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domingo, 23 de novembro de 2014

Em nome do pai



Negócios. Família de Leiria com fortuna de milhões

Em nome do pai



Começaram por baixo, como vendedores de máquinas, e hoje são uma das famílias mais ricas de Portugal. Donos do Grupo Lena, facturam milhões de euros e querem continuar a crescer. Perfil dos Rodrigues, protegidos no céu, adorados na terra. Bruno Horta


António ainda nem sabia andar e já tinha o destino traçado. Baptizaram-no como o pai e determinaram que, tal como ele, haveria de ser empresário. Aos 14 anos já passava as férias do Natal em cima das máquinas de terraplanagem que o pai vendia, para aprender a sério como funcionava o motor da pequena riqueza da família. Ao mesmo tempo, era instigado a correr o mundo, para alargar os horizontes. Ainda adolescente, foi a Londres, ao Japão e à Austrália, quase sempre sozinho. Aos domingos, alumiava a alma no altar de uma igreja.


António Vieira Rodrigues, o patriarca, viu nele um sucessor à altura. Nos anos 90, quando os negócios já tinham crescido mais do que alguma vez imaginara, passou-lhe o testemunho. Hoje, António Barroca Rodrigues, o filho pródigo, está à frente de um pequeno império familiar chamado Lena. A sede do grupo é em Leiria, mas ele estende-se por todas as áreas possíveis e imaginárias e tem ramificações no Leste europeu, em África e na América do Sul. No ano passado facturou, números oficiais, 425 milhões de euros. A riqueza da família Rodrigues é de 90,3 milhões – 70 lugares abaixo de Belmiro de Azevedo, o mais rico de Portugal.


Para não se perder o fio à meada, é preciso recuar ao início dos anos 70. O leiriense Vieira Rodrigues, homem de origem humilde, mas de inteligência afiada, torna-se vendedor de máquinas de terraplanagem para a agricultura. Rapidamente, passa a fazer negócio com construtores civis e é com eles que troca umas ideias. Ainda se aventura, na fase final do Estado Novo, numa viagem a África. Vai a Angola e a Moçambique “olhar o mercado”, como conta o filho. Abre uma conta bancária na antiga Lourenço Marques, mas volta à metrópole, sem grande vontade de se estabelecer lá fora. Depois do 25 de Abril, convida alguns dos seus empregados para se associarem a ele na fundação da Construtora do Lena – do nome do rio que desagua na sua cidade. É apenas o princípio de uma grande fortuna. Os anos do cavaquismo e das grandes obras públicas vão ser dourados para os Rodrigues. Auto-estradas, pontes, barragens, escolas. Estiveram e estão em todos os grandes negócios. Como conseguem? “A única escola de gestão que o meu pai frequentou foi a da vida”, disse Barroca Rodrigues à SÁBADO, durante uma conversa no seu muito sóbrio gabinete de trabalho, na sede do grupo, junto à estação de comboios de Leiria.



A presença de Deus tem sido indispensável. E a força dos homens, em oposição à das mulheres, também. Vieira Rodrigues preparou muito bem a sucessão. Deixou tudo aos varões. A única filha, Fátima, tem funções executivas, é certo, mas é pelos manos António Barroca Rodrigues e Joaquim Barroca Vieira Rodrigues que todo o poder circula. O primeiro ficou com a parte de leão. Preside à Lena SGPS, a casa mãe que dá origem a todas as outras empresas do grupo – nove sub-holdings e 72 empresas, das quais são donos ou sócios. Joaquim manda numa das sub-holdings, a Lena Construções, herdeira da Construções do Lena, que contribui com 42,2% para o total de facturação anual do grupo. O velho patriarca continua a ser sócio maioritário e a presidir ao conselho de administração, mas já não decide nada. Ainda assim, o filho António nem sonha subalternizar-se. “Eu e os meus irmãos continuamos a respeitá-lo como patrão e vemo-nos como meros funcionários dele”.


Quanto à devoção católica, não é ostensiva, mas é assinalável. A primeira pessoa a quem Barroca Rodrigues ouviu dizer que o pai é um self-made man foi ao reitor do santuário de Fátima, monsenhor Luciano Guerra, visita da casa. Fonte autorizada disse à SÁBADO que “é normal” que uma família de homens de negócios seja “muito bem relacionada com quem tem poder”. António Sala, nome fundamental da cristã Rádio Renascença, já esteve presente em eventos sociais do grupo Lena, cujo hino, escrito por uma funcionária e apresentado na última festa de Natal, deixa entender o espírito que os rege: “Nascemos dos bons valores, criámos a união, na família o fundamento, nos parceiros a gestão.”



