Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Diplomacia

AP
«Tens of millions of dollars have flowed from the C.I.A. to the office of President Hamid Karzai, according to current and former advisers to the Afghan leader. [...] American and Afghan officials familiar with the payments said the agency’s main goal in providing the cash has been to maintain access to Mr. Karzai and his inner circle and to guarantee the agency’s influence at the presidential palace [...] Handing out cash has been standard procedure for the C.I.A. in Afghanistan since the start of the war.» NYT

«The C.I.A. money continues to flow, Mr. Karzai said Monday. “Yes, the office of national security has been receiving support from the United States for the past 10 years,” he told reporters in response to a question. “Not a big amount. A small amount, which has been used for various purposes.” He said the money was paid monthly»NYT

Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

Os sonhos de Assange

«The radicalization of internet educated youth. People who are receiving their values from the internet... and then as they find them to be compatible echoing them back. The echo back is now so strong that it drowns the original statements. Completely. The people I've dealt with from the 1960s radicals who helped liberate Greece and.. Salazar. They are saying that this moment in time is the most similar to what happened in this period of liberation movements in the 1960s, that they have seen.»

«And as far as what has entered into the West, because there are certain regions of the world I am not aware of, but as far as I am aware that -- and of course I wasn't alive in the 1960s -- but as far as I can tell, that statement is true. This is the political education of apolitical technical people. It is extraordinary, in the same way that the young...»

Original aqui.

Domingo, 14 de Abril de 2013

O lado negro da internet gratuita

Os produtos e serviços de acesso livre na internet provocam danos colaterais, escreve o professor do MIT Michael Cusumano no número de Abril da revista Communications of the ACM.

Enquanto a Wikipedia prospera, fecham empresas que produzem enciclopédias à moda antiga. Enquanto o Google distribui livremente notícias copiadas da imprensa tradicional, jornais e revistas vão à falência.

A gratuitidade não é a principal área de negócio das empresas que a praticam, pelo que daqui a alguns anos teremos a internet cheia de conteúdos de qualidade duvidosa. Ao mesmo tempo, as fontes primárias, responsáveis por produtos e serviços com padrões de qualidade mínimos, terão sido dizimadas.

«Usage of Wikipedia is up, but contributions have been declining steadily over the past several years. Meanwhile, encyclopedia companies, including the venerable Encyclopedia Britannica, have closed or found it increasingly difficult to sell their traditional products. Will the world be better off if most encyclopedia companies shut their doors and most people only use Wikipedia? Maybe, but maybe not. [...] Free products and services appear over the Internet because the marginal cost of reproducing and delivering a digital good is essentially zero.

[...] But these calculations ignore the expenses associated with research, development, marketing, sales, infrastructure overhead, quality control, and administration. So, yes, digital goods and services such as software products, newspapers, magazines, books, music, video, and even college classes may have close to zero marginal costs and "gross margins" of up to 99%. But if revenues collapse [...] then at least some institutions will have another calculation to make: 99% of zero = zero.
Companies that survive the on-slaught of competition from free alternatives generally have business models and economies of scale and scope that enable them to take advantage of what we call "multi-sided markets." Their products are really "free, but not free." They subsidize one side of the market to gain users and make money from other parts.

[...] Open source software like Linux is free but the leading distributor, Red Hat, sells more than a billion dollars' worth of professional services each year (and also pays itself for a lot of Linux development). Google gives away the Android operating system and the Chrome browser for smartphones and tablets, and much other software functionality delivered over its website. But Google is not in the business of selling software products; it primarily sells advertising to companies who want to reach the billions of users of its search tools and other free products and services.[...] Do we have more variety and a better world when only a few players survive in an industry?»

(texto original aqui.)

Segunda-feira, 25 de Março de 2013

Perfil do líder do PKK, Abdullah Öcalan

De problema a solução

De terrorista a pacificador, o líder do PKK lutou pelo reconhecimento dos curdos e pela sua própria sobrevivência política.


O líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), Abdullah Öcalan (apelido que, em turco, significa “vingador”) nasceu em 1948 numa família de camponeses pobres em Omerli, aldeia curda no Sudeste da Turquia. Em criança queria ser “soldado como Atatürk”, o fundador do Estado que emergiu dos escombros do Império Otomano.

Embora os turcos o tenham acusado de “fuga ao serviço militar”, Öcalan diz, num dos seus livros de memórias, que terá pedido para ingressar no Exército mas foi recusado, “por ser curdo”. Em 1974, o homem a quem os fiéis chamam Apo (tio, em curdo) fundou com três dezenas de companheiros a organização maoísta APOCU, para levar a cabo uma “revolução socialista” na Turquia. Só a 27 de Novembro de 1978, quando criou o marxista-leninista PKK, Öcalan deu nova dimensão ao nacionalismo curdo. A sua primeira preocupação foi eliminar o que considerava o “facciosismo” do movimento. No fi nal dos anos 1970, os alvos de Öcalan eram os agas (senhorios), a velha liderança social feudal, não o Governo turco. 

Em 1980, depois de mais um golpe militar que deixou a Turquia sob lei marcial, Öcalan mudou-se para Damasco (rival de Ancara), onde recebeu autorização para treinar, no Líbano, um exército de guerrilha. No vale de Bekaa, a “academia” do PKK formava curdos turcos, sírios e iraquianos. Também recrutava mulheres, o que colidia com as tradições.

O primeiro ataque do PKK na “luta pela independência”, a 15 de Agosto de 1984, foi o assassínio de vários “guardas de aldeia”, milícia curda ao serviço do Exército, na província de Siirt, no Sudeste. Nos anos seguintes, a organização firmaria a reputação de uma das “mais brutais e eficazes guerrilhas do mundo”. Contrabando de droga e extorsão financiavam as suas campanhas.

Segundo as 400 páginas de acusações apresentadas em tribunal, em 1999, Öcalan ordenou a morte de centenas de civis, o rapto de turistas estrangeiros e a destruição de várias esquadras da polícia e outras instituições turcas. Mandou prender uma ex-mulher, por deslealdade, e executar um número indeterminado de camaradas, por criticarem ou contrariarem as suas directivas.

Ao invés de se afastarem deste ferino Öcalan, os curdos, tratados pela Turquia como “um problema de terrorismo”, encheram as fi leiras e os cofres do PKK. Em 1992, as regiões curdas do Sudeste começaram a cobrar “impostos” e a emitir “vistos” para os estrangeiros interessados em visitar o “Curdistão”. A reacção do Exército foi a evacuação de 3000 aldeias e a transferência forçada de três milhões de curdos da Anatólia. Sem apoio logístico, muitos combatentes instalaram-se no Norte do Iraque, onde o PKK, sempre perseguido pelas forças turcas, tem mantido um elo, ora de cooperação, ora de confronto, com a dupla Massoud Barzani-Jalal Talabani e os seus peshmerga (“os que enfrentam a morte”).

O exílio de Öcalan em Damasco terminou em 1998, quando a Turquia ameaçou a Síria com uma declaração de guerra. Em Outubro, os sírios fecharam os campos do PKK e pediram-lhe que deixasse o país. Não o extraditaram, como exigia Ancara, e ele foi bater à porta de Moscovo. A URSS, aliada de Öcalan, fora dissolvida em 1991 e o novo Governo russo expulsou Apo, cedendo às pressões turcas e dos EUA.

As paragens subsequentes do foragido foram a Itália e a Grécia e depois o Quénia. A caminho do aeroporto de Nairobi, em Fevereiro de 1999, o carro que transportava Öcalan foi desviado por comandos turcos, que o levaram, algemado e vendado, num avião até à ilha-prisão de Imrali, no mar de Mármara, onde é, desde então, o único recluso. A captura de Öcalan — a sua condenação à morte foi comutada para prisão perpétua, sob pressão da União Europeia — não neutralizou o PKK. As operações do Exército enfraqueceram a guerrilha, que passou de 10 mil-15 mil membros para uns 5000.

