segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Fixe este nome: Gengoroh Tagame

É um dos mais conhecidos autores de banda desenhada gay no Japão. E acaba de publicar um novo livro em inglês. Bruno Horta conversou com ele.


Gengoroh Tagame ainda é um nome pouco familiar entre leitores habituais de manga (banda desenhada japonesa). No Japão, pelo contrário, é uma lenda viva, sendo certo que o país tem uma oferta e consumo de BD muito acima da média de qualquer país ocidental.

Com 50 anos de idade e 20 de carreira, Gengoroh Tagame acaba de publicar o quarto livro em inglês, Fishermen's Lodge, através da editora alemã Bruno Gmünder. O álbum inclui duas outras histórias breves, Confession e End Line.

“Como sempre faço, tentei mostrar a beleza e o erotismo dos corpos masculinos”, diz o artista à Time Out Lisboa, através de uma entrevista por correio electrónico.

Fishermen's Lodge, concretiza,  é sobre “o etéreo e o romântico” e “o encontro de almas solitárias num lugar isolado”. “Quis sublinhar o crescimento de uma relação, a forma como ela se torna cada vez mais quente num ambiente frio de Inverno.”

Tagame (é assim que é tratado) começou a ser traduzido no Ocidente há poucos anos. The Passion of Gengoroh Tagame, colectânea com trabalhos desde os anos 90, foi publicada em 2013 pela editora nova-iorquina PictureBox e tornou-se o primeiro livro do artista traduzido para inglês, o que lhe permitiu chegar a um público muito vasto. Em Francês, tinha livros desde, pelo menos, 2005. E já em 2014, antes de Fishermen's Lodge, haviam saído pela Bruno Gmünder os títulos Endless Game e Gunji, ambos em inglês.

“Do ponto de vista das vendas, os livros em inglês são os que mais êxito têm no estrangeiro”, observa o autor. “Talvez isso se deva à dimensão do mercado de língua inglesa, mas também já fiz sessões de autógrafos e exposições em França, em Itália, na e na Alemanha.”

Mestre do sadomasoquismo em versão manga, com histórias sexualmente explícitas, Tagame presta culto aos corpos masculinos muito musculados e às relações entre jovens e homens de meia-idade. Há quem o compare a Tom of Finland (1920-1991), finlandês que nos anos 70 se tornou conhecido nos EUA pelos desenhos pornográficos homossexuais.

“Fui influenciado por autores clássicos japoneses e sigo essa mesma tradição da banda desenhada erótica de vertente gay”, explica Tagame. “Mas como os autores ocidentais também foram importantes para mim, diria que é pouco relevante pensar o meu trabalho apenas do ponto de vista da tradição japonesa.”

Tagame estudou design gráfico na Universidade de Tama, nos arredores de Tóquio, e começou a publicar em 1982, ainda sem o pseudónimo que hoje lhe conhecemos – que só surgiria em 1986. Mas não foi antes de 1994 que passou a dedicar-se a tempo inteiro ao erotismo gay. Por essa altura, fundou também a revista gay G-Men, que publica artigos, fotografias e desenhos.

“O meu primeiro livro de manga gay, em 1994, foi o primeiro grande êxito do género no Japão”, garante. “Tornei-me o primeiro artista japonês de manga gay  a alcançar sucesso. Na última década houve uma explosão de autores nesta área, mas são poucos os que se dedicam a tempo inteiro.”

No país de origem, Tagame tem uma maioria de leitores gay, mas também há mulheres e homens heterossexuais entre o seu público. “Metade dos visitantes de uma exposição que fiz em 2010 numa galeria de Tóquio eram mulheres”, exemplifica. 

Nos países ocidentais não tem uma aplitude tão grande de admiradores. Quase todas as pessoas que comparecem às suas sessões de autógrafos e exposições são gays.

“Adoram o tipo de homens que desenho e elogiam bastante as histórias”, revela. “Mas já houve quem me pedisse para manter o estilo e tornar as histórias mais suaves. Respondo que vou continuar a seguir o meu gosto.”
 
Sem se alongar em comentários ao trabalho de outros autores, Tagame prefere realçar, por usa iniciativa, o lugar histórico que o seu trabalho ocupa. Assim mesmo: “Fiz a ponte entre a arte erótica gay do Japão e a  arte erótica gay ocidental, ao mesmo tempo que aproximei o desenho erótico gay da cultura manga japonesa.”