Foi depois de o fundador se retirar que os filhos começaram a alargar a carteira de investimentos. Com o dinheiro do betão a sustentar tudo, avançaram pela estrada do sucesso. Como grupo, a Lena nasce em 1998. Contam cerca de cinco mil empregados e, de acordo com Barroca Rodrigues, o objectivo hoje é o de “crescer ainda mais”. No início deste ano, apresentaram ao Governo uma proposta para concorrerem, ao lado da espanhola Aldesa, à construção da rede nacional do TGV. E compraram cinco empresas em Angola, na área da construção civil, turismo, automóveis e comunicação. O negócio lá fora tem crescido “dois a três dígitos por ano”, adianta. A área da biotecnologia também lhes interessa. São donos de metade da Biocodex, uma empresa que se associou à Universidade do Porto para investigar células estaminais. Até 2010 querem três das sub-holdings cotadas em bolsa.


Para já, têm hotéis e restaurantes, empresas de distribuição de gás natural, concessionários de automóveis e de combustível, seguradoras e agências de viagens. E jornais e rádios locais. Fonte segura adianta que “não há a mínima espécie de ingerência” da família Rodrigues na linha editorial dos meios de comunicação que detém. Mas lembra que a Lena se viu envolvida em polémica por causa da recente construção do estádio do União de Leiria. A atribuição do alvará ao grupo foi posta em causa por outros contendores. E nessa altura “os jornais deles foram mais tímidos do que outros” no acompanhamento do assunto.


É talvez seja para evitar problemas do género que se remetem ao silêncio. Chegar até Barroca Rodrigues é muito difícil. Raramente dá entrevistas. É um homem muito ocupado, pouco expansivo, sem o dom da palavra, muito prudente. Quando se lhe pergunta pelos seus negócios, hesita. Quando se lhe pede para falar sobre o mundo empresarial em geral, tem a resposta na ponta da língua. É como as várias tartarugas de plástico que decoram as prateleiras do seu gabinete: passa muito tempo escondido e só se mostra quando é preciso.


Uma empregada traça o perfil da família: “Simples, razoável e discreta”. Barroca Rodrigues acha que os três adjectivos descrevem bem a realidade e acrescenta um outro: “humanista”. “É sempre difícil falarmos de nós mesmos, mas, pelos menos, tentamos praticar a educação humanista que o nosso pai nos deu”. No meio disso, como é ser rico? “Não é muito diferente de há dez anos, quando não éramos”, garante o empresário.



[uma versão deste artigo foi publicada em Abril de 2006 na revista Sábado]

sábado, 12 de abril de 2014

Sexualidade e política

«Não precisamos  de regressar ao defunto freudo-marxismo dos anos  60, nem ao problema da integração da sexualidade na luta política, para percebermos que a sexualidade é um problema político; e que, na rejeição ou na aprovação da lei da co-adopção, a homossexualidade estava em causa não como o que se passa na cama,  mas como o que se passa na polis, na praça pública. E aqui começamos a perceber que entre a afirmação  “eu sou homossexual” e a recusa de o dizer há uma  zona muito mais ambígua que Daniel Oliveira parece  não reconhecer. Aquilo que na homossexualidade  constitui um problema para os políticos não é o que se passa na cama, mas o modo como a sexualidade se difunde num modo de vida, que compreende uma  cultura e uma ética. É com toda a veemência que  temos de recusar esta ideia muito limpinha de Daniel Oliveira: “Um homossexual é apenas uma pessoa que  tem preferência sexual e/ou amorosa por pessoas do  mesmo sexo”. Igualmente falsa, escandalosamente  falsa, é a ideia simétrica de que um heterossexual é  apenas uma pessoa que tem preferência por pessoas  do sexo oposto.»
António Guerreiro, Ípsilon, ontem, aqui

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O que é o neoliberalismo?

Texto de Freitas do Amaral, revista Visão, 04 de Outubro de 2012.

 

sábado, 8 de dezembro de 2012

O ensino precisa de dinheiro e deve falar mais com o mercado de trabalho


«A WISE é um fórum mundial para discutir os problemas da educação e serve, ao mesmo tempo, para demonstrar o poder económico e simbólico do Qatar, um dos países mais prósperos do Golfo Pérsico e dos poucos que passaram incólumes a Primavera Árabe.
A capital do país, Doha, é uma cidade de arranha-céus espelhados e longas avenidas com palmeiras. Com o dinheiro do petróleo e do gás natural tudo está em permanente construção e mudança, de tal modo que as gruas e as máquinas da construção civil fazem parte integrante da paisagem. É nesta cidade que fica sedeada a Al Jazeera, a CNN do mundo árabe, com emissões em várias línguas e centros de produção espalhados pelo mundo. Aqui, também, foram construídas réplicas, não em termos arquitectónicos mas de currículo, de faculdades da Universidade de Georgetown, da Carnegie Mellon e da University College de Londes, entre outras, sob a designação comum Universidade Hamad bin Khalifa – o que permite à elite árabe estudar sem sair do Médio Oriente.
O nome da universidade deve-se ao do emir do Qatar, xeique Hamad bin Khalifa al-Thani, de 60 anos (o país é dominado pela família al-Thani desde o fim do século XIX). Uma das três mulheres do emir, Moza Bint Nasser, é a figura mais carismática do regime, bastante ocidentalizada nos modos e no visual. Usa véu islâmico e salto agulha, aparenta frequentes tratamentos estéticos, fala fluentemente inglês e não demonstra em público os sinais de submissão muitas vezes associados ao género feminino no mundo islâmico. Ela preside à Fundação Qatar e tem vindo a estabelecer-se como filantropa de projectos educativos, razão pela qual, além de enviada especial da UNESCO para o ensino básico e superior, acaba de lançar a iniciativa Educate a Child, dirigida a crianças refugiadas de África.

