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domingo, 1 de junho de 2014

Valentim de Barros, o bailarino a quem roubaram a vida

Viveu preso num hospital psiquiátrico entre 1949 e 1986. Todos o disseram louco mas a única “doença” que lhe apontaram foi ser homossexual

Valentim de Barros em 1968 (foto de José Fontes)

O bailarino português Valentim de Barros morreu há precisamente 28 anos, a 3 de Fevereiro de 1986. Tinha 69 anos e passou quase quatro décadas encarcerado no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Teve aulas de dança no Teatro Nacional D. Maria II, foi estrela cadente em palcos de Barcelona, Berlim e Estugarda, assistiu à ascensão dos nazis na Alemanha e chegou a ser preso pela polícia política em Portugal. Um dia, apagaram-no da sociedade. A vida diletante, o incerto fetiche pelo travestismo, a homossexualidade e os excessos da sua personalidade podem ter sido os motivos. Foi internado, operado ao cérebro, depois transferido para uma ala de segurança. Alimentou-se das memórias dos breves anos em que dançou e, mais tarde, a única afeição que conheceu foi a de médicos e enfermeiros. Chegou a ser entrevistado pelo “Diário de Lisboa” e pelo “Expresso”, mas vem a morrer doente e abandonado num quarto de hospital.
Maior que a vida, a história de Valentim é aqui reconstituída pela primeira vez na íntegra, com base em documentos inéditos. Por Bruno Horta.

Texto completo aqui.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

"Os deputados suecos, dinarmarqueses e britânicos responderam prontamente, os deputados portugueses quiseram saber qual seria o teor"

Entrevista com Gustavo Sampaio sobre o livro Os Privilegiados

Preparava-me para escrever aqui no blogue sobre o livro Os Privilegiados, quando me apercebi de que tinha dúvidas sobre a forma como o livro foi escrito e pensado. Achei, por isso, que deveria enviar algumas perguntas ao autor, através de email. Gustavo Sampaio aceitou responder (os sublinhados são meus).
Jornalista freelance, nascido em Coimbra em 1982, Gustavo Sampaio demorou oito meses a escrever o volume. Trata-se de uma extensa investigação sobre a corrupção na política portuguesa: os privilégios que a classe dirigente criou para si mesma e as relações perigosas entre servidores da coisa pública e os interesses privados ou de facção.



Pergunta: Estamos perante um livro usa a técnica do jornalismo de dados, com a vantagem de que os dados não estavam desagregados ou em formatos digitais de difícil acesso: são públicos e estão tratados. Como jornalista freelance achas que era possível escrever um livro assim se não tivesses tido acesso a bases de dados da administração pública como as que hoje existem?
Gustavo Sampaio: Nem todos os dados estavam agregados e tratados, tive que ir buscar muita coisa dispersa e em bruto ao Diário da República ou através de meios informais, tais como a pesquisa em motores de busca na Internet, contactos com fontes e colegas jornalistas, recortes de imprensa, etc. As bases de dados da administração pública na Internet (nomeadamente o portal Base) são uma ferramenta essencial, mas importa ressalvar que têm falhas, muitas vezes apresentam informações desactualizadas, incompletas ou até erradas. Tornam mais fácil o cruzamento de dados mas implicam uma redobrada atenção, um redobrado esforço de confirmação da informação. Mais informação não significa forçosamente melhor informação. Aliás, em algumas situações acabei por contribuir para a correcção de datas, valores ou outros elementos referentes a contratos por ajuste directo registados no portal Base, depois de contactar as entidades públicas adjudicantes que indicaram os erros e introduziram alterações nos registos. Se teria sido possível escrever o livro sem o acesso a essas bases de dados? Julgo que sim, mas com um maior grau de dificuldade e sobretudo com uma maior exigência de tempo e disponibilidade. O jornalismo de investigação já existia antes do advento da Internet e não é líquido que tenha melhorado de qualidade desde então. Li recentemente uma entrevista de Fernando Dacosta ao jornal i e fiquei fascinado com a descrição da actividade jornalística em Portugal na década de 1970. Era um mundo completamente diferente, com outros paradigmas, uma mistura de Norman Mailer com John le Carré e Evelyn Waugh, sem telemóveis nem computadores, as redacções dos jornais eram espaços vivos e criativos, não eram linhas de montagem com demasiada parafernália electrónica. Hoje "o meio é a mensagem".