[Time Out Lisboa, 24 de Dezembro de 2014, pp. 64-65]

sábado, 31 de janeiro de 2015

"Ainda há quem ache que ser gay é ser especial"

Bruno Horta fala com o realizador britânico Andrew Haigh sobre a nova linguagem gay da televisão e do cinema. O  pretexto é o regresso, este mês, da série Looking.
(foto: Queer Lisboa)
Andrew Haigh saiu do quase anonimato em 2011, quando assinou a longa-metragem Weekend, exibida em 2012 no festival de cinema Queer Lisboa. A história de dois homens que ficam juntos por um fim-de-semana foi celebrada por apresentar uma visão despretensiosa das relações gay. Britânico, nascido há 41 anos em Harrogate, no Norte de Inglaterra, Haigh juntou-se em 2013 ao canal americano HBO como um dos autores, produtores e realizadores de Looking. A série mostra um grupo de amigos gay de São Francisco, perdidos entre o admirável mundo novo da homossexualidade sem censura e o desejo de uma vida amorosa estável. A primeira temporada de Looking passou no ano passado em Portugal, através do canal por cabo TVSéries, o mesmo que a partir de 29 de Janeiro vai emitir a segunda temporada (que se estreou a 11 de Janeiro nos EUA).

A imprensa americana diz que a primeira temporada de Looking teve “audiências modestas”. A história vai mudar muito para alcançar mais público?
Não me parece. O público é sempre relativamente pequeno em séries deste género, porque se trata de temática gay. Eu e o Michael [Lannan, criador da série] achámos que seria de manter a história como está, em vez de a adaptar à luta por audiências.
Mas o mercado gay nos EUA é bastante numeroso.
Sim, claro, mas uma série assim nunca terá muito público. Começa logo pelo facto de nem toda a gente ter acesso à HBO [distribuído por cabo e satélite].
Sendo britânico, como é que se juntou a Michael Lannan e aos produtores executivos da série nos EUA?
Telefonaram-me, enviaram-me o guião e adorei a ideia. O Michael já estava a trabalhar na série [havia] vários anos, junto da HBO. Tinha definido as personagens e o episódio-piloto. Juntei-me a ele há dois anos para realizar o episódio-piloto e acabei por ficar na equipa criativa.
Escreve sozinho em casa ou no escritório?
Somos oito guionistas, juntamo-nos, discutimos ideias e depois cada um vai escrever sozinho um episódio. Nesta segunda temporada, escrevi o primeiro episódio, o Michael escreveu o segundo...
Que importância histórica atribui a Looking? Há quem faça comparações com a série britânica Queer as Folk (1999), considerada um marco na maneira de representar os homossexuais na TV.
Penso que é diferente de outras séries sobre a vida gay e lésbica. Está mais alinhada com a época. A vida gay mudou muito desde Queer as Folk, acho que Looking reflecte isso. Talvez nos próximos anos deixe de haver necessidade de séries sobre gays, quem sabe… 
Deseja não voltar a realizar uma série gay?
De facto, não me vejo a fazer isso, é muito improvável. À medida que as pessoas se vão integrando na sociedade, menos necessidade haverá de séries como esta. Não me parece que dentro de uma década ainda haja séries apenas sobre homossexuais. Ou talvez haja, mas o foco será outro.
Um artigo na revista Slate, no ano passado, dizia que Looking está “obcecada em demonstrar a normalidade gay”. Quer comentar?
Penso que o autor desse artigo não fez uma análise correcta. As nossas personagens são completas, não nos limitámos a mostrar uma ou outra característica. Para mim, são personagens iguais às pessoas comuns, mas com as suas particularidades. Nunca tivemos intenção de normalizar as personagens do ponto de vista gay.
Mas nesta história há tudo menos marginalização, as personagens são absolutamente comuns.
Sim, porque os gays já não vivem nas margens. Algumas pessoas criticam a série, porque ainda acham que ser gay é ser especial. Ser gay já não é ser diferente. Os gays preocupam-se, tal como as pessoas heterossexuais, com o trabalho, o amor, as relações,  o significado da vida. Há quem ache isso pouco apelativo.
Em Weekend também nos mostrou dois gays comuns. É uma forma de combater os estereótipos ou uma cedência à representação aceitável da homossexualidade?
Nem uma coisa nem outra. Nunca tive como objectivo promover, através do grande ecrã, certas formas de sexualidade. Weekend e Looking não são sobre todos os homossexuais, são sobre as personagens que ali estão. Por vezes, quando se filma uma história gay parece que tudo tem de se resumir à sexualidade. Não é o aspecto mais importante. Sou gay, gosto de contar histórias sobre vidas que entendo bem e o que quero é ser fiel ao meu entendimento do mundo.
Sente-se próximo de realizadores como Ira Sachs ou Xavier Dolan?
Gosto do trabalho de ambos, são realizadores muito interessantes. Temos os três um grande interesse pela história do cinema e por realizadores que nos antecederam, talvez seja isso que nos une, mais do que outras características.
É verdade que o seu próximo filme, 45 Years [com estreia em Fevereiro, no Festival de Berlim], não tem nada de gay?
Não há personagens gay, de facto. É a história de duas pessoas que estão juntas há 45 anos. Weekend era sobre duas pessoas que se aproximam, este filme é provavelmente sobre duas pessoas que se afastam. É sobre a intimidade numa relação longa.
Algum dia voltará a fazer filmes ou séries de temática gay?
Depois de 45 Years tenho outro projecto que também não é gay. Não digo que não, mas para já quero explorar outros temas.
[Time Out Lisboa, 21 de Dezembro de 2014, p. 64]