O país dos al-Thani é uma autocracia que se tornou independente do Reino Unido em 1971 e desde então nunca teve eleições. Apesar do liberalismo económico, existe uma forte estratificação social. Os imigrantes da Índia e do Paquistão constituem 36% de uma população total de cerca de dois milhões, de acordo com a base de dados online CIA World Factbook. Além de exercerem os trabalhos mais mal remunerados, os imigrantes asiáticos têm poucas oportunidades de mobilidade social. Um cidadão do Bangladesh, que estuda gestão e trabalha como motorista em Doha, disse ao PÚBLICO que é fácil entrar numa universidade do Qatar, desde que se seja bom aluno, mas o mercado de trabalho só tem lugar para europeus e qataris, pelo que no fim do curso o futuro dele terá de ser noutro país.»
[Público, 8 de Dezembro de 2012, original aqui]

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"Uma aberração da mentalidade nacional combalida"

«Nos primeiros tempos do domínio castelhano, ninguém acreditava na morte de D. Sebastião. Faltando um testemunho seguro do facto, engedravam-se lendas sobre a morte do rei, que todas concluíam pelo seu aparecimento. [...] Portugal vivia numa atmosfera de dor, de misticidade e de portentos.

Uma asserção, repetida com convicção e mostras de convicção por qualquer indivíduo, faz sempre algum abalo no espírito dos ouvintes. Quando é conclamada pelas multidões, inane, inverosímil, ou absurda que seja, converte-se numa força tremenda. [...]

O sebastianismo foi uma aberração da mentalidade nacional combalida e exasperada pelo infortúnio: sopeados, tiranizados, empobrecidos, humilhados, os portugueses apelavam para o Céu e acreditavam piamente que ele suspendera a lei de morte para o seu último rei natural. [...]

Esta aberração mental encasou-se tão estreitamente no organismo, que se transmitiu às gerações subsequentes.

A restauração não a saneou.»

Origens do Sebastianismo: História e Perfiguração Dramática  (Texto Editora, 2011), António de Sousa Silva Costa Lobo (ed. original 1909)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz ano novo

"Aquilo a que assistimos hoje, e que se tornou transparente como nunca com a reacção dos Estados à primeira crise do capitalismo global surgida nos fins de 2008, é uma confiscação da política pela 'economia', por uma ordem económica imperial e imperativa, absolutamente determinativa, que nessa sua absoluta determinação ou imperatividade se pretende pré-política ou supra-política, não política portanto.

[...] Chamam-lhe a 'nova economia', a 'economia do conhecimento', uma economia do capital como 'capital humano', que seria em si mesma pós-classista, neutra, apolítica, mas trata-se de facto de uma neo-economia de sobre-exploração de uma mão-de-obra, mesmo intelectual, precária, forçada à flexibilidade, à auto-flexibilização por formação profissional contínua. 

[...] Bizarro destino o da nova esquerda, convertida em consciência crítica do sistema político-económico reinante e nada mais querendo que o 'aprofundamento democrático' deste [...] e por isso temendo as rupturas [...]. Uma esquerda e até uma extrema-esquerda que se concentra nas questões ditas 'fracturantes', nas novas 'causas' sociais, numa política de promoção de novos 'direitos'. Trata-se pois já só de 'modernizar' o sistema, não de o combater [...].

O esquerdismo moderno, pós-revolucionário ou pós-comunista, como parte ainda do sistema político-económico de dominação porquanto componente necessária em termos objectivos da imagem de democraticidade desse sistema."
Sousa Dias
"Grandeza de Marx: Por uma Política do Impossível"
Assírio & Alvim, 2011
(pp. 71-78)

domingo, 20 de novembro de 2011

Perspectivas

Costuma escrever notícias mais rigorosas e interessantes quem está bem distanciado. Não tão distante que não perceba nada dos temas noticiados. Mas não tão perto que veja tudo desfocado.

Não por acaso, os assessores de imprensa gostam de dar aos jornalistas informação em excesso. Depois de enviarem por correio, ou de entregarem em mão, uma pasta com fotografias e comunicados de imprensa, enviam a mesma coisa por email e telefonam a perguntar se chegou tudo bem e ainda indicam, por telefone, um site que se pode visitar para recolher mais informação e dão um contacto telefónico de alguém que, se for mesmo preciso, é capaz de tirar dúvidas.

