olhar esta galeria de figuras míticas do cinema, a resposta revela um enorme sentido de gratidão e um deslumbramento perante o acaso das coisas: “Tive a sorte de ter conhecido Isherwood, quando tinha apenas 18 anos e de ter percebido que ele era uma pessoa extraordinária; permiti-me conhecê-lo e ganhar intimidade com ele, o que era muito pouco comum no início dos anos 50”, reflecte. “Sinto enorme orgulho na minha carreira, sinto-me orgulhoso por ter tido tanta gente distinta a posar para mim e por ter tido uma relação de 33 anos com Isherwood. Não consigo perceber de onde me veio esta sorte, parece-me muito pouco habitual.” 
Bruno Horta

[uma versão deste texto saiu no Público/Ípsilon de 17 de Dezembro de 2014]

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A morte de Pasolini, sem apelo nem agravo

Bruno Horta já viu Pasolini, de Abel Ferrara, o filme que conta as últimas horas de vida de Pier Paolo Pasolini e estreia-se esta quinta-feira.

Um encontro de sexo fugaz numa praia, desentendimento, agressões. Depois a luta e a morte. Naquela noite de 2 de Novembro de 1975, Pier Paolo Pasolini terá sido assassinado [perto de Roma] pelo prostituto Pino Pelosi, de 17 anos, primeiro à paulada, depois esmagado pelo próprio carro. O crime silencia um dos mais importantes intelectuais do século XX, uma “inteligência combativa e aguçada”, como os editores escreverão mais tarde nos seus livros. Um homossexual controverso, comunista militante, que rejeitou incensar a homossexualidade nos seus livros e filmes, mas não não se cansou de vociferar contra o estatuto de mero “tolerado”.

É sobre aquele dia, o último dia da vida de Pasolini, que Abel Ferrara constrói o filme homónimo, com estreia comercial portuguesa esta quinta-feira, 1 de Janeiro.

“O sexo é político?”, pergunta um jornalista a Pasolini (interpretado por Willem Dafoe) no início do filme. “Claro, nada há que não seja político”, responde o realizador nascido em Bolonha a 5 de Março de 1922, filho de um tenente de infantaria e de uma professora primária. 

Abel Ferrara – cuja carreira começou pela pornografia, em 1976, com 9 Lives of a Wet Pussy, e que em 2014 apresentou Welcome to New York, sobre o caso do alegado abuso sexual de Dominique Strauss-Kahn sobre uma mulher – não será propriamente um moralista. Ainda assim, não se espere do filme quaisquer contemplações para com Pasolini e o seu trágico fim de vida.

Sobre Pino Pelosi, logo em Novembro de 1975, no “Requiem para Pier Paolo Pasolini”, o poeta Eugénio de Andrade escrevia: “As putas desta espécie confundem moral com o próprio cu.” Ferrara não só não vai tão longe como não procura culpados ou inocentes.

De cores e ambientes tétricos, o filme mostra uma versão dos factos e não procura esconder as contradições do escritor e realizador italiano. A vida confortável e cómoda e as preocupações intelectuais de Pasolini aparecem em contraste com o mundo frágil e indigno dos ragazzi di vita que o atraíam.

Pasolini estreou-se em Setembro de 2014 no Festival de Veneza e foi mostrado aos portugueses em Novembro, durante o Lisbon & Estoril Film Festival. Para além do que os críticos de cinema nos possam ajudar a entender, o filme parece, sobretudo, dar forma artística a duas realidades reconhecíveis por muitos homossexuais.

Por um lado, os encontros sexuais fugazes (os engates), com prostitutos ou não, em zonas sombrias, o que pode ficar a dever-se ao estatuto de ilegalidade que a homossexualidade conheceu até tarde (1981 em Portugal, por exemplo).

Por outro lado, a violência física que desponta em relações sexuais que aparentam grandes desvantagens simbólicas para um dos parceiros. Nisso há dois óbvios exemplos portugueses: o homicídio de Artur Esteves, proprietário da discoteca Trumps, em Setembro de 2004; e o homicídio de Carlos Castro, cronista social, em Janeiro de 2011.

[Time Out Lisboa, 31 de Dezembro de 2014, p. 64]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Muito mais que amor de mãe


Bruno Horta escreve sobre o novo filme de Xavier Dolan. Mamã é um retrato de inquietação no subúrbio. Estreia esta quinta-feira.

