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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Menos arrogância

Mário Soares, em entrevista a António José Teixeira, no "Diário Económico", hoje:

"Há um mal-estar na sociedade portuguesa que não deve ser ignorado. Há que dar razões às pessoas para acreditarem no Governo. As pessoas não protestam só porque os sindicatos as empurram. Vêm para a rua porque sentem os seus postos de trabalho em causa ou porque a saúde, a educação, a justiça ou as reformas os preocupam. São problemas sérios. Chegou a hora de tranquilizar as pessoas quanto a eles."

"Quanto ao autoritarismo, houve episódios desagradáveis, que foram muito empolados, mas que devem ser evitados e corrigidos. É talvez necessário haver mais sentido de autocrítica e menos arrogância nas respostas."

"Não vejo sinais de uma cultura autoritária. Longe disso. Arrogância, sim, em certas áreas. Teóricos da Direita, esquecidos das lições do passado - e alérgicos aos partidos políticos - já se atrevem a aconselhar o Presidente da República a "preparar-se para novos governos de iniciativa presidencial". O que é isso? Esquecem-se que são os partidos que estruturam a democracia."

sábado, 9 de junho de 2007

Soares: "As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo"

Excertos da entrevista com Mário Soares, no "Expresso", hoje:

"Em dois anos de Governo, Sócrates acumulou demasiadas más vontades. Na classe média, no povo, no seu eleitorado tradicional. É tempo, julgo, de corrigir o rumo, pensando mais à esquerda."

"Recebo o «Diário de Notícias» de manhã, que folheio, distraidamente, num quarto de hora. Desapareceram os bons comentaristas como Medeiros Ferreira, Joana Amaral Dias, Vicente Jorge Silva, Alfredo Barroso. Já não compro o «Público». Procuro lê-lo, sem o comprar, aos fins-de-semana, por causa do Vasco Pulido Valente, do frei Bento Domingues e do António Barreto, e às vezes os artigos da Teresa de Sousa e da Constança Cunha e Sá. Os telejornais, todos iguais, são uma maçadoria ou tragédias, para alimentar o pessimismo nacional."

"Hoje, na política, há um hábito perigoso que são os lóbis. Permitidos na América, parece que vão ser autorizados em Portugal. É um estímulo ao tráfico de influências. Agora as pessoas desejam entrar na política para melhor usufruírem, depois, de lugares em empresas. Está a desaparecer o sentimento de honra - e o prestígio - do exercício de funções públicas. O que é terrível para o futuro das democracias."

"As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo, porque não soube «arranjar-se»! Em sociedades sem valores - em que o dinheiro é tudo - desapareceu a sanção moral em relação aos políticos e aos funcionários públicos corruptos e não só a eles... Na fase do capitalismo financeiro-especulativo, em que vivemos, tudo é permitido. Vamos pagar essa excessiva permissividade muito cara."

"O neoliberalismo deu às pessoas a ideia de que o mundo é uma selva e a selva é para os mais fortes, que se alimentam dos mais fracos. É o que se chama o «darwinismo social». A força, aliás, não se mede pelo músculo, mas pela carteira. Cada vez há mais pobres e maiores desigualdades e o que acontece a esses pobres? É indiferente: estão condenados a desaparecer."

"Não é agradável para ninguém, bem formado, viver em condomínios altamente protegidos, num contexto de miséria em redor e que espreita... Haverá revoltas, grandes confrontações, talvez guerras. Só vejo uma forma de evitar os conflitos e porventura as revoluções que se preparam. Fazer reformas a sério, progressivas. Não contra-reformas. Não é acabar com o Estado, deixar os ossos ao Estado e a carne aos privados. Isso não é uma reforma. É uma contra-reforma."
Entrevista de Cândida Pinto e Clara Ferreira Alves

quarta-feira, 23 de maio de 2007

A polémica exagerada, segundo Soares

"Biografia de Günter Grass: A Passo de Caranguejo", de Miguel Oliveira, foi publicado esta semana pela Parceria A. M. Pereira.
Há um testemunho de Mário Soares, que não se diz se é inédito. Excerto:

"A polémica que se levantou a propósito do seu último livro ["Beim Hauten der Zwiebel"], onde introduziu a revelação (tardia) de que pertenceu, no final da guerra, a uma unidade das tristemente célebres SS, tem sido, a meu ver, muito exagerada. É óbvio que o picante da "confissão" resulta de ter sido ocultada durante muitas décadas, durante as quais Günter Grass se tornou numa espécie de "consciência moral e crítica" da Alemanha do pós-guerra e, depois da queda do muro de Berlim, crítico virulento da reunificação alemã.
Não creio, contudo, que haja tanta razão para censurar Günter Grass. É preciso perceber o tempo de tragédia em que viveu, adolescente, nos últimos meses que precederam o colapso de Hitler. Günter Grass tinha 17 anos e foi incorporado nas SS, em pleno caos militar e político. Terá ele tido então consciência efectiva do que eram - e tinham sido - as SS? Não creio. Liberto do pesadelo, não terá funcionado o mecanismo psicológico natural do esquecimento e da rejeição em relação ao horror das últimas semanas da guerra?" Mário Soares

terça-feira, 8 de maio de 2007

Soares diz que ainda há ideologia

Mário Soares ontem à noite no polémico "Prós e Contras", da RTP1:
"Evidentemente, há diferenças de toda a ordem entre a direita e a esquerda, no plano nacional e internacional, no plano da civilização, no plano do tratamento da diferenças religosas, etc. Um socialista de hoje é uma pessoa que acredita na liberdade e no mercado, não num mercado selvagem, mas num mercado que tenha regras. Os socialistas são pelo mercado regulamentado e contra a Globalização selvagem e neoliberal".

domingo, 11 de março de 2007

"Interessa-me que o desejo possa irromper na rua"

Excerto da entrevista que Jorge Silva Melo deu a Cristina Margato; no "Expresso" deste sábado:

Tem um texto [no livro "Século Passado", a editar em breve] sobre o 25 de Novembro no qual conta um episódio de desconfiança em relação à política partidária.

Vi nascer alguns partidos. O que me interessou sempre foi a hipótese de os movimentos populares ultrapassarem os partidários. Gosto do que está a nascer, do impulso irreflectido, das primeiras peças, das primeiras ocupações de terras. Das segundas não gostei, porque já era o Partido Comunista a organizar o imenso movimento espontâneo... Interessa-me que o desejo possa irromper na rua, de uma forma comunitária e partilhada.

E ainda vota?

Voto sempre, mas não fico contente. As eleições de Lisboa ainda me fazem engulho.

Não tem partido escolhido?

Não, e a evolução do Bloco de Esquerda é algo que me entristece, embora muitas das causas me possam ser próximas. Não gosto da arrogância de dizer «a maioria dos católicos votou» ou «entrámos finalmente na Europa». Há nisto um oportunismo.

A política está livre desse oportunismo?

Não. Por isso, gosto dos movimentos pendulares.

Interessou-lhe algum movimento pendular nos últimos tempos?

A greve dos liceais em França.

E em Portugal?

Em Portugal, confesso que não estou interessado em mais nada. Interessei-me e achei lindíssima a última campanha de Mário Soares. Votei nele com o maior entusiasmo e não posso deixar de estar com esta pessoa que teima, insiste em ser político, tem coisas para dizer e continua a surpreender-me com a sua liberdade de pensamento. Foi o último grito do Rei Lear.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Notas

1 - O ex-Presidente da República Mário Soares classificou o programa da RTP "Grandes Portugueses" como "disparate de princípio ao fim" e retirou qualquer importância aos votos no antigo chefe do Governo Oliveira Salazar. "Esse programa [Grandes Portugueses] é do princípio ao fim um disparate . Comparar um futebolista, que todos nós apreciamos, a figuras da nossa História como Afonso de Albuquerque ou Afonso Henriques, não tem qualquer sentido", justificou. Interrogado sobre o alegado facto de Oliveira Salazar estar à frente da votação nesse programa da RTP, o ex-chefe de Estado afirmou que "isso não tem a menor importância". "Não atribuo nenhum significado, porque as pessoas podem votar as vezes que quiser. Em democracia só há um critério: o voto popular, onde se respeita quem ganha e quem perde", observou. "Começa a dizer que, afinal, não foi tanto assim, que ele até era uma pessoa séria. Ninguém pode esquecer que ele [Salazar] foi o autor moral do assassinato do general Humberto Delgado e de muitos outros resistentes ao fascismo", frisou. RTP/Lusa

