quarta-feira, 6 de março de 2013
"O espírito da fornicação", por António Guerreiro
sábado, 9 de maio de 2009
"Não me venham alargá-la"
Um católico que vote no PS não está a cumprir os preceitos do Evangelho?Não conheço o programa do PS, porque os programas dos partidos ainda não foram tornados públicos.
Conhece a parte do casamento homossexual. É abusivo dizer que a Igreja diz aos católicos para não votarem PS...
Podem fazer essa leitura. Não me peçam a mim que a faça. Porque o que dizemos sobre o casamento homossexual — acusam-nos erradamente de ser homofóbicos — só tem a ver com o conceito de família. Aliás, seria preciso mudar o Código Civil e dar uma volta à Constituição. Com a cultura que recebi, com a fé que tenho e com a compreensão da humanidade que tenho, perfilho uma concepção de família. Não me venham alargá-la ao infinito. Agora se vota neste ou naquele partido, ah isso é responsabilidade sua! Tem de se confrontar com o querer um determinado tipo de sociedade e, depois, amanhã, assumir as consequências disso.
[José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, entrevistado pelo Expresso, hoje]
foto de António Pedro Ferreira
quinta-feira, 19 de março de 2009
Jesus abriu a porta aos homossexuais
É um livro rebelde e já estaria confiscado se vivêssemos há 40 anos. José António Almeida , autor de O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste, agora publicado, consegue juntar em apenas 54 páginas um poderoso conjunto de ideias iconoclastas que, no mínimo, fariam corar um santo. Raras vezes se viu algo parecido na literatura gay portuguesa. “Encontramo-nos no ponto exacto em que a palavra ‘paneleiro’ ainda não se transformou semanticamente e de forma cabal na palavra ‘pioneiro’”, escreve o autor – para explicar que apesar de todas as conquistas de direitos o casamento gay é apenas o quilómetro zero da História dos homossexuais. Essa causa e a crítica à posição oficial do Vaticano sobre a homossexualidade são os temas principais do livro.(...) A ideia mais polémica deste livro é a de que os homossexuais só têm protagonismo social hoje porque o cristianismo o permitiu. A “sacralização do par masculino-feminino sob a forma de casal heterossexual matrimoniado” não é uma ideia absoluta para o cristianismo. “Antes é amplamente relativizada” pelos valores do celibato sacerdotal e da virgindade. “É esta relativização do casal heterossexual que abre espaço para o posterior surgimento, embora eventualmente não desejado à partida, de outra realidade: o par homossexual”. Com esta passagem, fica dada a estocada final: “A figura celibatária de Jesus de Nazaré (…) veio possibilitar em termos culturais o aparecimento do homossexual autónomo e progressivamente emancipado dos nossos dias”.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Católicos homossexuais reúnem-se em Lisboa
A opinião é conservadora, mas, ao contrário do que se poderia supor, José (nome falso, para protecção de identidade) não é membro da hierarquia da Igreja. Aos 39 anos, este católico praticante é, antes, responsável pelo grupo Rumos Novos, primeiro e único grupo católico homossexual em Portugal. (...)
[na "Time Out Lisboa" de 11 de Fevereiro; artigo completo aqui]
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Lançar o debate
José Sócrates quer lançar o debate sobre o casamento gay (aqui). Quer lançar o debate, não disse que quer mudar o Código Civil. O que não quer (não disse, mas mandou dizer) é a adopção de crianças por casais do mesmo sexo (aqui), o que só faz sentido se a lei da adopção for entretanto alterada.
Será bom, a propósito, recordar compromissos que ficam por cumprir: o programa do actual Governo dizia que “é preciso um amplo debate nacional sobre igualdade e orientação sexual” (aqui).