Os slogans são sempre enormes resumos e por isso podem também ser enormes equívocos. “Não há amor como o amor de mãe”, diz o cartaz. E quem o ler pensará que Mamã, filme de Xavier Dolan com estreia portuguesa esta quinta-feira, dia 11, conta a história de uma mãe (vai muito além). Ou que Mamã é uma história amorosa e há redenção (não há redenção alguma).
 
Mamã é sobre homossexualidade e doença mental. Sobre uma mãe, sim, e mais ainda sobre um filho apaixonado por ela, incapaz de reconhecer o lugar natural, pronto a tomar-se seu amante. Não é sobre o incesto. Será, quando muito, sobre o que se convencionou chamar Complexo de Édipo.
 
Um filme em torno de “uma crise existencial”, resume o realizador. Uma evocação distante, com humor, mesmo se negro, de Desejos Selvagens (2007), de Tom Kalin, com Julian Moore no papel da mãe incestuosa que leva o filho à loucura.
 
A mãe, aqui, é Diane (Anne Dorval), desbocada, vivaça, popular, diva gay de subúrbio, encarnação queer da mulher fatal. O filho é Steve (Antoine Olivier), adolescente angélico e rebelde, acometido de uma perturbação mental que não será exactamente a que a mãe descreve aos outros. Vivem numa casa arrendada, sem dinheiro e sem paz de espírito, com o fantasma da morte do pai sempre presente.
 
Mamã teve estreia absoluta no Festival de Cannes, em Maio último, e acabou vencedor do Prémio do Júri, um dos três mais importantes do certame. Foi já exibido entre nós, a 16 de Novembro, durante o Lisbon & Estoril Film Festival. E chega agora ao circuito comercial.
 
É a quinta longa-metragem de Xavier Dolan, de 25 anos – sim, 25 –, menino-prodígio do cinema queer que recusa ser considerado um realizador queer. Segue-se a J'ai Tué Ma Mère (2009), Amores Imaginários (2010), Laurence para Sempre (2012) e Tom na Quinta (2014).
 
Nascido nos subúrbios do Quebeque, Xavier Dolan tornou-se actor de telefilmes e séries aos quatro anos. Orgulha-se de ter em Titanic um dos seus filmes preferidos. É, aliás, notável a profusão de referências consideradas kitsch que convoca para o grande ecrã. Em Mamã também. Unhas de gel decoradas, madeixas mal pintadas, carteiras de imitação de cobra, comida de plástico, Céline Dion, Andrea Bocelli. O esplendor do garrido e do aparentemente descartável, celebração sem ironia de um gosto classe baixa.
 
“Agarra o touro pelos cornos e deixa o passado para trás” recomenda Steve a Diane. É a clássica atitude dos pobres, necessitados de conforto num futuro imaginário. A clássica determinação dos homossexuais, em busca de uma identidade psicológica e social que quase sempre são obrigados a reconstruir, individualmente. Peça por peça.
 
[artigo publicado na Time Out Lisboa de 17 de Dezembro de 2014, p. 78]

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

"O meu nome não era eu, era o que outros fizeram de mim"

Bruno Horta entrevistou o escritor francês Édouard Louis, cujo primeiro romance é um ajuste de contas com a violência anti-gay de que foi vítima. O retrato é de David Clifford.

E de repente, no fim de 2014, aparece o livro gay mais impressionante dos últimos 12 meses. Acabar com Eddy Bellegueule, autobiografia sob a forma de romance, relato atroz da violência física, verbal e simbólica sobre um adolescente homossexual que vive numa aldeia e pertence a uma família pobre. “Um manifesto sobre a possibilidade de nos reinventarmos”, diz o autor, Édouard Louis.

A Time Out entrevistou-o, há dias, em Lisboa. Rapaz alto, magro, de sorriso tímido, muito curioso, nasceu há 22 anos numa aldeia de Hallencourt, no Norte de França. Vive agora em Paris, onde estudou sociologia. Começou a escrever este primeiro romance quando tinha 19. É ele o protagonista da história, quando ainda se chamava Eddy Bellegueule.

