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sábado, 9 de agosto de 2008

"Não podemos tirar Boliqueime do rapaz"

Clara Ferreira Alves no "Expresso" de Hoje:

"Desde que o Presidente Cavaco foi eleito ainda não lhe ouvi uma palavra de jeito. O Presidente alinhava umas palavras em forma de discurso, soletra umas solenidades de circunstância, meia dúzia de lugares-comuns da sensatez e outras tantas banalidades, junta uma pitada de preocupação social e vago fervor patriótico, acrescenta umas generalidades institucionais e já está.
(…)
A sua mediania coloca-o a salvo das grandes perplexidades contemporâneas e o seu desinteresse pela cultura política, ou outra, abrigam-no das interrogações que perturbaram Soares ou Sampaio, infinitamente mais cultos e mais cosmopolitas. Cavaco é o sucessor de Eanes sem a educação sociológica e histórica de Eanes. Ou seja, Eanes tornou-se um quase-intelectual com a passagem do tempo, e Cavaco permaneceu igual a si mesmo, modesto e frugal, limitado e deslocado, amarrado à âncora da sua ignorância.
(…)
De primeiro-ministro activo passou a Presidente corta-fitas. É um lugar onde ele não faz o dano que faria como chefe do Executivo.
(…)
Podemos tirar o rapaz de Boliqueime mas não podemos tirar Boliqueime do rapaz, dir-se-ia com crueldade. O Presidente Cavaco é um rapaz de Boliqueime e isso não é uma coisa boa. Nem má. É o que é."

sábado, 9 de junho de 2007

Soares: "As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo"

Excertos da entrevista com Mário Soares, no "Expresso", hoje:

"Em dois anos de Governo, Sócrates acumulou demasiadas más vontades. Na classe média, no povo, no seu eleitorado tradicional. É tempo, julgo, de corrigir o rumo, pensando mais à esquerda."

"Recebo o «Diário de Notícias» de manhã, que folheio, distraidamente, num quarto de hora. Desapareceram os bons comentaristas como Medeiros Ferreira, Joana Amaral Dias, Vicente Jorge Silva, Alfredo Barroso. Já não compro o «Público». Procuro lê-lo, sem o comprar, aos fins-de-semana, por causa do Vasco Pulido Valente, do frei Bento Domingues e do António Barreto, e às vezes os artigos da Teresa de Sousa e da Constança Cunha e Sá. Os telejornais, todos iguais, são uma maçadoria ou tragédias, para alimentar o pessimismo nacional."

"Hoje, na política, há um hábito perigoso que são os lóbis. Permitidos na América, parece que vão ser autorizados em Portugal. É um estímulo ao tráfico de influências. Agora as pessoas desejam entrar na política para melhor usufruírem, depois, de lugares em empresas. Está a desaparecer o sentimento de honra - e o prestígio - do exercício de funções públicas. O que é terrível para o futuro das democracias."

"As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo, porque não soube «arranjar-se»! Em sociedades sem valores - em que o dinheiro é tudo - desapareceu a sanção moral em relação aos políticos e aos funcionários públicos corruptos e não só a eles... Na fase do capitalismo financeiro-especulativo, em que vivemos, tudo é permitido. Vamos pagar essa excessiva permissividade muito cara."

"O neoliberalismo deu às pessoas a ideia de que o mundo é uma selva e a selva é para os mais fortes, que se alimentam dos mais fracos. É o que se chama o «darwinismo social». A força, aliás, não se mede pelo músculo, mas pela carteira. Cada vez há mais pobres e maiores desigualdades e o que acontece a esses pobres? É indiferente: estão condenados a desaparecer."

"Não é agradável para ninguém, bem formado, viver em condomínios altamente protegidos, num contexto de miséria em redor e que espreita... Haverá revoltas, grandes confrontações, talvez guerras. Só vejo uma forma de evitar os conflitos e porventura as revoluções que se preparam. Fazer reformas a sério, progressivas. Não contra-reformas. Não é acabar com o Estado, deixar os ossos ao Estado e a carne aos privados. Isso não é uma reforma. É uma contra-reforma."
Entrevista de Cândida Pinto e Clara Ferreira Alves

sábado, 3 de fevereiro de 2007

"Os pobres são outro país"

Clara Ferreira Alves no Expresso, hoje:

"Não espero que Marcelo saiba o que é um aborto clandestino, ou o que sofrem as mulheres pobres que espetam agulhas ou praticam o aborto de vão de escada. Naquele mundo admirável e burguês onde vive uma existência doce o professor Marcelo, essas coisas simplesmente não são faladas, questão de educação. A hemorragia, o sangue, a pele furada, o útero escavado, a torpe operação clandestina, trabalho de mulheres sobre mulheres ao qual o professor é estranho e continuará, por razão fisiológica civilizacional, estranho, são coisas feias de mais. Os pobres são outro país, os ignorantes também. Quando era um político no activo, o professor saía muito à rua a cativar o voto dos pobres. Na verdade, os pobres em tempo eleitoral são como as mulheres que abortam, uma abstracção, um, digamos, «estado de alma». Eu nunca conheci uma mulher que abortasse por «estado de alma» ou «pequena depressão» ou por ter decidido «mudar de casa» (a minha razão favorita, confesso, das enunciadas por Marcelo)."

sábado, 27 de janeiro de 2007

"A pobreza começa e acaba na falta de controlo sobre a existência"

Belíssima e lúcida a crónica de Clara Ferreira Alves no Expresso de hoje, a propósito do referendo ao aborto:

OS PATRÍCIOS e os plebeus nunca se encontram com poder igual, e os patrícios e os escravos muito menos. Os pobres e os ricos também não. Era assim em Roma e é assim em Portugal. Parte da discussão sobre o Sim e o Não num país que prefere o Talvez, centra-se em questões laterais à descriminalização do aborto ou «interrupção voluntária da gravidez» e incide sobre juízos morais e sociais, uns de boa fé e outros de má fé. É muito difícil falar em pobres e ricos desde que se inventaram os excluídos e os desfavorecidos, duas fórmulas amáveis do reino do talvez. Como consegue alguém que vive num mundo confortável, protegido pelos colchões e almofadas da prosperidade, com uma casa e uma família, com as vantagens da ausência de ansiedade, conhecer a insegurança que a pobreza dá? A pobreza começa e acaba na falta de controlo sobre a existência, uma situação em que se está sempre à mercê do outro, dos outros, os que têm poder sobre as vidas alheias. A falta de controlo gera o medo, que é o estado natural de quem não consegue ordenar a sua vida segundo a sua cabeça e a sua determinação. O medo gera a fraqueza, que não ajuda a tomar decisões sensatas ou altruístas. A discussão e paixão em torno do caso do pai biológico Baltazar e da mãe Aidida e da criança adoptada pelo casal que agora enfrenta a justiça e a prisão trazem para a luz problemas vários que nos ajudariam a ver mais claro o que está em causa no referendo sobre o aborto. Na verdade, o pedido de habeas corpus e as 15 mil assinaturas que exigem que o sargento Gomes seja subtraído a uma pena de prisão que não merece juntam nomes que são a favor do Sim com nomes que são a favor do Não. A história, que não poderia ser resolvida por um Salomão contemporâneo, diz-nos que a mãe se viu grávida de uma relação ocasional e que avisou o pai biológico do facto, deparando com a indiferença. Depois de a criança nascer, a mãe, uma estrangeira pobre e sem protecção, pediu ajuda e tentou arranjar um casal que tomasse conta da filha, renunciando à maternidade. Muitas mulheres na situação de Aidida abortam, e abortam em condições miseráveis e clandestinas, sem apoio do pai biológico que agora os tribunais tanto exaltam, e sem apoio médico ou jurídico. Abortam porque são pobres, estão sozinhas, foram abandonadas e nada controlam da sua vida. Abortam porque não conseguem ter a coragem que Aidida teve (e podemos chamar-lhe cobardia, ou não?) de dar à luz e renunciar, entregar a criança a outros pais. Abortam porque têm medo, e não têm dinheiro. Abortam porque não existe nas suas vidas desconfortáveis espaço para uma maternidade responsável e consciente. Melhor seria que não se vissem nestas condições, mas o certo é que vêem e que o país está cheio de potenciais pais biológicos que são os primeiros a descartar-se da responsabilidade e do fardo e a imputarem à mulher, mesmo quando a relação não é ocasional e pode ser matrimonial, a responsabilidade e a «culpa» de não ter prevenido a gravidez indesejada. A culpa, claro.

Esta é a realidade, e neste ponto da realidade só quem está dentro dela sabe o que se passa. O caso da Aidida é a excepção. Não apenas porque as grávidas naquela situação não conseguem ter lucidez no meio do pânico, mas também porque não existem por aí tantos casais dispostos a receber uma criança. E todos sabemos o tempo e as dificuldades burocráticas da adopção em Portugal. A Segurança Social portuguesa não resolve casos urgentes. Se a excepção acaba com a sentença de prisão do pai adoptivo, e não coloco aspas na palavra, e com a entrega de uma criança de cinco anos a um pai que nunca viu e que não quis saber dela em tempo útil, ou seja, quando a mãe ficou grávida e o avisou, um pai que exige uma «indemnização» dos pais adoptivos, estamos num pântano moral pior que o pântano jurídico. Uma mulher que siga esta história e veja os seus trágicos desenvolvimentos, não hesitará em abortar. Não estamos a referendar a desvantagem moral de abortar, ou a vantagem moral de ser mãe. Estamos a referendar isto: uma mulher numa situação de descontrolo da sua vida e do seu corpo, deve ou não ser mandada para a prisão? Deve ou não ser ajudada a tomar a melhor decisão, num meio clínico competente, que a apoie e aconselhe dentro dos prazos legais? Ou devemos deixar a vantagem das clínicas e conselhos de luxo aos que têm dinheiro e educação e competência para os pagar e solicitar? Como é possível que não se entenda que o aborto clandestino é um problema de classes sociais e de falta de poder e não um reduto moral? A moral pertence a quem comete os actos e aos juízos de valor que esses actos justificarem, não pode nem deve ser uma moral por decreto e tipificada pela religião ou o Código Penal. O desvelo que a lei agora colocou na protecção deste pai biológico, devia ser exercido quando a mãe ficou grávida? Sim? Não? Talvez? Nesse momento, o MP ainda não pode obrigar um pai a perfilhar um filho por nascer, ou fazer testes de DNA. O que quer dizer que a lei só pode substituir-se aos cidadãos e aplicar-se quando falharam os indicadores morais, as resoluções íntimas. A lei vem quando falha o resto, quando falha a protecção, quando falha a decisão. No caso do aborto criminalizado, a lei pretende substituir a protecção e a decisão pela condenação e a punição, a lei pretende impor uma sanção num território físico e moral que não lhe pertence e onde só deve entrar em situações terminais. A lei não está antes dos cidadãos, está acima deles. As mulheres têm de deixar de ter medo.

Clara Ferreira Alves
Expresso, 27/01/2007