Os assessores de imprensa são uns empatas. Sempre disponíveis para dar palha e sempre lentos na resposta ao que realmente importa.

Este excesso de informação (e de gentileza, diga-se) concorre para um objectivo óbvio: a notícia que resulta da abundância é menos focada, logo, menos crítica; é uma notícia perdida em citações e fontes de segunda grandeza, logo, menos objectiva. O trabalho das assessorias em todo o seu esplendor, motivo para os jornalistas  não se aproximarem muito desta gente.

Quando leio os dois primeiros parágrafos desta notícia do NYT de hoje fico a saber mais do que em quatro ou cinco notícias do mesmo teor dadas pelos jornalistas portugueses. Aqui deve ter havido mais trabalho do que assessoria de imprensa:

«The world-turned-upside-down of the European debt crisis reached a new extreme last week when Europe came pleading for lucre where it once only seized it: Africa.
The hands-out visit on Thursday of Prime Minister Pedro Passos Coelho of Portugal to its former colony Angola — once a prime source of slaves, then a dumping ground for the mother country’s human rejects and now swimming in oil wealth — was a milestone of sorts.»

domingo, 13 de novembro de 2011

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Os árabes pacóvios

Quem veja as televisões em directo de Trípoli pensará que aquilo é um bando de árabes burros, aos tiros por todos os lados. Mais ainda quando falam inglês, e toda a gente sabe que inglês com certos sotaques dá um ar pacóvio a qualquer pessoa. Acontece que a taxa de alfabetização na Líbia é de 83%. Quem só visse imagens de Portugal quando o Porto é campeão pensaria o quê dos portugueses?

fotografia: Reuters/Zohra Bensemra (Libyan rebel fighters fight for the final push to flush out Muammar Gaddafi's forces in Abu Salim district in Tripoli, August 25, 2011.)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A velha

«Eis que a câmara fixa a velha. A velha semelhava uma personagem de Raul Brandão: só osso, susto e dor. Transfigurada de ventos, de afrontas, de insultos. A pergunta da jornalista sobressaltou-a. Talvez a entendesse como estranha e excessiva. Olhou a rapariga, ergueu o dorso curvado, recuperada uma antiga dignidade, e respondeu: "O que eu queria é que eles me deixassem em paz."»

sábado, 14 de agosto de 2010

"Aquela coisa"

Por volta dos 25 anos regressou a Portimão para trabalhar com o pai e passou a viver com Belmira das Neves, uma adolescente de origem modesta. Tiveram duas filhas e nunca se casaram, porque, segundo a interpretação consensual, um homem da classe dele nunca poderia desposar uma mulher do povo. O facto de Teixeira Gomes ser casado e ter filhas, tem sido apontado como explicação para negar a sua homossexualidade.
«Até mais ou menos aos anos sessenta do século XX, as pessoas a quem hoje chamamos homossexuais não excluíam a possibilidade de casar e depois tinham “aquela coisa” fora do casamento com pessoas do mesmo sexo», contrapõe o professor António Fernando Cascais.

domingo, 6 de setembro de 2009

Louçã e Ferreira Leite debatem casamento gay

O tema do casamento gay entrou pela primeira vez nos debates entre os candidatos às legislativas. Foi esta noite no frente-a-frente entre Louçã e Ferreira Leite, na TVI.

Ele:
"Nunca vou fechar os olhos aos nossos vizinhos que o Estado persegue e magoa com leis injustas. Quero que o meu país respeite a liberdade. O Estado não dita o amor de uma pessoa, aceita as regras que as pessoas escolhem para si. A quem não concorda com os casamentos homossexuais, digo: isso não é connosco, é com quem quer viver."

Ela:
"A nossa sociedade está organizada na base de uma determinada noção de família baseada no casamento e toda a estrutura jurídica está moldada com esse objectivo. Houve uma evolução desse conceito. Respeito as diferenças das pessoas. Aquilo que não aceito é que não se considere que isto são uniões diferentes. Num casamento há a perspectiva da existência de filhos, noutras situações não há. Tolerância é, perante situações diferentes, ter tratamentos diferentes."

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sangue contaminado matou 100 pessoas

"F. tinha 22 anos quando foi infectado com o vírus da sida. (...) Hoje, tem 45 anos e é um dos 37 sobreviventes dos 137 hemofílicos contaminados com o HIV na década de 80, depois de lhes ter sido administrado sangue em hospitais públicos. (...) Leonor Beleza, então ministra da Saúde, foi acusada de ter importado e propagado o sangue contaminado, mas afirmou-se sempre inocente e o caso prescreveu passados 18 anos."
[artigo de Rosa Ramos, jornal i, hoje]

domingo, 26 de julho de 2009

Confirma-se

Sérgio Vitorino, activista gay, em entrevista à Time Out Lisboa esta semana:
"Acho que é do interesse do Partido Socialista [que se comprometeu com a legalização do casamento, sem unanimidade interna] que se fale pouco de casamento em período eleitoral ou de outras questões da agenda LGBT. E há partidos políticos e forças conservadoras na sociedade que não vão deixar passar em branco o tema do casamento sem confronto público."