Sei que especialmente para um jornalista freelance é difícil chegar a algumas fontes, porque em Portugal poucas pessoas sabem o que é um freelance ou estão dispostas a falar sem terem a garantia de que as suas palavras vão sair no sítio "x" ou "y". Tiveste esse tipo de problemas?
Os deputados suecos, dinarmarqueses e britânicos que contactei responderam-me prontamente, sem se importarem minimamente com o facto de se tratar de um jornalista português ou de um jornalista freelance. Identifiquei-me como jornalista e referi que estava a fazer um trabalho de investigação (sem sequer indicar se seria para publicar num jornal, numa revista ou num livro). Há que enaltecer a abertura, disponibilidade e interesse em responder às minhas questões por parte desses deputados de países estrangeiros. Relativamente aos deputados portugueses, muitos responderam, outros não responderam. Alguns quiseram saber mais sobre o trabalho de investigação, colocando questões sobre o órgão de comunicação social para o qual eu estaria a trabalhar, sobre qual seria o teor do artigo, entre outros detalhes. Recordo o caso da deputada Ana Paula Vitorino que quis saber em que órgão de comunicação social é que eu trabalhava e onde é que o trabalho de investigação seria publicado. Indiquei que era um jornalista freelance e que só depois de concluído o trabalho é que o iria propor para publicação. Ana Paula Vitorino não voltou a responder aos meus contactos e é um dos casos referidos no livro que não apresentam contraditório por exclusiva responsabilidade dos visados.

Em particular na introdução, o texto é palavroso e solene. Porquê? É o teu estilo ou procuraste falar especialmente para a classe visada, a dos políticos?
Em geral, optei por utilizar uma linguagem crua, factual e incisiva, por vezes desprovida de qualquer emoção, como quem faz uma autópsia. Não por ser o meu estilo, mas por considerar que seria o estilo mais adequado para este trabalho. Evitei os juízos de valor, as certezas absolutas e as sentenças definitivas. Na minha perspectiva, já há demasiada opinião no espaço público, demasiado ruído, em detrimento de informação factual com qualidade, informação rigorosa e contextualizada. Volto a recordar a entrevista de Fernando Dacosta ao jornal i, destacando uma interessante analogia entre a censura da ditadura e a desinformação ruidosa da democracia: "A censura prévia controla pelo corte e pelo silêncio, a democracia é pelo contrário, controla pelo chinfrim." Não quis contribuir para esse ruído opinativo, até porque não é essa a função primordial de um jornalista. A objectividade absoluta é uma impossibilidade prática, mas deve ser esse o caminho, mesmo que nunca cheguemos a alcançar o destino. Mais, não quis dizer ao leitor o que deve pensar, mas levá-lo a pensar. Nesse sentido é um livro aberto a interpretações díspares. Relativamente ao texto da introdução, apesar de diferir do estilo utilizado no resto do livro, não concordo que seja "palavroso e solene", nem que se dirija especialmente à "classe visada". Tento explicar as motivações que levaram à concepção do livro, colocando de parte ideias populistas e demagógicas que, na minha opinião, são extremamente perigosas e nocivas para a democracia liberal. Ressalvo, por exemplo, que há bons e maus políticos. Alerto contra a injustiça das generalizações. Explico que não se trata de um libelo acusatório contra os políticos, os partidos, a política (entendida para além do paradigma maquiavélico). É um texto curto, honesto, munido de alguns elementos conceptuais. Em contraste com o resto do livro, a introdução é mais subjectiva. É um convite à leitura do livro que não exclui ninguém à partida, desde logo os visados.

