domingo, 23 de novembro de 2014
Em nome do pai
sábado, 12 de abril de 2014
Sexualidade e política
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
sábado, 8 de dezembro de 2012
O ensino precisa de dinheiro e deve falar mais com o mercado de trabalho
«A WISE é um fórum mundial para discutir os problemas da educação e serve, ao mesmo tempo, para demonstrar o poder económico e simbólico do Qatar, um dos países mais prósperos do Golfo Pérsico e dos poucos que passaram incólumes a Primavera Árabe.
O país dos al-Thani é uma autocracia que se tornou independente do Reino Unido em 1971 e desde então nunca teve eleições. Apesar do liberalismo económico, existe uma forte estratificação social. Os imigrantes da Índia e do Paquistão constituem 36% de uma população total de cerca de dois milhões, de acordo com a base de dados online CIA World Factbook. Além de exercerem os trabalhos mais mal remunerados, os imigrantes asiáticos têm poucas oportunidades de mobilidade social. Um cidadão do Bangladesh, que estuda gestão e trabalha como motorista em Doha, disse ao PÚBLICO que é fácil entrar numa universidade do Qatar, desde que se seja bom aluno, mas o mercado de trabalho só tem lugar para europeus e qataris, pelo que no fim do curso o futuro dele terá de ser noutro país.»
domingo, 5 de fevereiro de 2012
"Uma aberração da mentalidade nacional combalida"
Uma asserção, repetida com convicção e mostras de convicção por qualquer indivíduo, faz sempre algum abalo no espírito dos ouvintes. Quando é conclamada pelas multidões, inane, inverosímil, ou absurda que seja, converte-se numa força tremenda. [...]
domingo, 1 de janeiro de 2012
Feliz ano novo
"Grandeza de Marx: Por uma Política do Impossível"
Assírio & Alvim, 2011
(pp. 71-78)
domingo, 20 de novembro de 2011
Perspectivas
«The world-turned-upside-down of the European debt crisis reached a new extreme last week when Europe came pleading for lucre where it once only seized it: Africa.The hands-out visit on Thursday of Prime Minister Pedro Passos Coelho of Portugal to its former colony Angola — once a prime source of slaves, then a dumping ground for the mother country’s human rejects and now swimming in oil wealth — was a milestone of sorts.»
domingo, 13 de novembro de 2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Os árabes pacóvios
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
A velha
sábado, 14 de agosto de 2010
"Aquela coisa"
domingo, 6 de setembro de 2009
Louçã e Ferreira Leite debatem casamento gay

Ele:
"Nunca vou fechar os olhos aos nossos vizinhos que o Estado persegue e magoa com leis injustas. Quero que o meu país respeite a liberdade. O Estado não dita o amor de uma pessoa, aceita as regras que as pessoas escolhem para si. A quem não concorda com os casamentos homossexuais, digo: isso não é connosco, é com quem quer viver."
Ela:
"A nossa sociedade está organizada na base de uma determinada noção de família baseada no casamento e toda a estrutura jurídica está moldada com esse objectivo. Houve uma evolução desse conceito. Respeito as diferenças das pessoas. Aquilo que não aceito é que não se considere que isto são uniões diferentes. Num casamento há a perspectiva da existência de filhos, noutras situações não há. Tolerância é, perante situações diferentes, ter tratamentos diferentes."
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Sangue contaminado matou 100 pessoas

[artigo de Rosa Ramos, jornal i, hoje]
domingo, 26 de julho de 2009
Confirma-se
"De fora estão por enquanto questões consideradas fracturantes, como, por exemplo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo - um assunto que José Sócrates prometeu há seis meses avançar na próxima legislatura - e o testamento vital, há dias adiado para o próximo ano.(...) O programa eleitoral do PS será apresentado na próxima quarta-feira, em mais uma sessão do Fórum Novas Fronteiras."
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Historieta num carro de praça

(foto daqui)
sábado, 12 de abril de 2008
Lista negra
MOTA-ENGIL
Jorge Coelho Foi ministro do Equipamento Social entre 1999 e 2001. A Mota contratou-o para presidente-executivo. Coelho é consultor da Martifer, detida em 37,5% pela Mota.