Entretanto, mudou de nome, matou o passado e arrumou-o neste livro – trazido para Portugal por uma nova editora lisboeta, Fumo Editora, com tradução do crítico António Guerreiro. O realizador André Téchiné, adianta Édouard Louis, vai adaptar a história ao cinema e o filme deverá sair em 2016.


Fez questão de ser entrevistado pela Time Out Lisboa quando lhe disseram que é a única publicação em Portugal que escreve regularmente sobre a realidade gay. Porquê?
Porque sou gay e é importante falar para o público gay. Muitos artistas e escritores têm problemas com isso. Há pouco tempo, em França, houve grande controvérsia por um jornalista se ter dirigido a Xavier Dolan com a expressão “realizador gay”. Ele respondeu: “Sou realizador, não sou um realizador gay”. Para mim é muito importante afirmar esta condição. Aliás, tento mostrar com o livro que a homossexualidade foi a única maneira que encontrei de fugir da minha família. Foi por ser homossexual que consegui fugir.

Se não fosse homossexual teria reagido de outra forma?
A princípio, foi um problema, a família do Eddy dizia-lhe que ele não fazia parte da família, porque era homossexual. Ele tentou tudo para ser normal, quis jogar futebol, quis gostar de mulheres. Mas depois percebi que era impossível, sentia este desejo e continuava a ser um rapaz feminino. No fim do livro, mostro que foi por os outros dizerem que eu era diferente que não tive outra escolha que não fosse ser diferente e fugir. A sociologia explica isto: se houver cinco filhos numa família pobre e um deles abandonar a família, são altas as hipóteses de ele ser homossexual.

O historiador francês Didier Eribon, a quem dedica o seu livro, escreveu bastante sobre os homossexuais que constroem a identidade em torno do insulto e da fuga…
Mesmo que o insulto seja subtil, mesmo que as pessoas não usem palavras como “paneleiro” – no caso de Eddy usavam –, o homossexual tem sempre medo, nem que seja dos gestos femininos que possa fazer. Mesmo que não seja pronunciado, o insulto está sempre presente. O Eddy chega ao mundo, desperta para a vida, e imediatamente é dominado pelo insulto. Mas não é só o Eddy. Todas as personagens do livro foram geradas pela dominação.

Diria que o livro é uma forte crítica à organização da sociedade francesa?
E não só francesa. A reprodução da dominação e das desigualdades está por todo o lado e afecta homossexuais, estrangeiros, negros, mulheres. Não consigo entender como é que não há revoluções todos os dias, como é que as pessoas não saem à rua.

Estudou sociologia, que explicação encontra para isso?
As pessoas crescem neste sistema, não conseguem ver a violência do sistema, é um dado adquirido, é aquilo a que chamam vida. A mãe do Eddy não se considera dominada como mulher, não diz que deixou a escola por a família não ter posses. Diz que foi uma escolha, que não estudou mais porque não quis. Não é verdade. Simplesmente, ela não se apercebe da violência exercida sobre ela. Quando escolhi o título Acabar com Eddy Bellegueulle estava a falar do meu passado mas também da percepção do Eddy. Eu, naquela altura, não via que estava dominado.

O livro é também uma crítica severa à sua família?
Não me parece. Limito-me o criticar o sistema em que eles cresceram e vivem. O sistema de desigualdade criou o comportamento deles. 

Escreve a certa altura que só se apercebeu de que era mesmo muito pobre depois de sair da aldeia onde nasceu.
Exactamente. Para mim, aquilo era a vida. Não era mau, era a vida. Ao fugir, apercebi-me da violência em que cresci.

Não tinha internet nem computador em casa, mas tinha televisão e cresceu nos anos 90. Não teve acesso a outras realidades, não viu outros mundos através da TV?
É complicado… A realidade que aparece na televisão não parece real, é uma coisa distante. O meu pai trabalhava na fábrica da aldeia, o meu avô também, o meu bisavô também. E era isto. A grande cidade era vista como um sítio perigoso, onde havia árabes e negros perigosos. Resistia-se à ideia de sair daquele contexto, aceitava-se. Nada é mais violento para alguém que está dominado do que assumir que está dominado. Ou não se vê a violência ou então não se aceita que se está sujeito a ela.

É uma interpretação marxista.
De certa forma, sim, embora o marxismo diga que as pessoas acabam por ter consciência de classe, e não tenho a certeza de que isso aconteça. A armadilha da dominação e da violência é as vítimas terem vergonha da dominação e da violência e passarem a mentir para esconder isso.