Parece que alguns destes textos já tinham sido publicados anteriormente. Já os tinhas investigado, pelo menos. É correcto? Porque é que isso não está explicado aos leitores de forma clara? No caso dos exemplos de contratos entre o Estado e privados, porque é que não está explícita a fonte de informação?
Dois artigos que publiquei na revista Sábado sobre conflitos de interesses no Parlamento e um artigo que publiquei na revista Exame sobre ex-políticos nas administrações de grandes empresas serviram como base de trabalho para este livro. Relativamente aos conflitos de interesses, os dois artigos da revista Sábado foram publicados numa fase inicial da actual legislatura, quando os deputados ainda não tinham actividade parlamentar substancial. Cerca de dois anos mais tarde, durante a concepção do livro, foi possível verificar se existiam ou não indícios de conflitos de interesses na actividade parlamentar dos deputados, não em abstracto mas na prática. Ou seja, foi possível aprofundar e concretizar a investigação. De um artigo de cinco páginas numa revista, com nove casos (e outro de uma página, com três casos), foi possível passar para 60 páginas num livro, com 34 casos apresentados. A utilização desses artigos como base de trabalho está bastante explícita no livro, através da comparação, no próprio texto, entre determinadas declarações dos deputados em 2011 (quando foram contactados para esses artigos na revista Sábado) e em 2013 (quando voltaram a ser contactados, durante a concepção do livro). Aliás, esse distanciamento temporal, entre 2011 e 2013, é o que permite aprofundar a investigação e descobrir claros indícios de conflitos de interesses em muitos dos 34 casos apresentados no livro. Relativamente ao artigo da revista Exame, como é evidente, os dados estavam completamente desactualizados. Mesmo durante o período concepção do livro, cerca de oito meses, tive que alterar sucessivamente os dados, porque há constantes alterações na composição dos conselhos de administração e demais órgãos sociais das grandes empresas. A utilização de alguns elementos desse artigo também está explícita no livro, basta ler as notas. Quanto aos "contratos entre o Estado e privados", a fonte de informação é igualmente explícita. O portal Base é sucessivamente referido ao longo do texto. As notas também contêm informação pormenorizada sobre os contratos. Só não coloquei ainda mais informação sobre os contratos porque me pareceu que seria redundante.

Relatas casos escandalosos de acumulação de funções (deputados que têm interesses no sector privado) e de transferências de ex-ministros para empresas ou áreas da economia que tinham tutelado. Demonstras, ao comparar as benesses dos deputados portugueses com as de outros deputados de países europeus, que os nossos legisladores são uma casta à margem da restante sociedade. Não houve momentos, durante a investigação e a escrita, em que te indignaste ou revoltaste com aquilo que descobrias? Ou essa indignação já existia e daí o livro?
Não parti para esta investigação com ideias pré-concebidas e não quis dizer ao leitor o que deve pensar, mas tão-só levá-lo a pensar sobre as matérias que abordo no livro. Deixei esse espaço de interpretação aberto, por respeito para com a inteligência do leitor. Teria sido muito fácil inflamar ainda mais o sentimento anti-política e anti-políticos que se tem disseminado entre a população portuguesa. Ceder a ideias populistas e demagógicas. Repare que nem sequer faço referência aos salários dos ex-políticos referentes aos cargos de administração que exercem em grandes empresas. Mais, dou voz a duas opiniões dissonantes, João César das Neves e Maria do Carmo Seabra, no que respeita à questão sobre quais as motivações que levam as grandes empresas a contratar ex-governantes para cargos de administração. Teria sido muito fácil encontrar dezenas de opiniões no mesmo sentido: tráfico de influências, troca de favores, corrupção. Optei por um enquadramento jornalístico dessa indignação que está a afligir a população portuguesa. Ou seja, assumi o papel de jornalista e observador, não o papel de actor político e indignado, não por falta de convicções políticas ou indignações pessoais, mas em prol de um trabalho de investigação mais isento, rigoroso e honesto. E também por não ser um especial admirador do jornalismo engagée.

Em certas passagens senti falta de opiniões de especialistas ou comentários de psicólogos, sociólogos e politólogos. Porque é que optaste por um livro mais factual e menos interpretativo?
Muitas vezes essas opiniões de especialistas e comentários de psicólogos, sociólogos e politólogos só servem para encher páginas, para ilustrar os textos. Não obstante, devo reconhecer que gostei muito do discurso que o professor dr. José Adelino Maltez proferiu na sessão de apresentação do livro e que, se fosse hoje, teria tentado introduzir algumas das ideias desse discurso no livro, citando o professor dr. José Adelino Maltez. Mas aceito essa crítica, talvez pudesse ter utilizado mais opiniões especializadas (que não a minha) em alguns momentos do livro.