Notícia de hoje sobre o programa eleitoral do PS, no Público:
"De fora estão por enquanto questões consideradas fracturantes, como, por exemplo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo - um assunto que José Sócrates prometeu há seis meses avançar na próxima legislatura - e o testamento vital, há dias adiado para o próximo ano.(...) O programa eleitoral do PS será apresentado na próxima quarta-feira, em mais uma sessão do Fórum Novas Fronteiras."

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Historieta num carro de praça

"Vejam lá o que aqui vai só porque o menino não quer esperar para jantar", diz um taxista, obrigado a parar num semáforo verde, às nove da noite, por dois batedores da polícia que abrem alas a cinco ou seis carrões com embaixador ou governante dentro. "Para ir jantar ou para ir às putas", diz-lhe do banco de trás um cliente. "Para ir às putas ou ao Parque Eduardo VII levar no cu", reinveste o condutor.
(foto daqui)

sábado, 12 de abril de 2008

Lista negra

O "Expresso" publica hoje uma lista de ex-governantes que ocupam altos cargos em empresas de áreas que tutelaram. Pina Moura é o caso mais chocante: o ex-comunista já passou por sete-empresas-sete.

MOTA-ENGIL
Jorge Coelho Foi ministro do Equipamento Social entre 1999 e 2001. A Mota contratou-o para presidente-executivo. Coelho é consultor da Martifer, detida em 37,5% pela Mota.

Luís ParreirãoEra o secretário de Estado das Obras Publicas de Jorge Coelho, e é o responsável pela área de concessões da Mota há 6 anos.

Luís Valente de OliveiraÉ catedrático. Foi ministro várias vezes, a última no Governo de Barroso nas Obras Públicas. É administrador independente da Mota-Engil.

LUSOPONTE
Joaquim Ferreira do Amaral Foi ministro três vezes desde 1984, primeiro do Comércio e Turismo e depois das Obras Públicas. Desde 1995 passou pela Cimianto, Engil, Inapa e Galp. É presidente da Lusoponte e administrador não-executivo da Semapa.

SOCIEDADE LUSA DE NEGÓCIOS/BPN
Manuel Dias Loureiro Foi ministro dos Assuntos Parlamentares e da Administração Interna até 1995. Passou pela Jerónimo Martins, foi administrador da SNL e do BPN e presidente da Plêiade. Hoje é presidente da SPPM, empresa da SLN e da DL - Gestão e Consultoria.

IBERDROLA
Joaquim Pina Moura Foi ministro da Economia e das Finanças até 2001. Pouco depois torna-se presidente da Iberdrola Portugal, administrador da Galp e consultor do BCP. Mantém-se presidente da Iberdrola, é administrador da Neoenergia, da Eléctrica da Guatemala e é «chairman» da Media Capital.

EDP
António Mexia Foi administrador do BESI, antes de se ter tornado administrador da Transgás e presidente da Galp, Teve no Governo de Santana a pasta das Obras Públicas. É presidente da EDP.

GALP
Fernando Gomes Foi secretário de Estado de Soares, presidente da Câmara do Porto e ministro da Administração Interna de Guterres. É administrador da Galp.

SAPEC - GRUPO MELLO
Eduardo Catroga Foi ministro da Economia entre 1991 e 1995. Hoje é presidente do grupo SAPEC, administrador do Finantia e membro do conselho de supervisão da EDP.

BRISA
António Nogueira Leite Economista e secretário de Estado das Finanças de António Guterres. É administrador da Brisa, Efacec e Reditus.

EFACEC
Luís Filipe Pereira Foi secretário de Estado dos governos de Cavaco Silva e ministro da Saúde do Governo de Pedro Santana Lopes. Antes de ser ministro era responsável pela área da saúde do grupo Mello. É presidente da Efacec.

ENDESA
Nuno Ribeiro da Silva Exerceu cargos políticos entre 1985 e 1996. Foi assessor no Ambiente, secretário de Estado da Energia e deputado do PSD. Trabalhou como consultor da EDP, CP, Partex e Somague. É presidente da Endesa desde 2005.