Porque é que decidiu mudar de nome?
Eddy é um nome americano e em França dar nomes americanos aos filhos é típico das classes baixas. “Belle” significa bonito e “gueulle” significa focinho ou tromba. Eu tinha um nome difícil. Mudei há cerca de dois anos, primeiro o nome, depois o apelido. O nome é uma coisa externa que nos apanha à nascença. O meu nome não era eu, era o que outros fizeram de mim.

Significa que quis cortar com passado? Mas o passado não desaparece.
Claro que tenho muitos traços do meu passado, o que digo é que realmente é possível ser-se outra coisa.

Diria que Édouard Louis é mais verdadeiro que Eddy Bellegueulle?
Eu não era Eddy Bellegueulle. Eddy Bellegueulle era o produto do que os outros fizeram de mim.

Escreveu o livro depois de fazer terapia ou o livro foi uma forma de terapia?
Penso que construí o livro com base numa atitude política, não tanto como terapia. Mas nunca fiz terapia, prefiro a amizade como forma de vida, como dizia Foucault.

O livro esteve envolto em grande polémica em França…
Não foi uma grande polémica, foi uma coisa criada por uma publicação de direita. Le Nouvel Observateur [agora chama-se L’Obs] foi visitar a minha família ao Norte de França. Entrevistaram a minha mãe e depois escreveram que o meu livro é uma fraude, que foi tudo inventado ou exagerado.

A versão da sua mãe era assim tão diferente da sua?
Claro que sim. Para se conseguir dizer a verdade é preciso fazer-se uma construção e ganhar distância. Obviamente, quando um jornalista pergunta à minha mãe se é mesmo racista, ela diz que não. Claro. A minha mãe não tem a percepção exacta. Ela dizia coisas como: “Não tenho nada contra homossexuais, mas dois homens juntos é nojento.” Ela nunca se consideraria homofóbica. É importante destacar o seguinte: Le Nouvel Observateur acusou-me de exagerar as coisas. O tema do exagero atravessa a História. O sociólogo Abdelmalek Sayad dizia que quando se fala das torturas perpetradas pelo exército francês na Argélia, há muita gente que considera o relato exagerado. Quando uma mulher, ou um homem, se apresenta como vítima de violação, é porque está a exagerar, não foi bem assim. Quando se tenta denunciar alguma coisa, o discurso conservador diz sempre que se trata de um exagero.

Se tivesse nascido numa família favorecida, teria sido mais fácil crescer como homossexual?
Claro que é muito mais fácil ser-se gay em França ou no Canadá do que na Rússia ou no Irão. E obviamente é mais fácil ser-se gay numa grande cidade e numa família de intelectuais. Eu vivo melhor desde que vivo em Paris. Mas muitas pessoas não admitem o seguinte: o que é uma forma de discriminação é olhar para as classes populares como portadoras de autenticidade, tal como fazia Pasolini. A ideia de que os pobres são mais simples, mais verdadeiros, que gostam muito de rir.

Considera errada a maneira como Pasolini filmou os pobres?
Sou um grande admirador da obra dele, mas aquela ideia de que a burguesia está constantemente a desempenhar um papel, enquanto os pobres são muito mais autênticos… Não é verdade, não é verdade. É uma percepção errada, é o princípio do bom selvagem. A vida dos homens e das mulheres homossexuais nas classes desfavorecidas é muito mais difícil do que nas classes burguesas. Não estou a falar da alta burguesia de valores católicos.

Já regressou à sua aldeia desde que saiu?
Estive lá duas ou três vezes, mas desde que escrevi o livro não voltei. A distância entre mim e a minha família era já muito grande, foi-se instalando.

Telefona aos seus pais ou aos seus irmãos?
Não. Quando o livro saiu, o meu pai telefonou-me e disse-me: “Édouard, estou muito orgulhoso de ti.” Foi a primeira vez que ele me chamou Édouard. Comprou 30 exemplares e ofereceu aos amigos.

Mas será que leu?
Acho que não, ele tem dificuldade em concentrar-se na leitura.