Porque é que optaste por colocar notas no fim do livro e não em rodapé. Não seria mais prático e útil para quem lê ter acesso imediato a essas mesmas notas?
Foi uma opção da editora. Preferia que tivessem sido colocadas em rodapé. Julgo que se terá tratado de uma questão de grafismo e paginação. Reconheço que seria mais prático em rodapé, a leitura seria mais fluida. E há que realçar que as notas contêm informação muito relevante, não devem ser ignoradas durante a leitura do livro.

Foste tu quem sugeriu este livro à editora Esfera dos Livros ou foi a editora que te contactou?
Propus alguns temas e "este" foi o que mais interesse suscitou à editora. Coloco "este" entre aspas porque no início não havia ainda uma ideia bem definida do que iria ser o livro, apenas uma série de matérias que eu me propus investigar. Algumas ficaram de fora, outras que não tinham sido propostas acabaram por entrar. Beneficiei de uma grande margem de manobra e liberdade criativa. Só tenho que agradecer à Esfera dos Livros que acreditou no meu projecto e na minha capacidade para o concretizar.

Uma vez que há uma gigantesca promiscuidade entre política e negócios, achas que o jornalismo económico, mais do que o jornalismo político tradicional, é hoje a chave para se entender a política portuguesa?
O ideal seria uma estreita cooperação entre os dois, "jornalismo económico" e "jornalismo político tradicional", utilizando as mais-valias e competências de ambos. A promiscuidade entre a política e os negócios é de tal ordem que Mário Soares, recentemente, fez questão de ressalvar: "Sou político, não falo de negócios!" É uma grande verdade, hoje em dia os políticos estão sempre a falar (e a tratar) de negócios.

Recebeste ameaças, pressões ou recados dos visados durante a investigação e a escrita ou mesmo depois da publicação do livro?
Mais do que ameaças, pressões ou recados dos visados fui sobretudo confrontado, insistentemente, com essa mesma questão sobre se recebi ameaças, pressões ou recados dos visados. Ou com declarações de "grande coragem" da minha parte. E isso preocupa-me. Não as ameaças, as cartas registadas que recebi, de facto, a anunciar potenciais processos no pântano dos tribunais. O que me preocupa é essa espécie de medo latente nas pessoas que as leva a temer pela minha segurança por ter publicado um trabalho de investigação jornalística sobre a classe política de um país democrático. Esse medo latente que desemboca facilmente na auto-censura, outra forma pós-moderna (além do "chinfrim" de Fernando Dacosta) da antiga censura prévia. Ora, não escrevi propriamente sobre a classe política de uma ditadura sanguinária, nem sobre a máfia siciliana, os meandros da Cosa Nostra ou da Camorra. Ainda não acordei com uma cabeça de cavalo na cama, aquela cena mítica da trilogia O Padrinho. Julgo que ainda vivemos numa democracia em Portugal. Aliás, os visados puderam exercer o direito ao contraditório. Não sou propriamente um jornalista russo a investigar sobre a Rússia de Putin ou a guerra na Tchetchénia. Por exemplo, Anna Politkovskaya, sim, foi uma mulher corajosa, uma excelente jornalista, até ser morta à porta de casa, baleada à queima-roupa. Se Politkovskaya não teve medo, sou eu que vou ter medo?

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Os bons alunos

Como é que se percebe que em Portugal não há sociedade civil digna desse nome e que as associações que se publicitam como provenientes da sociedade civil e de movimentos socais ditos de esquerda são, afinal, mais um mecanismo para chupar dinheiro ao Estado, ou seja, a cada português?

Basta entrar nos sites oficiais de associações, organizações não governamentais e outras instituições que aparentam ser independentes do aparelho do Estado. Todas adoptaram o Acordo Ortográfico de 1990.

A administração pública está obrigada a fazê-lo desde 1 de Janeiro de 2012, como manda a já célebre resolução do conselho de ministros assinada por mitómano Pinto de Sousa.

As associações cujo projecto político de intervenção na sociedade não passa de um projecto adolescente, que não tem dinheiro para sobreviver sem mão amiga de uma figura tutelar, foram rápidas a adoptar o código linguístico que o financiador adoptou, para assim caírem nas graças do Governo, que esta gente pensa que é sinónimo de Estado, abrindo assim a porta à obtenção de financiamento e outras benesses. Tudo pelo patrão, nada contra o patrão.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Google, Facebook, Yahoo e Microsoft vendem dados pessoais dos utilizadores a agências de espionagem dos EUA

Tradução e adaptação de excertos da notícia "Web’s Reach Binds N.S.A. and Silicon Valley Leaders", publicada pelo jornal The New York Times a 19 de Junho de 2013. Original aqui
 
São cada vez mais profundas as ligações entre Silicon Valley e a National Security Agency (NSA). A NSA colige dados para efeitos de espionagem, as empresas de Silicon Valley fazem-no para ganhar dinheiro.