2 - O espectáculo "Visita guiada", da bailarina Cláudia Dias, integrado no Festival Internacional de Dança "New Territories", em Glasgow (Escócia) foi cancelado pelo facto de a lei proibir fumar em público, anunciou a companhia de dança RE.AL. O espectáculo estava previsto realizar-se no próximo domingo, tendo sido cancelado "devido à actual lei vigente na Escócia sobre a proibição de fumar em locais públicos, incluindo o palco do teatro", precisou a RE.AL. RTP/Lusa

3 - A associação para a defesa do consumidor Deco acusou a CP de praticar "ilegalidades grosseiras" nos últimos 20 anos ao cobrar acima do que está estipulado pela Tarifa Geral de Transportes. "Houve ao longo de 20 anos uma ilegalidade grosseira porque as diferentes administrações da CP cobraram preços em determinados percursos que colidiam com a Tarifa Geral de Transportes", afirmou o secretário-geral da Deco, Jorge Mor gado, em declarações à Agência Lusa. RTP/Lusa

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Cavaco na SIC - 2

RELAÇÃO COM SÓCRATES
"Sei onde é que devo parar. Acompanho a actividade do Governo com muita exigência, acho que devo fazê-lo. Dou as minhas opiniões, respeitando as competências do Governo."
ALUSÃO A SOARES NA PRESIDÊNCIA
"Nunca utilizarei o veto como arma de arremesso. Não quero fragilizar o Governo. Nunca me passará pela cabeça passar esta ou aquela rasteira ao Governo."

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

A carta de Otelo

OPINIÃO
Otelo Saraiva de Carvalho escreveu uma carta ao director do Público, rebantendo alguns factos citados numa reportagem sobre o reencontro em Lisboa de Mário Soares com Frank Carlucci. Publicada hoje.

"Bateram casualmente os meus olhos na primeira página do Público de dia 23, e apressei-me a folheá-lo para, lendo a re­portagem produzida por Teresa de Sousa sobre o "Reencontro histórico" protago­nizado por Soares e Carlucci, confirmar algumas das suspeitas que mantenho sobre o chamado "Verão quente de 75" e o papel por ambos desempenhado durante aquele "ano de brasa" do período revo­lucionário ("o sempre saudoso PREC", como sempre dizia o nosso querido Zeca Afonso) que os portugueses viveram após o 25 de Abril 74.

Para lá de algumas confirmações obti­das, uma claras, outras, lidas nas entreli­nhas, a reforçarem a tese que publicamen­te tenho expendido sobre quem, o porquê e o como do fim da "revolução socialista" acontecido em 25 de Novembro 75, condu­ziu-me a leitura da reportagem à necessi­dade de remeter esta carta com vista à re­posição da verdade, já que, parafraseando Soares, que aprecia os americanos porque eles "gostam que lhes digam a verdade", tenho a impressão muito nítida de que os portugueses também disso gostam, motivo que me leva a apreciá-los muito e a não desejar, também por isso, que eles sejam enganados com falsas declarações.

Assim, contrariando as fantasiosas reminiscências dos dois gerontes produ­zidas perante a jornalista, afirmo catego­ricamente:

1 - Nunca conheci pessoalmente Frank Carlucci.

2 - Portanto, nunca almocei com Frank Carlucci.

3 - Nunca pedi a Frank Carlucci a sua morada em Lisboa e nunca mandei "al­guns soldados " para fazer a sua segurança a seu pedido.