Reacções à proposta do PS:
- associação ILGA - aqui (Lusa/Expresso)
- associação Panteras Rosa - aqui (Lusa)
- associação Opus Gay - aqui (Sol/Lusa)
- Juventude Socialista - aqui (Público)
- Igreja Católica - aqui (Correio da Manhã)
- Partido da Nova Democracia - aqui (IOL)
- Grupo Rumos Novos - aqui (Lusa/Expresso)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Sarilhos
D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, ontem, aqui
"É um conselho de imprescindível realismo que seguramente qualquer um de nós de cultura ocidental e de religião cristã, ou então de cultura árabe e de religião muçulmana, daria para bem de ambas as partes e das respectivas famílias"
Padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, hoje, aqui
"No Islão, não há casamentos mistos, o que implica sempre a adopção ou a aceitação da religião, com todas as consequências que traz um casamento islâmico. (...) É um facto que em muitos países da Europa, como Espanha, França, Alemanha, há muitos casos de mulheres iludidas por homens islâmicos, que não lhes revelam toda a verdade. (...) Na actualidade não há outra religião como a islâmica, que mantenha leis de prepotência dos homens sobre as mulheres, à excepção de pequenos grupos religiosos."
Moisés Espírito Santo, sociólogo das religiões, hoje, aqui
"Conheço relações mistas, exemplos de sucesso e amor, que demonstram que a felicidade é possível."
Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural, hoje, aqui
"Nunca tive problemas nenhuns com a família dele. Nunca nada me foi imposto nem fui pressionada a fazer nada. Aceito perfeitamente os usos e costumes dele e ele aceita os meus
Portuguesa casada com um muçulmano marroquino, hoje, aqui
"Ficámos de alguma forma magoados com a escolha das palavras do senhor patriarca de Lisboa relativamente à nossa comunidade e ao diálogo que temos procurado com todas as confissões religiosas e, em particular, com as religiões cristãs."
Abdool Vakil, Comunidade Islâmica de Lisboa, hoje, aqui
segunda-feira, 3 de março de 2008
O terror somos nós
"As pessoas começam por esbarrar com as dificuldades e habituam-se à ideia de um só filho. Desde que se quebre o coeficiente de equilíbrio, a sociedade fica aberta a ser ocupada por gente vinda do terror e vinda do Ocidente e do Oriente, como diz o Evangelho. O que faz com que seja previsível que, dentro de alguns anos, as sociedades europeias percam a sua fisionomia do ponto de vista religioso, do ponto de vista comportamental, cultural. Como se sabe, já há sociedades europeias a braços com a multiculturalidade e com a dificuldade de harmonia entre as diversas procedências da população, de que por um lado precisamos."O Cardeal estava certamente a referir-se aos árabes. Mas esqueceu-se (muita gente, desde o 11 de Setembro, se tem esquecido) de que a cultura portuguesa descende da árabe. Não há portugueses de um lado e árabes do outro. Metade de Portugal (o Sul) é arábica. D. Manuel I tentou, sem êxito, expulsar os mouros em 1496. Eles já por cá andavam desde 711. Afonso Henriques só apareceu ao cimo da terra 400 anos depois.
O fundamentalismo de que acusam os muçulmanos não será assim tão diferente disso que os portugueses bem conhecem e prezam, às vezes além do aceitável: orgulho e dignidade.
"O árabe é altivamente orgulhoso, individualista e generoso, pronto a defender pela força os seus direitos e a sua dignidade pessoal, se necessário com absoluto desprezo pela própria vida", escreve o arabista Adalberto Alves no livro "O Meu Coração é Árabe" (3ª ed., 1999).
São estas características, medulares e não de agora, que explicam o extremismo islâmico e o terror a que se refere o chefe da igreja católica portuguesa. Mas são também aquelas características, herdadas pelos portugueses, que determinam em grande medida a portugalidade a que se refere Miguel Real no ensaio "A Morte de Portugal" (1ª ed., 2007): lentidão, generosidade sem limites, espírito emotivo anti-racionalista. Podemos não gostar de ser idênticos aos terroristas, mas somos.