Luís Parreirão
Era o secretário de Estado das Obras Publicas de Jorge Coelho, e é o responsável pela área de concessões da Mota há 6 anos.
Luís Valente de Oliveira
É catedrático. Foi ministro várias vezes, a última no Governo de Barroso nas Obras Públicas. É administrador independente da Mota-Engil.
LUSOPONTE
Joaquim Ferreira do Amaral Foi ministro três vezes desde 1984, primeiro do Comércio e Turismo e depois das Obras Públicas. Desde 1995 passou pela Cimianto, Engil, Inapa e Galp. É presidente da Lusoponte e administrador não-executivo da Semapa.
SOCIEDADE LUSA DE NEGÓCIOS/BPN
Manuel Dias Loureiro Foi ministro dos Assuntos Parlamentares e da Administração Interna até 1995. Passou pela Jerónimo Martins, foi administrador da SNL e do BPN e presidente da Plêiade. Hoje é presidente da SPPM, empresa da SLN e da DL - Gestão e Consultoria.
IBERDROLA
Joaquim Pina Moura Foi ministro da Economia e das Finanças até 2001. Pouco depois torna-se presidente da Iberdrola Portugal, administrador da Galp e consultor do BCP. Mantém-se presidente da Iberdrola, é administrador da Neoenergia, da Eléctrica da Guatemala e é «chairman» da Media Capital.
EDP
António Mexia Foi administrador do BESI, antes de se ter tornado administrador da Transgás e presidente da Galp, Teve no Governo de Santana a pasta das Obras Públicas. É presidente da EDP.
GALP
Fernando Gomes Foi secretário de Estado de Soares, presidente da Câmara do Porto e ministro da Administração Interna de Guterres. É administrador da Galp.
SAPEC - GRUPO MELLO
Eduardo Catroga Foi ministro da Economia entre 1991 e 1995. Hoje é presidente do grupo SAPEC, administrador do Finantia e membro do conselho de supervisão da EDP.
BRISA
António Nogueira Leite Economista e secretário de Estado das Finanças de António Guterres. É administrador da Brisa, Efacec e Reditus.
EFACEC
Luís Filipe Pereira Foi secretário de Estado dos governos de Cavaco Silva e ministro da Saúde do Governo de Pedro Santana Lopes. Antes de ser ministro era responsável pela área da saúde do grupo Mello. É presidente da Efacec.
ENDESA
Nuno Ribeiro da Silva Exerceu cargos políticos entre 1985 e 1996. Foi assessor no Ambiente, secretário de Estado da Energia e deputado do PSD. Trabalhou como consultor da EDP, CP, Partex e Somague. É presidente da Endesa desde 2005.
O sector da banca é tratado noutro artigo do "Expresso". Seria cómico se não fosse trágico:
"Nomes relevantes como os dos socialistas Vítor Constâncio (BPI) e António Vitorino (Santander-Totta) e dos sociais-democratas Fernando Nogueira (BCP), Mira Amaral (BPI/CGD), Miguel Beleza (BCP), Manuela Ferreira Leite (Santander-Totta), Miguel Cadilhe (BCP), Manuel Dias Loureiro (BPN) e Carlos Tavares (CGD/BPSM/BTA) ou Bagão Félix (BCP) foram ou são ainda membros de órgãos sociais da banca privada portuguesa. (...) Há casos em que chegam mesmo a posições tão relevantes como a de presidente do maior banco privado, como aconteceu com Paulo Teixeira Pinto, ex-secretário de Estado da Presidência e porta-voz de Cavaco Silva.
(...) A CGD tem habitualmente como presidente alguém que já foi um destacado actor político: Rui Vilar (PS), João Salgueiro (PSD) e António de Sousa (PSD) são alguns dos exemplos. Na Caixa há sempre administradores que foram ministros, mais recentemente os casos mais notados foram os de Celeste Cardona (CDS-PP) e de Armando Vara (PS), hoje administrador do BCP."
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Assim se entra em casa do ditador
A editora Guerra e Paz publicou agora a primeira tradução portuguesa do diário que Eliade escreveu enquanto viveu em Lisboa. É uma tradução directa do romeno, de Corneliu Popa, e inclui índice onomástico e geográfico. Salazar é um dos nomes que maior número de referências tem.