O sector da banca é tratado noutro artigo do "Expresso". Seria cómico se não fosse trágico:

"Nomes relevantes como os dos socialistas Vítor Constâncio (BPI) e António Vitorino (Santander-Totta) e dos sociais-democratas Fernando Nogueira (BCP), Mira Amaral (BPI/CGD), Miguel Beleza (BCP), Manuela Ferreira Leite (Santander-Totta), Miguel Cadilhe (BCP), Manuel Dias Loureiro (BPN) e Carlos Tavares (CGD/BPSM/BTA) ou Bagão Félix (BCP) foram ou são ainda membros de órgãos sociais da banca privada portuguesa. (...) Há casos em que chegam mesmo a posições tão relevantes como a de presidente do maior banco privado, como aconteceu com Paulo Teixeira Pinto, ex-secretário de Estado da Presidência e porta-voz de Cavaco Silva.
(...) A CGD tem habitualmente como presidente alguém que já foi um destacado actor político: Rui Vilar (PS), João Salgueiro (PSD) e António de Sousa (PSD) são alguns dos exemplos. Na Caixa há sempre administradores que foram ministros, mais recentemente os casos mais notados foram os de Celeste Cardona (CDS-PP) e de Armando Vara (PS), hoje administrador do BCP."

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Assim se entra em casa do ditador

Mircea Eliade (1907-1986) foi adido cultural e de imprensa da embaixada da Roménia em Portugal entre 1941 e 45. A casa onde então viveu, perto da Avenida de Berna, em Lisboa, tem hoje uma lápide onde se assinala a estância. Além de político, Mircea Eliade foi escritor e historiador das religiões.
A editora Guerra e Paz publicou agora a primeira tradução portuguesa do diário que Eliade escreveu enquanto viveu em Lisboa. É uma tradução directa do romeno, de Corneliu Popa, e inclui índice onomástico e geográfico. Salazar é um dos nomes que maior número de referências tem.
Esta passagem, onde Eliade descreve um encontro com Salazar, é um primor:
"Cheguei ao Palácio de São Bento a correr e com a boca seca de emoção; não porque me iria encontrar com Salazar, mas porque estava com receio de chegar atrasado. Subo as escadas à pressa. O porteiro pergunta-me onde ia: «Ao Senhor Presidente». Mostra-me a escada do fundo: «Segundo andar, direito». Assim se entra em casa do ditador de Portugal. Encontro no segundo andar alguns empregados, que me encaminham para o gabinete de Salazar. Aguardo dois minutos na antecâmara e peço um copo de água para poder falar. Salazar ainda não acabou o encontro com uma comissão de administradores coloniais. Depois entro e recebe-me ele próprio à porta, pronunciando muito correctamente o meu nome.
Um gabinete modesto, com uma secretária de madeira, sem papéis em cima, e à sua esquerda uma mesinha onde esta o telefone. Falando comigo, Salazar muda de quando em quando a posição do telefone. São os únicos gestos." (7 de Julho de 1942; p. 63)

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Entrevistas de Verão

Como é que a política pode conseguir relacionar-se melhor com a velocidade da mediatização?
Nas democracias representativas, as únicas que funcionam, é fundamental preservar tempos lentos, silêncios e discrições. Uma sociedade em que tudo se soubesse, numa espécie de transparência total, seria sempre totalitária. Uma sociedade em que tudo acontecesse em tempo real seria sempre dominada pelo espectáculo, pelas pulsões mais imediatas. Esta reflexão encontra-se nos Federalist Papers. Quando os homens que fundaram os EUA discutiram o que é a democracia perceberam uma série de regras fundamentais. Uma delas é: quanto maior for o poder dos representantes mais longos terão de ser os seus mandatos. Isto para permitir que tomem decisões impopulares. A democracia não é apenas a soberania popular, o exercício do voto. É a conjugação do voto com a lei e com a possibilidade de haver decisões racionais que sejam impopulares. Se for apenas o exercício da vontade popular temos uma demagogia e não uma democracia. Hoje, as tecnologias de comunicação são potencialmente demagógicas. Trazem imensas vantagens para a democracia, mas se não houver uma reflexão sobre o seu uso acabam por ter um efeito demagógico, logo totalitário. Quando ouço falar em democracia mediática acrescento que a ‘democracia mediática’ não é democracia. Quando se afirma que na Internet e no Second Life há uma democracia directa, lamento dizê-lo, mas ‘democracia directa’ não é democracia.
Pacheco Pereira, Diário Económico, 24/08/2007


A integração dos jornais em grandes grupos económicos restringe a nossa liberdade?

Mas isso é resultado da globalização e do mercado livre, que permite tudo. Hoje, qualquer pessoa chega a director de jornal com uma rapidez impressionante, qualquer pessoa começa a escrever artigos de opinião. Não pode ser! Perde-se completamente a credibilidade. Se calhar sou anacrónico, penso de outra maneira, sou de outro tempo… Mas eu trabalhei em grandes jornais, e aquelas redacções metiam medo, porque cada um vigiava o outro. Era um jornalismo que recusava essa grande tese da distanciação; era um jornalismo da proximidade o que nós fazíamos. Aliás, não entendo essa coisa da distanciação quando a única coisa que o jornalismo pode ser é justo, procurar a justeza das coisas. Quanto mais aproximados estamos, mais entendemos os factos.