Mas o que ditou o cessar-fogo anunciado por Öcalan foram mudanças geopolíticas. Acima de tudo: o fim do apoio da Síria e do Irão, e o reconhecimento da “questão curda” pelos próprios líderes políticos turcos — que enviaram emissários a Imrali para negociarem com ele o fim do conflito.
[Texto de Margarida Santos Lopes, Público, 22 de Março de 2013]

Quinta-feira, 21 de Março de 2013

O "fact checker" de A Sangue Frio

«The mistakes in In Cold Blood are especially striking because the material originally appeared in The New Yorker, which, along with Time magazine, originated the practice of fact checking and has for many years been famous for the reliability of its content. I recently discovered that the New Yorker staffer assigned to check “In Cold Blood” was a man named Sandy Campbell, and that Campbell’s fact checking file for the story is in the special collections of the library of the University of Delaware, where I work. I decided to give it a look. The file has not been mentioned in any book or article about Capote or In Cold Blood that I’ve found; as far as I can tell, no one has previously examined it in the context of the book’s veracity. Now that I’ve done so, I think I understand why the story passed muster at The New Yorker, stretchers and all.»

Domingo, 10 de Março de 2013

"Se7e", 1983







 

Quarta-feira, 6 de Março de 2013

"O espírito da fornicação", por António Guerreiro

«Nas últimas semanas, os media europeus têm tentado escrever uma crónica da vida esotérica do Vaticano que poderia intitular-se, à maneira nietzschiana, “A resignação do Papa a partir do espírito da fornicação”. Esta crónica informa-nos muito pouco sobre a vida secreta das altas instâncias da hierarquia católica, mas diz-nos muito sobre a excitação que provoca entrar na zona mais interdita às coisas da sexualidade, usando uma pergunta característica do século XIX: “Diz-me os teus desejos e eu dir-te-ei quem és”.

Tal crónica começou com a eleição, pelas revistas mais mundanas, de um símbolo sexy: um secretário do Papa, a quem chamaram o “George Clooney do Vaticano”. E prosseguiu com a revelação de um “lobby gay” por trás da extraordinária resignação. É sabido que o pressuposto da dominação heterossexual é o de que em qualquer lugar de poder onde residam mais do que dois homossexuais, aí se instala um lobby. Mas um “lobby gay” no Vaticano não tem qualquer verosimilhança. Antes de mais porque só poderia ser assim designado um grupo de influência, uma organização que se representa como classe com interesses comuns, em torno de questões que têm que ver com a integração da sexualidade na luta política e no debate religioso; em segundo lugar, porque o próprio conceito de “gay” refere-se não apenas a uma orientação sexual mas a uma forma e a um estilo de vida que criam uma cultura, ostensivamente exibida para ser objecto de reconhecimento. Um bispo pode ser homossexual, mas o que lhe está absolutamente interdito é ser “gay”.

O mais interessante porém é o facto de uma instituição que fez da castidade uma das suas regras classificar os seus membros como heterossexuais ou homossexuais, mas não os considerando em pé de igualdade: enquanto os primeiros são-no em potência, mas — em princípio — não em acto (aceitam submeter o corpo à maceração, à mortificação; detêm o poder imenso de não-fazer), os segundos são vistos como destituídos desse poder e, se são homossexuais em potência, logo também o são em acto; os primeiros, por exigência ascética, lutam contra o espírito da fornicação; os segundos estão reféns da concupiscência da carne e do espírito. Em suma, são o que sempre foram desde o século XIX, quando eram considerados “doentes do instinto sexual”.

Ora, o que é curioso verificar é que esta visão que a Igreja tem da homossexualidade é reproduzida nos media muito modernos, muito desinibidos, que até preferem dizer “gay” a “homossexual”, mas assim que vêem alguns homossexuais juntos acham que eles não podem estar a fazer outra coisa se não a fornicar ou a reivindicar a consciência de classe.»
António Guerreiro, Ípsilon (Público), 1 de Março de 2013