Esta passagem, onde Eliade descreve um encontro com Salazar, é um primor:

"Cheguei ao Palácio de São Bento a correr e com a boca seca de emoção; não porque me iria encontrar com Salazar, mas porque estava com receio de chegar atrasado. Subo as escadas à pressa. O porteiro pergunta-me onde ia: «Ao Senhor Presidente». Mostra-me a escada do fundo: «Segundo andar, direito». Assim se entra em casa do ditador de Portugal. Encontro no segundo andar alguns empregados, que me encaminham para o gabinete de Salazar. Aguardo dois minutos na antecâmara e peço um copo de água para poder falar. Salazar ainda não acabou o encontro com uma comissão de administradores coloniais. Depois entro e recebe-me ele próprio à porta, pronunciando muito correctamente o meu nome.
Um gabinete modesto, com uma secretária de madeira, sem papéis em cima, e à sua esquerda uma mesinha onde esta o telefone. Falando comigo, Salazar muda de quando em quando a posição do telefone. São os únicos gestos." (7 de Julho de 1942; p. 63)
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Entrevistas de Verão
Nas democracias representativas, as únicas que funcionam, é fundamental preservar tempos lentos, silêncios e discrições. Uma sociedade em que tudo se soubesse, numa espécie de transparência total, seria sempre totalitária. Uma sociedade em que tudo acontecesse em tempo real seria sempre dominada pelo espectáculo, pelas pulsões mais imediatas. Esta reflexão encontra-se nos Federalist Papers. Quando os homens que fundaram os EUA discutiram o que é a democracia perceberam uma série de regras fundamentais. Uma delas é: quanto maior for o poder dos representantes mais longos terão de ser os seus mandatos. Isto para permitir que tomem decisões impopulares. A democracia não é apenas a soberania popular, o exercício do voto. É a conjugação do voto com a lei e com a possibilidade de haver decisões racionais que sejam impopulares. Se for apenas o exercício da vontade popular temos uma demagogia e não uma democracia. Hoje, as tecnologias de comunicação são potencialmente demagógicas. Trazem imensas vantagens para a democracia, mas se não houver uma reflexão sobre o seu uso acabam por ter um efeito demagógico, logo totalitário. Quando ouço falar em democracia mediática acrescento que a ‘democracia mediática’ não é democracia. Quando se afirma que na Internet e no Second Life há uma democracia directa, lamento dizê-lo, mas ‘democracia directa’ não é democracia.
Pacheco Pereira, Diário Económico, 24/08/2007
A integração dos jornais em grandes grupos económicos restringe a nossa liberdade?
Mas isso é resultado da globalização e do mercado livre, que permite tudo. Hoje, qualquer pessoa chega a director de jornal com uma rapidez impressionante, qualquer pessoa começa a escrever artigos de opinião. Não pode ser! Perde-se completamente a credibilidade. Se calhar sou anacrónico, penso de outra maneira, sou de outro tempo… Mas eu trabalhei em grandes jornais, e aquelas redacções metiam medo, porque cada um vigiava o outro. Era um jornalismo que recusava essa grande tese da distanciação; era um jornalismo da proximidade o que nós fazíamos. Aliás, não entendo essa coisa da distanciação quando a única coisa que o jornalismo pode ser é justo, procurar a justeza das coisas. Quanto mais aproximados estamos, mais entendemos os factos.
Quando fala de proximidade não está a referir-se a uma proximidade geográfica… Digo isto, porque os jornais têm investido em edições múltiplas, com destaques diferentes para cada região do país…
Não, não. Falo de aproximação no sentido do compromisso com o leitor. A tese da distanciação é como se o jornalista não tivesse nada a ver com a notícia, como se o director e o chefe de redacção não tivessem nada a ver com o jornalista, e o jornal não tivesse a ver com nada. A distanciação é absurda.