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O filme sobre Carlos Castro não é sobre Carlos Castro

A viagem para a morte do cronista social Carlos Castro é recriada em Crime, cuja primeira apresentação acontece esta quarta-feira. Bruno Horta viu o filme e conversou com o realizador.

Quando o trailer começou a circular na internet, em meados de Dezembro, choveram críticas à estética do filme, alegadamente pouco profissional. “É-me difícil criticar um filme sem o ver, mas admito que haja pessoas para quem isso não seja importante”, ironiza o realizador, Rui Filipe Torres. Finalmente, esta quarta-feira, dia 7, na Cinemateca Portuguesa, detractores ou entusiastas poderão ver na íntegra o filme de que tanto se fala.

Crime parte do caso real de homicídio do cronista social Carlos Castro, aos 65 anos, a 7 de Janeiro de 2011 num hotel de Nova Iorque. A sessão está marcada para as 21.30 e o bilhete custa 3,20 euros.

O argumento, da autoria do realizador, adapta uma peça de teatro escrita pelo actor João D’Ávila, que teve uma leitura encenada em 2011, na Sociedade de Língua Portuguesa. As personagens não têm os nomes das pessoas reais envolvidas no caso. Não há um Carlos Castro e um Renato Seabra (jovem modelo que matou o cronista e acabou condenado a 25 anos de prisão nos EUA). No filme, há um António (João D’Ávila) e um Rodrigo (Ruben Garcia). 

“Para João D’Ávila, a peça é influenciada pelo fim trágico de Carlos Castro, até porque eram amigos”, explica o realizador, de 55 anos. “Mas para mim o filme é mais do que isso, o que me interessou não foi a morte de uma pessoa concreta, mas aquilo que há de universal na situação”, conta Rui Filipe Torres. 

Ainda sem data de estreia comercial, Crime leva pela primeira vez ao grande ecrã uma versão do caso Carlos Castro. “Filmámos em condições-limite”, revela o autor. “Sem orçamento, abaixo de todas as condições necessárias, foi tudo feito em nove noites, em Abril de 2014. Decidimos que, mesmo assim, valia a pena avançar.”

As duas personagens aparecem num quarto de hotel em vésperas de uma viagem a Nova Iorque. Um crescendo de tensão entre António e Rodrigo culmina no assassinato daquele – o que mais um vez difere dos acontecimentos reais, pois Castro foi morto em Nova Iorque e não em Lisboa.

De um lado, um homem envelhecido, apaixonado por um rapaz muito mais novo. Anseia estar em Nova Iorque para a lua-de-mel de ambos e declara: “A ilusão é muito mais importante do que tu pensas, aliás, a ilusão é a realidade”. Do outro lado, um rapaz muito mais novo com sonhos de fama e reconhecimento, a rejeitar as investidas amorosas do outro. “O que é que podes dar-me, além desse teu corpo envelhecido? Viagens, fantasia, mariquices!”

Para o realizador, trata-se “fundamentalmente de um trabalho de dádiva dos actores à câmara”. É um jogo psicológico de insultos mútuos, um jogo de poderes simbólicos embrulhado em paixão e obsessão, oportunismo e ingenuidade, chantagem e rejeição, verdade e simulacro. 