[uma versão desta entrevista foi publicada na Time Out Lisboa de 3 de Dezembro de 2014, p. 78]

domingo, 30 de novembro de 2014

Teorema

Está lá, por várias vezes, o rumor, que é um ronronar de ansiedade, que eu já tinha ouvido em "Cada Sopro", peça que John Romão apresentou no Teatro da Politécnica no Verão de 2013. Está lá a pizza, estão os miúdos, está a câmara de filmar em tempo real, a loucura e o universo infantil, o grotesco e o epiléptico que eu já vi em "O Arco da Histeria" (2010) e em "Eu Não Sou Bonita, Eu Sou o Porco" (2012), está lá também o espampanante e o festivo que já vi em "Velocidade Máxima" (2009).

Quer dizer: "Teorema", espectáculo que John Romão apresentou no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, nos dias 27 e 28 de Novembro (depois da estreia, em Outubro, no Rivoli), reproduz a linguagem própria do criador, o universo mental dele, que é fresco e divertido, sério e depressivo, homoerótico mas sem o acto. Estão lá marcas de autor, o que significa que temos um criador com voz própria, e isso é muito. 

Mas "Teorema" não seduz. É demorado, foge da palavra e agarra-se à plástica, vive de quadros independentes e acaba por frustrar. Olha-se à procura de um sentido (se é que tem de haver ali um sentido) e não se encontra. É o espectáculo mais bem montado e adornado que já vi de John Romão. Um espectáculo de maturidade plástica. Mas queria ter visto mais teatro.

domingo, 23 de novembro de 2014

Em nome do pai



Negócios. Família de Leiria com fortuna de milhões

Em nome do pai



Começaram por baixo, como vendedores de máquinas, e hoje são uma das famílias mais ricas de Portugal. Donos do Grupo Lena, facturam milhões de euros e querem continuar a crescer. Perfil dos Rodrigues, protegidos no céu, adorados na terra. Bruno Horta


António ainda nem sabia andar e já tinha o destino traçado. Baptizaram-no como o pai e determinaram que, tal como ele, haveria de ser empresário. Aos 14 anos já passava as férias do Natal em cima das máquinas de terraplanagem que o pai vendia, para aprender a sério como funcionava o motor da pequena riqueza da família. Ao mesmo tempo, era instigado a correr o mundo, para alargar os horizontes. Ainda adolescente, foi a Londres, ao Japão e à Austrália, quase sempre sozinho. Aos domingos, alumiava a alma no altar de uma igreja.


António Vieira Rodrigues, o patriarca, viu nele um sucessor à altura. Nos anos 90, quando os negócios já tinham crescido mais do que alguma vez imaginara, passou-lhe o testemunho. Hoje, António Barroca Rodrigues, o filho pródigo, está à frente de um pequeno império familiar chamado Lena. A sede do grupo é em Leiria, mas ele estende-se por todas as áreas possíveis e imaginárias e tem ramificações no Leste europeu, em África e na América do Sul. No ano passado facturou, números oficiais, 425 milhões de euros. A riqueza da família Rodrigues é de 90,3 milhões – 70 lugares abaixo de Belmiro de Azevedo, o mais rico de Portugal.


Para não se perder o fio à meada, é preciso recuar ao início dos anos 70. O leiriense Vieira Rodrigues, homem de origem humilde, mas de inteligência afiada, torna-se vendedor de máquinas de terraplanagem para a agricultura. Rapidamente, passa a fazer negócio com construtores civis e é com eles que troca umas ideias. Ainda se aventura, na fase final do Estado Novo, numa viagem a África. Vai a Angola e a Moçambique “olhar o mercado”, como conta o filho. Abre uma conta bancária na antiga Lourenço Marques, mas volta à metrópole, sem grande vontade de se estabelecer lá fora. Depois do 25 de Abril, convida alguns dos seus empregados para se associarem a ele na fundação da Construtora do Lena – do nome do rio que desagua na sua cidade. É apenas o princípio de uma grande fortuna. Os anos do cavaquismo e das grandes obras públicas vão ser dourados para os Rodrigues. Auto-estradas, pontes, barragens, escolas. Estiveram e estão em todos os grandes negócios. Como conseguem? “A única escola de gestão que o meu pai frequentou foi a da vida”, disse Barroca Rodrigues à SÁBADO, durante uma conversa no seu muito sóbrio gabinete de trabalho, na sede do grupo, junto à estação de comboios de Leiria.