Quando fala de proximidade não está a referir-se a uma proximidade geográfica… Digo isto, porque os jornais têm investido em edições múltiplas, com destaques diferentes para cada região do país…

Não, não. Falo de aproximação no sentido do compromisso com o leitor. A tese da distanciação é como se o jornalista não tivesse nada a ver com a notícia, como se o director e o chefe de redacção não tivessem nada a ver com o jornalista, e o jornal não tivesse a ver com nada. A distanciação é absurda.

Baptista-Bastos, Jornal de Notícias, 10/08/2007




A blogosfera não é particularmente generosa consigo. Li que é "fria", "ambiciosa", que se comporta como "oficial da Gestapo" e que "persegue os seus 15 minutos de fama". Fica magoada com o que se foi começando a escrever sobre si?

A inveja é a melhor terapia dos preguiçosos. A blogosfera diz tudo isso a meu respeito. Mas eu gostava de conhecer jornalistas que já tivessem abandonado bons tachos como eu tinha no Expresso; que já se tivessem demitido de revistas como a “Grande Reportagem”, após ter sido despedido o director [Joaquim Vieira] com o qual eu tinha sido convidada a trabalhar, que foi despedido por razões políticas e não jornalistas, e na sequência do qual me demiti, ficando um ano no desemprego. Estas são as minhas maiores glórias no exercício do jornalismo e não sei se muita gente as tem.

Felícia Cabrita, Jornal de Notícias, 23/07/2007

quarta-feira, 23 de maio de 2007

A polémica exagerada, segundo Soares

"Biografia de Günter Grass: A Passo de Caranguejo", de Miguel Oliveira, foi publicado esta semana pela Parceria A. M. Pereira.
Há um testemunho de Mário Soares, que não se diz se é inédito. Excerto:

"A polémica que se levantou a propósito do seu último livro ["Beim Hauten der Zwiebel"], onde introduziu a revelação (tardia) de que pertenceu, no final da guerra, a uma unidade das tristemente célebres SS, tem sido, a meu ver, muito exagerada. É óbvio que o picante da "confissão" resulta de ter sido ocultada durante muitas décadas, durante as quais Günter Grass se tornou numa espécie de "consciência moral e crítica" da Alemanha do pós-guerra e, depois da queda do muro de Berlim, crítico virulento da reunificação alemã.
Não creio, contudo, que haja tanta razão para censurar Günter Grass. É preciso perceber o tempo de tragédia em que viveu, adolescente, nos últimos meses que precederam o colapso de Hitler. Günter Grass tinha 17 anos e foi incorporado nas SS, em pleno caos militar e político. Terá ele tido então consciência efectiva do que eram - e tinham sido - as SS? Não creio. Liberto do pesadelo, não terá funcionado o mecanismo psicológico natural do esquecimento e da rejeição em relação ao horror das últimas semanas da guerra?" Mário Soares

sábado, 10 de março de 2007

Hitler era vegetariano por causa de Gandhi

No "Público", ontem:

Hitler e Gandhi queriam mudar o mundo através do consumo de vegetais. E os portugueses na Índia acreditavam que perderiam a virilidade se se tornassem vegetarianos. Teses polémicas de um novo livro

A cena é famosa. Abril de 1945, Hitler já derrotado e enlouquecido, com os soviéticos à porta do bunker, numa Berlim em estado de sítio, janta com Eva Braun, a amante com quem acabara de casar. "A sua última refeição vegetariana, de esparguete com molho de tomate", descreve Tristram Stuart, autor do livro sobre vegetarianismo The Bloddless Revolution (A Revolução Sem Sangue), agora publicado nos EUA. Só depois, as doses fatais de cianeto. para ele, para ela e para a cadela de estimação, Blondi.

Ao que garante Stuart, foram os dentes amarelecidos de Hitler, típicos de um vegetariano, que mais tarde permitiram aos médicos forenses russos que examinaram o cadáver carbonizado comprovar a sua identidade. Tristram Stuart não hesita na conclusão: "Adolf Hitler era vegetariano ou, pelo menos, partilhava a filosofia vegetariana e punha-a quase sempre em prática."

O ditador deixou de comer carne em 1911, por causa de constantes dores de estômago, e, nos anos que se seguiram, "acreditou sempre que essa abstinência o aliviava da flatulência crónica, da prisão de ventre, dos suores, da tensão nervosa e dos espasmos musculares". Acreditava, sobretudo, que o consumo de vegetais, incluindo entre os militares, seria determinante para a vitória moral e bélica da Alemanha sobre o resto do mundo.

O livro, que tem como subtítulo Uma História Cultural do Vegetarianismo de 1600 à Era Contemporânea, inclui nada menos do que 65 páginas de bibliografia. Em relação às teses sobre Hitler são citados vários historiadores e um diário de Goebbels de 1942: "Ele [Hitler] acredita mais do que nunca que comer carne é maléfico para a humanidade", escreveu o chefe da propaganda nazi.