[uma versão deste texto saiu na Time Out Lisboa de 17 de Dezembro de 2014, p. 64]

domingo, 18 de janeiro de 2015

Don Bachardy aquém e além Isherwood

São quase 50 anos de retratos de actores, realizadores e argumentistas. Hollywood é o álbum em que o artista plástico Don Bachardy ostenta uma voz própria. Mesmo se viveu sempre eclipsado pelo génio do companheiro, Christopher Isherwood.

Quando, em 1964, Christopher Isherwood publica o romance “Um Homem no Singular” – história de um britânico em Los Angeles que recusa continuar viver perante a morte acidental do namorado – é inteiramente sobre a sua relação com Don Bachardy que está a escrever. Quando, em 2009, o livro é adaptado ao cinema por Tom Ford, sob o título português “Um Homem Singular”, Bachardy parece ganhar algum protagonismo simbólico, já sem a tutela de Isherwood, que morrera em 1986. O seu papel tem vindo a ser reabilitado, mas jamais se conseguirá falar de Bachardy sem se começar por Isherwood. E o próprio assim recomenda.

“Tive a sorte de conhecer estas pessoas através da minha parceria com Christopher Isherwood, ele era a garantia da minha seriedade e do meu talento”, diz Bachardy, de 80 anos, logo no início de uma conversa telefónica com o Ípsilon, a partir da cidade costeira de Santa Mónica, em Los Angeles, onde nasceu e vive. O termo que utiliza é este mesmo: “parceria” (“association”). E as pessoas a que se refere são actores, realizadores e argumentistas de cinema cujos retratos foi fazendo nos últimos 48 anos – para agora os apresentar no álbum antológico “Hollywood”.

“Convidava as pessoas quando as conhecia em circunstâncias sociais”, acrescenta. “Sugeria a possibilidade de lhes fazer o retrato e as pessoas assumiam que, sendo amigo de Christopher Isherwood, deveria ser talentoso.”

Fosse o livro representativo da obra de Bachardy e não teríamos cerca de 300 desenhos de figuras hollywoodescas, apenas cinco ou seis. Mas a editora assim quis e o artista concordou. “Um retratista tem de apresentar objectos reconhecíveis, de outro modo o público não consegue julgar a validade do trabalho”, justifica, fazendo notar, ainda assim, que é ínfima a percentagem de retratos seus de celebridades da sétima arte.

Com prefácio do escritor Armistead Maupin, introdução do próprio artista e nota inicial de Tom Ford, o livro encontra-se dividido em três partes principais, correspondentes à profissão dos retratados: realizadores, actores e argumentistas e outros. Personalidades directa ou indirectamente ligadas à indústria do cinema americano. Robert Altman, Lindsay Anderson, Kenneth Anger, Stephen Frears, Todd Haynes, Fritz Lang, Gus Van Sant, Truffaut, Polanski, Bertolucci, Roland Petit, Gore Vidal, Fred Astaire, Warren Beatty, Katharine Hepburn, Glenn Ford, Jack Nicholson, Joan Collins, Joe Dallesandro, Marlene Dietrich, Mia Farrow, Julianne Moore, entre tantos outros. Os retratos mais antigos são de 1961; os mais recentes, de 2009. Inéditos, cerca de 150.

Num sotaque que se diria mais próximo do londrino que do californiano, o artista explica que a proximidade a estas figuras foi quase sempre apenas profissional. “Muitos posaram por generosidade para com um jovem artista”, reconhece. “Alguns, conhecia-os bem, outros eram amigos e muito poucos se tornaram íntimos. É o caso de Leslie Caron, Deborah Kerr ou Glenn Ford. Gore Vidal foi também um bom amigo e posou para mim dezenas de vezes entre 1959, quando era um homem muito bonito, e os anos 90.” 

Salta à vista a existência de muitos retratos a preto e branco até 1986, ano da morte de Isherwood, e quase todos a cores depois desta data. A amostra, esclarece o autor, está enviesada.  “O livro talvez permita tirar essa conclusão, mas a verdade é que comecei a fazer trabalhos com cor em meados dos anos 60 e nos anos 70 já trabalhava quase exclusivamente assim. Quis ganhar absoluta confiança nas minhas capacidades antes de abandonar o preto e branco.” 