4 - A única vez em que falei com Frank Carlucci foi em 11 de Março de 75, quando fez uma chamada telefónica para o Copcon, que eu comandava, no rescaldo dos aconte­cimentos, para me perguntar se era verda­de eu ter afirmado a uma estação de rádio de Lisboa ser minha convicção que o novo embaixador americano em Portugal era um homem da CIA e que alguma coisa te­ria que ver com a tentativa de golpe militar que tinha acabado de se verificar e que fora rapidamente jugulado por forças militares sob o comando do Copcon. Afirmações que não só ratifiquei como ainda acrescentei que, pessoalmente, o considerava persona non grata em Portugal e que, se fosse primeiro-ministro, lhe daria um prazo de 24 horas para ele abandonar o meu país. Considerações que me pareceram, então, francamente agastá-lo e que a mim me deram a satisfação do desabafo.

Fui acompanhando, depois do 25 de Novembro de 1975, a continuidade do seu sucesso como embaixador dos EUA, o seu regresso à pátria para assumir, em promoção pelo trabalho realizado em Portugal, as funções elevadas de number two da CIA, o retorno a Lisboa para instalação e presidência da EuroAmer e o "reencontro" com as amizades geradas nas angústias do PREC. "Enfin, lês beaux esprits se rencontrent" (...). "
Otelo Saraiva de Carvalho
Lisboa

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Sem confusões

OPINIÃO
A propósito dos dois posts anteriores, um esclarecimento, que evite mal-entendidos: a Fundação Aga Khan faz parte da Aga Khan Development Network, que se define como uma organização não religiosa. É uma organização ligada à comunidade ismaelita, ou seja, à de muçulmanos xiitas (15% do total de muçulmanos no mundo, segundo a Wikipedia), fiéis ao Corão.

Já a Arábia Saudita, apesar da aproximação aos EUA na chamada Guerra ao Terrorismo, é uma monarquia absolutista ou, como dizia Mário Soares, segunda-feira, na RTP1, uma teocracia.

Não é nossa opinião que muçulmanos (quaisquer facções) e terroristas sejam uma e a mesma coisa. Fala-se em jihad, esquerda, Freitas do Amaral, Fundação Aga Khan e Arábia Saudita porque as notícias o justificam.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

A Esquerda e Jihad

OPINIÃO
A propósito do post anterior (a afinidade entre Freitas do Amaral e o Islão) e a propósito também do debate entre Pacheco Pereira e Mário Soares (ontem à noite, no Prós e Contras, RTP1), valerá a pena ler este artigo de um especialista em assuntos do Médio Oriente.
A tese de Fred Halliday é a de que a esquerda e o fundamentalismo islâmico estão próximos desde o início do século XX. O tom do artigo é crítico em relação à esquerda. Mas o autor termina com moderação:
"The habit of categorising radical Islamist groups and their ideology as “fascist” is unnecessary as well as careless, since the many differences with that European model make the comparison redundant. It does not need slogans to understand that the Islamist programme, ideology and record are diametrically opposed to the left – that is, the left that has existed on the principles founded on and descended from classical socialism, the Enlightenment, the values of the revolutions of 1798 and 1848, and generations of experience. The modern embodiments of this left have no need of the “false consciousness” that drives so many so-called leftists into the arms of jihadis."

Um brilhozinho nos olhos

OPINIÃO
No Público de hoje.

"O primeiro-ministro, José Sócrates, nomeou, ontem, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Freitas do Amaral para representar o Estado português na comissão de coordenação que vai instalar o protocolo de cooperação com a Fundação Aga Khan. O ex-governante ficará assim responsável por uma matéria em cuja preparação teve parte activa. (...) Foi Freitas do Amaral, juntamente com o primeiro-minisro, José Sócrates, quem assinou o protocolo, em Dezembro de 2005.".

Recordemos a reportagem do Expresso de 6 de Maio, "No Reino de Maomé", assinada por Cândida Pinto e Rui Ochôa. Era sobre a visita de Freitas do Amaral a Riade, na Arábia Saudita. Esteve reunido com o rei Abdullah bin Abdul Aziz e com o seu homólogo, Saud Al-Faisal. Assinaram um acordo de cooperação. "Deste reino, Freitas do Amaral leva os olhos bem cheios do brilho que o ouro negro permite", escreve a jornalista.

Não serve esta evocação para insinuar coisa alguma. Serve para dizer dizer que a notícia do Público só confirma a afinidade do ex-ministro com o Islão. E que a nomeação do Governo é tudo menos transparente.