A divulgação pública do programa Prism, da NSA (no âmbito do qual alegadamente são reunidos e-mails e informações sobre a actividade na Internet de estrangeiros que utilizam serviços do Google, do Yahoo e do Facebook), levou as empresas a negarem que a NSA tenha acesso directo aos seus computadores. Assumem, no entanto, obedecer a ordens emitidas por um tribunal secreto da NSA para acesso a  dados específicos.

Peritos em tecnologia e antigos funcionários dos serviços de espionagem dizem ao New York Times que a convergência entre Silicon Valley e a NSA, assim como o papel cada vez mais importante da prospecção de dados ("data mining"), criaram uma realidade complexa.

Silicon Valley tem aquilo que a agência de espionagem quer: enormes quantidades de dados privados e software sofisticado para os analisar. Em contrapartida, a NSA é um dos maiores clientes de Silicon Valley numa área de negócio conhecida como análise de dados ("data analytics"), que se constitui como um dos mercados mais prósperos para estas empresas.

Para acederem ao software que permita o tratamento de enormes quantidades de dados, as agências de espionagem dos EUA investem em novas empresas de Silicon Valley, dão prémios no âmbito de contratos secretos e recrutam especialistas como Max Kell, ex-chefe de segurança do Facebook. 

As empresas de Silicon Valley alegam só cooperar com a NSA se forem obrigadas a isso por lei, mas antigos e actuais funcionários dizem ao New York Times que por vezes são as próprias empresas que criam equipas internas de peritos cujo objectivo é o de encontrar formas de cooperação com a NSA, tornando os dados dos seus utilizadores facilmente acessíveis para a agência. De acordo com as mesmas fontes, as empresas tomam a iniciativa para assim poderem controlar o processo. Mas também estão sujeitas a pressões subtis mas poderosas por parte da NSA.  

O Skype tem o seu próprio programa secreto, Project Chess, que permite às agências de espionagem acesso imediato às chamadas feitas através desta empresa, dizem fontes conhecedoras do programa que não querem ser identificadas para evitarem problemas.

O Projecto Chess começou há cerca de cinco anos, antes de o Skype ter sido vendido a investidores em 2009 e à Microsoft em 2011. 

Muitas empresas de software de análise de dados falam abertamente das suas ligações às agências de espionagem dos EUA. Gary King, co-fundador e responsável científico da Crimson Hexagon, uma empresa start-up de Boston, diz ao New York Times que manteve conversas com a CIA sobre as ferramentas de análise de dados em redes sociais. 

“As pessoas entregam voluntariamente ao Facebook dados que nunca estariam dispostas a dar ao governo", diz Bruce Schneier, especialista em tecnologia.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Diplomacia

AP
«Tens of millions of dollars have flowed from the C.I.A. to the office of President Hamid Karzai, according to current and former advisers to the Afghan leader. [...] American and Afghan officials familiar with the payments said the agency’s main goal in providing the cash has been to maintain access to Mr. Karzai and his inner circle and to guarantee the agency’s influence at the presidential palace [...] Handing out cash has been standard procedure for the C.I.A. in Afghanistan since the start of the war.» NYT

«The C.I.A. money continues to flow, Mr. Karzai said Monday. “Yes, the office of national security has been receiving support from the United States for the past 10 years,” he told reporters in response to a question. “Not a big amount. A small amount, which has been used for various purposes.” He said the money was paid monthly»NYT

segunda-feira, 4 de março de 2013

Farináceos e gorduras

«Os pobres fazem refeições à base de farináceos e de gorduras. A gordura é muito saciante e no prato aparece sempre alguma coisa parecida com carne, como o toucinho ou o entrecosto. As famílias pobres comem também muito arroz de frango ou massa com frango e aproveitam a pele porque tem muita gordura
Isabel do Carmo, reportagem na Notícias Magazine (aqui)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O que é o neoliberalismo?