Curiosamente, os retratos a preto e branco parecem os mais realistas, enquanto os coloridos aceitam sugestões expressionistas. Será assim? Don Bachardy não concorda inteiramente. “O expressionismo está mais implicado em trabalhos de pintura do que em desenhos, mas as pessoas acabam por se referir aos meus trabalhos como expressionistas porque eles são muito coloridos, nunca me limito aos pastéis e aos cinzentos. Uso muita cor porque é assim que vejo as pessoas quando elas posam para mim.”

São agora raros os momentos em que se senta a pintar com um modelo à frente. No máximo das suas capacidades fazia sessões de três a cinco horas até obter uma série de três retratos da mesma pessoa. “Sem um único intervalo”, sublinha. 

É por isso que tem uma opinião pouco favorável dos artistas que pintam com base em fotografias e prescindem do modelo vivo. “A fotografia é trabalho do fotógrafo, ele é que tem a experiência artística”, argumenta. “Os pintores que só usam fotografias são escravos da fotografia, não chegam a sentir qualquer emoção real, muito menos a dificuldade e imprevisibilidade de ter um modelo à frente.”

A técnica é esta, pois: “A pessoa fica a posar para mim, parada e concentrada; começo imediatamente a trabalhar com cores, não dou cor a um desenho que tenha feito previamente, penso e trabalho directamente com cor.”

Don Bachardy estudou no antigo Chouinard Art Institute de Los Angeles e na Slade School of Art de Londres. Fez uma primeira exposição individual em 1961 na Redfern Gallery, em Londres, e até aos anos 2000 não mais voltou a mostrar-se em nome próprio. Trabalhos seus fazem parte do acervo de colecções como as do Metropolitan Museum de Nova Iorque (retratos de William S. Burroughs, Tennesse Williams e Isherwood, por exemplo) ou da National Portrait Gallery de Londres (W.H. Auden e E. M. Forster, entre outros).

“Foi Isherwood quem sugeriu que eu me tornasse artista”, lembra. “Quando o conheci, mostrei-lhes vários retratos que tinha feito em adolescente, com actores do cinema, retratos a partir de fotografias. Ele reconheceu-os a todos e entusiasmou-me, foi assim que comecei a desenhar com modelos vivos.”

Bachardy tinha 18 anos quando conheceu Isherwood em Los Angeles. Estávamos em 1953. Era um adolescente encantado pela beleza paternal do já então conhecido romancista britânico. Isherwood instalara-se nos EUA poucos meses antes do início da II Guerra Mundial, na companhia de W. H. Auden e depois de uma passagem por Portugal. Já tinha escrito a obra seminal, “Adeus a Berlim”, de 1938, mais tarde apensada a “Mister Norris Muda de Comboio”, de 1935, sob o título comum “The Berlim Stories”. Salvo a curta separação que inspirou “Um Homem no Singular”, no início dos anos 60, o retratista e o escritor mantiveram-se juntos por 33 anos.

A história do casal é narrada em “Chris & Don: A Love Story”, documentário de 2007 realizado por Guido Santi e Tina Mascara. Mas nem por sombras foi alguma vez secreta, como se poderia erradamente julgar, tratando-se de um casal homossexual numa época pré-gay (anterior à Revolta de Stonewall, em Nova Iorque, em 1969, início simbólico do movimento de defesa de direitos das minorias sexuais). 

“Como éramos artistas e não dependíamos de um patrão tínhamos a liberdade que os artistas em geral têm numa sociedade, não éramos julgados pelos padrões vigentes”, recorda Bachardy. “Ainda assim, era digno de notícia se aparecíamos juntos em festas, sobretudo se os convidados principais eram actores de primeira grandeza. Éramos o único casal masculino nas festas em casa de David Selznick. Uma vez, Joseph Cotten, que como se sabe era um actor famoso dos anos 40 [um dos protagonistas de “O Mundo a Seus Pés”], disse alto e bom som que ‘deplorava meios-homens’. Foi o único comentário deste género que alguma vez ouvi. E foi-me dito a mim, não ao Chris, que era muito respeitado. Teríamos sido expostos a muitas outras demonstrações de homofobia se não fossemos artistas”, afirma.