Baptista-Bastos, Jornal de Notícias, 10/08/2007
A blogosfera não é particularmente generosa consigo. Li que é "fria", "ambiciosa", que se comporta como "oficial da Gestapo" e que "persegue os seus 15 minutos de fama". Fica magoada com o que se foi começando a escrever sobre si? A inveja é a melhor terapia dos preguiçosos. A blogosfera diz tudo isso a meu respeito. Mas eu gostava de conhecer jornalistas que já tivessem abandonado bons tachos como eu tinha no Expresso; que já se tivessem demitido de revistas como a “Grande Reportagem”, após ter sido despedido o director [Joaquim Vieira] com o qual eu tinha sido convidada a trabalhar, que foi despedido por razões políticas e não jornalistas, e na sequência do qual me demiti, ficando um ano no desemprego. Estas são as minhas maiores glórias no exercício do jornalismo e não sei se muita gente as tem.
quarta-feira, 23 de maio de 2007
A polémica exagerada, segundo Soares

Há um testemunho de Mário Soares, que não se diz se é inédito. Excerto:
"A polémica que se levantou a propósito do seu último livro ["Beim Hauten der Zwiebel"], onde introduziu a revelação (tardia) de que pertenceu, no final da guerra, a uma unidade das tristemente célebres SS, tem sido, a meu ver, muito exagerada. É óbvio que o picante da "confissão" resulta de ter sido ocultada durante muitas décadas, durante as quais Günter Grass se tornou numa espécie de "consciência moral e crítica" da Alemanha do pós-guerra e, depois da queda do muro de Berlim, crítico virulento da reunificação alemã.
Não creio, contudo, que haja tanta razão para censurar Günter Grass. É preciso perceber o tempo de tragédia em que viveu, adolescente, nos últimos meses que precederam o colapso de Hitler. Günter Grass tinha 17 anos e foi incorporado nas SS, em pleno caos militar e político. Terá ele tido então consciência efectiva do que eram - e tinham sido - as SS? Não creio. Liberto do pesadelo, não terá funcionado o mecanismo psicológico natural do esquecimento e da rejeição em relação ao horror das últimas semanas da guerra?" Mário Soares
sábado, 10 de março de 2007
Hitler era vegetariano por causa de Gandhi
A cena é famosa. Abril de 1945, Hitler já derrotado e enlouquecido, com os soviéticos à porta do bunker, numa Berlim em estado de sítio, janta com Eva Braun, a amante com quem acabara de casar. "A sua última refeição vegetariana, de esparguete com molho de tomate", descreve Tristram Stuart, autor do livro sobre vegetarianismo The Bloddless Revolution (A Revolução Sem Sangue), agora publicado nos EUA. Só depois, as doses fatais de cianeto. para ele, para ela e para a cadela de estimação, Blondi.
Ao que garante Stuart, foram os dentes amarelecidos de Hitler, típicos de um vegetariano, que mais tarde permitiram aos médicos forenses russos que examinaram o cadáver carbonizado comprovar a sua identidade. Tristram Stuart não hesita na conclusão: "Adolf Hitler era vegetariano ou, pelo menos, partilhava a filosofia vegetariana e punha-a quase sempre em prática."
O ditador deixou de comer carne em 1911, por causa de constantes dores de estômago, e, nos anos que se seguiram, "acreditou sempre que essa abstinência o aliviava da flatulência crónica, da prisão de ventre, dos suores, da tensão nervosa e dos espasmos musculares". Acreditava, sobretudo, que o consumo de vegetais, incluindo entre os militares, seria determinante para a vitória moral e bélica da Alemanha sobre o resto do mundo.
O livro, que tem como subtítulo Uma História Cultural do Vegetarianismo de 1600 à Era Contemporânea, inclui nada menos do que 65 páginas de bibliografia. Em relação às teses sobre Hitler são citados vários historiadores e um diário de Goebbels de 1942: "Ele [Hitler] acredita mais do que nunca que comer carne é maléfico para a humanidade", escreveu o chefe da propaganda nazi.
Pura invenção
Convém, a propósito, referir que há quem defenda o contrário. Rynn Berry, por exemplo, membro da North American Vegetarian Society, garante no livro Hitler: Neither Vegetarian nor Animal Lover, publicado há três anos, que a ideia de que o Führer era vegetariano e amigo dos animais foi forjada precisamente por Goebbels.
À parte esta discussão, uma das ideias mais polémicas de The Bloodless Revolution é a de que o vegetarianismo de Hitler estaria relacionado com o de Mahatma Gandhi (1869-1948), o homem que levou a Índia à autodeterminação e que se recusava consumir carne como parte da sua filosofia de não-violência (contra os outros animais, neste caso).