Texto de Freitas do Amaral, revista Visão, 04 de Outubro de 2012.

 

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Últimas notícias da maior democracia do mundo

"A primeira coisa que notará quem olhar com atenção para as recentes telenovelas, séries e publicidades que passam nos canais da televisão indiana vistos pelas classe média é que toda a gente é branca. Quase não há pessoas de pele castanha ou mais escura (...) Haverá poucas sociedades tão profundamente preconceituosas como a Índia do Norte em matéria da superioridade da pele branca sobre as outras peles. Mas é nova a virtual eliminação da realidade indiana nas imagens de televisão, publicidade e cinema comercial. (...) A razão disto é que a classe média indiana tem um verdadeiro horror da Índia tal como ela é e as imagens dessa Índia inquietam, não vendem sonhos, não vendem mercadorias." Paulo Varela Gomes, "Público", hoje

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Entrevistas de Verão

Como é que a política pode conseguir relacionar-se melhor com a velocidade da mediatização?
Nas democracias representativas, as únicas que funcionam, é fundamental preservar tempos lentos, silêncios e discrições. Uma sociedade em que tudo se soubesse, numa espécie de transparência total, seria sempre totalitária. Uma sociedade em que tudo acontecesse em tempo real seria sempre dominada pelo espectáculo, pelas pulsões mais imediatas. Esta reflexão encontra-se nos Federalist Papers. Quando os homens que fundaram os EUA discutiram o que é a democracia perceberam uma série de regras fundamentais. Uma delas é: quanto maior for o poder dos representantes mais longos terão de ser os seus mandatos. Isto para permitir que tomem decisões impopulares. A democracia não é apenas a soberania popular, o exercício do voto. É a conjugação do voto com a lei e com a possibilidade de haver decisões racionais que sejam impopulares. Se for apenas o exercício da vontade popular temos uma demagogia e não uma democracia. Hoje, as tecnologias de comunicação são potencialmente demagógicas. Trazem imensas vantagens para a democracia, mas se não houver uma reflexão sobre o seu uso acabam por ter um efeito demagógico, logo totalitário. Quando ouço falar em democracia mediática acrescento que a ‘democracia mediática’ não é democracia. Quando se afirma que na Internet e no Second Life há uma democracia directa, lamento dizê-lo, mas ‘democracia directa’ não é democracia.
Pacheco Pereira, Diário Económico, 24/08/2007


A integração dos jornais em grandes grupos económicos restringe a nossa liberdade?

Mas isso é resultado da globalização e do mercado livre, que permite tudo. Hoje, qualquer pessoa chega a director de jornal com uma rapidez impressionante, qualquer pessoa começa a escrever artigos de opinião. Não pode ser! Perde-se completamente a credibilidade. Se calhar sou anacrónico, penso de outra maneira, sou de outro tempo… Mas eu trabalhei em grandes jornais, e aquelas redacções metiam medo, porque cada um vigiava o outro. Era um jornalismo que recusava essa grande tese da distanciação; era um jornalismo da proximidade o que nós fazíamos. Aliás, não entendo essa coisa da distanciação quando a única coisa que o jornalismo pode ser é justo, procurar a justeza das coisas. Quanto mais aproximados estamos, mais entendemos os factos.

Quando fala de proximidade não está a referir-se a uma proximidade geográfica… Digo isto, porque os jornais têm investido em edições múltiplas, com destaques diferentes para cada região do país…

Não, não. Falo de aproximação no sentido do compromisso com o leitor. A tese da distanciação é como se o jornalista não tivesse nada a ver com a notícia, como se o director e o chefe de redacção não tivessem nada a ver com o jornalista, e o jornal não tivesse a ver com nada. A distanciação é absurda.

Baptista-Bastos, Jornal de Notícias, 10/08/2007




A blogosfera não é particularmente generosa consigo. Li que é "fria", "ambiciosa", que se comporta como "oficial da Gestapo" e que "persegue os seus 15 minutos de fama". Fica magoada com o que se foi começando a escrever sobre si?