A presença de Deus tem sido indispensável. E a força dos homens, em oposição à das mulheres, também. Vieira Rodrigues preparou muito bem a sucessão. Deixou tudo aos varões. A única filha, Fátima, tem funções executivas, é certo, mas é pelos manos António Barroca Rodrigues e Joaquim Barroca Vieira Rodrigues que todo o poder circula. O primeiro ficou com a parte de leão. Preside à Lena SGPS, a casa mãe que dá origem a todas as outras empresas do grupo – nove sub-holdings e 72 empresas, das quais são donos ou sócios. Joaquim manda numa das sub-holdings, a Lena Construções, herdeira da Construções do Lena, que contribui com 42,2% para o total de facturação anual do grupo. O velho patriarca continua a ser sócio maioritário e a presidir ao conselho de administração, mas já não decide nada. Ainda assim, o filho António nem sonha subalternizar-se. “Eu e os meus irmãos continuamos a respeitá-lo como patrão e vemo-nos como meros funcionários dele”.


Quanto à devoção católica, não é ostensiva, mas é assinalável. A primeira pessoa a quem Barroca Rodrigues ouviu dizer que o pai é um self-made man foi ao reitor do santuário de Fátima, monsenhor Luciano Guerra, visita da casa. Fonte autorizada disse à SÁBADO que “é normal” que uma família de homens de negócios seja “muito bem relacionada com quem tem poder”. António Sala, nome fundamental da cristã Rádio Renascença, já esteve presente em eventos sociais do grupo Lena, cujo hino, escrito por uma funcionária e apresentado na última festa de Natal, deixa entender o espírito que os rege: “Nascemos dos bons valores, criámos a união, na família o fundamento, nos parceiros a gestão.”



Foi depois de o fundador se retirar que os filhos começaram a alargar a carteira de investimentos. Com o dinheiro do betão a sustentar tudo, avançaram pela estrada do sucesso. Como grupo, a Lena nasce em 1998. Contam cerca de cinco mil empregados e, de acordo com Barroca Rodrigues, o objectivo hoje é o de “crescer ainda mais”. No início deste ano, apresentaram ao Governo uma proposta para concorrerem, ao lado da espanhola Aldesa, à construção da rede nacional do TGV. E compraram cinco empresas em Angola, na área da construção civil, turismo, automóveis e comunicação. O negócio lá fora tem crescido “dois a três dígitos por ano”, adianta. A área da biotecnologia também lhes interessa. São donos de metade da Biocodex, uma empresa que se associou à Universidade do Porto para investigar células estaminais. Até 2010 querem três das sub-holdings cotadas em bolsa.


Para já, têm hotéis e restaurantes, empresas de distribuição de gás natural, concessionários de automóveis e de combustível, seguradoras e agências de viagens. E jornais e rádios locais. Fonte segura adianta que “não há a mínima espécie de ingerência” da família Rodrigues na linha editorial dos meios de comunicação que detém. Mas lembra que a Lena se viu envolvida em polémica por causa da recente construção do estádio do União de Leiria. A atribuição do alvará ao grupo foi posta em causa por outros contendores. E nessa altura “os jornais deles foram mais tímidos do que outros” no acompanhamento do assunto.


É talvez seja para evitar problemas do género que se remetem ao silêncio. Chegar até Barroca Rodrigues é muito difícil. Raramente dá entrevistas. É um homem muito ocupado, pouco expansivo, sem o dom da palavra, muito prudente. Quando se lhe pergunta pelos seus negócios, hesita. Quando se lhe pede para falar sobre o mundo empresarial em geral, tem a resposta na ponta da língua. É como as várias tartarugas de plástico que decoram as prateleiras do seu gabinete: passa muito tempo escondido e só se mostra quando é preciso.


Uma empregada traça o perfil da família: “Simples, razoável e discreta”. Barroca Rodrigues acha que os três adjectivos descrevem bem a realidade e acrescenta um outro: “humanista”. “É sempre difícil falarmos de nós mesmos, mas, pelos menos, tentamos praticar a educação humanista que o nosso pai nos deu”. No meio disso, como é ser rico? “Não é muito diferente de há dez anos, quando não éramos”, garante o empresário.



[uma versão deste artigo foi publicada em Abril de 2006 na revista Sábado]