O autor diz que o vegetarianismo "não pode ser conotado com quaisquer pontos de vista políticos", porque foi usado por quase todos para explicar realidades muito diferentes. Ainda assim, diz que livros sobre o líder espiritual indiano foram encontrados na biblioteca pessoal do Führer e que até a imagem de austeridade e sacrifício em benefício da pátria que Hitler quis para si "pode ter sido inspirada por Gandhi". Tal como este, também aquele tinha integrado na sua doutrina reflexões do famoso economista britânico Thomas Malthus (1766-1834).
Uma questão ideológica
Stuart vai atrás no tempo e sugere que algumas diferenças ideológicas entre a esquerda e a direita estão ligadas ao vegetarianismo. Porque comer apenas vegetais implica consciência política. No século XVIII, escreve, nasceram no Ocidente duas filosofias sobre os instintos predatórios dos humanos e a compaixão pelos outros animais. A de que o homem tem uma necessidade brutal de autodefesa, logo, de fazer a guerra; e a de que apesar dessa violência, tenderá sempre para a contenção e a misericórdia.
A primeira é do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679; autor de Leviathan) e dela nasceu o caldo cultural que originou a ideologia de direita, sustentada, também, na teoria da evolução de Darwin e em princípios defendidos por Malthus. A segunda é do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-78) e originou em parte o pensamento de esquerda, que também adoptou e adaptou Darwin. A estes, juntaram-se os filósofos Descartes e Francis Bacon, na construção daquilo a que o autor de The Bloddless Revolution chama "vegetarianismo científico", porque baseado em reflexões próprias e em argumentos relativos à anatomia do corpo humano. Tristram Stuart sublinha, contudo, que será o contacto com a Índia que lhes dará garantias práticas de que negar a carne é saudável. A Índia, conclui, foi o país que nos últimos 400 anos mais influenciou a Europa em termos alimentares e até ideológicos.
A resistência de Fernandez
Nesta revolução sem sangue, encontramos, ainda, muitos portugueses - por via da ligação à Índia. Fala-se de Camões, de que é citado um excerto de Os Lusíadas; de Vasco da Gama, que começou a perceber que os indianos não eram cristãos quando viu que não comiam carne ou peixe, e de Garcia DOrta, cujas descrições sobre a Índia foram importantes para quem na Europa moderna se dedicou a construir a doutrina vegetariana.
Maior destaque, contudo, têm os portugueses que no século XVI, em nome de Deus, foram para Ceilão (Sri Lanka). Gonçalo Fernandez, um antigo soldado tornado missionário jesuíta, é um deles. Serve de exemplo à resistência ocidental perante o vegetarianismo indiano.
Vivia entre hinduístas tâmil e dedicava-se a escarnecer desse estranho hábito local que era o de comer somente arroz, fruta e vegetais.
O jesuíta não queria adoptar hábitos que considerava pagãos e achava que a abstinência de carne dos hindus se devia à crença de que todas as almas reencarnavam - por isso, comer animais mortos iria desviá-las do percurso natural. Além disso, tal como muitos colonizadores europeus e missionários, continuava, lá, a comer carne e a beber álcool para não se deixar contaminar pela alegada feminilidade dos nativos, que só poderia ficar a dever-se à ausência destes hábitos alimentares viris.
Fernandez seria de tal forma obstinado que chegou a fazer queixa a um enviado do Papa, em 1610, dos comportamentos alimentares do missionário e aristocrata italiano Roberto de Nobili, que, uma vez chegado, se tornara vegetariano. Nobili alegou que o fizera apenas para se integrar na comunidade e melhor a converter ao cristianismo, e que já S. Francisco Xavier tinha usado essa técnica. O Papa Gregório XV deu-lhe razão, em 1623.
The Bloddless Revolution tem 628 páginas e é publicado pela editora nova-iorquina W.W. Norton, depois de uma primeira edição britânica no ano passado. Uma obra "excepcionalmente detalhada" e com "uma vasta recolha das justificações académicas pró e contra o consumo de carne", escreve a revista The New Yorker. O autor é um jovem britânico licenciado em Literatura Inglesa pela Universidade de Cambridge, a trabalhar na Índia como publicista. Stuart diz no livro que se considera um ecologista. O Observer resume que, não sendo vegetariano, se recusa a comer carne. B.H.