Pura invenção
Convém, a propósito, referir que há quem defenda o contrário. Rynn Berry, por exemplo, membro da North American Vegetarian Society, garante no livro Hitler: Neither Vegetarian nor Animal Lover, publicado há três anos, que a ideia de que o Führer era vegetariano e amigo dos animais foi forjada precisamente por Goebbels.

À parte esta discussão, uma das ideias mais polémicas de The Bloodless Revolution é a de que o vegetarianismo de Hitler estaria relacionado com o de Mahatma Gandhi (1869-1948), o homem que levou a Índia à autodeterminação e que se recusava consumir carne como parte da sua filosofia de não-violência (contra os outros animais, neste caso).

O autor diz que o vegetarianismo "não pode ser conotado com quaisquer pontos de vista políticos", porque foi usado por quase todos para explicar realidades muito diferentes. Ainda assim, diz que livros sobre o líder espiritual indiano foram encontrados na biblioteca pessoal do Führer e que até a imagem de austeridade e sacrifício em benefício da pátria que Hitler quis para si "pode ter sido inspirada por Gandhi". Tal como este, também aquele tinha integrado na sua doutrina reflexões do famoso economista britânico Thomas Malthus (1766-1834).

Uma questão ideológica

Stuart vai atrás no tempo e sugere que algumas diferenças ideológicas entre a esquerda e a direita estão ligadas ao vegetarianismo. Porque comer apenas vegetais implica consciência política. No século XVIII, escreve, nasceram no Ocidente duas filosofias sobre os instintos predatórios dos humanos e a compaixão pelos outros animais. A de que o homem tem uma necessidade brutal de autodefesa, logo, de fazer a guerra; e a de que apesar dessa violência, tenderá sempre para a contenção e a misericórdia.

A primeira é do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679; autor de Leviathan) e dela nasceu o caldo cultural que originou a ideologia de direita, sustentada, também, na teoria da evolução de Darwin e em princípios defendidos por Malthus. A segunda é do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-78) e originou em parte o pensamento de esquerda, que também adoptou e adaptou Darwin. A estes, juntaram-se os filósofos Descartes e Francis Bacon, na construção daquilo a que o autor de The Bloddless Revolution chama "vegetarianismo científico", porque baseado em reflexões próprias e em argumentos relativos à anatomia do corpo humano. Tristram Stuart sublinha, contudo, que será o contacto com a Índia que lhes dará garantias práticas de que negar a carne é saudável. A Índia, conclui, foi o país que nos últimos 400 anos mais influenciou a Europa em termos alimentares e até ideológicos.

A resistência de Fernandez
Nesta revolução sem sangue, encontramos, ainda, muitos portugueses - por via da ligação à Índia. Fala-se de Camões, de que é citado um excerto de Os Lusíadas; de Vasco da Gama, que começou a perceber que os indianos não eram cristãos quando viu que não comiam carne ou peixe, e de Garcia DOrta, cujas descrições sobre a Índia foram importantes para quem na Europa moderna se dedicou a construir a doutrina vegetariana.

Maior destaque, contudo, têm os portugueses que no século XVI, em nome de Deus, foram para Ceilão (Sri Lanka). Gonçalo Fernandez, um antigo soldado tornado missionário jesuíta, é um deles. Serve de exemplo à resistência ocidental perante o vegetarianismo indiano.
Vivia entre hinduístas tâmil e dedicava-se a escarnecer desse estranho hábito local que era o de comer somente arroz, fruta e vegetais.

O jesuíta não queria adoptar hábitos que considerava pagãos e achava que a abstinência de carne dos hindus se devia à crença de que todas as almas reencarnavam - por isso, comer animais mortos iria desviá-las do percurso natural. Além disso, tal como muitos colonizadores europeus e missionários, continuava, lá, a comer carne e a beber álcool para não se deixar contaminar pela alegada feminilidade dos nativos, que só poderia ficar a dever-se à ausência destes hábitos alimentares viris.

Fernandez seria de tal forma obstinado que chegou a fazer queixa a um enviado do Papa, em 1610, dos comportamentos alimentares do missionário e aristocrata italiano Roberto de Nobili, que, uma vez chegado, se tornara vegetariano. Nobili alegou que o fizera apenas para se integrar na comunidade e melhor a converter ao cristianismo, e que já S. Francisco Xavier tinha usado essa técnica. O Papa Gregório XV deu-lhe razão, em 1623.

The Bloddless Revolution tem 628 páginas e é publicado pela editora nova-iorquina W.W. Norton, depois de uma primeira edição britânica no ano passado. Uma obra "excepcionalmente detalhada" e com "uma vasta recolha das justificações académicas pró e contra o consumo de carne", escreve a revista The New Yorker. O autor é um jovem britânico licenciado em Literatura Inglesa pela Universidade de Cambridge, a trabalhar na Índia como publicista. Stuart diz no livro que se considera um ecologista. O Observer resume que, não sendo vegetariano, se recusa a comer carne. B.H.