Quando, por fim, perguntamos a Don Bachardy o que sente ao olhar esta galeria de figuras míticas do cinema, a resposta revela um enorme sentido de gratidão e um deslumbramento perante o acaso das coisas: “Tive a sorte de ter conhecido Isherwood, quando tinha apenas 18 anos e de ter percebido que ele era uma pessoa extraordinária; permiti-me conhecê-lo e ganhar intimidade com ele, o que era muito pouco comum no início dos anos 50”, reflecte. “Sinto enorme orgulho na minha carreira, sinto-me orgulhoso por ter tido tanta gente distinta a posar para mim e por ter tido uma relação de 33 anos com Isherwood. Não consigo perceber de onde me veio esta sorte, parece-me muito pouco habitual.” 
Bruno Horta

[uma versão deste texto saiu no Público/Ípsilon de 17 de Dezembro de 2014]

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Muito mais que amor de mãe


Bruno Horta escreve sobre o novo filme de Xavier Dolan. Mamã é um retrato de inquietação no subúrbio. Estreia esta quinta-feira.

Os slogans são sempre enormes resumos e por isso podem também ser enormes equívocos. “Não há amor como o amor de mãe”, diz o cartaz. E quem o ler pensará que Mamã, filme de Xavier Dolan com estreia portuguesa esta quinta-feira, dia 11, conta a história de uma mãe (vai muito além). Ou que Mamã é uma história amorosa e há redenção (não há redenção alguma).
 
Mamã é sobre homossexualidade e doença mental. Sobre uma mãe, sim, e mais ainda sobre um filho apaixonado por ela, incapaz de reconhecer o lugar natural, pronto a tomar-se seu amante. Não é sobre o incesto. Será, quando muito, sobre o que se convencionou chamar Complexo de Édipo.
 
Um filme em torno de “uma crise existencial”, resume o realizador. Uma evocação distante, com humor, mesmo se negro, de Desejos Selvagens (2007), de Tom Kalin, com Julian Moore no papel da mãe incestuosa que leva o filho à loucura.
 
A mãe, aqui, é Diane (Anne Dorval), desbocada, vivaça, popular, diva gay de subúrbio, encarnação queer da mulher fatal. O filho é Steve (Antoine Olivier), adolescente angélico e rebelde, acometido de uma perturbação mental que não será exactamente a que a mãe descreve aos outros. Vivem numa casa arrendada, sem dinheiro e sem paz de espírito, com o fantasma da morte do pai sempre presente.
 
Mamã teve estreia absoluta no Festival de Cannes, em Maio último, e acabou vencedor do Prémio do Júri, um dos três mais importantes do certame. Foi já exibido entre nós, a 16 de Novembro, durante o Lisbon & Estoril Film Festival. E chega agora ao circuito comercial.
 
É a quinta longa-metragem de Xavier Dolan, de 25 anos – sim, 25 –, menino-prodígio do cinema queer que recusa ser considerado um realizador queer. Segue-se a J'ai Tué Ma Mère (2009), Amores Imaginários (2010), Laurence para Sempre (2012) e Tom na Quinta (2014).
 
Nascido nos subúrbios do Quebeque, Xavier Dolan tornou-se actor de telefilmes e séries aos quatro anos. Orgulha-se de ter em Titanic um dos seus filmes preferidos. É, aliás, notável a profusão de referências consideradas kitsch que convoca para o grande ecrã. Em Mamã também. Unhas de gel decoradas, madeixas mal pintadas, carteiras de imitação de cobra, comida de plástico, Céline Dion, Andrea Bocelli. O esplendor do garrido e do aparentemente descartável, celebração sem ironia de um gosto classe baixa.
 
“Agarra o touro pelos cornos e deixa o passado para trás” recomenda Steve a Diane. É a clássica atitude dos pobres, necessitados de conforto num futuro imaginário. A clássica determinação dos homossexuais, em busca de uma identidade psicológica e social que quase sempre são obrigados a reconstruir, individualmente. Peça por peça.
 
[artigo publicado na Time Out Lisboa de 17 de Dezembro de 2014, p. 78]

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

"O meu nome não era eu, era o que outros fizeram de mim"

Bruno Horta entrevistou o escritor francês Édouard Louis, cujo primeiro romance é um ajuste de contas com a violência anti-gay de que foi vítima. O retrato é de David Clifford.

E de repente, no fim de 2014, aparece o livro gay mais impressionante dos últimos 12 meses. Acabar com Eddy Bellegueule, autobiografia sob a forma de romance, relato atroz da violência física, verbal e simbólica sobre um adolescente homossexual que vive numa aldeia e pertence a uma família pobre. “Um manifesto sobre a possibilidade de nos reinventarmos”, diz o autor, Édouard Louis.