A inveja é a melhor terapia dos preguiçosos. A blogosfera diz tudo isso a meu respeito. Mas eu gostava de conhecer jornalistas que já tivessem abandonado bons tachos como eu tinha no Expresso; que já se tivessem demitido de revistas como a “Grande Reportagem”, após ter sido despedido o director [Joaquim Vieira] com o qual eu tinha sido convidada a trabalhar, que foi despedido por razões políticas e não jornalistas, e na sequência do qual me demiti, ficando um ano no desemprego. Estas são as minhas maiores glórias no exercício do jornalismo e não sei se muita gente as tem.

Felícia Cabrita, Jornal de Notícias, 23/07/2007

domingo, 13 de maio de 2007

Helena Roseta já está na rua

No "Público", hoje:

Helena Roseta já está na rua, menos de uma semana depois de se ter demitido do PS e de ter lançado a sua candidatura à Câmara de Lisboa, apoiada pelo Movimento Cidadãos por Lisboa. A primeira acção de recolha de assinaturas (o número mínimo é de quatro mil) aconteceu ontem, ao final da manhã, à porta do edifício que irá albergar a sua sede de campanha, na Rua das Portas de Santo Antão. Os seus apoiantes instalaram uma banca para recolher as assinaturas, mas Roseta não ficou quieta um segundo. Entrou em lojas e interpelou os transeuntes: "Bom dia, eu sou a Helena Roseta. Se nos quiser ajudar a viabilizar a minha candidatura à Câmara de Lisboa...", dizia. "Tem de ser pesca à linha", explicou aos jornalistas, antes de se dirigir a mais pessoas, que, àquela hora, rumavam para os restaurantes da zona. Ao fim de uma hora, contavam-se perto de 100 signatários, enquanto no Chiado e no Rossio os seus colaboradores angariavam mais apoios. O interior da futura sede (rés-do-chão e 1.º piso) está muito degradado, mas as obras de recuperação (é este o "preço" pela ocupação do prédio) estão para breve. Roseta quer ali demonstrar como se pode fazer "pedagogia sobre os fogos devolutos" da capital. Maria José Oliveira

segunda-feira, 7 de maio de 2007

"Os portugueses estão fartos de pagar os africanos"

A propósito de um certo resultado eleitoral, vale sempre a pena recordar isto.

domingo, 6 de maio de 2007

"Será sempre um voto de protesto"

No "Público" de sábado:

O ambiente das pessoas em Clichy-sous-Bois é quase festivo. Mas o cenário é sombrio, sob a mancha cinzenta de prédios degradados, repletos de famílias numerosas, pobres, vindas de longe, há muito tempo, com filhos que não conhecem nenhum país de origem senão a França.

A morte dos dois adolescentes, Zyad Beena, de 17 anos, e Bouna Traoré, de 15 anos, electrocutados num transformador de alta tensão quando se escondiam da polícia, numa tarde do fim de Outubro de 2005, ainda pesa. Nessa noite, não houve qualquer explicação da polícia, do Governo, de qualquer instituição.
A mágoa tomou a forma de "revolta social" que incendiou primeiro Clichy-sous-Bois, no Leste de Paris, depois as cidades em volta e, por fim, se alastrou aos subúrbios de várias grandes cidades da França em Novembro de 2005.
(...)
Desde o Outono quente da "revolta social" de 2005, as coisas "estão muito mais calmas", ouve-se dizer em vários cantos da cidade. Mas nada ou quase nada melhorou. O candidato Nicolas Sarkozy não entra aqui.
"Ele é muito mal visto", diz Samir Mihi, um dos fundadores da ACLEFEU (Association, Collectif, Liberté, Égalité, Fraternité, Ensemble, Unis) criada logo a seguir aos acontecimentos, para que Zyad e Bouna "não tenham morrido para nada". Até hoje, as suas mortes não foram esclarecidas.
(...)
Quando chegar domingo, o dia da segunda volta, o voto dos jovens "não será a favor de Ségolène Royal mas contra Sarkozy", diz Samir Mihi. Na primeira volta, 82 por cento dos eleitores de Clichy-sous-
-Bois votaram. Quase metade votou Ségolène. "Será sempre um voto de protesto", insiste. As políticas de integração falharam, tanto em governos de direita como de esquerda. Ana Dias Cordeiro, em Paris

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Poetas

CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO

Provisoriamente não cantaremos o amor,

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

não cantaremos o ódio porque este não existe,

existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,

o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,

o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,

cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte

depois morreremos de medo

e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

.

Carlos Drummond de Andrade