A Time Out entrevistou-o, há dias, em Lisboa. Rapaz alto, magro, de sorriso tímido, muito curioso, nasceu há 22 anos numa aldeia de Hallencourt, no Norte de França. Vive agora em Paris, onde estudou sociologia. Começou a escrever este primeiro romance quando tinha 19. É ele o protagonista da história, quando ainda se chamava Eddy Bellegueule.

Entretanto, mudou de nome, matou o passado e arrumou-o neste livro – trazido para Portugal por uma nova editora lisboeta, Fumo Editora, com tradução do crítico António Guerreiro. O realizador André Téchiné, adianta Édouard Louis, vai adaptar a história ao cinema e o filme deverá sair em 2016.


Fez questão de ser entrevistado pela Time Out Lisboa quando lhe disseram que é a única publicação em Portugal que escreve regularmente sobre a realidade gay. Porquê?
Porque sou gay e é importante falar para o público gay. Muitos artistas e escritores têm problemas com isso. Há pouco tempo, em França, houve grande controvérsia por um jornalista se ter dirigido a Xavier Dolan com a expressão “realizador gay”. Ele respondeu: “Sou realizador, não sou um realizador gay”. Para mim é muito importante afirmar esta condição. Aliás, tento mostrar com o livro que a homossexualidade foi a única maneira que encontrei de fugir da minha família. Foi por ser homossexual que consegui fugir.

Se não fosse homossexual teria reagido de outra forma?
A princípio, foi um problema, a família do Eddy dizia-lhe que ele não fazia parte da família, porque era homossexual. Ele tentou tudo para ser normal, quis jogar futebol, quis gostar de mulheres. Mas depois percebi que era impossível, sentia este desejo e continuava a ser um rapaz feminino. No fim do livro, mostro que foi por os outros dizerem que eu era diferente que não tive outra escolha que não fosse ser diferente e fugir. A sociologia explica isto: se houver cinco filhos numa família pobre e um deles abandonar a família, são altas as hipóteses de ele ser homossexual.

O historiador francês Didier Eribon, a quem dedica o seu livro, escreveu bastante sobre os homossexuais que constroem a identidade em torno do insulto e da fuga…
Mesmo que o insulto seja subtil, mesmo que as pessoas não usem palavras como “paneleiro” – no caso de Eddy usavam –, o homossexual tem sempre medo, nem que seja dos gestos femininos que possa fazer. Mesmo que não seja pronunciado, o insulto está sempre presente. O Eddy chega ao mundo, desperta para a vida, e imediatamente é dominado pelo insulto. Mas não é só o Eddy. Todas as personagens do livro foram geradas pela dominação.

Diria que o livro é uma forte crítica à organização da sociedade francesa?
E não só francesa. A reprodução da dominação e das desigualdades está por todo o lado e afecta homossexuais, estrangeiros, negros, mulheres. Não consigo entender como é que não há revoluções todos os dias, como é que as pessoas não saem à rua.

Estudou sociologia, que explicação encontra para isso?
As pessoas crescem neste sistema, não conseguem ver a violência do sistema, é um dado adquirido, é aquilo a que chamam vida. A mãe do Eddy não se considera dominada como mulher, não diz que deixou a escola por a família não ter posses. Diz que foi uma escolha, que não estudou mais porque não quis. Não é verdade. Simplesmente, ela não se apercebe da violência exercida sobre ela. Quando escolhi o título Acabar com Eddy Bellegueulle estava a falar do meu passado mas também da percepção do Eddy. Eu, naquela altura, não via que estava dominado.

O livro é também uma crítica severa à sua família?
Não me parece. Limito-me o criticar o sistema em que eles cresceram e vivem. O sistema de desigualdade criou o comportamento deles. 

Escreve a certa altura que só se apercebeu de que era mesmo muito pobre depois de sair da aldeia onde nasceu.
Exactamente. Para mim, aquilo era a vida. Não era mau, era a vida. Ao fugir, apercebi-me da violência em que cresci.

Não tinha internet nem computador em casa, mas tinha televisão e cresceu nos anos 90. Não teve acesso a outras realidades, não viu outros mundos através da TV?
É complicado… A realidade que aparece na televisão não parece real, é uma coisa distante. O meu pai trabalhava na fábrica da aldeia, o meu avô também, o meu bisavô também. E era isto. A grande cidade era vista como um sítio perigoso, onde havia árabes e negros perigosos. Resistia-se à ideia de sair daquele contexto, aceitava-se. Nada é mais violento para alguém que está dominado do que assumir que está dominado. Ou não se vê a violência ou então não se aceita que se está sujeito a ela.

É uma interpretação marxista.
De certa forma, sim, embora o marxismo diga que as pessoas acabam por ter consciência de classe, e não tenho a certeza de que isso aconteça. A armadilha da dominação e da violência é as vítimas terem vergonha da dominação e da violência e passarem a mentir para esconder isso.

Porque é que decidiu mudar de nome?
Eddy é um nome americano e em França dar nomes americanos aos filhos é típico das classes baixas. “Belle” significa bonito e “gueulle” significa focinho ou tromba. Eu tinha um nome difícil. Mudei há cerca de dois anos, primeiro o nome, depois o apelido. O nome é uma coisa externa que nos apanha à nascença. O meu nome não era eu, era o que outros fizeram de mim.

Significa que quis cortar com passado? Mas o passado não desaparece.
Claro que tenho muitos traços do meu passado, o que digo é que realmente é possível ser-se outra coisa.

Diria que Édouard Louis é mais verdadeiro que Eddy Bellegueulle?
Eu não era Eddy Bellegueulle. Eddy Bellegueulle era o produto do que os outros fizeram de mim.

Escreveu o livro depois de fazer terapia ou o livro foi uma forma de terapia?
Penso que construí o livro com base numa atitude política, não tanto como terapia. Mas nunca fiz terapia, prefiro a amizade como forma de vida, como dizia Foucault.

O livro esteve envolto em grande polémica em França…
Não foi uma grande polémica, foi uma coisa criada por uma publicação de direita. Le Nouvel Observateur [agora chama-se L’Obs] foi visitar a minha família ao Norte de França. Entrevistaram a minha mãe e depois escreveram que o meu livro é uma fraude, que foi tudo inventado ou exagerado.

A versão da sua mãe era assim tão diferente da sua?
Claro que sim. Para se conseguir dizer a verdade é preciso fazer-se uma construção e ganhar distância. Obviamente, quando um jornalista pergunta à minha mãe se é mesmo racista, ela diz que não. Claro. A minha mãe não tem a percepção exacta. Ela dizia coisas como: “Não tenho nada contra homossexuais, mas dois homens juntos é nojento.” Ela nunca se consideraria homofóbica. É importante destacar o seguinte: Le Nouvel Observateur acusou-me de exagerar as coisas. O tema do exagero atravessa a História. O sociólogo Abdelmalek Sayad dizia que quando se fala das torturas perpetradas pelo exército francês na Argélia, há muita gente que considera o relato exagerado. Quando uma mulher, ou um homem, se apresenta como vítima de violação, é porque está a exagerar, não foi bem assim. Quando se tenta denunciar alguma coisa, o discurso conservador diz sempre que se trata de um exagero.

Se tivesse nascido numa família favorecida, teria sido mais fácil crescer como homossexual?
Claro que é muito mais fácil ser-se gay em França ou no Canadá do que na Rússia ou no Irão. E obviamente é mais fácil ser-se gay numa grande cidade e numa família de intelectuais. Eu vivo melhor desde que vivo em Paris. Mas muitas pessoas não admitem o seguinte: o que é uma forma de discriminação é olhar para as classes populares como portadoras de autenticidade, tal como fazia Pasolini. A ideia de que os pobres são mais simples, mais verdadeiros, que gostam muito de rir.

Considera errada a maneira como Pasolini filmou os pobres?
Sou um grande admirador da obra dele, mas aquela ideia de que a burguesia está constantemente a desempenhar um papel, enquanto os pobres são muito mais autênticos… Não é verdade, não é verdade. É uma percepção errada, é o princípio do bom selvagem. A vida dos homens e das mulheres homossexuais nas classes desfavorecidas é muito mais difícil do que nas classes burguesas. Não estou a falar da alta burguesia de valores católicos.

Já regressou à sua aldeia desde que saiu?
Estive lá duas ou três vezes, mas desde que escrevi o livro não voltei. A distância entre mim e a minha família era já muito grande, foi-se instalando.

Telefona aos seus pais ou aos seus irmãos?
Não. Quando o livro saiu, o meu pai telefonou-me e disse-me: “Édouard, estou muito orgulhoso de ti.” Foi a primeira vez que ele me chamou Édouard. Comprou 30 exemplares e ofereceu aos amigos.

Mas será que leu?
Acho que não, ele tem dificuldade em concentrar-se na leitura.

[uma versão desta entrevista foi publicada na Time Out Lisboa de 3 de Dezembro de 2014, p. 78]